terça-feira, 12 de maio de 2026

Instruções para desarmar o ódio

Conheci um homem que vendia gentilezas.

Não sei se por prudência, ou devido à extrema raridade do produto, mantinha um estoque reduzido. Era um sujeito de outro tempo, sempre muito elegante, muito direito, muito discreto. Vendia as gentilezas a preços módicos, e só aceitava pagamento após o cliente obter resultados:

— Não se preocupe, cavalheiro. — Explicava. — A gentileza cobra-se depois...

Nunca percebi como funcionava o sistema. Suspeito que nem ele. O nosso tempo valoriza a grosseria. Algumas pessoas acumulam pequenas brutalidades como quem junta milhas aéreas. Somam alegremente comentários impróprios, gritos, insultos, piadas racistas, interrupções ruidosas.

Nas redes sociais a gentileza tende a ser desprezada porque não escandaliza, não irrita, não indigna, não provoca. Enfim, não rende likes. O vendedor de gentilezas estava ciente do estado do mundo. Ainda assim, insistia:

— É um mercado de nicho...

Por vezes surgia alguém à procura de uma gentileza urgente — uma palavra terna; um pedido de desculpas; um silêncio mais que perfeito. Nessas alturas, o homem tornava-se grave, quase solene. Escolhia as peças com o cuidado de um relojoeiro.

Na maior parte dos dias, contudo, não aparecia ninguém. Então o vendedor de gentilezas sentava-se à porta da loja, numa cadeira de palhinha, e oferecia os seus produtos aos menos apressados. Um bom-dia dito com atenção, olhos nos olhos. Um elogio inesperado. Um pedido de desculpa antecipado, para eventuais falhas futuras. Nem todos aceitavam. Alguns desconfiavam. Outros aceleravam o passo, sem olhar para trás, como se estivessem a ser abordados por um credor.

A gentileza, como se sabe, cria embaraço. Não estamos habituados. Preferimos o tom neutro, a indiferença funcional. Quase sempre é mais seguro. Não nos compromete.

Um dia alguém denunciou o vendedor de gentilezas. Manhã muito cedo, dois agentes bateram-lhe à porta. Pediram para ver o catálogo. Queriam saber que tipo de gentilezas circulavam, a quem eram dirigidas e com que frequência. Um deles, o mais velho, anotava tudo num caderno de capa preta, como se estivesse registando infrações.

— Isto pode ser interpretado como um incentivo à subversão! — rosnou.

— Subversão?! — espantou-se o vendedor.

— Com certeza. Insurgência! Veja bem... A gentileza é uma ameaça à desunião da sociedade. E sem desunião, o que fariam os políticos? Todo o sistema se desintegraria.

O segundo agente ergueu a voz:

— O pior é o contágio…

O vendedor escutou atento. À despedida, ofereceu-lhes duas gentilezas de cortesia: um agradecimento sincero pelo tempo dispensado e um voto de bom dia, dito sem ironia.

Os agentes hesitaram. Não sabiam se deviam aceitar. Acabaram por levar as gentilezas, embrulhadas em fino silêncio. Consta que, dias depois, o mais velho começou a cumprimentar os vizinhos. O outro pediu desculpa à esposa por não saber ouvi-la.

Os agentes estavam certos ao acusarem o vendedor — não há nada mais subversivo do que a gentileza. Também estavam certos quanto ao perigo de contágio.
José Eduardo Agualusa

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