terça-feira, 19 de maio de 2026

O relógio do vosso consumismo vai explodir

Hmm… desculpem começar a assim, mas: vocês estão bem? Sim, vocês. Vocês que passaram a noite numa fila para comprar um relógio da Swatch, estão bem? Como é que se estão a sentir? Se se estão a sentir patéticos, ok, menos preocupante. Quer dizer que ainda detêm algumas faculdades psicossociais. Se se sentem na boa, a achar perfeitamente normal o que acabou de acontecer, espero francamente que tenham familiares e amigos que falem convosco e, acima de tudo, vos indiquem o caminho da ajuda profissional.

Para quem não está a par, explico. A Swatch lançou um relógio a um preço modesto (?) de mais ou menos 400 paus, em conjunto com uma marca de luxo, a Audemars Piguet – de que eu nunca tinha ouvido falar, mas eu também não nasci com talento algum para rico.

É um relógio de bolso às cores, e nada mais interessa saber sobre o objeto em si, honestamente. O que precisam de saber, pessoas que me leem e que deduzo estarem curiosas com o sucedido, é que este lançamento de uma coisa onde dá para ver as horas (tem números e ponteiros) gerou o caos um pouco por todo o mundo, com a ideia de que seria um produto de luxo, mas não assim tanto porque é também para as massas, e que não haveria assim tantas unidades, parecendo assim que a sua compra seria um alcançar de estatuto pela posse de uma raridade. E por este bocadinho do estatuto (???) adquirido por se ser detentor de um bocadinho de plástico que serve para – repito – ver as horas, houve gente a dormir à porta das lojas, houve raiva, desespero, porrada e até gás pimenta para dispersar multidões.


Querem mais? Eu digo-vos mais. Há relatos de estafetas de aplicação a serem pagos para ficar na fila, e histórias de pessoas que conseguiram comprar aquele cagalhoto colorido com ponteiros, para o tentarem vender segundos depois pelo triplo do preço, a quem não o conseguiu obter em loja.

“Ai ó Faro, mas ainda te espantas com estas coisas?”. É pá, se calhar não devia, é verdade. E eu sei que uma das maiores vitórias do capitalismo é fazer-nos um buraco na alma, para depois fazer-nos acreditar que a solução para o preencher de novo é adquirindo bens materiais de que precisamos tanto como de levar um pontapé nas costas todos os dias ao acordar. Mas mesmo assim, sim, ainda fico espantado. Ainda me contorço todo em vergonha alheia com o quão patéticas e absurdas as pessoas conseguem ser por causa de coisas e coisinhas. Com esta demência de se achar que aquele objeto nos confere essa exclusividade de sermos diferentes (superiores) aos demais, e por isso, felicidade.

Reparem, ao que parece, e para fechar aqui este círculo glorioso da estupidez humana, já tem havido um monte de queixas de detentores de relógios Audermars Piguet, porque a marca perdeu valor ao juntar-se à Swatch e ter este relógio mais “popularucho”. Não é genial?

Eu adorava que estas pessoas todas conseguissem sair por uns momentos da sua demência consumista, e olhassem para tudo isto de fora. Talvez elas próprias achassem que realmente, mais valia levaram um pontapé nas costas.

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