terça-feira, 7 de julho de 2026

Escombros

Na madrugada de 24 de junho, a terra tremeu no norte da Venezuela. Dois sismos seguidos de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, uma brutalidade. Dezenas, talvez centenas de milhares de desaparecidos, ninguém sabe bem ao certo, o número de mortos não pára de subir a cada hora que passa.

E o mundo… claro que se mexeu. Viu-se logo aquela mobilização que quase nos permite voltar a ter fé na humanidade: mais de 40 equipas internacionais de busca, dois mil especialistas a correr para os aeroportos, cães de resgate a farejar os destroços.


Quem ligou a televisão por estes dias ficou colado ao ecrã. É impossível não ficar. Vimos em direto aquele rapaz de 21 anos a ser puxado para fora dos escombros ao fim de 106 horas soterrado. E a mãe, com o bebé de 18 dias que resistiu 36 horas ali debaixo? Uma coisa inacreditável. Prendemos a respiração diante da televisão, choramos, celebramos o milagre.

É legítimo. É o mínimo que se espera.

Só que há um nó dentro de mim que não desaparece. E eu tenho mesmo de perguntar: e Gaza?

Desde outubro de 2023 que a contagem de mortos em Gaza deixou de fazer sentido. São milhares, a maioria mulheres e crianças, uma população inteira empurrada de um lado para o outro, com fome, com medo, a viver no meio de nada. Tendas e pedras. Sim, porque em Gaza também há escombros, quilómetros deles. Há corpos esquecidos nas ruínas daquilo que já foram casas, escolas, parque infantis, igrejas ou hospitais. Só que ali não há escavadoras a tirar toneladas de betão. Quando muito, tenta-se escavar com as mãos, sob o risco de as equipas de salvamento serem apanhadas pelo bombardeamento seguinte.

Para Gaza não voaram dezenas de aviões com especialistas. Não houve cães farejadores a caminho de Gaza. Para Gaza, o que continuou a chegar foram bombas. Dia após dia.

Custa engolir este contraste. Enquanto a malta chora na sala a ver o resgate milagroso de uma criança na Venezuela, há miúdos a morrer sufocados no entulho em Gaza, ou desfeitos pelo fogo nas tendas de al-Mawasi (ainda ontem), que supostamente eram “zonas seguras”, mas onde os drones atacam na mesma. Para esses não há transmissão em direto, não há equipas de resgate internacionais, não há comoção mundial. Gaza tornou-se aquele inferno que toda a gente sabe que existe, mas que dá mais jeito ignorar.

O sismo surge da Mãe Natureza, não vem assinado. Uma bomba vem. Tem um Estado, um governo, uma ordem militar por trás.

É aí que a porca torce o rabo. Quando há um autor, o sofrimento deixa de ser uma questão humanitária e passa a ser política. E a política traz aquela burocracia moral que divide, paralisa e, no fim de contas, mata por omissão.

Criou-se uma espécie de anestesia geral. Uma disputa de narrativas tão perversa que conseguiu fazer com que a morte de um palestiniano pareça normal e até inevitável. O bebé da Venezuela é um milagre da vida. O bebé de Gaza é “dano colateral”, uma estatística cinzenta num relatório qualquer.

Não adianta escudarmo-nos na ignorância porque isso é ser ingénuo. O mundo vê as mesmas imagens que eu vejo. Sabe perfeitamente o que se passa. É uma escolha de perspetiva e escolher fechar os olhos, não é neutralidade nenhuma.

A nossa capacidade de chorar parece que depende da geopolítica e na minha ideia de humanidade isso é muito podre. Escombros são escombros, em qualquer parte do mundo. O peso dos mortos é o mesmo. O grito desesperado das mães é o mesmo, seja em espanhol ou em árabe.

A diferença está no nosso olhar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário