quinta-feira, 21 de julho de 2016

Cieps para inglês ver e estudar

Há quatro anos o governo britânico lançou o programa Building Schools for Futures (Construindo Escolas para o Futuro), que pretendia suprir o déficit de salas de aula na Inglaterra com a construção em larga escala de escolas pré-moldadas econômicas e de rápido processo construtivo. O plano do então secretário de educação, Michael Gove, gerou uma intensa polêmica entre os arquitetos ingleses, que viam com desconfiança a ideia de serem produzidas escolas padronizadas com um design inferior e despersonalizado.

Enquanto os empreiteiros se apressaram a apresentar ao governo projetos de kits pré-moldados baratos, ao custo de 1.465 libras (cerca de 1.950 dólares) o metro quadrado, o Royal Institute of British Architects (RIBA) desafiou os arquitetos ingleses a buscarem alternativas para oferecer um projeto escolar de alto padrão de design, pois os modelos até então propostos, segundo eles, equivaliam a galpões que, além de desconfortáveis, dificilmente poderiam ser adaptados a terrenos acidentados.


David Chambers e Kevin Haley, diretores do conceituado escritório londrino de arquitetura e design Aberrant Architecture, vieram, então, ao Brasil buscar inspiração nos Centros Integrados de Educação Pública, construídos no Rio de Janeiro nos anos 80 e 90, durante os dois governos de Leonel Brizola, com projeto educacional de Darcy Ribeiro e arquitetônico de Oscar Niemeyer. Para eles, aquele seria o modelo ideal de escola pública a ser adotado pelo Reino Unido.

A pesquisa realizada por eles resultou em uma impressionante apresentação, com a exibição de réplicas em miniatura dos 508 Cieps construídos no Brasil, contendo seus nomes e localizações, dentro da exposição “Venice Takeaway: Ideas to Change British Architecture” (Veneza Takeaway: Ideias para Mudar a Arquitetura Britânica), realizada pelo British Council para a Bienal de Arquitetura de Veneza de 2012.

No ano seguinte a exposição foi montada no próprio RIBA, no coração de Londres, com grande destaque na imprensa britânica, e agora a pesquisa dos dois arquitetos foi transformada em livro (Wherever You Find People: The Radical Schools of Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro and Leonel Brizola) a ser lançado no final deste ano.

O programa de construção de escolas do governo britânico ainda não deslanchou por conta de dificuldades políticas, mas alguns dos conceitos dos Cieps já foram aplicados em uma escola de ensino fundamental do Leste de Londres, a Rosemary Works, cujo projeto de reforma foi assinado pela Aberrant Architecture. Sabotados pelos governos que sucederam Brizola no Estado do Rio, desprezados pela mídia e pelas elites brasileiras, os Cieps conquistam, enfim, 31 anos depois de lançados, o reconhecimento internacional como um dos mais extraordinários programas educacionais já realizados no mundo.
O blog Toda Palavra entrevistou com exclusividade um dos sócios da Aberrant Architecture para saber por que um projeto de mais de 30 anos, concebido para ser executado em um país tropical marcado por grandes desigualdades sociais e por um baixo padrão de educação pública seria adequado para um país europeu como a Inglaterra. Admitindo que os britânicos também possuem problemas sociais a serem enfrentados, David Chambers destaca a importância da boa arquitetura a serviço da educação.

“Ficamos fascinados ao descobrir que a padronização no Brasil teve como objetivo estender o alcance da arquitetura de alta qualidade para todos. A maioria dos Cieps ficavam em áreas pobres, onde não havia uma boa infraestrutura pública. Então eles assumiram um papel cívico maior”, diz Chambers.

“Os playgrounds cobertos, por exemplo, tornaram-se praças públicas essenciais. Era fundamental que eles fossem além do papel de uma escola: todo o programa preconizava o uso da arquitetura a favor de uma nova filosofia educacional.”

Para o arquiteto inglês não haverá dificuldades em adaptar o projeto do calor dos trópicos para o rigoroso inverno europeu. Ele lembra que isso aconteceria aqui mesmo no Brasil, caso Brizola tivesse chegado à Presidência da República e realizado o seu plano de espalhar 10 mil CIEPs pelo Brasil, pois muitas dessas escolas seriam instaladas em regiões de clima mais temperado, como o Sul do país. David Chambers prefere destacar a robustez dos edifícios, que, segundo ele, estão resistindo bravamente ao tempo e ao abandono.

“Claramente o design tem sido extremamente resistente ao longo do tempo. Construções escolares às vezes sofrem com mudanças sucessivas de administração e por falta de manutenção e de recursos. Mas a alta qualidade do design e da construção tem permitido aos Cieps manterem boa aparência e permanecerem robustos até hoje.”

Luiz Erthal

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Anos de desperdício

O Brasil não aproveita adequadamente seu capital humano, aponta estudo do Fórum Econômico Mundial. Entre 130 países, o Brasil ficou na 83.ª posição do Índice de Capital Humano, que mede como cada nação desenvolve e cultiva o potencial de seu capital humano.

Criado em 2013 para ser uma ferramenta de análise da dinâmica entre educação, emprego e força de trabalho, o índice tem a finalidade de auxiliar a tomada de decisões do poder público e dos agentes privados. Como lembra o Fórum Econômico Mundial, um adequado desenvolvimento do capital humano é decisivo não apenas para a produtividade de uma sociedade, mas também para o funcionamento de suas instituições sociais e políticas.


O estudo analisa a situação de cinco faixas etárias da população – menores de 15 anos, entre 15 e 24 anos, entre 25 e 55 anos, entre 55 e 64 anos e mais de 65 anos – a partir de indicadores de ensino, capacitação e emprego. Em 2015, o foco principal foi estudar os fatores que contribuem para o desenvolvimento de uma adequada, produtiva e saudável força de trabalho. Em 2016, o estudo concentrou seus esforços na busca por melhorar o desenho das políticas educacionais e o planejamento da força de trabalho do futuro.

O cenário global do capital humano está cada vez mais complexo e com evoluções mais rápidas, lembra o Fórum Econômico Mundial. Calcula-se que, até 2020, a cada dia entrarão 25 mil novos trabalhadores no mercado de trabalho, e, em todo o mundo, 200 milhões de pessoas estarão desempregadas. Ao mesmo tempo, estima-se que na próxima década haverá escassez de 50 milhões de trabalhadores altamente qualificados. Desafiador, o cenário impõe aos países repensar tanto a educação ofertada como a gestão do mercado de trabalho.

No topo do índice está a Finlândia, que, entre outros aspectos, conta com uma população jovem altamente qualificada, oferece a melhor educação primária e tem a maior taxa de ensino superior completo na faixa de 25 a 54 anos. Logo abaixo vêm Noruega e Suíça. Na quarta posição está o Japão, que se destaca como primeiro colocado nas duas faixas etárias mais altas – entre 55 e 64 anos e maiores de 65 anos. De acordo com o estudo, 19 países aproveitam ao menos 80% do potencial de seu capital humano.

Com o 83.º lugar no índice, o Brasil ficou em pior posição que Uruguai (60.º), Colômbia (64.º), México (65.º), Bolívia (77.º) e Paraguai (82.º). Aparece na frente de Arábia Saudita (87.º) e Venezuela (89.º), por exemplo.

Ao comentar os resultados brasileiros, o relatório destaca o contraste de ser a maior economia da América Latina e ter índices educacionais tão deficientes. O estudo lembra também que, na percepção dos empresários sobre a disponibilidade de mão de obra qualificada, o Brasil ocupa uma das piores posições. Entre as 130 nações, ficou em 114.º lugar nesse quesito.

Quando se olham os resultados por faixa etária, constata-se que o pior resultado brasileiro se dá entre os menores de 15 anos. Nessa faixa, obteve a 100.ª posição. Dessa forma, sem uma significativa mudança na educação básica, os resultados nacionais tendem a piorar ainda mais com o tempo, já que em relação aos outros países o Brasil desenvolve menos as novas gerações que as faixas etárias mais velhas.

O relatório do Fórum Econômico Mundial afirma que, entre os fatores que propiciam a longo prazo o desenvolvimento de uma nação, o capital humano talvez seja o mais importante. Pode-se, portanto, ver o Índice de Capital Humano também como uma comparação do real investimento de cada país em seu futuro.

Sob essa ótica, não surpreende a posição brasileira no ranking. Os anos de lulopetismo no governo federal foram tempos de desperdício de oportunidades, nos quais se viveu – por deliberada opção política – com os olhos atados ao presente. Característico do populismo, tal imediatismo tem um alto preço social. A população brasileira conhece bem essa conta.

Tragédia e omissão

Há nove anos, às 18h50 do dia 17 de julho de 2007, o Airbus-A320 da TAM saiu da pista do aeroporto de Congonhas e explodiu ao colidir com um prédio do outro lado da avenida. Cento e noventa e nove pessoas perderam suas vidas e o Brasil se chocou com a maior tragédia aérea de sua história.

Acidentes ocorrem por falhas humanas e de equipamentos. E as circunstâncias para o voo 3054 eram totalmente desfavoráveis: chovia, a pista estava escorregadia, faltavam ranhuras para produzir mais atrito entre as rodas e o chão e evitar derrapagens.



Havia outros agravantes: 10 meses antes, um acidente envolvendo um Boeing da Gol, escancarou uma crise no sistema aéreo do país que obrigou o Congresso Nacional a criar a CPI do Apagão Aéreo. Houve greve e prisão de controladores de voo, a falta de comando do governo ficou evidente e o despreparo das companhias parece ter se tornado constante.

