domingo, 21 de junho de 2026

Insônia e dor de cabeça são o custo implacável e invisível dos data centers de IA

O batimento cardíaco da economia da inteligência artificial soa como o zumbido de baixa frequência de um aparelho central de ar-condicionado do vizinho, um avião voando em grande altitude ou o motor de um caminhão funcionando em marcha lenta na estrada.

Mas a sensação é a de uma pulsação vibrante e rítmica de um subwoofer (tipo de alto-falante) vindo de uma festa que nunca termina. Sim, a nuvem tem um som, e algumas das pessoas que vivem mais perto dos data centers que emitem esse ruído chegaram ao limite de sua paciência tentando bloqueá-lo.

Mês passado, moradores de três pequenas cidades entraram com processos contra data centers especificamente por causa do barulho.

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Os Estados Unidos possuem mais de 3 mil data centers em operação e outros 1.500 em desenvolvimento, segundo uma análise do Centro de Pesquisas Pew. Eles têm sido a espinha dorsal da economia da informação por décadas, operando em grande parte nos bastidores da vida cotidiana.

As demandas da inteligência artificial(IA), de quantidades muito maiores de poder computacional e infraestrutura de refrigeração, provocaram uma explosão na construção de novos data centers.

Hoje, quase 40% das residências estão localizadas a menos de 8 quilômetros de pelo menos um centro de dados em funcionamento, segundo o Pew, e cada vez mais deles estão se aproximando das áreas residenciais.

O zumbido dos sistemas de refrigeração, o ronco dos geradores e o ruído das ventoinhas podem ser ouvidos — e sentidos — a centenas de metros de distância e até meso a mais de um quilômetro.

— A pegada acústica é simplesmente diferente em ordens de magnitude —disse Les Blomberg, diretor executivo da organização sem fins lucrativos Noise Pollution Clearinghouse.

Parte desse ruído consiste em infrassom, ondas sonoras de frequência extremamente baixa que ficam abaixo do limiar da audição humana.

Em vez de ouvirem essas frequências muito baixas, as pessoas as sentem fisicamente com flutuações de pressão, semelhantes à vibração profunda de batidão sacudindo o corpo durante um show, explicou Scott Hamilton, membro da Sociedade Acústica da América e consultor em projetos de centros de dados.

Isso pode fazer com que os indicadores tradicionais de ruído e as soluções para atenuá-lo se mostrem inadequados para atender às necessidades modernas.

Moradores que vivem próximos a fontes de infrassom frequentemente relatam privação crônica de sono e insônia, dores de cabeça, pressão interna nos ouvidos e ansiedade.

Muitas vezes, a legislação não ajuda.

A poluição sonora é regulamentada em nível local por uma complexa rede de leis de zoneamento, originalmente elaboradas para lidar com festas barulhentas, cães latindo ou ruídos de construção, e não com o zumbido industrial constante de um centro de dados funcionando 24 horas por dia.

Também não há muito amparo em nível federal, porque o governo Reagan retirou o financiamento do Escritório de Controle e Redução de Ruído da Agência de Proteção Ambiental (EPA) no início da década de 1980.

Embora existam regulamentações, “não há ninguém na EPA efetivamente encarregado de aplicá-las”, disse Richard Neitzel, professor de ciências da saúde ambiental da Universidade de Michigan.

— Eles usaram esse escritório como exemplo de excesso regulatório, como se o governo não tivesse o direito de me dizer quão barulhento meu cortador de grama pode ser — afirmou.

Agora, os moradores estão tentando preencher essa lacuna regulatória.

Os três processos argumentam que, embora os data centers geralmente cumpram os códigos básicos de zoneamento, o zumbido constante e as vibrações causam desvalorização significativa dos imóveis e a perda do direito ao sossego dos proprietários vizinhos.

Os autores das ações querem indenizações pelos danos e também obrigar as empresas a melhorar as medidas de controle de ruído.

Em Vineland, Nova Jersey, um grupo de proprietários entrou com uma ação na Justiça Federal motivado, em parte, pelo receio de que ainda mais ruído esteja por vir.

— Há um ruído constante de máquinas funcionando, que é mais perceptível à noite quando tentamos dormir — declarou Stefanie Bartiromo, moradora da região, referindo-se às três salas de servidores já em operação, segundo o processo. — Parece um helicóptero que nunca sai do lugar e, às vezes, um caminhão pesado funcionando sem parar.

A ação foi movida contra a DataOne USA, que está expandindo seu campus em Vineland. Quando concluído, o complexo da empresa terá cerca de 241 mil metros quadrados e exigirá 300 megawatts de energia, o suficiente para abastecer uma cidade de porte médio.

A DataOne afirmou que já adotou medidas para reduzir o ruído e que continuará fazendo isso à medida que a expansão for concluída.

"Continuamos comprometidos com um diálogo construtivo e com o papel de membro valioso e responsável da comunidade a longo prazo", disse um porta-voz da empresa em comunicado.

