segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Confundir paz com pás

Numa das minhas últimas viagens a Angola, ofereceram-me uma obra já antiga de Pepetela, o romance Parábola do cágado velho (Luanda: Texto ed., 2016). A estória, escrita com a conhecida mestria do autor, reflete a cultura popular e a vida dos camponeses no interior do país, durante a longa guerra civil que se seguiu à independência.

Registei, em especial, uma frase: “(…) ainda não há paz, só se anda à procura dela.” Ou seja, as pessoas desejavam que o conflito terminasse para tocarem a sua vida para a frente, em sossego, mas a realidade de todos os dias ia desmentindo a possibilidade de alcançar a tão almejada paz e a segurança que dela haveria de decorrer.


Depois de os angolanos terem lutado pela libertação do colonizador, não contra o povo português mas sim contra o governo autocrático de Lisboa, guerreavam agora entre si, que é a pior das guerras, irmãos contra irmãos. Nada de novo na História.

O processo político e militar que levou as 13 colónias britânicas da América do Norte a rebelarem-se contra o domínio da Grã-Bretanha ficou conhecido como Revolução Americana (1765-1783), tendo influenciado a Revolução Francesa e movimentos independentistas. Dela resultou a fundação dos Estados Unidos da América, formalizada pela Declaração de Independência de 4 de julho de 1776, e portadora duma nova filosofia política, inspirada nos ideais liberais e iluministas europeus.

Décadas mais tarde, estalou a Guerra da Secessão (1861-1865), um confronto muito mais curto na duração mas muito mais penalizador em vidas humanas. Desse confronto, que opôs o norte industrializado ao sul agrário e esclavagista, resultaram cerca de 600 mil mortos, revelando-se assim muito mais devastador do que o processo da independência.

Como dizia a personagem de Pepetela, é preciso andar à procura da paz até a encontrar. Não é coisa que se descubra debaixo duma pedra, que se colha das árvores ou que se compre numa loja qualquer. A resolução de qualquer conflito parte de atitudes humanas de quem tem o poder. Tem que ser pacientemente tecida com muita determinação e consciência.

A guerra é a atividade humana mais estúpida ao cimo da terra, visto que ninguém ganha com ela, mesmo quando parece que sim. Mas se formos a ver até o vencedor declarado – quando o há – tem que lamber as feridas e pagar o preço de devastação na economia e no edificado, além dos mortos, feridos, estropiados e perturbados mental e emocionalmente. A guerra diminui-nos como seres humanos. Por isso Einstein dizia que “a paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos.”

Isto devia levar os governantes dos países a pensar muito bem antes de iniciar um conflito armado. A administração Trump atirou-se ao Irão e afinal agora não sabe como sair de lá sem dar a ideia de derrota. Não alcançou nenhum dos seus objetivos e, entretanto, a situação ficou bem pior do que antes, como se vê pelo estado em que se encontra o Estreito de Ormuz. Lembremo-nos que a maior potência militar do mundo já antes tinha saído com o rabo entre as pernas do Vietname e, mais recentemente, do Afeganistão.

O Império Britânico não conseguiu impedir a independência dos Estados Unidos, nem da Índia e do Paquistão. O regime desumano do apartheid na África do Sul não conseguiu subsistir. As colónias africanas não puderam continuar a ser mantidas pelas potências europeias desde os anos sessenta. E no entanto todos recorreram à força para evitar o inevitável.

A ideia de que a paz se faz pela guerra é muito questionável. Normalmente, comportamento gera comportamento, e o povo diz que quem semeia ventos colhe tempestades. Segundo John Kennedy, “são precisos dois para fazer a paz.”

E claro, nunca é demais lembrar a afirmação de Jesus Cristo: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14:27). Mas esta é uma paz suprema, a paz espiritual, que está acima de qualquer outra.

A paz ambicionada não pode continuar a ser confundida com as pás de enterrar os mortos em Gaza, no Líbano, na Ucrânia, na Rússia e em tantos outros lugares de que pouco se fala. Tenham juízo, procurem a paz.

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