Na época, dirigentes sindicais, pilotos e comissários declararam que o acidente “não deve e não pode ser visto como uma fatalidade e sim como um resultado do descaso das autoridades, na regulação e na fiscalização do setor aéreo, e da corrida das empresas do setor por redução de custos”.

Lula, então presidente da República, se omitiu e demorou 73 horas para se dirigir a nação e falar sobre o acidente.

Passados nove anos, o que mudou?

É mais do que evidente que não muita coisa. Na época da tragédia do Airbus da TAM, o governo Lula, numa operação de puro marketing, anunciou mundos e fundos. Que seria construído um terceiro aeroporto em São Paulo, que faria expansões e tantas outras medidas. A maioria não saiu do papel.

Nestes nove anos os aeroportos acumularam problemas.

Movido por seu ranço estatista, o governo Dilma Rousseff pouco avançou nas privatizações que poderiam levar à modernização da infraestrutura aeroportuária.

Em qualquer lugar do planeta, os investidores empregam seu capital onde estejam asseguradas duas condições: regras claras e possibilidade de retorno do investimento.

Um dos graves erros do governo Dilma foi querer definir por decreto taxas de retorno nas concessões, além de impor, em muitos casos, um sócio compulsório aos investidores: o Estado. No caso das privatizações dos aeroportos, a Infraero se transformou em sócio incômodo e, para agravar, o governo mudava as regras do jogo a toda hora.

Tudo isso para não falar na falta de investimentos na integração destes aeroportos com um sistema de transportes urbanos confortável, capaz de prestar serviços de qualidade aos brasileiros e aos milhões de turistas que virão ao Brasil para assistir as Olimpíadas.

Com a crise econômica, as turbulências no setor aéreo recrudesceram. Desequilibradas, as empresas aéreas adotaram medidas duras: corte de rotas e de número de voos, revisões e adiamentos da chegada de novos aviões já comprados, demissões e fim de licenças remuneradas a pilotos.

A lista de problemas está longe de chegar ao fim. Após mudanças das normas de inspeção impostas pela Agência Nacional de Aviação Civil-ANAC, nesta terça feira, passageiros foram obrigados a enfrentar filas enormes. Remarcaram voos ou simplesmente perderam suas viagens, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Caos renovado nos aeroportos brasileiros.

Sem informações, treinamento e o devido aumento de funcionários ou de postos de controle na inspeção, a única recomendação das autoridades foi a de que os passageiros deveriam chegar com mais de duas horas de antecedência de seus voos. E os que seguiram o conselho à risca e madrugaram em Congonhas e no Santos Dumont encontraram balcões vazios, já que o atendimento das companhias aéreas não recebeu as mesmas instruções.

Passados nove anos da tragédia que não podemos, não queremos e nem temos o direito de esquecer, a infraestrutura e os procedimentos para o transporte aéreo de passageiros continuam na pré-história.

É preciso anexar às más lembranças do passado a presidente que tentou dinamitar o futuro

A perda do poder, a deserção dos aliados, a diáspora dos áulicos, o sumiço dos convites e das cerimônias oficiais, a interrupção da farra aérea, os buracos na agenda agora sem serventia, a falta do que fazer no palácio assombrado — esse clima de velório que precede a queda de um governante costuma abalar o mais equilibrado dos estadistas. Era inevitável que a mente nada brilhante de Dilma Rousseff sofresse danos consideráveis, mas ninguém imaginou que o estrago chegaria às dimensões que alcançou.

Só uma cabeça severamente avariada poderia parir o falatório que atribuiu a decretação do impeachment pelo Congresso a uma conspiração urdida por deputados e senadores para submeter o Brasil a uma ditadura parlamentarista — um singularíssimo regime totalitário controlado por parlamentares eleitos diretamente pelo povo. Parece mentira? Pois releiam a sopa de letras que custou a Dilma mais uma internação no Sanatório Geral:
“Por trás desse golpe, tem uma ambição muito forte pelo parlamentarismo. No Brasil, todas as transformações ocorreram pelo voto majoritário para presidente. No voto proporcional, há uma imensa quantidade de filtros, oligarquias regionais, filtros de segmentos que fazem com que, na maioria das vezes, o Parlamento no Brasil seja mais conservador que o Executivo”.
Como constatou o comentário de 1 minuto para o site de VEJA, o palavrório reafirma que Dilma deveria ter sido demitida já no primeiro dia do primeiro mandato, no momento em que abriu a boca para tentar juntar sujeito e predicado. Não pode ser presidente da República quem não sabe falar a língua oficial do país. Tampouco se pode entregar o Brasil a uma incapaz capaz de tudo. Assassinar a História, por exemplo. Ou torturar os fatos com perturbadora selvageria.

Se, como informa um trecho do pronunciamento de hospício, existe “uma ambição muito forte pelo parlamentarismo” por trás dos procedimentos constitucionais que Dilma insiste em chamar de golpe, a declarante está obrigada a identificar os ambiciosos fantasiados de representantes do povo. Eduardo Cunha é carta fora do baralho. Renan Calheiros é um bom companheiro da Assombração do Alvorada. Rodrigo Maia foi apoiado pelo PT no segundo turno da eleição na Câmara. Como FHC foi senador há muito tempo, Dilma acabou de inventar o complô sem comandantes.

Desde a Proclamação da República, o Executivo só não controlou o Legislativo durante os períodos de crise que precipitaram o fim de governos sem sustentação no Congresso. Foi assim com Getúlio em 1954, com Jânio Quadros em 1961, com Fernando Collor em 1982 e com Dilma Rousseff desde o início do segundo mandato. Abstraídas tais exceções — além do Estado Novo e da ditadura militar —, quem sempre deu as cartas no Brasil republicano foi o inquilino do gabinete presidencial.

O presidencialismo imperial vigorou até mesmo entre setembro de 1961, quando o Congresso aprovou a instauração do regime parlamentarista para remover o veto dos chefes militares à posse do vice-presidente João Goulart, e janeiro de 1963, quando um plebiscito devolveu a Jango os poderes desmaiados. Formalmente, o país teve três primeiros-ministros em 17 meses. É até possível que Dilma lembre que um deles foi Tancredo Neves. Perderá dinheiro quem apostar que o neurônio solitário guarda na memória os nomes de Brochado da Rocha e Hermes Lima.

O tedioso velório da mulher condenada pelo povo à morte política é o derradeiro tapa na cara do país que ela quase destruiu. As delinquências que amparam juridicamente o impeachment são quase irrelevantes se confrontadas com as anotações em tons de cinza na alentada folha de desserviços à nação. A pior chefe de governo desde o Descobrimento conseguiu o aparentemente impossível: expandir a herança maldita que Lula legou.

O legado ampliado por Dilma inclui, entre incontáveis abjeções, o aparelhamento da máquina administrativa por liberticidas gatunos, a infestação de ladrões e ineptos disfarçados de ministros, a transformação de amigas quadrilheiras a servidoras da pátria, a entrega da chave do cofre a parceiros fora-da-lei, a inflação sem controle, o mundaréu de obras abandonadas, os 12 milhões de desempregados, a política externa da canalhice, o sistema de saúde em frangalhos, o sistema de ensino reduzido a usina de idiotas com diploma, a economia putrefata, a roubalheira institucionalizada e a agonia da Petrobras devastada pelo maior esquema corrupto de todos os tempos, fora o resto.

Dilma fez o que pôde para desonrar o cargo que ocupou e dinamitar os caminhos do futuro. É preciso abreviar os gemidos da alma penada, e anexá-la o quanto antes às más lembranças do passado.

A violência por toda parte

Qualquer um que leia jornal, ouça rádio ou assista à televisão está, com certeza, apavorado com o aumento da violência no Brasil. Assim como não se passa um dia sem novo desdobramento da operação Lava Jato, também não há instante algum em que não se depare com um caso de violência contra mulheres, furtos, roubos e homicídios, praticados inclusive por menores, ou contra estes. Cresce o tráfico de drogas nas cidades – e não apenas nas grandes.

No curto período em que fui secretária executiva do Ministério do Trabalho e Emprego, no primeiro governo Lula, escutei relato que, à época, me espantou: o então secretário do Trabalho no Rio de Janeiro me confessou sua impotência para desenvolver um programa estadual de primeiro emprego porque a verba de que dispunha significava apenas poder oferecer R$ 150 a um jovem, enquanto o tráfico lhe dava facilmente R$ 1.000.

Leio agora no excelente “Cadernos IHU”, da Unisinos, instigante texto do professor Luis Flávio Sapori, publicado no dia 8 do corrente mês, o qual recomendo a quem se preocupa com o tema. Apenas gostaria de acrescentar, ao que ele aponta, a crítica que muitas pessoas fazem aos governos do PT sobre o fato de que toda a inclusão social promovida se deu pela via do consumo individual, e não pelo provimento de equipamentos sociais.

Todos devem se recordar de Lula, gabola, afirmando que tudo que o operário quer é ter seu carrinho e poder tomar sua cervejinha no fim de semana. Dilma foi pelo mesmo caminho. Hoje, aponta o professor Sapori, até casas do programa Minha Casa, Minha Vida entraram na rota dos traficantes. Equipamentos de uso coletivo, certamente, não produziriam essa consequência nefasta do estímulo ao consumismo que aparece como responsável pelo aumento do tráfico em várias partes do país. O adolescente que quer ter objetos de consumo individual – que vão desde o tênis de marca até eletroeletrônicos, e mesmo carro ou moto – faz do ganho que logra com o tráfico manter-se como usuário de droga e como indivíduo consumista. Então, segundo o professor, não se pode mais afirmar que a violência é fruto apenas da miséria em que vivem as pessoas.

Dá, então, para prever como esse quadro vai se agravar com a aplicação do ajuste fiscal. Acrescente-se a isso a herança maldita das obras das Olimpíadas no Rio, como de resto já vem acontecendo com as inúmeras arenas, padrão Fifa, que a Copa do Mundo de 2014 gerou país afora.

Além disso, causa um impacto grande na cabeça de todo mundo o conhecimento dos milhares de crimes resultantes do entrelaçamento entre empreiteiras (mas não apenas estas) e os políticos. E também não se pode esquecer o lucro exorbitante dos bancos em confronto com o endividamento generalizado das famílias.

No geral, o que se pode constatar é que os tempos andam pesados para todo lado: não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro, passa por uma crise moral que só tem precedência em momentos históricos graves: o fim do império ateniense, o fim do Império Romano e as duas guerras mundiais. Como tudo isso dói!

Reformas de mentirinha

Funcionando no Congresso, são 27 partidos. Autorizados a existir, mesmo a título precário, somam 35. Não há quem possa citá-los todos, uns e outros. Mesmo assim, certeza não há de que a cláusula de barreira venha a ser aprovada. Já sofreu duas derrotas, uma no Legislativo, outra no Supremo Tribunal Federal. A redução do número de partidos é unanimidade no país inteiro, mas na hora de aprovar projeto nesse sentido, a maioria pula fora, por solidariedade a quantos seriam punidos pela supressão de suas legendas.

Quando vier, se vier, a reforma política será pífia.

Muito menos para a reforma previdenciária e a reforma trabalhista. A reforma fiscal, só se for para aumentar impostos.

Em suma, não vai mudar nada, em termos de alterações de vulto nas regras do jogo político-partidário. O país seguirá com virtudes e defeitos em sua legislação.

A razão é simples: não são essas as preocupações do cidadão comum, infenso a enxugar gelo. Para acoplar a ação administativa com os anseios nacionais seria preciso escalonar prioridades: combater o desemprego através da criação de frentes públicas de trabalho, por exemplo.

Do que necessitamos é de iniciativas capazes de minorar os efeitos da crise que nos assola. Jamais de perfumarias.
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A primeira sondagem da Datafolha a respeito da próxima sucessão presidencial, divulgada esta semana, revela o Lula na frente, no turno inicial. O companheiro bate, em sucessivos arranjos, Aécio Neves, Marina Silva, José Serra e Geraldo Alckmin, além de outros menos falados. Quando os dois primeiros vão para o segundo turno, o jogo dá empatado.

O que significam esses números? Que por enquanto prevalece a natureza das coisas, em momento algum revelando preferências, mas a simples constatação impossível de ser negada.

Que futuro?

Miran
Quando se considera que o produto do trabalho e das luzes de trinta ou quarenta séculos foi entregar trezentos milhões de homens espalhados pelo globo a cerca de trinta déspotas, a maioria ignorante e imbecil, cada um dos quais é governado por três ou quatro celerados às vezes estúpidos, o que pensar da humanidade e o que dela esperar no futuro?
Sébastien-Roch Nicolas de Chamfort (1740 - 1794)

Consciência de Lula virou latifúndio improdutivo que medo de Moro ocupou

Num instante em que Dilma Rousseff começa a levar seus pertences do Alvorada para o apartamento de Porto Alegre, Lula já não fala em “correr o país” para denunciar o “golpe”. Hoje, a mais aguda preocupação do pajé do PT, seu mais exasperante problema é Sérgio Moro. Lula vive esperando que o juiz da Lava Jato o lace e o recolha à “República de Curitiba”.

A morofobia de Lula levou sua defesa a encenar uma esperteza. Atravessou no caminho do presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, uma liminar tóxica. Pedia-se na peça que o Supremo retirasse novamente das mãos de Moro os grampos telefônicos que desnudaram conversas vadias de Lula com políticos e autoridades de Brasília. A Corte está em férias. Cabe a Lewandowski responder aos pedidos de Liminar durante o plantão. Nesta segunda-feira (18), ele decidiu não decidir.


O ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no Supremo, já havia despachado sobre o tema antes do início das férias. Em março, Teori determinara a Moro que enviasse para o STF toda a investigação envolvendo Lula. Mais tarde, em 13 de junho, Teori anulou o grampo que captara uma conversa de Lula com Dilma numa hora em que o próprio Moro já havia determinado o fim das interceptações. No mesmo despacho, Teori devolveu para Curitiba os outros áudios e os processos.

Na petição submetida ao crivo de Lewandowski, os defensores de Lula questionaram novamente o fato de Moro ter divulgado diálogos telefônicos de Lula com autoridades que tinham foro privilegiado na época dos grampos. Alega-se que só o Supremo poderia levantar o sigilo dessas conversas. Nesse diapasão, Moro teria usurpado a competência da Suprema Corte. O que resultaria na anulação dos grampos.

Na prática, o que Lula desejava era fugir da caneta de Moro: “Mostra-se de rigor a concessão da medida liminar para que este Supremo Tribunal Federal avoque, novamente, todos os procedimentos conexos suspendendo-se, por consequência, o curso de tais procedimentos relacionados, bem como de quaisquer outros munidos com o conteúdo das interceptações em tela'', anota a petição.

Lewandowski decidiu: 1) devem ser separados de outras gravações os grampos com conversas entre Lula e autoridades com foro especial, que só podem ser investigadas com autorização do STF. 2) as gravações permanecem sob os cuidados de Sérgio Moro. 3) a petição de Lula será remetida ao gabinete de Teori Zavascki, a quem caberá deliberar depois que o Supremo voltar das férias, em agosto.

Não é nada, não é nada, essa decisão de Lewandowski não é nada mesmo. Chamado a se manifestar, o próprio Moro informara ao STF, na semana passada, que só seriam aproveitados os grampos que tivessem pertinência com as investigações. Ciente das suas limitações, o juiz da Lava Jato acrescentara: “Jamais serão eles utilizados em relação às autoridades com foro por prerrogativa de função, já que quanto a estas, mesmo se os diálogos tiverem eventualmente relevância criminal para elas, caberá eventual decisão ao eminente Ministro Teori Zavascki, ao qual a questão já foi submetida.”

Ao acionar Lewandowski no plantão, Lula e seus advogados foram deselegantes com o presidente do STF. Agiram como pessoas de fabulosa pontaria. E deixaram o ministro em situação vexatória: se concedesse a liminar, Lewandowski açanharia as línguas maledicentes, que diriam que Lula bateu às portas do Supremo em pleno recesso porque já conhecia o resultado do julgamento.

Com sua decisão inócua, Lewandowski saltou do alçapão. Já lhe basta a má repercussão de encontro que manteve com Dilma num hotel em Portugal. Até segunda ordem, os grampos permanecem com Moro. E Lula, ainda na alça de mira da força-tarefa de Curitiba, tem abundantes razões para tremer. Com ou sem grampos, será enviado à grelha. Lula acabará percebendo que uma das graças da democracia é o poder nivelador do medo da Justiça.

Sob o risco de acabar num xilindró, o pobre-diabo e o ex-soberano da República soltam a mesma baba. O caso de Lula diz muito sobre o novo momento que o Brasil atravessa. A consciência de Lula virou uma espécie de latifúndio improdutivo que o medo de Sérgio Moro invadiu.

Outra vez, a falácia petista

Não há como negar: em treze anos, o PT deu uma demonstração inequívoca de que não estava preparado para o exercício do poder. Faltou-lhe substância, traquejo e competência – e sobrou-lhe esperteza malandra e sede pela grana pública. Só as mentes ideologizadas e tacanhas pensam o contrário. (Li, outro dia, que só em Brasília mais de 46 mil pessoas recebiam bolsa-defeso durante o governo Dilma. Será que existem tantos pescadores profissionais em Brasília? Claro que não. Só para comparar: 46 mil habitantes é a população do Leblon, bairro carioca).

Uma das grandes bandeiras do PT, aquela velha e cansativa cantilena da distribuição de renda, aquele papo furado de ter tirado milhões de pessoas da miséria, mostrou-se ser uma falácia, um mero truque estatístico. César Benjamin publicou recentemente um sério estudo sobre o assunto – um estudo que demonstra que nada mudou. O Brasil segue sendo um dos países de renda mais concentrada do planeta. O estudo de César Benjamin foi publicado no Boletim de Conjuntura Brasil nº 4, junho de 2016, órgão da Fundação João Mangabeira. (Lembro que um sujeito me mandou uma mensagem, na qual não só me espinafrava como me assegurava que Lula e Dilma tinham elevado mais de 100 milhões de brasileiros à classe média. Como eu podia ser contra isso? – indagava-me a criatura).


Houve no Brasil um fenômeno muito particular: facilitação de crédito e estímulos governamentais à aquisição de automóveis e bens domésticos, como geladeiras, fogões e máquinas de lavar, o que fomentou a ilusão de vivíamos num mundo de maravilhas. As famílias, hoje, estão endividadas, 60% delas com nomes sujos no Serasa, afora o desemprego que atinge 12 milhões de pessoas. O governo Dilma, em particular, foi um horror: desonerações absurdas, incapacidade de dialogar, inclusive com aliados. Um horror.

O ideal da casa própria (Minha Casa Minha Vida) mostrou-se ser outra falácia. As casas são de péssima qualidade, sem rede de esgoto, em alguns lugares a milícia tomou conta e, pior, o número de casas construídas sequer atingiu 10% do que estava inicialmente previsto. Reforma agrária? Neca. Reforma política? Neca. Reforma tributária? Neca. Não quero ser debochado, mas o que se aproveitou da Dilma foram seus impagáveis discursos, seus elogios à mandioca, ao vento estocado, à mulher sapiens e à descoberta de que atrás de uma criança vem sempre um cachorro.

