segunda-feira, 29 de junho de 2026

A liberdade é não ter medo, ser precário é temer

Quando cheguei a Lisboa para estudar, comecei a usar um caderninho de papel quadriculado para apontar as despesas. De cada vez que ia à mercearia, tomava um café ou comprava um bilhete de metro, gatafunhava a caneta azul os gastos, que iam somando, subtraindo o resultado à mesada que os meus pais me davam. O dinheiro era curto, mas as minhas paciência e capacidade de gestão financeira ainda eram mais. Rapidamente, perdi o hábito de apontar as despesas, até porque me enervava ver aquelas contas de somar a subtrair ao pouco que tinha. E, além disso, tinha mais o que fazer. A falta de método deu-me direito a alguns sustos. Dias em que percebia que só podia comer esparguete com atum ou em que ia ao supermercado fazer contas de cabeça às moedas e às calorias para ver como podia safar o fim de semana antes de me chegar à conta mais uma remessa de dinheiro parental.

O pior de tudo foi quando tive de ir fazer um trabalho para a faculdade à Baixa e percebi que já não tinha dinheiro para o bilhete do metro. Arranjei maneira de passar os torniquetes e lá me enfiei no comboio sem pagar. Claro que não foi preciso andar muito para aparecerem uns fiscais e eu acabar com uma multa grande e uma humilhação ainda maior. Sou pouco dada às pequenas prevaricações não tanto por questões morais (embora elas também me aflijam), mas sobretudo porque tenho a certeza de que vou ser apanhada. Esta pequena história confirma-o e vem dar razão aos motivos que me levaram a nunca ousar levar cábulas ou a copiar num exame.

Sou uma privilegiada. Tive sempre a rede financeira de pais e avós, para ajudar a compor salários magros numa cidade cara. Não tenho a pretensão de saber o que é o susto de viver na angústia de não ter como chegar ao final de cada mês, embora saiba o que é ver uma conta chegar aos zeros. Apesar de todo o privilégio, há uma coisa que sei: não há maior liberdade do que não ter de olhar para o saldo da conta. E não há nada que nos tolha mais do que a incerteza financeira. É ela que nos cala a boca quando queremos reivindicar. É ela que nos prende as pernas quando gostaríamos de arriscar. É ela que nos congela quando sonhamos mudar de vida.

O poder desmedido de poucos assusta. A pobreza de muitos amedronta-os. A democracia é incompatível com a existência de poderes desmedidos e desigualdades galopantes

Uma vida de precariedade é uma trela curta. A falta de dinheiro é um açaime. O instinto de sobrevivência diz-nos que caladinhos e dóceis é que estamos bem. E assim ficamos, cheios de medo, encolhidos na vidinha, talvez apenas espumando raiva para os que não podem ameaçar-nos, que olhar para cima já é um perigo. Ter os olhos rentes ao chão é tudo o que nos resta.


Vem esta conversa a propósito da palavra “liberdade”. Essa palavra bonita, arejada, ampla e luminosa. Os novos arautos da “liberdade” dizem-nos que a segurança é uma amarra, a flexibilidade é um trampolim e a falta de regras é o que nos fará prosperar. Vêm munidos de motosserras, que em vez de usarem para cortar as amarras da exploração, brandem contra tudo aquilo que protege aqueles que nasceram com pouco. “Que bonita é a liberdade”, dizem-nos. E tendemos a acreditar, porque a sabemos bela e preciosa. Quem não quer, afinal, ser livre?

Começam, então, a deitar paredes abaixo, para que possamos sentir-nos livres. Vão ao chão a Educação, a Saúde e a Habitação. Derrubam-se as pensões e os direitos no trabalho. Fazem-se em pó as prestações sociais. Fica arejado, sim. Mas começamos, depois, a perceber que estamos já sem paredes. E é uma casa muito engraçada, que fica sem teto e fica sem nada.

Mas dizem-nos, aí, que cada um de nós poderá erguer a sua própria mansão. Cada um com o seu esforço e o seu trabalho. Só não nos explicam que há os que já nascem com milhões e os que, agora que tudo foi demolido, nem as migalhas têm para se aguentarem nas pernas. E há os doentes e os velhos e as crianças. Mas não pensem nisso, esforcem-se. Trabalhem e prosperem. Agora, sem Estado a atrapalhar, tudo é caminho. Não há quem nos limite.

Os que estão em cima rejubilam. Os seus milhões parecem fêmeas, reproduzindo-se sobre o trabalho dos que perderam todos os direitos, com as jogadas dos casinos financeiros, com a especulação sobre o que até agora era um direito, com as rendas garantidas pelo Estado que afinal serve só para distribuir contratos milionários. Os de baixo sonham. Talvez um dia, pensam, enquanto aguentam mais uma jornada que não acaba, enquanto percebem que o pão e a casa estão cada vez mais caros. E olham para um ou dois casos de alguém que nada tinha e tudo conseguiu como num golpe de mágica, com criptomoedas ou visualizações de YouTube. Talvez um dia.

Sim, claro, mas ao menos são livres. Somos livres. Podemos dizer o que queremos, ser o que queremos. Podemos mesmo? Nos EUA acabam de ser presos 15 influencers acusados de “atividades antifascistas” pela forma como expuseram operações do ICE, a polícia anti-imigração de Donald Trump, nas redes sociais. São acusados de conspiração e a acusação considera que independentemente de terem ou não provocado danos reais às atividades do ICE, já incorreram em crimes.

Elon Musk, o grande libertário, também usou esta semana o seu poder financeiro ilimitado para obrigar um canal alemão de televisão a cortar uma peça na qual se fazia a relação entre as suas declarações incendiárias no X e o pogrom feito por racistas que perseguiram, atacaram e incendiaram casas de imigrantes em Belfast na sequência de um crime de esfaqueamento praticado por um imigrante. A Musk, o novo dono da mais colossal das fortunas, devidamente amparada pelos contratos públicos milionários que vai somando, bastou-lhe acenar com a ideia de um processo judicial contra a estação televisiva. O medo fez o resto. O medo faz sempre o resto.

Liberdade é não ter medo. Mas o poder desmedido de poucos assusta. A pobreza de muitos amedronta-os. A democracia é incompatível com a existência de poderes desmedidos e desigualdades galopantes. Não se pode ser livre sem se ser igual. Não se consegue ser igual perante a lei e nos direitos quando o fosso que nos separa se agiganta ao ponto de alguns ficarem ao nível dos deuses e outros tão rasteiros que deixam de ser humanos.

Quando vierem falar-vos em liberdade, lembrem-se de que ela não é uma palavra vazia. É uma palavra frágil, que definha quando o ar da igualdade se torna rarefeito, que se desfaz quando não a partilhamos. Se queremos a liberdade para nós, temos de saber dá-la aos outros. Se queremos a liberdade para todos, temos de partilhar direitos e redistribuir recursos. Se queremos liberdade, temos de a exigir por inteiro. Sem medo.
Margarida Davim

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