segunda-feira, 18 de maio de 2026

Etelvina, acertei no milhar!

 Todo corpo contém massa (m) e energia (E). A energia não é algo que esteja dentro da massa; é a sua própria essência (como o calor e a luz, por exemplo). A massa é concreta, palpável e visível a olho nu; a energia é intrínseca a ela. Em física, massa e energia são equivalentes: E = mc². Uma pequena quantidade de massa corresponde a uma enorme quantidade de energia, pois a constante c² representa a velocidade da luz – um número muito grande – elevada ao quadrado.

Perdas de massa equivalem a perdas de Energia, ganhos também. O Sol perde cerca de 4 milhões de toneladas por segundo – de sua massa de 2 quintilhões de toneladas. A Energia que se desprende do Sol, na forma de luz e calor, leva 8 minutos para percorrer os 150 milhões de quilômetros que o separam dos chamados organismos vivos da Terra e que os alimenta.

Os organismos vivos da Terra apresentam capacidade de reprodução, regulada pelo equilíbrio ecológico. A massa de uma minúscula semente pode conter um embrião com nutrientes e instruções completas para gerar uma estrondosa árvore. A massa de um óvulo fecundado por um espermatozoide pode conter um embrião com nutrientes e instruções completas para gerar um mamífero (inclusive o assim chamado ser racional). E isso é tudo o que sabemos do mundo em que vivemos, de onde viemos e para onde vamos – ou seja, muito pouco. A origem de tudo isso, do Big Bang, do Universo, do hidrogênio, do Sol, dos organismos vivos e de quem aqui vos fala? Não sabemos! Continua sendo um mistério.

Apertem os cintos, porque, em um salto epistemológico e com liberdade poética, vamos aterrar nas humanidades. Você pode se sentir atraído e conhecer o corpo de uma pessoa – concreto, palpável e visível a olho nu –, mas dificilmente tem ciência de sua energia. É mesmo comum ouvir pessoas dizerem que passaram uma vida ao lado de outra, que não conhecem. O corpo de uma pessoa que temos à nossa frente (sua massa) corresponde a uma enorme quantidade de energia (não palpável, profunda, fora de nosso alcance).


A Revolução Industrial na Inglaterra, que inaugurou o capitalismo industrial e generalizou a mercadoria, produziu “maravilhas maiores do que as pirâmides do Egito”, progresso, riquezas, redução da mortalidade infantil, aumento da longevidade, desigualdades, guerras em proporções devastadoras, armamentos, bombas de hidrogênio, o antropocentrismo, poluição, desastres ambientais, aquecimento global etc. e propiciou a globalização do mundo sob o domínio da Europa e dos Estados Unidos, que, em 2020, agregavam apenas 14% dos 8 bilhões de habitantes do planeta – esta participação deve cair para 12% em 2050 e 10% em 2100. A China, que foi subjugada em meados do século XIX, está atualmente desafiando a hegemonia ocidental, com a utilização das armas do próprio ocidente, o mundo da mercadoria e o progresso.

Casar e ter filhos, até há pouco tempo, era parte da vida, da existência, que se fazia automaticamente, sem pensar. Historicamente, altas taxas de fertilidade acompanhavam as altas taxas de mortalidade infantil, que reduziam o número de filhos sobreviventes. A princípio, a fertilidade caiu, acompanhando a mortalidade infantil decrescente. Em 1950, a taxa de fertilidade na Europa registrava 2,7 filhos por mulher. Entretanto, independentemente da mortalidade infantil, a fertilidade continua caindo na Europa que, em 2020, registrou 1,5 filhos por mulher, muito abaixo do nível de reposição populacional, 2,1. Nos Estados Unidos, a taxa de fertilidade, 3,1 filhos por mulher em 1950, caiu para 1,6 em 2020.

A China, neste mesmo período, apresentou uma trajetória muito particular. Após a Revolução de 1949, quando o país somava 500 milhões de habitantes, o governo chinês considerou estratégico incentivar o crescimento populacional. A taxa de fertilidade na China, que antes da revolução era de 5,0 filhos por mulher, em 1963 atingiu 7,5. Nos anos 1960, o governo achou por bem inverter a sua estratégia bem-sucedida e resolveu incentivar o controle da natalidade. Durante a Revolução Cultural, rapazes e moças foram encorajados a canalizar as suas energias para a revolução e se abster de relações sexuais até os 28 anos, idade sugerida para o acasalamento – sexo antes do casamento era proibido, prostituição também. Em 1979, quando a sua população estava beirando um bilhão, a China implementou a política de filho único (com alguma tolerância na zona rural). A política de filho único foi relaxada em 2015, mas a taxa de fertilidade segue caindo, 1,3 filhos por mulher em 2020 e 1,0 filho em 2024.