Tenho certeza de uma coisa: um levantamento criterioso mostraria que os treze anos de PT somou o maior número de obras inacabadas, inúteis (ou de utilidade duvidosa) e caras – cujos custos foram reajustados sistematicamente, pois as exigências das propinas atingiram níveis inacreditáveis – a companheirada era insaciável. Já se sabe, hoje, com todas as certezas possíveis, que os estádios da Copa foram superfaturados e que, como foi falado na época em que estavam sendo construídos, transformaram-se em elefantes brancos. O mesmo se aguarda das obras das Olimpíadas.

Repito o que já escrevi: nada tenho a favor do Temer. Quem o escolheu para vice de Dilma – ou foi a própria ou o PT. Se Dilma tivesse um enfarte fulminante, ele seria o presidente. Ela fez besteiras, caiu na malha fina da Constituição que prevê o impeachment do presidente em caso de crimes de responsabilidade, que ela os cometeu à farta, certa de que ficaria impune. Dilma não quis, nem soube perceber o que as ruas, desde junho 2013, diziam. Lascou-se. Temer assumiu, ainda provisoriamente (até agosto), em razão de um preceito constitucional. Ponto. (No passado, eu quis eleger o Brizola, que era um estadista. O povo preferiu Collor, Fernando Henrique, Lula e Dilma. Paciência. Consola-me o fato de que não votei em nenhum deles).

Para concluir, repito o que escrevi recentemente neste espaço: há, hoje, no Brasil 12 milhões de desempregados. Vamos dizer que a metade desse contingente tenha família: isto perfaz algo em torno de 30 milhões de pessoas afetadas, aos quais temos que somar a outra metade de seis milhões. Ou seja, o desempregado de 12 milhões atinge cerca de 36 milhões de pessoas. Este, no julgamento do Velhote do Penedo, é a questão essencial a ser enfrentada.

A ciência da insignificância

Até o século 20, o ser humano era a figura central do Universo, orgulhoso por ignorância, arrogante por herança mítica, grande por pequenez. Julgávamo-nos razão bastante para a existência de tudo que nos cerca, críamos mesmo que podíamos usar e abusar do planeta, talhado sob medida divina para nossas necessidades, fonte eterna de água, comida e materiais. A lenda sucumbiu à realidade. De queda em queda ao longo das últimas décadas, assumimos condição periférica, desprovidos de privilégios, sem pai nem mãe, sujeitos a limitações cada vez mais iminentes. Ante a imensidão desvelada, viramos nada.


Quem nos pulverizou de tal maneira? Os principais responsáveis foram os físicos. Eles forjaram nossa nulidade. Moldaram nosso pensamento, destruíram a objetividade absoluta com a introdução do observador, assombraram-nos com novas interpretações da realidade, trouxeram medo com a fissão e a fusão atômicas. Mais que quaisquer outros profissionais, ampliaram as fronteiras do que conhecemos ou julgamos conhecer. Mergulharam no infinitamente pequeno, diluíram a matéria em flutuações adimensionais, inquiriram o infinitamente grande, construíram uma ponte quântica entre os extremos, descobriram a expansão do Universo, postularam começo e fim para os átomos, descreveram dezenas de fenômenos e partículas que teriam ocorrido durante o primeiro nanossegundo cosmológico, sucumbiram ante a matéria e a energia escura que tudo envolvem e ainda não se revelam. O Big Bang, hipótese de trabalho com várias lacunas, frequenta nossa mesa tanto quanto um espaguete ao molho de tomate.

Os físicos também nos legaram a palavra do século: relatividade. Embora herdada do pai dos cientistas modernos, Galileu Galilei, a relatividade nos arrebatou após o trabalho de Einstein. Não conheço outra com tamanha influência, nem em Darwin, autor da teoria da evolução, nem em Freud, grande divulgador de neologismos. Da antropologia à arte, da política à filosofia, mesmo no humor, tudo ficou relativo. Einstein, passado um século desde a Relatividade Geral, ainda nos arranca admiração e espanto. Graças à singeleza de suas equações, a física perdeu o hermetismo e ocupou o espaço das ideias. Ganhamos novo paradigma.

Diante de tamanha abertura para o Cosmo, o grande e o pequeno Cosmo, ganhamos alguma sabedoria, mas perdemos o orgulho de senhores do Universo. Embora continuemos os mesmos, com nossas carências de ar, água, comida, amor e curiosidade, paradoxalmente nossa mente cresceu enquanto perdíamos o status de senhores da criação. Hoje nos encantamos com nossa insignificância diante de um Universo que ultrapassa a imaginação. O importante é que o encantamento persiste.

O Porto Maravilha do Rio é negro


Desembarque de escravos no Cais do Valongo, J.M. Rugendas (1835)
O Porto Maravilha esconde saberes fundamentais à costura do passado do Rio de Janeiro. Para juntar os pedaços de tecido naquela área, é necessário, primeiramente, saber onde se pisa. Em 1° de março de 2011, as obras do projeto de renovação do território portuário deixaram de ser somente um conceito moderno, que olha para o futuro. Naquele dia, por força de lei, uma equipe do Museu Nacional acompanhava as intervenções de drenagem no subsolo por escavadeiras das empreiteiras que constroem o arrojado empreendimento. Os arqueólogos já sabiam o que estava por vir à superfície da rua Barão de Tefé: o Cais do Valongo, onde centenas de milhares de escravos aportaram a partir do século 18, sobre o calçamento de pé de moleque – técnica construtiva do Brasil Colônia, com pedras arredondadas de rios acomodadas sobre a terra batida. Os seixos irregulares estavam sob outra camada, mais à moda do Brasil Império, com conjuntos de blocos de granitos empilhados para receber, em 1843, a imperatriz Teresa Cristina, então futura esposa de dom Pedro 2º. Por cima desse revestimento, havia ainda o aterro planejado pelo prefeito Pereira Passos no início do século 20, que pôs um fim à memória do passado imperial. E escondeu também o originário holocausto brasileiro.

O Cais do Valongo foi o maior porto negreiro das Américas e, segundo o historiador Manolo Florentino, esteve em atividade nas últimas décadas do século 18 até final de 1830, ocupando uma área entre os bairros da Gamboa, da Saúde e do Santo Cristo. Nele desembarcaram mais de 700.000 escravos, vindos, sobretudo, do Congo e de Angola – pode-se dizer que o Valongo foi o ponto de convergência de 7% de todos os cerca de 10,7 milhões de escravos traficados às terras do Novo Mundo. Pelo menos mais 700 mil foram traficados para outros pontos do litoral do Estado do Rio de Janeiro.

A capital, naquela época, era umas das cidades mais negras do mundo colonial. E o trecho mais agitado por essa migração compulsória era a rua do Valongo, atualmente rua Camerino. Sobre ela, como mencionado no livro 1808, do jornalista Laurentino Gomes, a viajante inglesa Maria Graham, amiga da imperatriz Leopoldina, escreveu em seu diário: “Vi hoje o Valongo. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longuíssima rua são um depósito de escravos. Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente. Em alguns lugares, as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente muito fracos para sentarem-se”.

Até as escavações, realizadas em 2011, o Cais do Valongo estava literalmente soterrado na memória dos cariocas. Por isso, a reportagem da Pública tentou averiguar como a cidade está lidando, cinco anos depois, com seu passado em meio ao processo de revitalização do porto, fundado num tempo em que pessoas se achavam superiores a outras a ponto de escravizá-las.

Para o pesquisador Rogério Jordão, cuja tese de doutorado discorreu sobre o próprio Cais do Valongo, a prefeitura se comporta de maneira paradoxal ao cuidar da memória da sofrida e pulsante Pequena África, como o artista e compositor Heitor dos Prazeres chamou aquela área no início do século 20. “É como se a prefeitura praticasse uma estranha dinâmica de lembrar esquecendo-se”, diz Jordão. Para ilustrar sua provocação, o pesquisador aponta para o Museu de Arte do Rio e Museu do Amanhã – este construído com investimento de R$ 215 milhões – ambos administrados pela Fundação Roberto Marinho e considerados símbolos do Projeto Porto Maravilha. “Estes dois museus começaram a ser construídos no mesmo período [da redescoberta do Cais do Valongo] e já estão em pleno funcionamento, enquanto os milhares de objetos de matriz africana encontrados nas obras [de escavação] ainda não estão disponíveis ao público”. São peças de barro, seguis [uma espécie de conta], monjolos, búzios, louças quebradas, ocutá [pedra que atrai o Orixá], como descreve Jordão em sua tese.

A prefeitura chegou a anunciar um projeto cujo nome seria Laboratório Aberto de Arqueologia, a ser inaugurado até o fim de 2015, bem antes da Olimpíada… A ideia era que o público acompanhasse in loco o processo de recuperação das peças. Mas até agora o projeto não saiu do papel.

Hoje o destino desses achados arqueológicos é conhecido por poucos. Eles estão no Galpão da Gamboa, no sopé do morro da Providência e bem próximo à Cidade do Samba, no centro. Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, os objetos já foram todos catalogados e estão embalados em contêineres.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Charge do dia 18/07/2016

O 'suicídio' da América

A realidade está mais louca do que a ficção. Assim sendo, a ficção tem de ser muito mais louca do que a realidade. A destruição ambiental, a sordidez mercantil, a estupidez no poder, o fanatismo do terror, em suma, toda a tempestade de bosta que nos ronda está muito além de qualquer crítica. O mal é tão profundo que denunciá-lo ficou inútil.

Essa anomalia da vida atual aumenta a tradicional paranoia ocidental, principalmente nos Estados Unidos. E aí surge um estranho fenômeno que tento entender: a vontade de salvar o país e um desejo simultâneo de destruí-lo. A América parece querer suicidar-se. Por exemplo, a possibilidade de Trump ser presidente já é um filme de horror. Se esse rato for eleito, aí, sim, o mundo pode acabar.

Também na cultura norte-americana, são impressionantes os filmes de ação e catástrofe que destroem o país ou o mundo, produzidos por Hollywood. É estranho; imaginem o cinema francês destruindo Paris sem parar, invadido por alienígenas (aliás, como os terroristas), ou o cinema brasileiro arrebentando o Pão de Açúcar e o Corcovado! Eles acham isso normal. E lucrativo. Vejam os filmes dos últimos anos: “Independence Day”, “Godzilla”, “Armagedon” , “Terremoto – A Falha de San Andreas”, “2012”, “Impacto Profundo” e tantos outros.

Por que esse amor e ódio? Creio que vem de uma insatisfação da vida norte-americana atual, uma grande angústia nacional. A América não sabe mais o que dizer sobre si mesma. Os Estados Unidos eram a “cultura da certeza”. O paraíso norte-americano era a perfeição do funcionamento. Com o 11 de Setembro, junto com as torres, caíram também a arrogância e o orgulho da eficiência. Será que essa é a causa desse ataque doentio contra si mesmos?


Pensando nessas coisas deprimentes, fui ver o novo “Independence Day”. Não gostei e concordei com críticos que dizem que o filme é tolo. Um deles diz: “assistir a alienígenas explodindo de forma espetacular não é desculpa para passar duas horas no ar-condicionado”.

Tenho visto muitos filmes de ação. Já sou entendido nas missões impossíveis, nas porradas, nas cidades destruídas, nas armas assassinas. Nunca o cinema foi tão útil para esquecermos o mundo atual, e nunca os filmes foram tão brutais para, pelo avesso, exorcizar o medo da morte.

Na sala de cinema, sinto-me dentro de uma máquina de sensações programadas. Não há mais tempo para um filme ser visto, refletido, com choro, risos, vida. No escuro, mergulho em suspense, em prazeres sádicos, em assassinatos explosivos, em vinganças sem fim, narrados como uma ventania, como uma tempestade de “planos” (cenas) curtos, nunca mais longos do que quatro segundos, tudo tocado por orquestras sinfônicas plagiando Ravel para cenas românticas ou Stravinsky para violências e guerras.

O conflito é permanente, de modo a impedir o espectador de ver seus conflitos internos. Não podemos desgrudar os olhos da tela. O desejo dos produtores é justamente apagar o drama humano dentro de nossas cabeças.

Os filmes comerciais antigos apelavam para a comoção das plateias, estórias em que o “bem” era recompensado, onde o amor movia personagens, chorávamos ou ríamos desde o Gordo e o Magro até Hitchcock. Logo depois da Guerra Fria, os filmes mostravam uma América em “frenética lua de mel” consigo mesma. Obras-primas como “Cantando na Chuva” foram feitas apenas por razões comerciais. Os musicais da Metro eram a felicidade democrática.

Hoje, passamos por emoções que nos exaurem como se fôssemos personagens dentro daqueles mundos em 3D, de pedras e balas que voam e nos fazem em pedaços espalhados pela sala, junto com os copos de Coca-Cola e sacos de pipocas. Somos pipocas nesses filmes. É uma nova dramaturgia de Hollywood: a estética do videogame, na qual a personagem principal não é mais o “outro”, mas nós mesmos, com o joystick na mão e nenhuma ideia na cabeça.

Os roteiros são feitos em computador, de modo a encher cada buraco, para que nada se infiltre na atenção absoluta. E mais importantes que as personagens são as “coisas” em volta. Sim, as coisas. Personagem é só um pretexto para mostrar o décor. E o décor é um grande showroom dos produtos norte-americanos: maravilhosos aviões, supercomputadores, a genialidade técnica lutando por algum “bem” inexplicável , porque a ideia de “futuro” esmaeceu. Assim, não importam mais nem o enredo, nem o roteiro; só o gozo da cena.

Antigamente, sofríamos durante a trama, esperando que os heróis fossem felizes no final. Hoje, sabemos que tudo vai acabar bem, mas nos fascinam mais os infernos que eles terão de atravessar, para chegar a um desfecho fatalmente bom. A catarse chegará, mas antes temos amputações, bazucas estourando peitos, bombas, rios de sangue. Na vida norte-americana, como nos filmes, perdeu-se a ideia de sentido. O happy end é coisa dos anos 40.

No entanto, acho novidades nisso tudo. Num mundo sem rumo, na América dividida, a tecnologia está criando uma nova estética. Acabou a linearidade narrativa e, com a visão de mundo desencantada, em meio á avalanche brutal de informações, está surgindo uma nova forma de profundidade “superficial”.

Uma espantosa nova linguagem não linear, polissêmica, surgiu e cresce como um “transformer” nas telas do mundo. Parece até uma vanguarda tecnológica emergindo entre os efeitos especiais cada vez mais audaciosos. Talvez, daqui para a frente, só essa língua dê conta de nossa solidão, de nossa fome de ilusão.

Agora, mesmo falando essas coisas, confesso que adoro os filmes da Marvel. Já vi alguns “blockbusters” de extraordinária imaginação “wagneriana”. “Avatar”, por exemplo, “Batman”, ou a obra-prima “Thor”, já fazem parte de uma nova “escola” estética.. Não falo de “nova arte” ou uma nova cultura, pois isso já denotaria a ideia de “finalidade”, de meta a ser atingida. Falo de um caos maravilhoso que nos submerja para sempre num “presente” inexplicável.

México aprova novo sistema legal para combater a corrupção

O México iniciou uma nova etapa na luta contra a corrupção. O presidente Enrique Peña Nieto promulgou nesta segunda-feira uma série de leis para combater um problema que custa ao país 10% do PIB. As medidas, aprovadas após uma tempestuosa tramitação parlamentar que chegou a incluir o veto presidencial, abrangem desde a criação de uma procuradoria e um tribunal federal especializados até o aumento de penas e o fortalecimento dos órgãos de auditoria. No topo desse edifício legislativo haverá um comitê coordenador, presidido por um representante da sociedade civil e integrado pelos diretores dos órgãos de combate à corrupção.

Um dos aspectos mais relevantes do chamado sistema nacional anticorrupção radica em que todos os servidores públicos deverão divulgar sua declaração de patrimônio e renda. Os dados relativos à vida privada ou protegidos pela Constituição serão isentos de publicidade.

As sanções também ficam mais rígidas. No caso dos funcionários, o enriquecimento ilícito será punido com penas que podem chegar a 18 anos de prisão. Participa da fiscalização a recém-criada Procuradoria Contra os Crimes de Corrupção. Seu diretor deverá ser eleito de uma lista de três candidatos e aprovado por dois terços do Senado. Além disso, será criado um tribunal federal com jurisdição plena nessas causas e a Auditoria Superior da Federação ganhará novos poderes para efetuar inspeções em tempo real e fiscalizar os recursos centrais destinados a órgãos estatais e municipais. O secretário da Função Pública, sobre quem recai o flanco governamental desse combate, também terá de ser ratificado pelo Senado.

“Em alguns anos recordaremos este dia como o início de uma nova etapa para a democracia e o Estado de Direito. A corrupção é um desafio da maior magnitude, que requer ações da sociedade e das instituições. Estou convencido de que tem solução”, afirmou Peña Nieto.

Ciente de que sua gestão foi alvo de furiosas críticas motivadas pelo caso da Casa Branca (um dos grandes empreiteiros do Governo construiu e vendeu uma mansão à primeira-dama), o presidente aproveitou a ocasião para pedir desculpas públicas. “Em novembro de 2014, a informação difundida sobre a chamada Casa Branca causou grande indignação. Esse assunto me reafirmou que os servidores públicos, além de serem responsáveis por atuar conforme a lei e com total integridade, também somos responsáveis pela percepção que geramos com nossas ações e, nisto, reconheço, que cometi um erro (…). Senti na carne a irritação dos mexicanos. Entendo-a perfeitamente, por isso, com toda humildade, peço-lhes perdão”, afirmou Peña Nieto.

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O Brasil é uma igreja

O Brasil é uma igreja.

A Igreja da Maior Presença Universal do Estado, ou IMPUNE.

A IMPUNE é onipresente.

Sacrifica mesmo, sem perdão.

Seus métodos são muito eficientes.

Instituiu cardeais em todas as catedrais (antigamente chamadas de empresas públicas).

Esses cardeais não são fiéis a suas paróquias mas à IMPUNE.

Veja a Nossa Senhora da Petrobras, por exemplo.

Foi crucificada em nome da mãe, do pai, do espirito de porco, amém.
Não teve conversa.

Os Correios também estão em crise.
É que a IMPUNE possui direito divino a nada menos do que 25% do resultado da empresa.

E em nome de Nossa Senhora, ano passado foi mais longe.

Como é toda-poderosa, em 2015 tirou 3,8 bilhões a mais.

Ou seja, sacou da catedral Correios mais de 50% do resultado.

Você, ateu, pode perguntar como uma empresa sobrevive sem 50% do resultado?

Para a IMPUNE não importa sobreviver mundanamente.

O que importa é que estamos só de passagem.

A IMPUNE garante que no paraíso seremos atendidos pela Fedex.

