sábado, 7 de novembro de 2026

Um país para depois da vitória

Na noite de 25 de outubro, poucas horas depois de confirmada sua vitória, Lula disse que, encerrada a eleição, já não tinha mais adversários: precisava governar para 215 milhões de brasileiros. Ninguém era obrigado a gostar do presidente eleito, acrescentou, mas ele teria de governar para todos. A frase parece simples. Não é. Uma eleição termina quando os votos são contados. As divisões que revelou não desaparecem na mesma noite. Vencedores e vencidos continuam morando nas mesmas cidades, trabalhando lado a lado e dependendo das mesmas instituições. O adversário derrotado continua sendo cidadão no dia seguinte.

O que significa, então, governar para 215 milhões? A pergunta importa ainda mais porque esta eleição produziu algo que não aparece nas planilhas de resultados. Entre os dois turnos, muita gente que recebera com desalento o resultado de 4 de outubro voltou a agir. Estudantes foram às ruas, redes se organizaram, pessoas procuraram amigos, parentes e colegas, discutiram, convenceram, buscaram votos. Muitos descobriram que sua participação podia alterar o curso de uma eleição.

Seria um enorme desperdício se essa energia se dissipasse. Uma eleição democrática precisa terminar. A cidadania que ela despertou, não. O desafio é preservá-la sem preservar a lógica da guerra eleitoral.

Como transformar, então, a energia de uma vitória política em força para construir um país que continue pertencendo também aos que foram derrotados?


Trinta e dois anos atrás, em circunstâncias incomparavelmente mais dramáticas, Nelson Mandela enfrentou uma versão extrema desse desafio. Após 27 anos na prisão, tomou posse como presidente da África do Sul, em 1994. O apartheid deixara mortos, presos, exilados, famílias destruídas e uma sociedade organizada pela segregação racial e pela exclusão da maioria negra do poder político. Mandela tinha razões pessoais para o ressentimento e legitimidade política suficiente para fazer dele um instrumento de poder. Escolheu outro caminho.

Seu governo incluiu antigos adversários. F. W. de Klerk, último presidente do regime do apartheid, tornou-se um dos vice-presidentes da nova África do Sul. Isso não apagou as diferenças entre os dois. Mandela continuou a confrontá-lo e a denunciar as responsabilidades da ordem que o mantivera preso. Trabalhar juntos era uma necessidade. Sua reconciliação não dependia de esquecer quem fizera o quê, mas de reconhecer que antigos inimigos continuariam pertencendo ao mesmo país. Democracias precisam de adversários. O perigo começa quando deixamos de reconhecer no adversário o direito de pertencer à mesma comunidade política.

A África do Sul mostrou também que reconciliação não é esquecimento. A Comissão da Verdade e Reconciliação ouviu vítimas, investigou violações, propôs reparações e examinou pedidos de anistia. Se a memória diz de onde viemos, a reconciliação pergunta se, sabendo disso, ainda conseguiremos construir juntos.

Mandela compreendia, porém, que nem isso bastava. Em 1997, afirmou que não poderia haver reconciliação sem reconstrução e desenvolvimento. A história posterior da África do Sul transformaria a frase numa advertência.

A transição política foi extraordinária. Já a transformação das estruturas materiais herdadas do apartheid, muito menos. Três décadas depois, a África do Sul continua entre as sociedades mais desiguais do mundo: seu índice de Gini – numa escala em que zero representa igualdade perfeita e 1, desigualdade máxima – é de 0,541. O do Brasil, ele próprio profundamente desigual, é de 0,503. A igualdade perante a lei avançou muito mais rapidamente do que a igualdade das condições de vida.

Até onde uma sociedade consegue se reconciliar politicamente quando aquilo que materialmente separa seus cidadãos permanece quase intacto? Talvez uma reconciliação duradoura exija mais que tolerância. Exija pertencimento. É aí que a frase de Lula sobre os 215 milhões deixa de ser apenas uma declaração de boas intenções.

Governar para todos não significa abandonar o programa que venceu as eleições. Significa governar segundo um projeto sem transformar aqueles que votaram contra ele em estrangeiros dentro do próprio país. Quando um cidadão entra numa unidade do SUS e é atendido sem que ninguém lhe pergunte em quem votou, há ali algo maior do que a prestação de um serviço. Quando uma criança encontra numa escola pública professores, ciência, cultura e oportunidades que sua família talvez não pudesse lhe oferecer, acontece algo semelhante. O país lhes está dizendo: este país também é seu. Talvez devêssemos pensar essas instituições também como infraestruturas de pertencimento. Isso não exige que conservadores e progressistas concordem sobre impostos, segurança, costumes, meio ambiente ou o papel do Estado. Uma democracia saudável não é uma sociedade sem conflitos. É uma sociedade capaz de tê-los sem transformar cada divergência numa guerra entre pessoas que deixaram de se reconhecer como concidadãs.

Talvez a melhor maneira de reduzir a polarização não seja pedir aos brasileiros que esqueçam suas diferenças, mas oferecer-lhes coisas importantes para construir juntos. É também por isso que a mobilização do segundo turno não deveria desaparecer. Pessoas que descobriram que sua ação podia mudar uma eleição podem descobrir que ela também consegue mudar uma escola, um bairro, uma cidade.

Durante muito tempo, acostumamo-nos a ouvir que o Brasil era o “país do futuro”. A expressão de Stefan Zweig, originalmente esperançosa, adquiriu uma ironia que seu autor certamente não imaginava: o futuro brasileiro parecia estar sempre alguns anos adiante. Talvez esteja na hora de aposentar a expressão. Não porque o futuro tenha finalmente chegado. Nenhum futuro chega sozinho. Mas porque, entre os dois turnos, milhões descobriram que sua ação podia mudar o rumo do país.

Essa experiência pode desaparecer na memória de mais uma campanha. Ou produzir uma descoberta mais duradoura: participação não precisa ser convocada apenas quando chega a hora de votar. Mandela mostrou que sociedades podem escapar de destinos que pareciam inevitáveis. A África do Sul mostrou que nenhuma vitória política termina o trabalho da história.

O país precisa preservar a energia dos que se mobilizaram sem transformá-la em combustível para uma guerra permanente contra os que perderam. Precisa lembrar sem fazer da memória uma prisão e governar segundo o programa escolhido pela maioria sem transformar a minoria em estrangeira dentro do próprio país. Governar para 215 milhões não significa imaginar que todos passarão a pensar da mesma maneira. Significa construir um país em que possamos discordar profundamente e continuar pertencendo ao mesmo futuro. Talvez o Brasil deixe de ser o eterno país do futuro no dia em que compreendermos que o futuro não é um lugar para onde estamos indo. É aquilo que 215 milhões de brasileiros forem capazes de construir juntos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário