domingo, 13 de setembro de 2026

Cerimedo: Bots, desinformação e poder na América Latina

"Mercenário digital" é um termo frequentemente usado para descrever Fernando Cerimedo. O consultor político argentino fez das redes sociais seu principal campo de atuação e levou suas estratégias muito além das fronteiras do seu país. Seu nome tem sido associado a campanhas e figuras políticas no Brasil, Chile, Bolívia e Honduras, além da Argentina.

Sua prisão na Bolívia, em 18 de agosto, sob a acusação de contratar assassinos para matar sua ex-companheira grávida, desencadeou um escândalo que revelou a extensão de suas operações na América Latina: ligações políticas, campanhas de desinformação, fazendas de trolls e contas falsas.

Cerimedo é "um especialista em estratégias de desinformação, manipulação de redes sociais, criação de bots e treinamento de pessoas para atuarem como trolls", disse Soledad Vallejos, autora de "Os Donos da Liberdade", livro sobre as redes da nova direita na América Latina. Essas estratégias, explica ela, permitem que eles criem e amplifiquem conteúdo nas redes sociais até que ele chegue à grande mídia e, por fim, ao discurso político.

"O que aconteceu na Bolívia trouxe à tona muito do que Cerimedo vinha fazendo por toda a América Latina", disse o jornalista Mauro Federico, que investiga suas atividades e conexões há anos. O padrão, ele destaca, se repete com variações locais em diferentes países: forte presença digital, campanhas negativas apoiadas por contas automatizadas e, após uma vitória eleitoral, uma aproximação ao círculo íntimo do poder, muitas vezes sem um cargo formal que implique responsabilidade. Esse comportamento, afirma ele, "caracterizou-se pela impunidade com que ele operava".


No Brasil, onde trabalhou para Jair Bolsonaro, o controverso estrategista digital foi investigado pela Polícia Federal por seu papel na conspiração golpista após as eleições de 2022. Na Argentina, ele fez parte da estratégia de comunicação de Javier Milei durante a campanha presidencial de 2023. O especialista consultado afirma que sua influência na rede digital de Milei era tamanha que, após sua recente prisão, "a fazenda de bots e trolls que apoiava o presidente argentino parou de funcionar ".

No Chile, uma comissão da Câmara dos Deputados está investigando possíveis ligações entre Cerimedo e o círculo íntimo do presidente José Antonio Kast, bem como o uso de bots em campanhas políticas. Kast admite conhecer o consultor argentino, mas nega que ele tenha trabalhado para ele.

Em Honduras, Cerimedo levou suas estratégias de comunicação digital para a campanha presidencial de Nasry Asfura em 2025. No México, a presidente Claudia Sheinbaum acusou o jornal La Derecha Diario, cofundado por Cerimedo, de usar bots e contas pagas para disseminar informações falsas e influenciar a opinião pública. E na Bolívia, ele colaborou na campanha de Rodrigo Paz e, como o próprio presidente reconheceu, continuou a cooperar no início de seu governo.

As conexões, no entanto, não terminam na América Latina. Vallejos lembra que a Cerimedo registrou o domínio da CPAC Argentina em 2021, a versão local da Conferência de Ação Política Conservadora, que teve origem nos Estados Unidos e está ligada ao trumpismo. Federico a situa dentro de "uma rede que se originou das atividades de grupos nos Estados Unidos que trabalharam com Trump" e que posteriormente se espalhou por toda a região, com componentes financeiros, logísticos e políticos.

Ao analisar esses tipos de redes, o advogado boliviano Ramiro Orias, diretor do Programa de Corrupção e Direitos Humanos da Fundação Devido Processo Legal (DPLF), concentra-se na opacidade. Em entrevista a esta publicação, ele argumenta que a cooperação política internacional é legítima, mas que a falta de transparência dificulta saber "quem financia, quem decide, quem executa" essas operações e se elas perseguem objetivos ilegítimos.

O alcance regional dessas redes também contrasta fortemente com a capacidade de resposta das instituições. "Há uma clara assimetria: as redes políticas e digitais podem operar regionalmente em tempo real, enquanto as instituições continuam a funcionar principalmente dentro das jurisdições nacionais", destaca Orias. "Nossas democracias ainda estão regulamentando a política do século XXI com ferramentas projetadas para a política do século XX", resume ele.

Nesse cenário, Cerimedo é, em última análise, uma "peça operacional" em uma rede muito maior, nas palavras de Federico. "Ele é facilmente substituível", concorda Vallejos, definindo-o mais como um ponto de interseção de interesses, trajetórias e fundos do que como o mentor por trás dessas redes.

A prisão desse rei caído da desinformação provavelmente mal revelou a dimensão do que operava nos bastidores.

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