Talvez o momento mais verdadeiro do nacionalismo da direita tenha ocorrido quando manifestantes bolsonaristas estenderam a bandeira norte-americana na Avenida Paulista em pleno dia da pátria brasileira. Eles se denominam “patriotas” e se cobrem de verde e amarelo, mas comemoram barreiras contra as exportações brasileiras, pedem intervenção americana nas eleições nacionais e, agora, tratam como uma vitória o que é um evidente risco para o país e suas instituições.
É um patriotismo pelo avesso. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, chegou a colocar o boné com a marca “Make America Great Again” na época da posse de Donald Trump. Mas já estava claro para qualquer pessoa que, na visão trumpista, os Estados Unidos só podem ser grandes em detrimento de outros países. A conta não tardou muito, em abril do ano passado, o presidente norte-americano anunciou o tarifaço contra o mundo. O Brasil ficou com uma das maiores tarifas e elas feriram duramente as empresas do estado governado por Tarcísio. Foi o governo Lula que dissolveu a maior parte desse ônus para a economia brasileira.
O patriotismo histriônico e estigmatizado que berra, agarra a bandeira, militariza os símbolos nacionais em atos patéticos não tem nada a ver com o verdadeiro e sereno amor à pátria ou o entendimento de quais são os reais interesses dos que nasceram nesta terra ou a escolheram como sua.
São muitos os riscos decorrentes da definição das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Uma das primeiras consequências práticas pode ser o enfraquecimento dos mecanismos atuais de cooperação no combate a essas quadrilhas. O Brasil perde interlocução com o FBI e o assunto passa para a alçada da CIA. Combater o tráfico de drogas e armas deixa de ser uma questão policial, em que organismos dos dois países podem trocar informações. O tema passa ser uma questão da segurança nacional americana, portanto, entregue aos espiões. A partir dessa decisão do governo americano, ficam legalmente permitidas missões de espionagem da CIA no Brasil, sem a anuência ou conhecimento do governo brasileiro.
Há ameaças econômicas também. Num mercado financeiro globalizado, bancos nacionais operam o tempo todo no mercado americano. Qualquer dúvida que paire sobre instituições brasileiras pode se transformar em limitação para as suas operações. Empresas também que tenham negócios com firmas americanas podem encontrar constrangimentos.
O senador Flávio Bolsonaro comemorou a decisão do governo Trump como uma vitória política. O ato é visto como uma tábua de salvação para uma candidatura que está em apuros pela revelação da intimidade que ele mantinha com o banqueiro corruptor Daniel Vorcaro. Como a decisão do governo americano ocorreu logo após seu encontro com o presidente dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro pode reivindicar autoria do atentado.
O Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital são de fato terríveis organizações, extremamente perigosas, que se expandem. Qualquer pessoa pode se sentir ameaçada pelo terror que elas espalham com suas ações e concluir que faz sentido defini-las como terroristas. Não é a definição em si o problema, e sim o que isso implica do ponto de vista legal.
Vale a esta altura da comemoração bolsonarista perguntar a Flávio Bolsonaro: e as milícias, senador? Curiosamente, ele guarda silêncio sobre a organização criminosa que também aterroriza cidadãos do Rio de Janeiro. No passado recente, ele já elogiou, empregou e condecorou milicianos e seus familiares.
Há um fio que liga as patriotadas do governo militar e o comportamento dos líderes bolsonaristas. Tanto na ditadura quanto agora, a direita declara ser a detentora única do amor à pátria quando na verdade é capaz das maiores traições. Tanto o ataque ao patrimônio natural do país, quanto os acordos entreguistas que beneficiam outros países em detrimento do Brasil. Têm ainda em comum a devoção à potência estrangeira.
O assunto se presta a muita confusão, manipulação e falsidade. E é a essa tarefa que Flávio Bolsonaro está dedicado no momento. Ele está usando o sentimento natural de repúdio das pessoas contra as organizações criminosas, e tratando a decisão do governo americano como um serviço ao país. O que isso pode significar na prática, contudo, não lhe interessa. Flávio Bolsonaro continuará no seu show de bajulação ao presidente dos Estados Unidos. E chamará a isso patriotismo.
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