A democracia é, antes de mais nada, um exercício de escuta. Aprender a escutar o outro — aquele que não pensa como nós — deveria ser uma disciplina obrigatória no ensino básico.
Infelizmente, mergulhamos num tempo em que pouca gente se esforça para praticar a escuta, a empatia, a alteridade. Vemos até pessoas muito influentes, como Elon Musk, condenando a empatia, encarada como uma espécie de falha civilizacional: “A fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”, disse o empresário, assim mesmo, com todas as letras. Segundo ele, a empatia pode ser utilizada como uma arma contra a própria sociedade.
A frase de Musk resume muito bem a ideologia da direita mais radical, que vem conquistando terreno nas Américas e na Europa. Suspeito que será lembrada e discutida por muito tempo.
E assim avançamos (ou recuamos), cegos e surdos, dispostos a escutar apenas aqueles que confirmam nossos próprios preconceitos.
Seria bom se os brasileiros conseguissem aproveitar os próximos dias — estes dias de grande tensão antes do segundo turno das eleições presidenciais — para se olharem nos olhos e se escutarem.
Ambos os lados falam na necessidade de “virar voto”. Porém, como conseguiremos convencer alguém a “mudar de opinião” se não o escutarmos?
José Saramago, a propósito, dizia que tentar convencer alguém lhe parecia uma falta de respeito, uma tentativa de colonização do outro. Compreendo o que pretendia dizer, embora não concorde inteiramente com ele. Afinal, o debate de ideias é essencial à democracia. O que me parece uma pequena brutalidade — no mínimo, uma descortesia — é tentar persuadir alguém sem antes nos darmos ao trabalho de escutá-lo. Incomoda-me a arrogância de quem entra numa discussão não para escutar, mas apenas para vencer. Quem não admite a possibilidade de estar equivocado não quer conversar — quer discursar.
Conta-se que Ekuikui II, que governou o reino do Bailundo, no centro de Angola, no fim do século XIX, pouco antes da ocupação portuguesa, gostava de se transformar em toupeira para escutar as queixas de seus súditos. O rei ovimbundo não estava interessado nos elogios, e sim nas reclamações. Imagino-o avançando pelo subsolo, de casa em casa, com os pequenos ouvidos atentos às conversas de seus súditos. Ao contrário de tantos outros soberanos, que se rodeavam de aduladores, Ekuikui procurava aqueles que tinham razões para estar descontentes. Sabia que não aprendemos nada com quem se limita a nos aplaudir.
O espírito de Ekuikui me parece fundamental no momento atual. Não basta falar para aqueles que já nos escutam. É preciso ter a coragem de procurar os que discordam de nós, ouvir atentamente suas razões, compreender seus receios. A gentileza não pode ser confundida com fraqueza. É uma maneira de manter aberto o diálogo, mesmo quando tudo parece convidar ao confronto.
Há dois pensamentos distintos nestas eleições — um acredita que a empatia é uma peça fundamental no avanço das civilizações; o outro pensa o contrário. Se a democracia vencer — como espero que aconteça — será através de um forte reforço da empatia.

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