sábado, 7 de novembro de 2026

Os livros, a IA, as manifestações e o Mal

Pensar o tempo em que vivemos implica convocar um conceito que, sendo da ordem da filosofia e da religião, é também da ordem política e educativa: o Mal. Como acontecimento bíblico, o Mal é o espírito oposto ao de Cristo, é a palavra de simulacro (Lúcifer, pela serpente, engana Eva). Para Jérôme Porée, o Mal é, na senda de Santo Agostinho, a impossibilidade de a razão primeira, Deus, ter eco nos corações humanos. Na filosofia, di-lo Ricoeur e lembra-o Gabriel Marcel, o Mal é a mentira estabelecida como programa da desrazão, o fim do pensamento. Se o Homem foi animal que pensa, o Mal propõe um homem todo instinto e fúria, tomado pela inconsciência. Na política, o Mal concretiza-se por meio do terrorismo de Estado: as cargas policiais escondem o vazio da ação política.


As manifestações contra a nova lei das rendas – PSD, CH, e IL suportados pela abstenção absurda e contranatura do PS – são legítimas e necessárias para que o Mal não se estabeleça na sociedade portuguesa. O Mal como benefício dos poderosos, desrazão e totalitarismo – não é isso que está em marcha um pouco por todo o mundo? Não é o esmagamento dos povos e das democracias? Há o artigo 45º da Constituição, que urge fazer lembrar aos políticos e aos comentadores que insistem em inventar restrições às liberdades e garantias a todos os portugueses; liberdades e garantias consignadas na Constituição e, por isso, vinculativas a políticos e a polícias. Eis o artigo que políticos e polícias não podem ferir sem eles próprios serem criminalmente responsabilizados: “consagra o direito de reunião e de manifestação: Nº 1 (Direito de reunião): Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização. Nº 2 (Direito de manifestação): A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação. Sem autorização prévia: Para exercer este direito em espaços públicos, os cidadãos não precisam de pedir autorização ao Estado ou à polícia. […].”

O Mal é anticristão. Não é que uma visão escatológica da História esteja hoje em processo. Ou, se estiver, que a leitura apocalíptica do humano esteja a cumprir-se. Patmos, o lugar, e João, a pessoa, porém, existiram. Essa profecia existe. Por isso paira no ar o pressentimento do fim. A IA destrói milhares de milhões de livros. Apropria-se de todo o conhecimento humano e prepara-se para ter o poder totalitário. São as grandes empresas de Silicon Valley, é Elon Musk e o sonho não de um III Reich onde a barbárie é lei, mas de um Reich digital onde a figura do nerd é juiz de todos os outros, decidindo pela força dos seus biliões de biliões de dólares, as políticas totalitárias a seguir.

O Mal tem como sonho final o nada. “A grande amnésia”, escreveu David Mourão-Ferreira num poema dos anos 60. Estudantes que nada estudaram porque o ChatGPT fez tudo por eles; universidades transformadas, como as escolas, em meros centros de dados, onde a Humanidade despreza o saber e a reflexão, detestar saber é um sintoma do Mal. O Mal é uma máquina trituradora de direitos humanos: é a planificação organizada do tudo igual para todos: salário mínimo global, a promessa do dolce far niente porque todos terão robots a pensar e a trabalhar por nós. O Mal é, como fenómeno, o fim das diferenças próprias da natureza. Uma imagem talvez explique melhor: o Mal é a terraplanagem da Amazónia, são os painéis solares ao longo de milhares de quilómetros em vez de árvores na sua multiplicidade de espécies. O Mal é a promessa do individualismo, o império do ego. O Mal é a turba egoica, a massa egoísta, a uniformização, escreveu Karl Kraus.

As democracias falharam ao colocarem as leis do mercado, as agências de rating, a financeirização da economia, acima das leis do humano, acima da economia real das pessoas. As democracias falharam ao destruírem a exigência no ensino. Ao fazerem da democracia o festival de banalidades em que esse regime se transformou, a democracia estupidificou tudo e todos. Nos últimos 30, 40 anos, a Europa foi traída, as promessas da democracia foram postas na gaveta. Os jovens são violentos? É a única linguagem que têm, fomos nós que os esvaziámos de utopia. Nada de idealismos, só o mais feroz pragmatismo. Sem utopia e sem esperança, o desespero assiste ao Mal. O desespero é a gasolina que alimenta os fascismos. Os portugueses estão desesperados. Como é que Costa, Ursula, Macron, Rutte, Montenegro, entre outros burocratas e carreiristas, não veem o óbvio? E o óbvio é que são eles os responsáveis pelo fim da democracia na Europa. Eles e outros antes deles. O Mal é a vaidade do poder. É o deus-dinheiro.

Aqui chegados, só há uma saída: defender o direito à manifestação do Bem: a paz, o pão, a habitação, a saúde, a educação.

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