quarta-feira, 29 de julho de 2026

O intérprete do ‘jeitinho brasileiro’ chega, produtivo, aos 90

Entender o Brasil por intermédio de algumas de suas manifestações culturais populares mais arraigadas, como o carnaval, o jogo do bicho e o futebol, foi o desafio que Roberto DaMatta se impôs desde o início de sua carreira, nos idos dos anos 1960. Um dos mais importantes antropólogos do País, colunista do Estadão desde 2001, DaMatta completa 90 anos nesta quarta-feira.

O renomado intelectual revolucionou as ciências sociais do País ao transformar o cotidiano nacional, os festejos religiosos e mesmo os paradoxos culturais em objetos de estudo. DaMatta estudou o carnaval, o futebol e as procissões religiosas não como diversão, mas como rituais que revelam a estrutura da sociedade brasileira.

Foi um dos principais responsáveis por analisar cientificamente e popularizar o termo “jeitinho brasileiro” em seus livros das décadas de 1970 e 1980 (como Carnavais, Malandros e Heróis), consolidando o “jeitinho” como uma estratégia legítima de sobrevivência social, que se equilibra entre o favor e a malandragem.

Uma das principais ideias desenvolvidas na obra de DaMatta é a dialética entre “casa” e “rua”. O antropólogo divide o universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do parentesco, no qual as leis não entram) e a rua (o espaço público, do trabalho, das leis impessoais, do desamparo). Em boa parte de sua obra, DaMatta explora a ideia de que o brasileiro tenta a todo custo transformar a rua em casa, usando laços de amizade e redes de favor, para fugir da frieza das leis. “Como fez (o banqueiro Daniel) Vorcaro”, afirmou em entrevista ao Estadão por ocasião de seu aniversário.

“Você sabe com quem está falando?” A frase clássica do brasileiro virou objeto de estudo de DaMatta, que a apresenta como um rito de exclusão autoritário. Segundo o antropólogo, ela serve para lembrar ao outro que, no Brasil, as relações e os privilégios pessoais valem mais do que as leis universais que deveriam valer para todos os cidadãos.

Formado em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), DaMatta fez uma especialização em antropologia social no Museu Nacional da UFRJ. Depois, cursou mestrado e doutorado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Seus estudos sempre foram voltados para o País. Entre suas obras mais importantes, estão Um Mundo Dividido: A Estrutura Social dos Índios Apinayé; Carnavais, Malandros e Heróis; Águias, Burros e Borboletas: Um Ensaio Antropológico Sobre o Jogo do Bicho; A Bola Corre Mais Que os Homens: Duas Copas; além do ensaio Você Sabe com Quem Está Falando?

Em sua obra, DaMatta mostrou especial interesse pelas peculiaridades brasileiras. Entre elas, a hierarquização da sociedade, disfarçada de proximidade; o carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças; a dicotomia entre o coletivo, simbolizado na rua, e o privado, sintetizado no lar; o fascínio pela esperteza da malandragem. Segundo DaMatta, para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitos.

Em Carnavais, Malandros e Heróis, escreveu que pretendia abordar “esse povo nas suas esperanças e perplexidades, pois sempre me impressionou a conjunção de um povo tão achatado junto a um sistema de relações pessoais tão preocupado com personalidades e sentimentos; uma multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e direitos; uma intelectualidade tão preocupada com o coração do Brasil e, no entanto, tão voltada para o último livro francês; uma criadagem que passa tão despercebida e patrões tão egocêntricos (...)”. Ele diz que o povo brasileiro o intriga “na sua generosidade, sabedoria e, sobretudo, esperança”.

Ao voltar ao Brasil depois do mestrado e doutorado nos Estados Unidos, o antropólogo trabalhou no Museu Nacional até 1986, quando aceitou um convite da Universidade de Notre Dame, em Indiana, nos EUA, para lecionar. Ele só voltou ao País em meados dos anos 2000, quando começou a dar aulas na PUC-RJ. Agora, diz, encerrou sua carreira acadêmica e pensa seriamente em começar a escrever ficção.


'Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos'



O senhor acompanhou a Copa do Mundo? Os brasileiros deixaram um pouco de lado a divisão política que vem caracterizando o País nos últimos anos para torcer pela seleção?

O Brasil, que é o tempo todo criticado, na Copa vira objeto de afeto, uma solidariedade absolutamente impressionante. A partir da classificação, o time brasileiro se apresenta como uma unidade brasileira na qual, inevitavelmente, o Brasil inteiro projeta os nossos afetos, a língua que falamos, a maneira como somos. O futebol brasileiro sempre se caracterizou pelo drible, pela malandragem, pelos negros, pelos pobres, pelos artistas da pelota.

Artistas de um esporte que chegou com os colonizadores; e justamente os mais pomposos, os mais distantes, os ingleses, aqueles que não se misturavam. Além disso, é um esporte em que não sabemos qual será o resultado; estamos entregues ao destino. Pode haver preferências, mas não sabemos o resultado; certezas absolutas não funcionam.

O segundo ponto é que no futebol temos a experiência da igualdade absoluta. Não tem jeitinho, compadrio, corrupção. E todos nós conhecemos as regras do jogo. O que é bem diferente da nossa burocracia aristocrática, tão difícil de administrar, em que sempre existe uma regra

“Em ‘Carnavais, Malandros e Heróis’, queria abordar o povo brasileiro, essa multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e seus direitos” que desconhecemos.

O sr. está chegando aos 90 anos. Como se sente?

