Pior ainda com a escalada caótica das mudanças climáticas. Na verdade, o assunto da pobreza como expressão da injustiça social fora debatido desde o final do século XVIII, associado às formas de exploração do trabalho e ao imperialismo internacional, que aqui e ali resultaram ora em revoltas sociais, ora na humanização do capitalismo liberal. Saudades de Marx, Engels e, por que não, de Adam Smith. Em 1912 o matemático italiano Conrado Gini apresentara seu Índice de Gini, que media a distância entre pobres e ricos. As duas guerras mundiais embolaram o meio de campo dessa discussão, que ainda enfrentou resistências políticas expressivas durante a chamada guerra fria. Mesmo assim, o debate da desigualdade social chegaria à virada do milênio de vento em popa. Exemplo disso é a publicação do IDH Índice de Desenvolvimento Humano, idealizado pelo indiano Amartya Sen nos anos 1990.
O século XXI chegou repleto de esperança e novas ideias. O Fórum Social Mundial estava no auge, atraindo pensadores como Noam Chomsky, Lula, Boaventura, Viviane Forrester, Naomi Klein e Paul Singer. Outro mundo seria possível. Manifestações como a ‘batalha de Seattle’ davam o tom de um Comércio Justo e uma Economia Solidária. Ninguém esperava que o atendado de 11 de setembro desencadeasse uma espécie de macarthismo (quem não estiver com o capitalismo está contra ele). O efeito foi como um balde de água fria nos movimentos, nos ativistas e organizações que cutucavam a ferida aberta das diferenças socioeconômicas.
Desencadeou-se uma fragmentação das causas sociais em temas diversos e específicos, enfoques importantes para o desenvolvimento humano e a sustentabilidade da natureza, mas é preciso retomar o foco primordial – a questão política central – de todos esses problemas da humanidade, seja como causa, seja como consequência: a desigualdade social. A polarização (com tempero de costumes) nas eleições brasileiras de 2026 reedita os extremos Lula x Bolsonaro, varrendo para baixo do tapete as causas e os propósitos que explicam porque tantas pessoas sofrem privações enquanto o andar superior do PIB e da Política detém o maior pedaço do poder e dos ganhos. Fala-se em nova esquerda pós-Lula 2030. Pura falácia. Novos políticos praticando a velha política. O caminho para o futuro é revitalizar a sociedade civil. Reacender a luz e reabrir as janelas do diálogo social. Deixar as convergências e as divergências aflorarem. A política e os políticos são produtos da sociedade.
Felipe Sampaio
Nenhum comentário:
Postar um comentário