quarta-feira, 29 de julho de 2026

O que aprendi depois que comecei a criar minhocas

Eu estava aqui pensando que um dos melhores lugares para se estar hoje nos Estados Unidos é o meu minhocário. Um espaço confortável, arejado e seguro, com as condições ideais de convivência e reprodução. Uma vez por semana o teto do minhocário se abre e o que pode ser entendido como uma deusa (eu) acrescenta ao habitat uma vasta quantidade de víveres, ou seja, a comida cai literalmente do céu. Livres da luta pela sobrevivência, estes seres de imenso privilégio podem simplesmente viver suas melhores vidas.


Comecei a criar minhocas depois de ganhar um espaço na horta comunitária de Santa Mônica. Foram 11 anos na lista de espera para usufruir de uns oito metros quadrados perto do mar. Botei a família no projeto e ao fim de três meses lutando contra as formigas (Policarpo Quaresma tinha razão), obtivemos a nossa primeira colheita na forma de quatro cenouras. Fôssemos subsistir com o que plantamos, teríamos que cozinhar o cachorro.

Apesar da assumida incompetência, tem sido um exercício maravilhoso, de humildade e percepção. Plantar a semente, celebrar o rasgo da muda sobre a terra, ver algo tão frágil se transformar em planta, e de planta viçosa em matéria morta. Um jardim, como a vida, é marcado pela impermanência. A gente sabe, mas acompanhar o processo na terra é como ler uma cartilha na forma de couve. Tudo tão simples e também um dos milhões de milagres acontecendo constantemente à nossa volta. Passando despercebido, pela miopia sobre os mecanismos extraordinários da vida.

Mas de volta às minhocas. Elas ficam na caixinha vivendo suas boas vidas de minhoca. Exercendo o que eu imagino ser a prosaica consciência de minhoca, algo como: oba-chegou-morango-mofado-comer-bom-agora-amorzinho de minhoca com minhoco-bom-dormir-mover-cocô-comer-abobrinha-podre-bom.

E a gente tem esse privilégio? Não tem. Saímos do nosso minhocário (a caverna de Platão) e estamos até agora tentando aprender como se vive, e não é por falta de sabedoria. Há milhares de anos que os gregos, os indianos, os chineses, os povos milenares das florestas definiram o que é viver bem, em harmonia consigo e com o entorno. Essa roda já foi inventada e a gente teima em não usar, e também não dá para voltar para o minhocário, é o que temos. Uma existência complexa, marcada pelo sublime e pelo pior, e quando eu penso que as minhas minhocas jamais saberão dos sufocos de fora da caixinha eu sinto inveja (eu, um exemplar humano em complexa forma de pensar, maluca a ponto de sentir inveja de um anelídeo). Inveja destes seres ínfimos que eu alimento em troca de seu cocô, que vai para a terra e para as cenouras e de volta para mim. Somos feitos de pó de estrelas (como disse Carl Sagan) e de cocô de minhoca.

Um mantra da literatura distópica é que ignorância é felicidade. Discuto um bocado isso com o meu filho, recém-saído do pileque da infância, e que, no auge da lucidez da adolescência, está obcecado com as grandes questões. Ele é meio minhoco e gostaria de saber menos. Eu invejo as minhocas mas prefiro sempre saber mais. Mesmo sabendo que eu não posso saber tudo. E também, nunca saberemos se somos as minhocas da caixinha de alguém.

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