Mas não é só nas empresas públicas que a IMPUNE está presente.

Longe disso, está em cada cantinho obscuro da vida de seus fiéis (antigos eleitores).

Espreitando.

Um bom impunista vive de acordo com seus cânones e dogmas.

E é simples.

Nada de rituais complexos.

Tudo que a IMPUNE espera é que você pague seus dízimos em dia.

E para facilitar já embute a doação no preço de tudo.

A IMPUNE é onisciente.

Sabe tudo que você compra.

Conhece o saldo das suas contas, os gastos do seu cartão.

Está sempre pronta para receber suas doações compulsórias.

Se você fizer uma encomenda no exterior, a IMPUNE cobra 100% de dízimo.

Porque a IMPUNE exige de você uma vida frugal.

Está no livro sagrado.

E é para seu bem.

A reserva de mercado garante que você viva com os valores de 20 ou 30 anos atrás.

Nada de modernidade.

Como na maioria das igrejas, os pastores são todos ricos.

Vereadores, deputados, senadores, divulgam a palavra do senhor Presidente.

E enriquecem com os farelos que caem das coletas de dízimos.

A IMPUNE é uma igreja modelo no mundo.

No próximo mês, a IMPUNE vai sediar as Olimpíadas.

Será uma oportunidade única de mostrar ao mundo como é viver no século passado.

Sem saneamento, sem segurança, sem conforto, sem saúde.

Como uma boa igreja, a IMPUNE provará que não nos dá nada, apenas promessas.

A vergonha, quem passa, somos nós, os fiéis pecadores.

E, cabisbaixos, aceitaremos.
Amém. 

Casa é onde não tem fome

Otávio das Chagas, o pescador sem rio e sem letras, não consegue chegar em casa. Desde que ele e sua família foram expulsos de sua ilha pela hidrelétrica de Belo Monte, Otávio já está na terceira casa. Mas não consegue chegar. Porque para ele aquela terceira ainda não é uma casa. Como não era a primeira nem era a segunda. Sem casa, Otávio não tem mundo. Sem mundo, um homem não tem onde pisar. Os conhecidos avisam: você já viu, seu Otávio está encolhendo. E ele está, porque é isso o que acontece com os homens sem mundo.

O que é uma casa é a pergunta que atravessa a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu, no Estado do Pará. A pergunta que não foi feita no cadastro nem em momento algum. É a pergunta que diz quem aquela pessoa é. E onde ela precisa viver para ser o que é. Quando é o empreendedor, o novo nome do colonizador na Amazônia, que determina o que é uma casa, com base no seu mundo e nas suas referências, em geral forjadas na realidade bem diversa do centro-sul do Brasil, a violência se instala. E vidas são aniquiladas.

Acompanho Otávio das Chagas desde 2014. Naquele momento, ele, sua mulher Maria e os nove filhos estavam na primeira casa que não podia ser casa. Uma casa de madeira alugada numa periferia violenta de Altamira. Em 2015, mudaram-se para uma “unidade” de Reassentamento Urbano Coletivo (RUC), nome dos conjuntos habitacionais padronizados que a Norte Energia construiu para abrigar as vítimas de “remoção compulsória”. Em 2016, dividiram-se: os dois filhos mais velhos permaneceram na casa padronizada, um deles já com sua própria família; Otávio, Maria e os filhos mais jovens transferiram-se para uma casa doada por um grupo de austríacos que se comoveu com as tribulações do pescador sem rio e sem letras.

A terceira não-casa: Otávio das Chagas, Maria e os filhos menores na casa doada por uma família austríaca que se comoveu com a história do pescador sem rio e sem letras, em julho de 2016
A terceira não-casa: Otávio das Chagas, Maria e os filhos menores
na casa doada por uma família austríaca , em julho de 2016 
Todas as vezes em que bati em cada uma das três portas, eles passavam fome. Tinham teto, mas passavam fome. Era oficialmente uma casa, mas passavam fome. Em todas as vezes, só havia água na geladeira. Na semana passada, havia também uma cebola pequena. Fome é algo que fracasso em descrever. A fome não se escreve. Carolina Maria de Jesus (1914-1977), a escritora brasileira que conhecia a fome, escreveu: “A fome é amarela”.

Maria, a mãe, tenta fazer caber nas palavras o que sente quando chega a passar até dois dias sem comer: “Dá uma dor no estômago, uma tontice”. É uma pista, mas ainda não é a fome por escrito. “Eu não sei o que fazer quando as crianças ficam pedindo por comida”, ela continua. É outra pista, mas ainda não é a fome por escrito. Jamais será. A fome é algo tão avassalador que irredutível às palavras. Encaro os olhos fundos de Adriano, o menino de sete anos, e entendo sem letras. Entendo, mas sigo sem alcançar. Meu olhar não afunda nos olhos de poço, me falta a experiência. Adriano é mais uma doce criança com olhos de velho deste mundo. Quando o encontrei na segunda casa, a do RUC, em 2015, era o dia do seu aniversário. E não havia sequer um pedaço de pão para Adriano comer.

Casa é onde não tem fome, eles me ensinam. Se tem fome, é só teto.

Otávio das Chagas e sua família viviam há mais de 30 anos na Ilha de Maria, uma das centenas de ilhas do Xingu. Viver talvez não seja a palavra exata. Eles pertenciam à ilha de Maria. É inversa essa questão da posse. E não apenas por questões da lei. Mas porque é a ilha que se apossa das pessoas, que lhes conforma o corpo e a existência, que lhes desenha a arquitetura do tempo. Na ilha, Otávio, Maria e seus filhos sabiam. Quando expulsos para a “rua”, nome que os ribeirinhos agroextrativistas de várias regiões amazônicas dão à “cidade”, são esvaziados de saber. Assim, essas casas, na “rua”, serão de certo modo sempre “rua” – e não casa.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Dilma reclamando que nao tem cherge dela nos jornais deu motivo anos

Do Futuro, sem futuro, sem noção

Otimismo é coisa boa. Faz acreditar que é possível melhorar, sair do buraco, viver bem, enfim. Mas requer ação. Otimismo sem ação é simplesmente cegueira. Do pior tipo. Cegueira proposital.

Como se a situação não gritasse por razão e urgência na ação. Como da memória já se houvessem dissipadas as lembranças dos escândalos, a frustrações dos (diversos) fracassos, e as consequências praticas de nossa negligencia e incompetência na gestão dos nossos interesses.

O que aconteceu, e continua acontecendo não foi pouco. Foi (e é) sistemático e recorrente. Passou a fazer parte do dia a dia, ilustrando a paisagem. O bode na sala já incomoda pouco. Ou talvez ninguém nem mesmo já o note.


Em parte, é assim porque os incentivos são grandes para que assim seja. Um país em que o Estado é tão gigantesco cria a realidade de que sucesso é necessariamente associado com o grau de proximidade e relação privilegiada com o Estado. A realidade se auto reforça, vira conceito e se traduz em cultura. Não é mais questionada e passa a ser reproduzida em movimento aparentemente perpetuo.

Por si só, isto já seria problema suficiente. Mas como não se tem noticia de males que vem para bem ou mesmo desacompanhados, este conjunto de conceitos destrutivos viram incentivos errados nos setores público e privado. Em poucas palavras, o país sofreu falha maciça nos seus sistemas de governança. Há algo de (muito) podre no reino.

Por isso, olhando de perto (ou de longe), tudo parece estranho. Enquanto se evidencia a realidade de longo período de decadência institucional, degradação ética e inversão de valores há surpreendentemente muito pouco sendo feito ou mesmo planejado para resolver os problemas.

Aqui e ali, empresas anunciam medidas. Tímidas, diga-se. Tratam as falhas em suas governanças como crises de imagem que devem ser combatidas exclusivamente com mudanças cosméticas.

Depois de todos as noticias. Apesar do mar de palavras jogadas em analises, artigos, debates e diagnósticos não existem noticias de medidas firmes, radicais e concretas para enfrentar a crise de governança.

Nas empresas, os conselhos de administração continuam dóceis, passivos, sem exercer sua função de controle e de proteção dos acionistas. Algumas empresas criaram departamentos e comitês para lidar com seus problemas de governança. Mas não se percebe qualquer evidencia de execução de reorganização radical capaz de reverter cultura, mudar hábitos e, claro, proceder às necessárias substituições nas equipes.

Não existe sinal de ruptura com os erros passados e se espera que mudanças organizacionais sejam lideradas pelos mesmos indivíduos que, passivos ou ativos, participaram do processo que levou ao desastre.

Este já foi o país do futuro. Sem renovação urgente e maciça dos quadros nos setores público e privado, será o país sem futuro. Sem melhorar sua governança privada com conselhos de administração mais ativos e responsáveis, continuara um país sem noção.

Acima dos partidos

Quem lê as críticas que, com frequência, faço aqui a Lula, Dilma e ao petismo em geral, pode deduzir que pertenço a algum partido político que se opõe ao PT. Estará enganado, já que não pertenço a nenhum partido e, se critico o PT, o mesmo faria com qualquer outro partido que praticasse os erros que ele praticou nesses 14 anos de governo.

É certo que fez também coisas certas, mas, infelizmente, após os primeiros anos no governo, tomou o caminho errado, certamente pelo propósito de manter-se indefinidamente no poder.

Os outros partidos, de modo geral, com raras exceções, não são tampouco nenhuma flor que se cheire, como é o caso do PMDB, que, não por acaso, foi aliado dos petistas até poucos meses atrás.

