Pessoal, justiça seja feita. Antes de criticar os R$ 61 milhões do financiamento secreto do banqueiro Daniel Vorcaro para o filme “Dark horse”, sobre Jair Bolsonaro, é preciso assistir ao trailer. O bonequinho assistiu.
Por ser um orçamento recorde na história do cinema brasileiro, bem acima de duas premiadas produções recentes, “Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, temos obrigação de fazer uma crítica técnica e imparcial sobre o filme que Flávio Bolsonaro, o filho do mito, classificou de “obra-prima”. Em inglês, “masterpiece”.
O trailer se passa quase todo no hospital. A faca é a protagonista. Tem sangue, maca, cirurgia, tem franja de cabelo caindo na testa, tem flexões mal feitas. Matutamos por que a produção foi tão cara assim. O senador Flávio, pré-candidato à Presidência, tinha pedido ao “irmãozão” Daniel Vorcaro R$ 134 milhões. Uau. Blockbuster. Orçamento mais alto que o de 15 dos 20 últimos vencedores do Oscar.
Natural, para um documentário com atores americanos “renomadíssimos”, que nunca receberam um prêmio. “A true story is begin told to the world” (sic). Ops, não foi erro aqui. É assim que está escrito no teaser oficial de “Dark horse”. A autoria deve ser de Eduardo Bolsonaro, todos conhecemos seu domínio da língua inglesa, falada e escrita. Tinha que retribuir. Parte do dinheiro parece ter ido parar no Texas. A produtora do filme nega ter recebido.
O título, “Dark horse”, é uma expressão idiomática para “azarão”. O candidato surpresa, o desconhecido. Hoje, o Brasil sabe muito bem o significado do sobrenome Bolsonaro – nem a elite nem o pobre votarão no escuro. Chamado de “a real hero” no documentário, Jair foi um desastre fatal para centenas de milhares de famílias na pandemia. E foi condenado como mandante de conspiração contra a democracia.
Será que o documentário, prometido por Flávio para exibição em “todos os cinemas do Brasil”, mostrará tudo isso? Se for mesmo uma “true story”, será um marco. Já estou vendo as plateias com popi-corni e aice-crim. Tem gente – ô pessoal malvado – prometendo comemorar com “espumante Ypê”.
Pena que essas gravações e mensagens tenham prejudicado a pós-produção do filme. Ficou esquisito. A não ser que o documentário concorra, nos festivais, na categoria “comédia estrangeira”. Porque, nas redes, não há nada mais engraçado do que as repercussões desse vazamento, uma facada nas pretensões da extrema direita.
O maior protagonista da comédia é o próprio Flávio. Prêmio de melhor ator coadjuvante, na certa. Primeiro, ele debocha do repórter que pergunta se o filme do Jair foi financiado por Vorcaro. “Mentira! De onde tirou isso? Militante”, diz, rindo, na cara do jornalista, e foge. Horas depois, na maior cara de pau, Flávio defende uma CPI do Master e confirma que pediu grana “privada” ao banqueiro acusado de fraudes bilionárias.
Detalhe. Já tinha recebido R$ 61 milhões. Queria mais, o prometido. Organizou jantar com o elenco do filme e o banqueiro. Pressionou, com áudios lamuriantes sobre “parcelas atrasadas”. Invocou Deus. Prometeu solidariedade a Vorcaro: “Estou e estarei sempre contigo”. Pode-se acusar Flávio de qualquer coisa, menos de ser mau cobrador.
Dessa tragédia para o bolsonarismo, resultaram muitas paródias nas redes. “Dark horse” foi traduzido para “Pangaré sinistro”. Um áudio de Flávio virou letra de música sertaneja, a interpretação é de chorar de rir. Dizem por aí que Vorcaro é o Desenrola do Flávio.
Como vaticinou o pré-candidato numa de suas mensagens ao irmãozinho Daniel: “Não sei como é que vai ser daqui para frente, como é que isso tudo vai acabar, mas está na mão de Deus”. Ou do eleitor. Amém.
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