sexta-feira, 15 de maio de 2026

Cristofascismo

Como se sabe, boa parte da igreja alemã deixou-se instrumentalizar e deu o seu apoio a Adolf Hitler e ao regime nazi, durante o chamado Terceiro Reich. Tal atitude infeliz não apenas contribuiu para alimentar o monstro e produzir morte e destruição na Alemanha dos anos 30 e em toda a Europa, como veio a ser fator decisivo para o descrédito e a perda de influência que a fé cristã veio a sofrer em todo continente no pós-guerra.

O estudo dessa opção levou a teóloga e poetisa protestante alemã Dorothee Sölle (1929-2003) a criar o termo técnico “Cristofascismo” a fim de denunciar tal postura que, no seu entender, transforma a fé numa ferramenta de dominação, abandonando a mensagem de libertação em favor de um sistema totalitário e imperialista.

Outros investigadores desenvolveram posteriormente estudos sociológicos e teológicos sobre o fenómeno. É o caso do teólogo Fábio Py, docente do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF que lançou em 2020 a obra “Pandemia cristofascista” (Editora Recriar), e que adaptou o conceito ao contexto brasileiro.


Py caracterizou como tal a aliança que diversos setores da igreja do país irmão estabeleceram com os bolsonaristas, com vista à implantação de um governo autoritário e de características neofascistas e ultraliberais.

Segundo o autor, as marcas principais do cristofascismo brasileiro assentam na utilização de um discurso e simbologia cristã, de modo a validar políticas que implicam a exclusão de setores sociais e mesmo a violência política sobre os adversários. A fé é assim instrumentalizada para fins políticos que se opõem à essência da mesma.

Seguindo as pisadas de Hitler, o bolsonarismo lançou mão de jargões cristãos no seu discurso e de frases bíblicas como “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Da mesma forma estas lideranças políticas recorreram à presença em grandes eventos cristãos, como palco privilegiado para fazerem campanha eleitoral. Chegam a submeter-se ao batismo e a anunciarem pretensas conversões à fé com o mesmo intuito.

O foco nas bandeiras morais decorrentes dum conservadorismo rígido, e na proclamação da família idealizada é também usado para marginalizar minorias, em especial movimentos feministas e tudo quanto sejam comportamentos e opções sexuais não heterossexuais dos cidadãos. Pontifica a oposição à pluralidade democrática com base numa teologia política autoritária.

O que conta é um ideário maniqueísta simbolizado no pretenso embate entre o bem e o mal. O mal está nos comunistas, liberais, humanistas e petistas, ficando do outro lado os “cidadãos de bem”, seja lá o que isso for.

Outro elemento fundamental do cristofascismo será a permanente classificação dos opositores políticos ou intelectuais como inimigos da fé e agentes do mal, em especial se forem gente de esquerda. Esta demonização do outro é necessária ao discurso extremista e populista que necessita de manter a dinâmica de confronto “nós, os bons, contra os outros, os maus”.

Também a velha palavra de ordem “Deus, Pátria, Família” ou aparentada, é usada na ligação entre grandes estruturas religiosas e governos de extrema-direita. No Brasil, a coligação de líderes evangélicos e católicos conservadores com o governo Bolsonaro levou a que a religião tenha servido de suporte para o discurso da intolerância e apoio a práticas autoritárias.

Afirma o autor sobre a apresentação do populista religioso, a propósito da mortandade promovida, ou pelo menos permitida, durante a pandemia de Covid-19: “A artimanha construída pela cúpula o desenha numa cristologia profana, apontando-o como messias, servo sofredor, ungido e eleito da nação. Faz isso para reagrupar as forças a fim de manter, a duras chicotadas, a implementação de medidas ultraliberais que hoje entregam à morte os mais vulneráveis.”

Na mesma entrevista, Fábio Py remete o fenómeno do populismo religioso no país para duas causas históricas: por um lado a herança da ditadura militar, que ainda não terá sido apagada com o regresso do regime democrático e, por outro lado, a responsabilidade do PT e do PSOL na promoção de políticas fraturantes que assustaram os evangélicos e os levaram para o colo da extrema-direita.

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