A entrada da SpaceX na bolsa de valores, com a consequente ascensão de Elon Musk ao pináculo dos milionários (ultrapassando a barreira do “trillion” de dólares, na contagem americana), quase em simultâneo com o anúncio, em tom vitorioso, de Donald Trump em relação a um acordo de cessar-fogo com o Irão, são dois episódios aparentemente sem conexão um com o outro. Mas partilham a mesma origem: a substituição da realidade material pela supremacia da narrativa.
Claro que Elon Musk é absolutamente rico e agora até ficou incrivelmente mais rico. Mas o recente salto na sua fortuna não se ficou a dever às leis normais da economia, aquelas que regeram as nossas vidas no último século. Nem à entrada de uma montanha de investidores no capital da SpaceX justificada pelos resultados da companhia que quer criar uma colónia em Marte. Afinal, as contas oficiais indicam que a empresa espacial fechou o último o ano com um prejuízo líquido de 4,9 mil milhões de dólares – um valor que seria suficiente para fazer qualquer um entrar na lista dos bilionários da Forbes. E outros 4,3 mil milhões de dólares foram dados como perdidos pela companhia só no primeiro trimestre deste ano.
O que o êxito bolsista de Elon Musk demonstra é que vivemos no tempo em que já não se liga ao presente e apenas se joga com a ilusão do futuro. Quem ganha não é obrigatoriamente quem obtém os melhores resultados, mas aqueles que conseguem desenvolver uma narrativa ilusória, que promete muitos lucros no futuro.
Os ingredientes estão todos reunidos para essa simulação: o poder pertence a quem controlar as grandes tecnológicas, a quem conseguir chegar primeiro ao domínio da Inteligência Artificial, a quem for capaz de manipular tudo e todos. Ainda por cima, sem precisarem de ser eleitos e ficarem, por isso, quase imunes ao controlo e à regulação democrática.
Esta riqueza acumulada em bolsa tem um efeito perverso inevitável: mesmo que seja artificialmente, a SpaceX passou a ser uma das empresas mais valorizadas e, como tal, alvo da cobiça dos investidores – mesmo dos que podem não acreditar em Elon Musk, mas que precisam, igualmente, de dividendos, nem que seja através da especulação de curto prazo.
Com os resultados que se conhecem. E, depois de Musk, vamos assistir à erupção de uma nova vaga de multimilionários, de uma dimensão nunca vista, mas que Salman Rushdie sintetiza de forma genial no seu último livro: “Ricos-ricos a valer, para a qual ‘rico’ é uma palavra demasiado pobre.”
O filme está à vista de todos, mesmo dos que optam por fechar os olhos: os muito ricos estão a tornar-se ainda mais ricos, a uma velocidade muito superior àquela que deixa os muitos pobres um bocadinho menos pobres.
No tabuleiro geopolítico, Donald Trump opera sob a mesma lógica de Musk, mas substitui as ações da bolsa por capital político. Só isso explica que, depois iniciar um conflito armado com o Irão, em fevereiro, sob a promessa de uma “rendição incondicional” e do colapso do regime de Teerão, tenha sido agora obrigado a aceitar uma espécie de acordo de paz – sujeito ainda a 60 dias de negociações… − que ele apresenta como uma grande vitória da Casa Branca e da sua particular “arte” para o negócio.
São estas as duas faces da moeda que começa a ser usada nos negócios e na política – e, nós por cá, embora num patamar muito inferior, estamos também repletos de exemplos e de estratégias que valorizam muito mais a simulação do que a realidade.
O que os últimos dias revelam é que uma empresa que acumula prejuízos pode valer muitos milhões, graças a um líder capaz de se “vender” como génio da ficção científica, além de fazer todos os “jogos sujos” que lhe ocorrerem – já que ninguém tenta detê-lo. Por outro lado, dentro do mesmo nível de embuste de discursos virados exclusivamente para os seus apoiantes fiéis, o líder da nação mais poderosa consegue transformar um recuo geopolítico humilhante num troféu de paz. Um ignora as regras básicas da economia, o outro ignora qualquer noção de ética política. É nisto que estamos: quem controla a ficção também pode controlar o mundo. E só agora começou…
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