Safatle parte de um diagnóstico de época: “A última década deixou claro como vivemos no interior de uma conjunção inédita de crises: ecológica, demográfica, social, econômica, política, psíquica e epistêmica. A isso podemos chamar de “crises conexas”, pois estão conectadas e se retroalimentam”. Essas crises, imanente ao próprio modo de produção capitalista, garantem a força e a persistência do fascismo.
Entretanto, em seu rastreio das condições de possibilidade do fascismo, Safatle encontra-as no cerne do próprio sujeito moderno. Segundo ele, fascismo não pode ser usado apenas para se referir a uma ordem político-econômica (aquela que emergiu na Europa do entre guerras), mas que descrevesse “uma forma específica de violência e dessensibilização social assentada na expressão aberta e generalizada de traços fundamentais da estrutura própria à personalidade da individualidade moderna”. Desta maneira, seria possível compreender que a individualidade que é socialmente produzida pela ordem liberal, é necessariamente agressiva, rígida, autoritária. Em suas palavras: “como se a personalidade do indivíduo moderno portasse o germe de sua própria realização como fascismo”.
Esse é o ponto que me parece mais interessante do livro do professor Safatle. Sua contribuição reside na possibilidade de compreender o núcleo estrutural por trás da racionalidade fascista, que nunca desapareceu – lembremos. Por um lado, esse procedimento acaba achatando diferenças importantes entre as formas historicamente específicas pelas quais tal princípio emerge – o fascismo histórico possui particularidades que o diferenciam do fascismo contemporâneo e certamente ambos não são a mesma coisa que o horror do colonialismo. Entretanto, por outro lado, o mérito de Safatle está exatamente em explorar as conexões entre “violência racial ordinária, extermínio colonial e fascismo”.
Desta maneira, Safatle evita as interpretações do fascismo que pouco colaboram na compreensão do fenômeno, pois interpreta-o como um fenômeno puramente psicologizante, embora possa ser materialmente informado. Isto é, dizer que tal sujeito é fascista porque ressentido, porque não pensa direito, porque apenas segue o líder, não ajuda em entender o fascismo, mas “só serviam para alimentar nossas ilusões narcísicas de superioridade moral, em vez de fornecer alguma arma teórica eficaz para lutar contra o pior”. Sua leitura, portanto, ajuda a compreender como o mesmo impulso da modernização, que pretendia civilizar, educar, desenvolver, carrega em seu cerne a matriz violenta do fascismo.
Outro mérito do livro de Safatle é a mobilização dos recursos conceituais da psicanálise para interpretar o fascismo, alinhando-se já há uma longa tradição de crítica, mas avançando em relação a ela. Apoiado nas interpretações da primeira geração da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno, Safatle afirma que a violência fascista não é caracterizada por um excesso de destrutividade, “mas, paradoxalmente, excesso de preservação”. Trata-se de uma tentativa violenta de preservar a personalidade narcísica e a identidade dela com o mundo falso. Contudo, a preservação tem como condição necessária a eliminação do outro que ameaça essa identidade. Por isso o fascismo possui um impulso genocidário.
Por outro lado, essa identidade em colapso com o mundo falso movimenta também o “desejo social de autodestruição”. Apoiado na leitura de Paul Virilio do Estado Suicidário, Safatle vai perceber que a lógica de autopreservação dá no seu contrário: diante de uma destruição dos princípios da identificação fetichista do eu com o mundo experimentado como catástrofe uma narrativa é construída que seja “capaz de dar sentido heroico à degradação da vida cotidiana”. Uma espécie de auto-sacrifício para sustentar seus ideais narcísicos.
Ou seja, o fascismo baseia-se, ao mesmo tempo, na eliminação do outro e de si próprio, instaurando um regime duplo: genocidário e suicidário. Dessa maneira, ocorre, como descreve Safatle, uma militarização das subjetividades como forma de se referir à estratégia de defesa do Eu dessa personalidade unidimensional que conecta o mundo corporativo do empreendedorismo de si ao mundo militar de culto às armas. É nesse ponto, escreve o autor, “o masculinismo aparece em toda sua força, como uma formação defensiva diante da impotência social real” .
Como Safatle afirma, o fascismo se tornou uma resposta realista às crises, pois elas reforçam a identidade destrutiva dessas crises, dependem dela e com ela avançam. Não é à toa que Edward Luttwak dizia ser o fascismo a onda do futuro. Para impedir que esse futuro se confirme, “então não deveríamos temer afirmar que só um irrealismo delirante pode nos salvar. Há momentos históricos nos quais o delírio é a única saída consequente”. Talvez só assim, o fascismo não seja o nosso derradeiro horizonte.
Thiago Canettieri
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