A polarização política continua a existir, disso não há dúvida. No entanto, trata-se de um fenómeno estudado, compreendido e que pode ser gerido. Os politólogos que se têm debruçado sobre o tema concluem que se intensifica quando estes indivíduos falam somente com quem partilha das mesmas opiniões, quase sempre portadores de um perfil psicológico conflituoso e que se envolvem emocionalmente num processo de corte radical, ou seja, categorizando outras pessoas e grupos como totalmente bons ou totalmente maus e comunicando isso exaltadamente ao resto do mundo.
São características particularmente marcantes nos indivíduos que sofrem de psicopatologias narcisistas e antissociais. Quando assumem cargos de liderança, polarizam os grupos como forma de aumentar o seu poder. Mas como conseguem fazê-lo?
Primeiro, porque um grupo com uma predisposição inicial sobre um determinado assunto reforça a sua posição original com mais argumentos consonantes. Em seguida, os membros do grupo ajustam as suas opiniões para se adequarem melhor às do líder e às da maioria dos membros. Por último, os restantes membros, os mais hesitantes, vão ganhando confiança progressivamente e tendem a tornar-se ainda mais radicais quando, por fim, fazem uso do megafone. No conjunto, os pontos de vista ligeiramente diferentes tendem a convergir num consenso mais forte do que o inicial.
Mas há formas de reduzir a polarização política. Os estudos mais referidos relatam experiências em que foram colocados indivíduos com pontos de vista divergentes, e até de partidos diferentes, em pequenos grupos ou em conversas de um para um, sem saberem a que cor política pertencem. Ao conversarem com pessoas com opiniões muito diferentes ou mesmo opostas, sem a pressão do grupo, passaram a ver-se uns aos outros como seres humanos com histórias pessoais e preocupações semelhantes. Embora alguns não mudem de convicção, a partir daquelas discussões tendem a suavizar o discurso e a aproximar-se de uma conclusão mais equilibrada.
Torna-se fundamental conhecer pontos de vista diferentes, na rádio, na televisão, nos jornais, nas revistas e nas redes sociais. Embora gostemos de estar com pessoas que pensam como nós, corremos o risco de nos fecharmos numa bolha. É precisamente isso que está a acontecer com as gerações mais novas, mas também às pessoas com menor literacia política, que mergulham nas redes sociais, absortas, e se deixam bombardear com as polémicas que geram mais controvérsia, e consequentemente likes e visualizações.
Para criarmos um futuro pacífico, será benéfico para todos, de vez em quando, ouvir e conversar com aqueles com quem discordamos, de uma forma tão próxima e pessoal quanto possível. Para esse fim, todos os debates são úteis, desde que sirvam o diálogo, que tragam luz a um tema específico, e que não escalem para o desrespeito nem para a violência. É a ausência de diálogo, ou a incapacidade de ouvir o outro, que nos tem levado à escalada do conflito para o patamar da guerra.
No entanto, também há debates inúteis, e podemos identificá-los: quando uma das partes não está interessada em ouvir, mas apenas em impor a sua visão, ignorando qualquer argumento contrário; quando há crenças inflexíveis que rejeitam factos verificáveis; quando o contexto é emocionalmente inflamável, prevalecendo ataques pessoais em vez de troca de ideias; quando não existem regras claras nem forma de as impor, levando à desordem; ou quando os temas já foram estudados e debatidos ao pormenor e se tornam redundantes.
O problema da polarização é mais relacional do que ideológico. Uma conversa sobre o que nos preocupa enquanto seres humanos inseridos numa sociedade é muito mais profunda do que uma conversa em torno de meras opiniões. Debatemos opiniões; discutimos preocupações. As preocupações são maioritariamente comuns à sociedade.
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