terça-feira, 5 de maio de 2026

A liberdade entre o Trumpismo e as Big Techs

Entre as tendências do nosso tempo, sobressai-se, ainda uma vez, a crescente submissão da política aos ditames do autoritarismo embuçado nos ouropéis da liberdade.

Aqui cabe ressaltar que as concepções “sub-positivistas” ensinam: narrativas (ideologias?) que proclamam que não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Para desagrado da matilha de cães raivosos que emitem latidos “factuais” e (anti)democráticos, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até mesmo quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.


Em parceria com Nathan Caixeta, escrevi sobre Michael Foucault. No livro “As Palavras e as Coisas”, Foucault trata da relação entre a linguagem e a estruturação material das sociedades ao longo da história. O filósofo francês distingue as formas de linguagem. A linguagem clássica cuja soberania das palavras e conceitos era vinculada à propriedade natural e divina das coisas reais e visíveis em contraposição à linguagem esculpida por obra do iluminismo, que colocou o homem e seu cogito como soberanos sobre as palavras e as coisas, igualmente reais e visíveis, mas, que a partir da época das luzes foram subordinadas à designação dos desejos e da autonomia do próprio homem.

Entre as narrativas dos autocratas liberais contemporâneos, predominam os consensos que deploram o peso excessivo do Estado e investem contra as tentativas de disciplinar as forças, simultaneamente criadoras e destrutivas, do capitalismo.

A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, vem sendo contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica que celebra o orçamento equilibrado. Os enriquecidos contestam qualquer interferência no processo de diferenciação entre o poder da riqueza e a renda dos desvalidos.

A visão coletiva que subordina a decantada racionalidade dos mercados afirma e reafirma a irracionalidade das transferências fiscais e previdenciárias, ao mesmo tempo em que impõe restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso porque é imperioso tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos mais abonados.

Aqui deve-se registrar que a ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Estas duas percepções convergem na direção da “deslegitimação” do poder do Estado e da desvalorização da política, o que culmina em esgares autoritários travestidos de democracia. Entre tais desgraças, sobressai-se a contaminação dos Parlamentos, não só no Brasil, mas também em outros pagos.

No livro “Iluminismo Sombrio”, Arnaud Miranda empreende uma investigação sobre o neoconservadorismo “tecnológico” abrigado na direita nos Estados Unidos. “Por toda parte, nas telas publicitárias, podemos ver retratos gigantescos do Rei da América.

O triunfo vai para os profetas visionários, os Sábios das Luzes Negras, que, por anos e no segredo da internet, prepararam o golpe de Estado que mandou à morte a antiga república corrupta e decadente...

E, ainda assim, esse cenário não é menos inspirado pela visão política de intelectuais muito reais, que emergiram das profundezas da Internet no final dos anos 2000 e que hoje imaginam desempenhar o papel de profetas das Luzes Sombrias...

Alguns desses pensadores, sustentados por alguns milionários da tecnologia californiana, estavam parados até se infiltrarem nos círculos coloridos da Casa Branca e agora estão entre os ideólogos mais influentes ao se infiltrarem nos quadros políticos da primeira potência mundia”.

Nesse pacote do Iluminismo Sombrio está o domínio do Estado pelas Big Techs.

A Inteligência Artificial “libertadora” aprisiona homens e mulheres alcançados pelos terremotos que fazem tremer a vida social submetida às condições políticas e econômicas da sociedade de massas, agora assolada pelos riscos de “desumanização” tecnológica. A pretendida autonomia do indivíduo, nascida no âmago do projeto iluminista, não resistiu aos percalços desatados pelas turbulências da vida social, econômica e política.

Assim, a resposta esperançosa às incertezas do futuro depende crucialmente da capacidade de mobilização democrática e radical dos Deserdados, os perdedores na liça da concorrência. Desgraçadamente, os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são ocupados pelas fake news desabrochadas nas redes sociais por aparatos comprometidos com a força das BigTechs, agora instaladas nos domínios do Estado americano.

As concepções conservadoras de todos os tempos assombram também nossos tempos. Deixam de examinar o conjunto de relações que estruturam as sociedades capitalistas como uma organização econômica, social e política singular, singular porque histórica. Isso significa que essas relações se reproduzem num movimento incessante de diferenciação e autotransformação no interior de sua estrutura. Não há determinismo nem indeterminação: o capitalismo se transforma no processo de reprodução de suas próprias estruturas.

A negação de uma estrutura em movimento, em si mesma, é um método eficaz de bloquear o imaginário social, uma comprovação dolorosa das agruras que martirizam as criaturas da história humana. As forças impessoais adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.

A boa sociedade deve tornar livres os seus integrantes, não apenas livres de um ponto de vista negativo - no sentido de não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade - mas positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria liberdade. Isto significa primordialmente o poder de influenciar as condições da própria existência, dar um significado para o bem comum e fazer as instituições sociais funcionarem adequadamente.

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