Filhos, filhos? Melhor não tê-los!

Mas como sabê-los (sem tê-los), diria Vinícius de Moraes. Alan Grant, por sua vez, em Jurassic Park, diz que crianças são barulhentas, bagunceiras, custam caro e fedem.

Tradicionalmente, a identidade sexual biológica, masculina e feminina, era reforçada pela divisão sexual do trabalho, vestuário e normas de comportamento. Sexo e gênero eram uma só categoria e, em regra, homens e mulheres se acasalavam e procriavam – a esterilidade era temida e desprezada. O antropólogo João Paulo Lima Barreto, Yupuri entre os Tukanos do Alto Rio Negro, na introdução autobiográfica de sua premiada tese de doutorado, escreveu que, entre seu povo, quando criança, lhe diziam que “se eu me aproximasse da fabricação dos utensílios reservados às mulheres, iriam crescer feridas em minha barriga”.

A Revolução Industrial implodiu o mundo tradicional e a divisão sexual do trabalho. O capital, em sua racionalidade, instituiu uma divisão técnica e um mercado de trabalho que, democraticamente, emprega homens, mulheres e crianças. O capital não tem preconceitos e, de seu ponto de vista, todos são iguais, ou melhor, as diferenças podem ser comensuradas de acordo com o desempenho e o custo de cada categoria. A vida passou a ser governada pelo mundo da mercadoria, no trabalho, no consumo e em todas as suas outras possíveis dimensões. O mundo passou por um processo de urbanização, as famílias tornaram-se nucleares e ambos os cônjuges foram arregimentados para trabalhar diretamente para o capital.

As pessoas são hoje agentes econômicos a serviço do capital e as relações sociais passaram a ser mediadas pelo mercado, ou seja, foram instituídas relações materiais entre pessoas. O tradicional casamento e a procriação também tiveram que se subordinar à racionalidade do mercado. O indivíduo não é mais induzido a casar e procriar, pode agora exercer o livre arbítrio e estabelecer o planejamento familiar. Nos anos 1960, enquanto vivenciávamos a Revolução Sexual, o Vaticano insistia em associar o prazer sexual exclusivamente à reprodução. Na atualidade, contudo, mesmo a Igreja Católica adotou uma postura mais flexível.

Além do investimento financeiro com os filhos, perde-se muito tempo com o imprescindível investimento narcísico nos mesmos. Se a questão fosse meramente financeira, os ricos teriam mais filhos que os pobres. Mas é exatamente o contrário. No sambinha popularizado por Moreira da Silva, Barbolino, em sonhos, fica rico e resolve viver viajando – “E os nossos filhos, oh, que inferno; eu vou pô-los num colégio interno.”

Os jovens rebeldes dos anos 1950 costumavam enfrentar os pais dizendo que não pediram para nascer. Por outro lado, gerar filhos é uma afirmação pela vida, algo como pedir para ter nascido, ser militante da vida. A família e a geração de filhos passam atualmente por uma crise sem horizontes discerníveis. Qual será o impacto existencial dos desdobramentos desta crise?

Não sei se caso ou se compro uma bicicleta. Lado a lado, convivem frutos de concepções indesejadas – principalmente entre adolescentes, que em parte atendem à demanda por adoção – com os frutos das milionárias inseminações artificiais, que atendem aos casais estressados pelo ritmo de atividade insano a que a vida moderna nos induz, além de iniciativas eugênicas, “melhoria da raça”, eticamente questionáveis.

Os seres vivos nascem e morrem, mas a vida segue sendo imortal. Nas sociedades tradicionais africanas, chamar uma pessoa de indivíduo (sem família, não integrado ao coletivo, desenraizado) é insultuoso, enquanto, no ocidente, a individualização é a meta – a
individualização da massa do nosso corpo e da enorme quantidade de energia que habita cada um de nós.

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