É verdade, porém, que tanto o PMDB como os demais partidos, diferem do PT num ponto, pelo menos: é que este, de inspiração populista —na linha do bolivarianismo— ambicionava apropriar-se do poder para sempre, donde as medidas desastrosas por ele adotadas, que conduziram o país à situação lamentável em que se encontra.

Os demais partidos, que aceitam o jogo democrático, admitem a alternância de poder, determinada pela norma democrática. Por exemplo, Fernando Henrique Cardoso, findo seu segundo mandato, passou a faixa presidencial a Luiz Inácio Lula da Silva, mas este, ao contrário, tentou reeleger-se uma terceira vez e, só porque não o conseguiu, elegeu Dilma Rousseff em seu lugar.

Fez isso certo de que voltaria ao poder quatro anos depois e só desistiu desse intento ao constatar a herança maldita que lhe cairia nas costas. Foi por isso que fez dela candidata a um segundo mandato. Ele percebeu que suceder Dilma seria um desastre, e foi o que aconteceu no segundo mandato dela, que resultou no impeachment.

Ela foi afastada e Michel Temer, seu vice, assumiu o governo como presidente interino, conforme a Constituição.


Sucede que os petistas —para os quais as leis só valem quando os beneficia— passaram a chamar de golpe o que é um procedimento legal. Foram para as ruas pedir a saída de Temer, quando este ainda não tinha completado um mês no governo. Sabem muito bem que o impeachment é um procedimento constitucional, mas, como não aceitam ter de deixar o poder, fingem não saber.

Sabem também que Dilma já não governava o país, e que muito menos poderia fazê-lo agora, se voltasse ao governo. Ainda assim, tudo fazem para inviabilizar o governo de Michel Temer, muito embora saibam que, se o conseguissem, levariam o país à debacle total. É que o PT não atua visando o interesse nacional, e sim o seu próprio interesse. Ao contrário do que costuma dizer Dilma, o lema de "quanto pior, melhor" é deles, petistas, e não de seus adversários.

De minha parte, como disse no começo desta crônica, não pertenço a nenhum partido e, por isso mesmo, quando critico os petistas não o faço por razões partidárias, mas visando o interesse do país, da sociedade, dos cidadãos, conforme meu ponto de vista, claro.

Essas são igualmente as razões que determinam minha atitude em face do presidente Michel Temer. Não o conheço pessoalmente nem tenho qualquer simpatia especial por ele. Admito mesmo que, se fosse o caso de votar nele para a Presidência da República, dificilmente o faria. Apesar disso, ao contrário dos petistas, torço para que ele tome as medidas acertadas, que nos tire deste buraco negro em que Dilma Rousseff nos meteu.

Este é o ponto para o qual gostaria de chamar a atenção do leitor. O Brasil enfrenta um dos piores momentos de sua história, com mais de 11 milhões de desempregados, inflação alta, produção industrial estagnada e um déficit orçamentário dos mais altos do mundo.

Tal situação exige dos políticos, e particularmente do governo central, medidas acertadas e urgentes para evitar que esse estado crítico se agrave. E nós sabemos que, se isso ocorrer, os mais atingidos serão precisamente aqueles que vivem de seu trabalho e, portanto, do crescimento da economia.

Atuar com o propósito de dificultar a adoção de tais medidas é atentar contra os setores mais carentes da sociedade, e é lamentável que isso seja feito por políticos integrantes de uma instituição que se intitula Partido dos Trabalhadores.

Do meu ponto de vista, não é Temer que importa, nem se é este ou aquele partido que ocupe o governo. Importa é sairmos do atoleiro.

Hora de trabalhar

O presidente interino Michel Temer completou, no último dia 12, dois meses sentado na cadeira que nela espera se conservar até 2018. Inicialmente diante da desorganização política em que se achavam a Nação, o Senado e a Câmara, das manifestações das ruas e dos próprios partidos, que atiravam, por razões diversas, contra um único alvo – o afastamento da presidente Dilma –, Temer armou o próprio front motivado pelo incentivo de ser o dono da caneta. E conseguiu. Ajudaram-no, além de uma habilidade construída durante décadas, ouvindo e jogando o jogo das articulações políticas nos mais diversos níveis e com os mais variados parceiros, um quadro de incertezas e de desvario resultante da incapacidade da presidente de ouvir e, assim, construir ações produtivas que afastassem a consumação do quadro que gerou o desgoverno em que se projetou o país.


Desemprego, estagnação econômica, inflação em marcha, juros altos, denúncias de corrupção servidas em baldes e, sobretudo, uma desesperança generalizada associaram-se no processo de desgaste da imagem e da autoridade de Dilma Rousseff e de seu governo. Para tal, contribuiu significativamente a operação Lava Jato, que revelou conchavos e negociatas feitos por integrantes de seu partido, o PT, custeados pela generosa Petrobras. Dilma não fora diretamente acusada de beneficiar-se de tais tramoias, mas de permití-las com sua omissão. “Onde toda gente peca, ninguém faz penitência”, diz o ditado português para retratar aquele momento do Brasil. O certo é que Dilma dançou, furtando ou não. Está fora.

Temer se instalou trazendo consigo um ministério de poucas luzes, medíocre e/ou preguiçoso, como ainda se percebe passados mais de sessenta dias desse novo governo. Não fosse o controle do câmbio, com o dólar circulando a baixíssima cotação, pouco ou nada efetivamente mudou: não há reação da indústria, o comércio amarga um dos piores resultados dos últimos anos, não se encorajam a sair da toca investidores nacionais nem tampouco para aqui viajaram investidores externos. O agronegócio se salva, ainda, apesar da baixa cotação do dólar, pela exportação de commodities, muito como reflexo da nossa capacidade de produzir, ajudada pelo clima e pelo baixo custo de produção de que dispomos.

O processo de impeachment corre silencioso no Senado; Eduardo Cunha saiu de circulação; temos novo presidente da Câmara, que trabalhará apenas dois dias na semana, até as eleições; dona Marcela mudou-se para Brasília com o pequeno Michelzinho. Tudo ajustado. Agora, Michel pai, a bola está no seu campo. Ao trabalho. O Brasil assim espera.

Ida e volta dos parlamentares no caos nosso de cada dia

Instalados em seus estados, mais do que viajando pelo exterior, deputados e senadores viverão, com as exceções de sempre, um recesso singular. Quando agosto chegar, certamente voltarão a Brasília. Na bagagem, a evidência da orfandade. No caso, a consciência de que nenhum laço liga-os ao eleitorado. De nada valeu aquilo que realizaram no primeiro semestre, e com um pouco de sinceridade, também nos anos anteriores. Poucas vezes se tem visto tamanha dissociação entre mandantes e mandatários.

Próximo de 13 milhões de desempregados, com um custo de vida em ascensão meteórica, os encargos fiscais aumentando na proporção geométrica, o país lhes terá voltado as costas. Suas Excelências, se não sentirem desprezo, pelo menos receberão indiferença. Às vésperas das eleições municipais de outubro, não perceberão da parte de suas bases o menor sinal de interesse pelos resultados. Muito menos apelos pelo cumprimento do dever parlamentar, de promover soluções para as agruras a envolver a sociedade inteira. Sentir-se-ão como zeros à esquerda de uma comemoração para a qual não foram convidados. Mesmo a limitada confiança recebida no tempo da eleição se terá dissolvido na descrença. Será grande a descrença de que poderão, em 2018, repetir as performances de dois anos atrás.

Jamais alcançou essas dimensões o vácuo entre o Congresso e o povo. Nivelados pelo denominador comum do mútuo abandono, os congressistas terão tempo para meditar sobre o tempo perdido, assim como seus eleitores a respeito da inutilidade de insistir no modelo ultrapassado a nós deixado pela pasmaceira anterior.

A conclusão dessas incompletas e frágeis considerações só pode ser uma. Nem os 513 deputados e os 81 senadores de volta ao Planalto Central conseguirão encontrar ânimo para prometer alterar o quadro de depressão existente entre nós.

Objetos perdidos

O século XX, que nasceu anunciando paz e justiça, morreu banhado em sangue e deixou o mundo muito mais injusto que o que havia encontrado.
O século XXI, que também nasceu anunciando a paz e justiça, está seguindo os passos do século anterior.
Lá na minha infância, eu estava convencido de que tudo o que na terra se perdia ia parar na lua.
 
No entanto, os astronautas não encontraram sinhôs perigosos, nem promessas traídas, nem esperanças rotas.
Se não estão na lua, onde estão? 
Será que na terra não se perderam?
Será que na terra se esconderam?Eduardo Galeano

Jornalismo substantivo

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, qualificativos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância ideológica ou partidária, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião. A credibilidade não é fruto de um momento. É a somatória de uma longa e transparente coerência. A ferramenta de trabalho dos jornalistas é a curiosidade. A dúvida. A interrogação. O jornalista não deve ser ingênuo. Mas não precisa ser cínico. Basta ser honrado, trabalhador, independente.

É indispensável o exercício da denúncia fundamentada. Precisamos, independentemente do escárnio e do fôlego das máfias corruptas e corruptoras, perseverar num verdadeiro jornalismo de buldogues. O repórter, observador diário da corrupção e da miséria moral, não pode deixar que a alma envelheça. Convém renovar a rebeldia sonhadora do começo da carreira. Todos os dias. O coração do repórter deve pulsar em cada matéria.

Alguns desvios, no entanto, podem comprometer o resultado final do trabalho. A precipitação é um vírus que ameaça a qualidade informativa. Repórteres carentes de informação especializada e de documentação apropriada ficam reféns da fonte. Sobra declaração, mas falta apuração rigorosa. O Poder Público tem notável capacidade de pautar jornais. Fonte de governo é importante, mas não é a única. Muitas pautas estão quicando na nossa frente. Muitas histórias interessantes estão para ser contadas.

