Na manhã do dia 7 de abril de 1988, uma forte explosão sacudiu o habitualmente plácido bairro de Sommerschield, em Maputo, capital de Moçambique. Albie Sachs — professor de Direito na Universidade Eduardo Mondlane e destacado opositor do regime do apartheid, na vizinha África do Sul — acabava de ser vítima de um atentado, no qual perdeu um braço e a visão de um olho.
Sachs escreveu sobre essa manhã num testemunho extraordinário, sem qualquer sinal de rancor, que a editora Caminho publicou em Portugal, em 1990, com o título “A suave vingança de um combatente da liberdade”. Poucos anos mais tarde, o homem que a polícia do apartheid tentou matar em Maputo ajudaria a redigir a Constituição da nova África do Sul.
Aquela não foi a primeira vez, nem a última, que os serviços secretos sul-africanos intervieram diretamente em Moçambique. Outros países da região pagaram durante décadas um elevado preço por acolherem combatentes da luta contra o apartheid. Muitos morreram por causa dessa solidariedade.
Lembro-me de ouvir Ruy Mingas — o Chico Buarque angolano — cantar em rodas de amigos uma canção belíssima, sobre a contribuição angolana na luta contra o apartheid. A canção começava assim: “Sou ventre da África Austral/ com os filhos que gerei/ já fui granada do amanhecer na Namíbia,/ do amanhecer no Zimbábue/ e na África do Sul.”
As recentes manifestações contra imigrantes africanos na África do Sul estão sendo recebidas no restante do continente com perplexidade, revolta e um profundo sentimento de injustiça. Moçambique, Angola, Zâmbia e outros países sacrificaram-se para que os sul-africanos alcançassem a liberdade. Como compreender agora este ódio?
Milhares de moçambicanos, zimbabuenses, nigerianos, senegaleses e malianos estão abandonando a África do Sul. Muitos escapam apenas com a roupa que trazem no corpo, deixando para trás lojas, casas, bens diversos e, por vezes, as próprias famílias. O seu desespero é enorme.
Alguns analistas recusam o termo xenofobia. Não se trata de simples hostilidade contra estrangeiros. As comunidades de origem europeia ou asiática raramente são alvo destes ataques. Talvez a palavra mais exata seja afrofobia: o medo e o ódio dirigidos aos próprios africanos.
O que mais surpreende é a amnésia.
Durante décadas, sul-africanos perseguidos atravessaram fronteiras em busca de abrigo. Encontraram refúgio em Luanda, em Maputo, em Lusaca, em Dar es Salaam. Muitos viveram durante anos longe de casa. Outros, como Albie Sachs, quase morreram. Hoje a viagem faz-se em sentido contrário. São os moçambicanos que atravessam a fronteira para sul. E encontram homens que lhes dizem: voltem para casa.
Retorno à canção de Ruy Mingas. Nos versos finais ele cantava: “Quero,/ hoje eu quero mil vulcões,/ tempestades no deserto,/ quero a chuva mais perto/ de todos os furacões.”
A África do Sul democrática, o país do arco-íris, nasceu da solidariedade africana. Agora, ao trair o continente, volta a ficar isolada. A grande questão é — a quem interessa tal isolamento? Quem, na sombra, está fomentando a divisão?
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