quinta-feira, 19 de março de 2026

Ao sair atirando, peça-chave do governo fragiliza Trump na base

O pedido público de demissão, nesta terça-feira, em protesto contra a guerra no Irã, do diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo (NCTC, na sigla em inglês), Joe Kent, escolhido a dedo pelo presidente Donald Trump, pegou o primeiro escalão do governo de surpresa. Ao sair atirando contra o governo, o oficial mais graduado na missão de desbaratar ações terroristas contra os americanos ilustrou como a decisão da Casa Branca de atacar Teerã fraturou a base de modo inédito e ainda deu fôlego para a crítica de parte substantiva da oposição de que as agressões no Oriente Médio, em sua terceira semana, teriam sido teleguiadas por Israel. Os americanos irão às urnas em novembro para decidir quem comandará o Congresso a partir de 2027.

"Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã”, escreveu Kent em rede social. Veterano de guerra do Iraque, ele perdeu sua companheira, Shannon, também militar, na Síria. Ferrenho crítico das incursões americanas no Oriente Médio, juntou-se ao Trump 2.0 por acreditar, como frisa em sua mensagem de despedida, direcionada ao presidente, que “o senhor compreendera que as guerras no Oriente Médio foram armadilhas, responsáveis por subtrair vidas preciosas de nossos patriotas e esgotar a riqueza e a prosperidade de nossa nação”.

Kent também argumentou que Teerã “não representava uma ameaça iminente ao nosso país, e está claro que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby nos EUA”. Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu é dos mais próximos aliados do Trump 2.0. Foi recebido na Casa Branca cinco vezes desde o retorno do republicano ao poder em janeiro de 2025, a mais recente em fevereiro deste ano — além de mais uma em Mar-a-Lago, a residência particular de Trump na Flórida, um recorde absoluto — e tem, de acordo com o próprio presidente, conversas diárias com o parceiro desde o início das agressões ao Irã, em 28 de fevereiro. Indicado em fevereiro de 2025, o diretor do NCTC foi sabatinado e aprovado pela maioria do Senado em julho, quando explicitou sua visão isolacionista, sacerdote do credo dos “EUA Primeiro”. Sentiu-se traído por Trump. Não é o único.

Além da deputada Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, que abandonou sua cadeira ao romper publicamente com a Casa Branca, vozes com amplo poder de mobilização popular, cruciais para o voto em novembro, e alinhadas ao movimento Faça os EUA Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês), entre eles o ex-apresentadores da Fox Megyn Kelly e Tucker Carlson, e os podcasters conservadores Matt Walsh e Joe Rogan, também denunciaram publicamente o que classificam como "desvio ideológico" de uma Casa Branca ativa no tabuleiro geopolítico global. E com feições cada vez mais distantes da do vice-presidente JD Vance e mais próximas da do secretário de Estado, Marco Rubio, defensor de intervenções cirúrgicas e arriscadas.

Seu maior tento foi a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, após o asfixiamento econômico do país, tática que busca agora repetir na Cuba de seus antepassados. O Irã, no entanto, se prova missão muito mais complexa, com a resistência feroz de um regime que não acena com a possibilidade de futuras colaborações esdrúxulas com Washington. Ao contrário. Teerã, de acordo com uma fonte do Partido Democrata, tem hoje o potencial de se transformar no que ela traduziu como “a ratoeira do Trump 2.0”.

Principal nome da ainda acéfala oposição para 2028, e às voltas com o lançamento de sua autobiografia, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, foi dos primeiros a questionar se os EUA não travam no Irã uma "guerra de opção", deflagrada quando Washington negociava com Teerã, e as perspectivas de avanço no desbaratamento do aparato nuclear do país eram promissoras. A ala esquerda da sigla já fala, em caso de vitória em novembro, em invesigar se o Irã de fato planejava um ataque a alvos americanos. Se comprovada a falsidade, defendem emparelhara à da invasão americana ao Iraque em 2003, a partir de premissas depois comprovadamente inexistentes do governo George W.Bush, repudiado pelo trumpismo.

Ao dizer, sem meias palavras, que Trump arriscava vidas locais – já são pelo menos 13 americanos mortos desde 28 de fevereiro — para ajudar Netanyahu, Newsom foi acusado de antissemita e, menos grave, mas com potencial real de prejudicar suas ambições políticas, cauteloso em excesso, tal qual a Casa Branca anterior, notadamente sua amiga próxima e ex-vice-presidente Kamala Harris. Como ela, o governador seria incapaz de se aproveitar da possibilidade de destruir um inimigo quando este estava mais débil, caso do Irã hoje.

Daí o peso da crítica devastadora de Joe Kent, um representante puro-sangue da vertente ideológica do Maga. Foi justamente depois dos horrores que viu no Oriente Médio que o militar tentou duas vezes se eleger, sem sucesso, ao Congresso, pelo estado de Washington, localizado na Costa Oeste, um bastião democrata. Militou então nas alas mais extremistas da direita do Partido Republicano.

Para além de colocar, de dentro das hostes trumpistas, o dedo na ferida persa, que não parece, como defendia a Casa Branca, pronto para desabar, sua defecção também tem outra relevância de peso. Até esta terça-feira ele era o responsável por cuidar das estratégias de contraterrorismo do país. E especialistas afirmam que uma das possibilidades mais óbvias em uma guerra estendida com o Irã é o incremento de ataques terroristas contra alvos americanos, ainda que provavelmente não dentro dos EUA, o que poderia afetar os números ainda majoritariamente altos de aprovação da direita ao Trump 2.0.

Ao todo, pelo menos cinco agressões foram registradas na Europa e nos Estados Unidos em menos de duas semanas. Embora nenhuma delas tenha sido atribuída oficialmente ao Irã, serviços de inteligência europeus afirmam que Teerã dispõe hoje de uma rede composta por agentes e criminosos voltada para realizar operações clandestinas mundo afora.

O cientista político Javed Ali, professor da Universidade de Michigan, que trabalhou no Conselho de Segurança Nacional no primeiro governo Trump argumentou que o ataque devastador ao Irã aumentaria exponencialmente os riscos de ataques terroristas patrocinados pelo Irã contra alvos americanos, o que complicaria ainda mais a situação de Trump, cada vez mais isolado interna e externamente, vide a recusa dos países europeus de enviarem aparato militar para garantir a abertura do Estreito de Ormuz e diminuir o pânico no mercado global de energia:

— Embora o Irã não tenha, hoje, capacidade de atos de terror dentro dos EUA, há possibilidade de ações contra cidadãos e interesses americanos fora do país. Na América do Sul, e não só na Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, os governos devem aumentar a vigilância nos próximos meses — afirmou.

Eduardo Graça

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