Há um par de anos, no seu livro A Próxima Vaga, o investigador Mustafa Suleyman, fundador da DeepMind, uma das empresas pioneiras do atual desenvolvimento da IA, também tinha avisado que estamos perante “um momento crucial para a nossa espécie”. Pedia prudência, muita prudência, na forma como devemos gerir a rapidez dos avanços tecnológicos. E fazia-o através de uma formulação tão simples quanto sensata: “Assumir o pior e prevenir o pior.”
Gates e Suleyman não são os únicos a fazer este tipo de advertências em relação à escalada a que assistimos no desenvolvimento de ferramentas tecnológicas capazes de superar os humanos e até, porventura, de poder ganhar aquilo que nos distingue: uma consciência – mas, desta vez, em modo acelerado, sem os princípios éticos e morais que, em nós, demoraram séculos a formar e a cimentar.
O grande problema é que, desta vez, a transformação tecnológica não exige grandes mudanças por parte dos seus utilizadores. A IA está disponível nos computadores e nos telemóveis que já hoje temos. E consegue ler, em segundos, os livros que nós gostaríamos de ter tempo para ler, analisar de forma quase instantânea os relatórios que nos dão sono e desempenhar tarefas complexas com uma simplicidade estonteante.
Em contrapartida – começamos agora a perceber –, para conseguir produzir todos aqueles milagres de rapidez, a IA precisa de ser alimentada, a uma velocidade galopante, por um conjunto de infraestruturas que começam a ser construídas agora em contrarrelógio: centros de dados, suportados por chips que exigem tecnologia tão rara como as terras raras que entram na sua composição, além de quantidades avultadas de energia e de água.
Mais do que uma luta por supremacia tecnológica, a corrida à IA é uma luta pelo poder. Como o mundo nunca viu. E que, no final, pode ter consequências terríveis para a esmagadora maioria da população, ao mesmo tempo que eleva uma minoria a níveis de riqueza estratosféricos.
“Em termos de equidade, a IA será ou o maior instrumento de igualdade já inventado ou a pior fonte de injustiça”, alertou Bill Gates, a esse propósito. Da mesma forma que, na sua encíclica Magnifica Humanitas, o papa Leão XIV tinha deixado bem vincada a sua convicção de que “se as transformações não se regerem tendo como objetivo prioritário, já na fase de projeto, a prevenção de novas e ulteriores disparidades, o progresso tecnológico produz automaticamente desigualdades estruturais”.
O problema, de facto, não é apenas tornarmo-nos inúteis, substituídos por máquinas. É saber quem, na verdade, mais lucra com essa substituição e, no final, o que vai fazer com esse imenso e colossal poder.
Não é ficção científica nem imaginação catastrofista. Hoje, a Nvidia, fabricante dos chips essenciais à revolução da IA, já tem uma avaliação bolsista quase igual à da Alemanha, a terceira maior economia do mundo. E, com isso, um poder que, segundo alguns historiadores, talvez consiga já superar o da Companhia das Índias Orientais, a corporação britânica que, segundo uma célebre carta de Tolstói a Gandhi, foi descrita como “a empresa comercial que escravizou uma nação de 200 milhões de pessoas”.
Como também escreveu Leão XIV, não podemos confiar nem descansar “na mão invisível do mercado” para evitar os tempos turbulentos que se avizinham. Como também será irrealista tentar travar o progresso tecnológico, os avanços científicos e até a própria criatividade humana. Mas podemos impor regras e limites, penalizar a ganância e impor a redistribuição justa da riqueza. Só há uma forma de o fazer: controlando o acesso ao poder e impedindo que ele fique nas mãos de quem só quer usá-lo para proveito próprio.
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