A guerra contra o Irã colocou os EUA em contato com as limitações da superioridade militar. A nova realidade da guerra naval, com o emprego de drones marítimos, o fator geoeconômico e o controle exercido pela democracia desempenham papéis decisivos no curso dessa disputa.
Uma lei de 1973 obriga os presidentes americanos a consultar o Congresso sobre a continuidade de uma guerra no máximo 60 dias depois de seu início.
Esse prazo expirou na sexta-feira. Como não pediu aprovação do Congresso, Donald Trump foi obrigado a declarar que a guerra no Irã “está terminada”.
Isso retira do presidente um fator de pressão sobre o Irã nas negociações, que ele tenta exercer ameaçando voltar a atacar com força avassaladora.
As eleições de meio de mandato de 3 de novembro, que renovarão toda a Câmara e um terço do Senado, pressionam Trump a contornar os problemas econômicos e políticos que a guerra criou. O emprego de forças terrestres, que ajudaria na desobstrução do Estreito de Ormuz, seria politicamente destrutivo para Trump.
Já o regime iraniano está condicionado a ignorar a opinião do povo. O bloqueio naval americano deteriora a qualidade de vida dos iranianos, e isso impacta o regime negativamente, mas ele não tem um calendário eleitoral com que se preocupar. O intenso contrabando no Estreito de Ormuz não neutraliza essa asfixia, mas suaviza um pouco.
O repórter Adrian Blomfield, do jornal inglês The Telegraph, percorreu o estreito em uma lancha, e contou cerca de 300 barcos por dia, transportando combustível para Omã e produtos de primeira necessidade para o Irã. Há também os barcos de pesca. Misturam-se nesse trânsito as lanchas rápidas da Guarda Revolucionária Islâmica, capazes de disparar mísseis e lançar minas marítimas.
Uma espessa névoa cobre constantemente o estreito, por causa do calor e das costas escarpadas, que retêm a umidade. A água tem uma qualidade opalescente, que muda sua cor conforme reflete a luz. Tudo isso dificulta as atividades de reconhecimento aéreo pelos aviões e drones inimigos.
E há a contundência da guerra assimétrica no mar. Mesmo sob bloqueio naval e depois de perder boa parte de sua marinha, a Ucrânia foi capaz de destruir um terço da frota russa e rechaçar o restante no Mar Negro, com uso de drones aéreos e marítimos, mísseis e minas aderentes.
“É difícil vê-los e ainda mais difícil detê-los”, disse ao repórter um funcionário de defesa ocidental, referindo-se aos iranianos. “No momento, a melhor solução para desobstruir o estreito é a diplomacia.”
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