Embalado pelo rapto de Nicolás Maduro, Trump quer derrubar a teocracia iraniana em nome de quê? O Presidente dos EUA não tem nenhum argumento plausível para atacar o Irão. Foi o próprio que afirmou que a capacidade iraniana de enriquecimento de urânio tinha sido fortemente comprometida após os bombardeamentos em Junho do ano passado, pelo que um segundo ataque, em menos de um ano, contradiz o discurso anterior de vitória.
Contrariamente ao que aconteceu na Venezuela, não há ninguém em Teerã para desempenhar o papel que Delcy Rodríguez desempenha em Caracas. Nem o exilado Reza Pahlavi tem as mesmas condições para desempenhar no futuro do Irã o mesmo papel que Corina Machado pode desempenhar um dia no futuro de Caracas.
Um quase certo ataque ao Irã só favorece o Governo de Benjamin Netanyahu. Thomas L. Friedman, conhecido colunista do New York Times, tem estatuto para dizer o que a outros causaria demasiados incómodos: “Ao mesmo tempo que mantém Trump focado na ameaça nuclear e de mísseis iranianos — que, embora reduzida, ainda é muito real e terá de ser enfrentada diplomática ou militarmente —, Bibi está, fundamentalmente, a ameaçar os interesses mais amplos do EUA no Médio Oriente, sem mencionar a segurança dos judeus em todo o mundo.”
Friedman sustenta que as tentativas claras de anexação da Cisjordânia e de permanência em Gaza, “negando aos palestinianos direitos políticos, é um “empreendimento messiânico”, com consequências para as instituições judaicas em todo o mundo. O argumento é este: as suas semelhanças com o apartheid sul-africano são indistinguíveis e elas só contribuirão para que um “número crescente de jovens democratas e republicanos dos EUA se volte contra Israel e, em alguns casos, contra os judeus em geral”.
Como diz Friedman, o Irã nada tem que ver com os esforços de Netanyahu para limitar o Estado de direito em Israel, com a insistência no afastamento da procuradora-geral, com a isenção total do serviço militar para os judeus ultra ortodoxos, que o mantêm no poder. Nem com o impedimento de uma comissão independente de inquérito às falhas do 7 de outubro de 2023, quando se suspeita de que o mesmo fora avisado dos planos do Hamas para atacar Israel. No fundo, Netanyahu é uma ameaça para o seu próprio país e de nada valem os acordos de Abraão, celebrados ou a celebrar, enquanto israelitas e palestinianos não fizerem a paz.
Este Conselho da Paz, do qual Trump se autointitula presidente vitalício, imaginando-se como presidente do mundo, é uma farsa patética na qual só alinham os subservientes do costume. Israel lá está, ao lado das monarquias do Golfo. O organismo foi anunciado em outubro, na sequência de um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e tem servido para encobrir a anexação em curso da Cisjordânia, a continuidade do genocídio lento e silencioso de Gaza e para fazer planos de negócio imobiliário com a reconstrução do enclave destruído, à custa de uma provável deportação forçada.
Zangado com a academia norueguesa, por esta não lhe ter concedido o Prêmio Nobel da Paz, insatisfeito pela atribuição do Prêmio de Paz FIFA, Trump considera que os países que não aceitaram o convite para entrarem no seu clube pacifista estão a “aramar-se em espertos” (Portugal optou pelo estatuto de observador).
O israelita Yuval Noah Harari escrevia no Financial Times que o mantra para resolver o conflito israel-palestino foi o da solução “dois estados para dois povos” e que, se ambos “não puderem ser mais generosos, a solução final para o conflito poderá ser ‘zero estados para zero pessoas’”. Referindo-se à Ucrânia, Harari observava que a “guerra não é vencida por quem conquista mais território, destrói mais cidades ou mata mais pessoas. A guerra é vencida por quem alcança os seus objetivos políticos. E, na Ucrânia, já está claro que Putin falhou em atingir o seu principal objetivo de guerra: a destruição da nação ucraniana. E na Palestina?
Com um presidente como Trump em Washington e num cenário de impotência e desvalorização do papel da ONU, é pouco provável que Netanyahu e Vladimir Putin desistam das guerras que travam e que aceitem uma negociação justa. Dois anos e quatro meses depois, o primeiro não cede na limpeza étnica em curso. E, quatro anos depois da invasão da Ucrânia, o segundo irá até onde lhe for possível para se declarar triunfante. Uma coisa parece certa: o falso clube pacifista de Trump fará mais pela guerra do que pela paz.

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