E ele fará mais. E exilará mais pessoas. E reprimirá mais, muito mais. E prenderá mais, muito mais. Quem não quiser ver, que não olhe. Quem não quiser ver, que espere, mais cedo ou mais tarde terá que ver. Bukele tem 44 anos e, aparentemente, muita vontade e energia para continuar fazendo o que bem entender.
Para aqueles de nós que sofremos com esse poder arbitrário, seja no exílio ou naquele país que nada mais é do que a propriedade de Bukele, resta apenas sobreviver e, se possível, continuar fazendo o que levou à nossa perseguição: jornalismo, ativismo, política, arte, engajamento cívico.
Mas nós, como cidadãos oprimidos, também ficamos com algo mais, algo imperativo, mesmo que pareça inatingível; algo criativo em meio à repressão. Ficamos imaginando El Salvador depois de Bukele. Porque as ditaduras chegam ao fim, mesmo que pareçam rochas imortais; elas morrem, desmoronam, e então restam apenas fragmentos, não mais rocha, mas sujeira, desordem.
Voltarei a este tema em outra coluna, pois não se pode imaginar o futuro de uma nação sozinho ou em um curto período de tempo. Posso ser um bom cronista, mas não me atrevo a descrever imagens desse futuro que virá, porque ele virá, mas me atrevo a levantar questões para este presente que devem alimentar o que está por vir.
Como ensinaremos aos futuros policiais, hoje com pouco mais de vinte anos, que não podem prender quem bem entenderem simplesmente para satisfazer a retórica política do líder? Como ensinaremos aos promotores que não podem acusar dezenas de pessoas em um único caso sem qualquer prova? Como ensinaremos aos juízes a condenar apenas se houver provas? Como lembraremos aos patologistas forenses que sejam meticulosos e examinem os corpos liberados da prisão como se fossem os de um irmão, e que escrevam nas autópsias que o ferimento parecia ser resultado de traumatismo contuso, e não de "edema pulmonar", como escrevem em todos esses relatórios? Como obrigaremos os guardas prisionais a eliminar a tortura de seus protocolos?
Como iremos puni-los? Quem iremos punir? Quem iremos perdoar? Porque o perdão será necessário, não se enganem, o perdão será necessário. Quem iremos punir?
E os soldados… Os soldados como… Como faremos a única coisa que precisa ser feita com eles, que é colocá-los de volta nos quartéis? Como os faremos entender que foram necessários 12 anos de guerra sangrenta para impedi-los de vagar pelas ruas prendendo nossas crianças quando bem entendem, cortando seus cabelos ou controlando o Ministério da Educação? E se, agora que estão tão empoderados, ainda se recusarem a entender, como lidaremos com eles e seus fuzis?
E o que diremos aos jornalistas que se tornaram propagandistas da ditadura, funcionários da máquina de mentiras, zombaria e difamação, quando tudo isso acabar? O que diremos quando eles argumentarem que também tiveram medo, que tinham filhos para alimentar? E o que diremos aos acadêmicos que se venderam, que abandonaram toda evidência e metodologia para aplaudir, com sua linguagem rebuscada, a construção de um ditador? Não tínhamos escolha, dirão alguns, quando tantos outros tiveram que ir para o exílio. O que diremos a eles?
E como vamos convencer aqueles artistas que, como é normal, atualmente não se atrevem a fazer arte livre e crítica de protesto, de que o passado acabou, de que queremos que eles sejam críticos, rebeldes e livres novamente?
E o que diremos àqueles que, sem dúvida, se beneficiaram da ditadura — empresários, parlamentares, funcionários públicos, diplomatas — e que, quando tudo isso terminar, talvez fiquem com os bolsos cheios de moedas? Deixaremos que eles recebam suas moedas?
Como nos tornaremos novamente uma república, onde todos, ou quase todos, se encaixem? Como nos livraremos da raiva e seguiremos em frente sem que o ódio nos prenda?
Vamos nos questionar sobre isso e muito mais. Vamos nos questionar sobre isso, especialmente aqueles que são oprimidos hoje. Vamos resgatar o que nos aconteceu enquanto idealizamos um país que não existe, mas que esperamos que venha a existir. Vamos contar essa história para nós mesmos.
Como faremos isso quando Bukele não for mais todo-poderoso?
Oscar Martinez

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