Cheguei a uma idade em que não há nada completamente ruim, nem completamente bom; é tudo mais ou menos. Mas, olha, o que queria fazer eu fiz. Fui um dos primeiros a fazer doutorado em Antropologia em Harvard, consegui sobreviver à minha timidez, morei nos Estados Unidos, fui contratado por uma universidade americana. Consegui olhar para a sociedade brasileira com um olhar diferenciado, que é fundamental para a antropologia social, enxergar o que acontece com uma certa distância.

Sobre o envelhecimento, até os 50 anos ninguém morre, né? Ninguém acha que vai morrer. Só depois os problemas começam a aparecer, tive um enfarte, tive de colocar um stent. Mas o mais chato foi o AVC (há três anos), quando tive certeza de que iria morrer, acabei ficando com o lado esquerdo paralisado (a fisioterapia o tem ajudado bastante e já está praticamente recuperado), tomo uma batelada de remédio. O maior sofrimento é nos conformarmos com a ideia de que somos finitos. E enxergar esse contraste maravilhoso entre a nossa consciência da finitude e as artes, o cinema, a pintura, o teatro, os romances. O criador é finito – e ter consciência disso é o ponto central da nossa existência –, mas há um outro lado que se perpetua. O que está perpetuando é finito, mas o que é perpetuado é infinito.

Como a figura do banqueiro Daniel Vorcaro – que, aparentemente, conseguiu comprar praticamente toda a República, à esquerda e à direita – pode ser analisada do ponto de vista da antropologia?

O universo doméstico e o universo público têm muitas oposições; o que fazemos em casa, não podemos fazer na rua; e o que fazemos na rua, não podemos fazer com nossos parentes. Vorcaro entendeu isso intuitivamente. Como explica muito bem o antropólogo Marcel Mauss, quando recebemos um presente, nos sentimos obrigados a devolver com outro presente. É assim que o sistema público funciona. Você não vai deixar de dar um emprego para o seu cunhado que está precisando, fazer um favor para um amigo. As oposições ideológicas e de classe existem, mas são rompidas pelas relações pessoais; é aí que entra em jogo a corrupção. Vorcaro deu dinheiro para todo mundo, da direita e da esquerda, porque ele sabia que a gente não esquece o tratamento afetuoso, o presente, a gentileza, a simpatia.

O sr. falou há pouco em consciência humana. Há todo um debate acadêmico a respeito da inteligência artificial. Acredita que um dia a IA poderá ter consciência?

Nós temos uma coisa que ninguém tem, a consciência, um dos maiores mistérios do mundo. (O filósofo Friedrich) Nietzsche dizia que quem inventou a alma foi o corpo, como uma forma de poder lidar com a consciência. Sabemos que funcionamos com base na eletricidade. Nosso cérebro funciona por impulsos elétricos. Os literatos, com suas imaginações fantásticas, como Isaac Asimov, criam robôs com consciência. Será que conseguiremos criar uma máquina que tenha consciência de si própria e do mundo? Olha, acho que isso não vai acontecer por uma razão trivial. Nossa consciência é agasalhada por uma máquina chamada corpo humano. E são as experiências com esse corpo, essas várias consciências, esses vários tipos de memória, que fazem a nossa consciência.

Como o sr. vê essa disputa entre as políticas identitárias e o radicalismo da extrema direita?

Acho que melhoramos e pioramos ao mesmo tempo. Existe uma questão moral, filosófica, sociológica muito importante que é o fato de convivermos todos os dias com coisas positivas e negativas. Os avanços criam outras dificuldades. É curioso, mas os extremos que levam ao progresso também são motivo de resistência e atraso. Os limites são puxados para cima e para baixo, à direita e à esquerda. Sempre que pensamos em progredir, em crescer, pensamos no lado positivo. Mas devemos pensar também no lado negativo desse crescimento.

Todo movimento provoca alguma reação, mas sou absolutamente contrário à desonestidade e à violência. Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos.

Indígenas ou índios?

Índios, claro. Essa discussão é muito boboca. Índio é apenas um nome. Todo mundo sabe que eles foram chamados de índios porque os navegadores acharam que estavam chegando às Índias.

Como o senhor vê a ascensão dos evangélicos no Brasil nas últimas décadas?

O que caracteriza o protestantismo em geral, seguindo aqui, mais ou menos, Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, é o individualismo, a ideia de se desvencilhar das relações pessoais, da dependência que caracteriza a sociedade moderna, em que o todo é mais importante do que a parte.

As igrejas evangélicas entenderam e abraçaram as dinâmicas do capitalismo e do mercado moderno de forma muito melhor que a Igreja Católica, oferecendo uma justificativa espiritual e moral para a ascensão social. Mas é uma transição dramática, que envolve rupturas, abala pilares da sociedade. Há um conjunto de impulsos, tendências, eventos e fatos que rompem com tradições do Brasil de forma muito acelerada e podem passar essa impressão errada de fim do mundo.

Mas esse movimento pode estar por trás da nova onda conservadora?

Do ponto de vista da ética, somos reacionários, seguimos um sistema ético do século 19. O evangelismo surpreende porque não tem uma igreja, são templos, grupos, uma multiplicidade maior de vozes, que acabou aparecendo com mais nitidez na direita ou na centro-direita, com tendência a radicalismos e posições extremadas. Mas o evangelismo pode ser libertador no sentido de que permite a emergência e a elaboração de certos problemas humanos e sociais muito importantes. É libertador no sentido de que nos tira de uma situação em que há uma religião dominante; precisamos ter visões alternativas, críticas. Mas tudo depende das lideranças. No caso do Brasil, eu não entraria na igreja do bispo (Edir) Macedo.
Roberta Jansen

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