A companhia afirmou que pretende gerar empregos e impulsionar a economia local. O mesmo argumento econômico foi apresentado pelas outras empresas processadas por causa do ruído, anos depois de terem reaproveitado antigos terrenos industriais em Dowagiac, Michigan, e Lowell, Massachusetts.

Moradores de Dowagiac vinham reclamando de um data center de 30 megawatts instalado em um prédio que anteriormente era usado principalmente para armazenar barcos e veículos recreativos.

A proprietária do data center, Alliance Cloud Services, comprou recentemente mais 50 acres de área florestal, pois planeja ampliar sua capacidade de consumo de energia de 30 para 300 megawatts. Parte dessa área servirá como uma barreira natural contra os impactos do empreendimento, segundo a empresa.

Para combater o ruído, o setor está migrando para sistemas de refrigeração líquida. Em vez de utilizar ventiladores barulhentos para impulsionar o ar, os servidores são submersos em fluidos especiais não condutores ou equipados com placas frias refrigeradas por líquido instaladas sobre os processadores que geram calor.

Isso pode reduzir o ruído de um centro de dados em mais de 50%, mas o custo de instalação é muito maior.

Dowagiac, uma cidade de 5.700 habitantes, possuía uma lei geral sobre ruídos, como muitas comunidades, mas recentemente estabeleceu limites de decibéis para o ruído ambiente em zonas residenciais, comerciais e industriais.

A maioria das comunidades define seus padrões utilizando a escala de decibéis ponderada em A, projetada para imitar a audição humana em ambientes silenciosos e que reduz significativamente — ou ignora — sons de baixa frequência emitidos pelos data centers, segundo especialistas.

Já a escala ponderada em C foi criada para captar ruídos de baixa frequência.

Essa distinção é especialmente importante ao medir o ruído de data centers, dominado por zumbidos de baixa frequência produzidos por enormes ventiladores de equipamentos de refrigeração, explicou Neitzel.

Como consequência, afirmou Blomberg, uma fonte sonora que claramente domina a percepção auditiva de uma pessoa pode não ser registrada como um problema em um medidor de decibéis convencional.

O CEO da Hyperscale Data, empresa controladora da Alliance, afirmou que suas operações estão dentro dos limites de decibéis permitidos pela cidade e que utilizam sistemas que minimizam o consumo de energia.

O executivo, William B. Horne, disse que participaria de uma reunião do conselho municipal para conversar com os moradores e ressaltou seu compromisso em ser um parceiro confiável.

— Ofereceríamos comprar essas propriedades pelo valor de mercado e fornecer um subsídio para ajudar a cobrir os custos da mudança — afirmou, referindo-se aos residentes que vivem ao lado do centro de dados.

O cerne do problema, segundo Neitzel, é que muitas fontes tradicionais de ruído comunitário — como aeroportos e rodovias — tendem a diminuir de intensidade durante a noite.

Não é o caso dos data centers. Em Lowell, Diana Streete afirmou que o ruído “interfere regularmente na capacidade da minha família de dormir, descansar, relaxar e aproveitar confortavelmente nossa casa”.

— Os quartos dos meus filhos ficam voltados para a área de entrada, onde circulam caminhões e ocorrem atividades da instalação, o que torna o ruído especialmente perturbador — disse.

Lowell, uma cidade de 115 mil habitantes, foi fundada como um polo têxtil no século XIX, mas suas fábricas fecharam no início do século XX. O local onde hoje funciona o data center abrigou anteriormente a Lowell Bleachery and Dye Works e, posteriormente, durante seis décadas, a fábrica da Prince Spaghetti.

O data center, com cerca de 32,5 mil metros quadrados, fica ao lado de residências e instalações recreativas, incluindo um parque e um campo de beisebol.

Sua proprietária, a Markley, afirmou que o complexo sustenta a infraestrutura digital de órgãos de segurança pública, universidades, hospitais locais e outras instituições regionais.

Trata-se de um data center de colocalização, uma instalação compartilhada onde várias empresas alugam espaço para abrigar seus equipamentos computacionais. Isso é diferente dos data centers de hiperescala, construídos para atender às necessidades de grandes empresas globais de tecnologia.

Um porta-voz da Markley afirmou que os geradores são testados semanalmente e que o som produzido permanece dentro dos limites estabelecidos.

Hamilton observou que existe uma ampla variedade de sons e, igualmente ampla, é a forma como as pessoas os percebem. Segundo ele, os padrões atuais são desenvolvidos para a pessoa comum.

— Mas, quando você trabalha tempo suficiente nessa área, acaba encontrando — ou experimentando — pessoas ultrassensíveis — disse Hamilton. — Essas pessoas realmente percebem sons, vibrações e intensidades que o ser humano médio considera irrelevantes e pensa: "Isso não é um problema, não sei do que você está falando". Mas elas são genuinamente atormentadas por isso.

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