A crise alimentar contemporânea não é apenas uma questão de saúde pública nem um desdobramento colateral da crise climática. Ela constitui a expressão concreta de um mesmo modelo econômico que, ao transformar comida em mercadoria global, passou a produzir simultaneamente corpos doentes e ecossistemas em colapso. É nesse contexto que a saúde pública passou a nomear essa convergência como “sindemia global”: a interação sinérgica entre obesidade, desnutrição e mudanças climáticas. Aqui não se entende estas como uma infeliz coincidência de crises paralelas, mas de um modelo orientado à extração e ao consumo, que esgota, de forma sistemática, tanto a base material do planeta quanto os corpos que o sustentam.
Essas três emergências compartilham determinantes estruturais e retroalimentam-se no interior de uma arquitetura que fragmentou a própria experiência do real. Ao instituir a separação entre natureza e sociedade, a modernidade produziu sistemas alimentares e urbanos incapazes de responder à complexidade dos fenômenos que ela mesma engendrou. A produção intensiva voltada à exportação de commodities constitui uma expressão paradigmática dessa ruptura: ao externalizar seus impactos ecológicos e sociais, o agronegócio degrada territórios enquanto simultaneamente consolida padrões alimentares associados tanto à desnutrição quanto à obesidade.
A tendência global de direcionamento da agricultura para produtos de alto valor financeiro e baixo valor nutricional explicita essa interdependência. O modelo produtivo que intensifica o desmatamento, reduz a biodiversidade e amplia a pressão sobre os recursos hídricos é o mesmo que encarece o alimento in natura.
Os impactos ambientais, por sua vez, não apenas decorrem desse arranjo, mas o intensificam. Em um contexto em que os efeitos da crise climática deixam de ser projeções futuras e passam a se manifestar como experiência cotidiana em diferentes regiões do planeta, eventos climáticos extremos como secas prolongadas, enchentes e quebras de safra destroem sistemas produtivos inteiros e aprofundam a dependência de ultraprocessados entre populações vulnerabilizadas.
A economia de mercado atua como vetor organizador dessa dinâmica, subordinando a reprodução da vida à lógica da rentabilidade. Saúde, ambiente e finanças deixam de ser esferas analiticamente separáveis: passam a operar como dimensões de um mesmo metabolismo disfuncional.
A partir da perspectiva de Bruno Latour, esse arranjo pode ser lido como expressão do impasse constitutivo da modernidade. O sistema capitalista produz continuamente “híbridos”, isto é, redes sociotécnicas que articulam sementes, clima, mercados financeiros, agrotóxicos e saúde humana. No entanto, essas mesmas redes são governadas por categorias purificadas, que insistem em separar natureza, sociedade e economia. É essa operação que autoriza, simultaneamente, a concepção da terra como insumo inesgotável e a redução das doenças crônicas a desvios individuais ou determinantes genéticos.
A sindemia global configura-se, portanto, como um fenômeno radicalmente híbrido. À luz da teoria sistêmica, sua complexidade não reside apenas na multiplicidade de componentes, mas nas interações dinâmicas, não lineares e frequentemente imprevisíveis entre eles. Reduzi-la a uma única dimensão – biomédica, climática ou econômica – implica não apenas empobrecimento analítico, mas incapacidade prática de intervenção. A crise contemporânea é, nesse sentido, simultaneamente material e epistemológica: evidencia a falência de um pensamento reducionista diante de realidades estruturalmente interdependentes.
A persistência dessa trajetória de colapso encontra respaldo no que Isabelle Stengers denomina imperativo do avanço capitalista. Trata-se de uma narrativa de progresso fundada no crescimento contínuo, que constrange a ação política mesmo diante de evidências robustas de exaustão ecológica. O reconhecimento científico da insustentabilidade do modelo não tem sido força suficiente para frear sua reprodução.
Nesse contexto, respostas baseadas exclusivamente em ajustes técnicos, como a descarbonização parcial da matriz energética ou a taxação de alimentos ultraprocessados, revelam-se insuficientes. O que está em jogo não é apenas a correção de externalidades, mas a necessidade de reconfiguração das bases ontológicas que orientam a relação entre sociedade e natureza. É nesse ponto que a crítica aos híbridos modernos encontra ressonância no Bem Viver. Oriundo de cosmovisões indígenas andinas, esse horizonte recusa a racionalidade utilitarista e propõe uma ontologia relacional, na qual humanos, não humanos e territórios constituem uma trama indissociável.
Se, como argumenta Bruno Latour, jamais fomos modernos, o Bem Viver evidencia que outras formas de organizar a vida coletiva não apenas existiram, mas persistem e resistem. Não se trata de um retorno nostálgico ao passado, mas do reconhecimento de epistemologias ativas, capazes de orientar arranjos alternativos de produção, consumo e governança.
A agroecologia e a agricultura regenerativa emergem como expressões materiais dessa perspectiva. Ao reintegrar processos ecológicos e práticas sociais, operam deliberadamente no plano dos híbridos. A conservação do solo, a diversificação produtiva e a redução do uso de agrotóxicos deixam de ser meras métricas ambientais e passam a constituir estratégias de reprodução da vida em contextos de instabilidade climática. Nesse horizonte, os saberes tradicionais não são vestígios culturais, mas formas sofisticadas de inteligência etnoclimática, fundamentais para a adaptação no Antropoceno.
A articulação entre rigor científico e saberes tradicionais abre caminho para a produção de conhecimentos mais aderentes à complexidade contemporânea. Nesse processo, a ciência desloca-se de uma posição de exterioridade e controle para uma prática situada, relacional e experimental, comprometida com a construção coletiva de territórios resilientes.
Enfrentar a sindemia global exige mais do que integração de políticas públicas. Exige um gesto epistemológico e político de desaprendizado. Implica renunciar à ideia de progresso linear, infinito e universalizável. A sobrevivência no Antropoceno dependerá da capacidade de reconfigurar nossas formas de habitar o mundo, reconhecendo nossa condição de interdependência.
Ao dialogar com o Bem Viver, torna-se possível vislumbrar que a saída para a policrise contemporânea não reside em soluções tecnológicas isoladas, mas na reorientação profunda das formas de existência que sustentam a vida no planeta. Em um mundo que insiste em tratar a vida como recurso, talvez a ruptura mais radical seja justamente reaprender a habitá-la como relação.
Sâmela Klein Silvano
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