sábado, 25 de abril de 2026

Era só em 25 de abril de 1974?

Havia fome, havia miséria, havia crianças descalças a andarem quilómetros para chegar à escola, havia humilhações constantes para os mais pobres, destituídos de qualquer direito, merecedores apenas das migalhas inconstantes da caridade, pelas quais deviam mostrar-se agradecidos. E havia os que iam fazendo pela vida. Os que mantinham um certo estatuto social, fazendo da conivência com os poderes uma alavanca social, aproveitando a pobreza dos outros para ter criados que de outra forma não teriam como pagar. Havia ainda, menos numerosos e visíveis, os incrivelmente ricos. Umas quantas famílias a quem o velho ditador que morreu pobre garantiu a riqueza, através de monopólios e rendas, oleando com essas trocas de favor uma máquina do Estado profundamente corrupta, que se fazia de pequenos e grandes favores, cunhas, pedidos, atenções. 

Era uma hierarquia perfeita, admirada por aqueles que acham que a desigualdade é uma coisa natural. “Cada um é para o que nasce.”
Margarida Davim

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