O culto à frivolidade e a submissão à ditadura dos modismos estão na outra ponta do problema. O dogma do politicamente correto não deixa saída: de um lado, só há vilões; de outro, só se captam perfis de mocinhos. E sabemos que não é assim. A vida tem matizes. O verdadeiro jornalismo não busca apenas argumentos que reforcem a bola da vez, mas, também, com a mesma vontade, os argumentos opostos.

Registremos, ademais, os perigos do jornalismo de dossiê. Os riscos de instrumentalização da imprensa são evidentes. Por isso, é preciso revalorizar, e muito, as clássicas perguntas que devem ser feitas a qualquer repórter que cumpre pauta investigativa: checou? Tem provas? A quem interessa essa informação? Trata-se de eficiente terapia no combate ao vírus da leviandade. O esforço de isenção, no entanto, não se confunde com a omissão. O leitor espera uma imprensa combativa, disposta a exercer o seu intransferível dever de denúncia.

A força de uma publicação não é fruto do acaso. É uma conquista diária. Só há uma receita duradoura: ética, profissionalismo e talento. O leitor, cada vez mais crítico e exigente, quer notícia. Quer informação substantiva.

A caixa preta do STF: por que o tribunal julga o que quer quando quer?

O Supremo Tribunal Federal (STF) entrou nos holofotes durante o julgamento do escândalo do mensalão em 2012 e desde então nunca mais saiu. As sessões transmitidas ao vivo fizeram com que as atenções dos brasileiros se voltassem à Corte. Se por um lado o evento passa uma imagem de transparência nos procedimentos, especialistas matizam a percepção e veem espaço para que o STF amplie suas práticas democráticas. A última polêmica envolvendo o tribunal aconteceu no início do mês. O decano Celso de Mello decidiu contrariar sozinho uma decisão do plenário da Corte que havia sido tomada em fevereiro deste ano. À época, por 7 votos a 4, os ministros entenderam que as penas podiam começar a ser cumpridas após confirmação da sentença em segunda instância. Em junho, no entanto, Mello mandou soltar um homem condenado por homicídio que já cumpria pena. A expectativa agora é que a Corte volte a discutir o assunto.

Não é o único caso controverso. Sobram dúvidas sobre os critérios das escolhas feitas pelo STF. Por que o tribunal demorou cinco meses para analisar o pedido de afastamento do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ)? O ministro Gilmar Mendes poderia ter segurado por 20 meses o processo sobre o fim do financiamento empresarial de campanha após pedir vista? E um dos processos contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), acusado de peculato e falsidade ideológica, que aguarda parecer dos ministros há mais de três anos? Veja abaixo o que pensam especialistas sobre esses problemas.


Não existe nenhum critério objetivo para determinar o que e quando será votado no STF. Thomaz Pereira, professor de direito da Faculdade Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, explica que “cabe ao presidente e seus pares julgar aquilo que entendem ser adequado, e claro que há influencia de uma possível pressão social”. Neste cenário, ministros podem dar maior ou menor importância a uma determinada questão, de acordo com seus critérios pessoais. “Quando você tem um tribunal com muita liberdade para escolher o que e quando julga, ele passa a ter o ônus de explicar suas decisões para a sociedade”, afirma Pereira. “É preciso que a Corte diga a razão de um pedido de liminar ter sido julgado em dias e um outro semelhante não ter sido analisado ainda anos depois de ter sido protocolado”.

Uma justificativa frequentemente evocada pelos ministros para a morosidade no andamento de alguns casos é o grande volume de processos no tribunal. Pereira afirma que isso não pode ser um argumento para a lentidão, e cita o caso da Suprema Corte dos Estados Unidos como uma corte que tem critérios mais rígidos na seleção dos casos. “Eles têm muito controle sobre o que julgam e o que não julgam, aceitam poucos casos por ano”, diz o professor. Uma das consequências disso é que “tudo o que admitem é julgado, a previsibilidade é muito grande, você sabe que o processo será analisado no decorrer daquele ano judiciário”.

Em nota, a assessoria da Corte informou que o regimento interno do STF "determina que os Habeas Corpus, seguidos pelas causas criminais e as reclamações têm preferência na pauta de julgamentos do plenário e das turmas", e que após estes casos "o ministro Ricardo Lewandowski, durante a sua gestão, tem priorizado as questões de repercussão geral, que são aquelas de relevância social, econômica, política ou jurídica".

Para o jurista Dalmo de Abreu Dallari esse é um dos maiores problemas do STF. Atualmente a Constituição prevê que o presidente indique um nome para ocupar a cadeira de um ministro que aposenta, e cabe ao Legislativo sabatinar o escolhido. Neste ponto o Brasil se inspirou no modelo de Corte Suprema dos Estados Unidos. “Isso acaba tendo implicações políticas, sendo que o correto é que fosse uma escolha jurídica”, avalia o advogado. Ele defende que “a comunidade jurídica fosse ouvida", e que "elaborasse via voto uma lista tríplice, da qual o Executivo escolheria um nome”. Para Dallari, isso “acabaria com aquele estigma de ‘fulano é ministro da Dilma Rousseff’, ‘fulano é ministro do Fernando Henrique Cardoso”.

Marcelo Cattoni, professor de Direito Constitucional da Universidade Federal de Minas Gerais, aponta outro problema crítico neste modelo de escolha de ministros. “Sabemos que todos os Governos desde a redemocratização, negociaram essas nomeações [para o STF] com suas respectivas bases políticas”, afirma. De acordo com ele, a consequência disso é que a muitas indicações acabam sendo feitas para atender interesses imediatos com relação à composição de base parlamentar, “algo típico do nosso presidencialismo de coalizão”. Logo “nem sempre as nomeações recaem sobre grandes especialistas”.

Para Cattoni, caberia à sociedade fiscalizar esse fenômeno para impedir que aconteça, e “o Senado precisa sabatinar de forma séria os indicados”. O professor cita a sabatina do ministro Édson Fachin em maio de 2015 como uma exceção: o procedimento durou sete horas, e foi marcado por duros questionamentos.

Perder-se

Você acredita em destino? Sei, parece uma pergunta estranha. Principalmente num mundo como o nosso, cozido na crença e no projeto de domínio de tudo pelo indivíduo que escolhe as coisas com a força de quem traz o Visa entre os dedos.

Outro dia, conversando com amigas, perguntei quem acreditava em destino. Apenas aquela que já viveu mais, respondeu "sim". As demais, mais jovens, responderam "não". Pareceu-me que ali pesava a maior sabedoria daquela que viveu mais (e trata-se de uma mulher muito bem-sucedida, para que nenhum desavisado pense que era uma "coitada").

Sim, sou um falso contemporâneo: duvido da capacidade humana de controlar sua vida. Cada vez mais. Sendo eu um contemporâneo, minha suspeita de que exista destino deve ser alguma forma de patologia cognitiva. Prefiro minha patologia ao invés do delírio dos meus contemporâneos.

Nesse sentido, ponho sob suspeita a máxima do mundo burguês moderno: sou dono do meu destino, basta que eu calcule, seja competente e monte estratégias. Nos meus piores momentos, suspeito que essa crença seja mais um dos males da caixa de Pandora, que Zeus deu a ela para nos castigar contra nosso conhecimento do fogo (símbolo da técnica) e seus delírios de poder.

Lembremos que o pior dos males naquela caixa era a esperança. Ter esperança é um engano, porque não há esperanças, pensa o grego antigo. Entendo que a crença na liberdade individual contra o destino seja um pouco como a esperança de Pandora: mais um engano, entre tantos outros, que nos faz acreditar em nossa infinita capacidade de dominar as coisas.

De onde viria essa certeza de que somos livres e de que não existe um destino "traçado" sobre nossas cabeças?

Quando olhamos para o mundo antigo, é comum encontrarmos a crença nalguma forma de destino. Esse destino seria traçado por forças divinas. No mundo grego, o famoso oráculo de Delfos, dedicado ao deus Apolo, aquele conhecido por dizer "Conhece-te a ti mesmo", citado por Sócrates, tinha um "complemento", que era: "Saibas que tu és mortal".

Estava aí o destino: o homem é sempre menos do que um deus porque ele é mortal e, por isso mesmo, tem como destino a perda de si mesmo. Entendo que a perda de si mesmo vá além da ideia concreta da morte. A perda de si mesmo se dá de diversas formas. Enquanto escrevo para você, me perco, me traio.

O engano contemporâneo com relação a inexistência do destino estaria não apenas no fato que continuamos mortais, mas também no fato que continuamos a perder a nós mesmos das mais variadas formas: viver é perder-se (nas paixões, nos desejos, nos fracassos, nos sucessos, nas guerras), e se você tenta evitar isso, você se perde mais rápido ainda e de forma definitiva e miserável. É aí que se encontra minha suspeita, além da mortalidade da qual fala Delfos, de que exista algo como um destino invadindo nossas vidas. Mas, sendo a modernidade uma "teenager" encantada com seu sucesso, acabamos por interpretar os palhaços da liberdade.

Pensando a partir de um materialismo social, a ideia de destino parecia mais comum quando os homens e as mulheres tinham poucas opções na vida, fosse por conta de pouca técnica, pouca longevidade, pouca liberdade individual, pouco conhecimento, pouca democracia, poucos shopping centers. Este último principalmente: a fé na liberdade moderna é um misto de fé na técnica (o fogo de Prometeu) e no poder do Mastercard.

Por isso, a fé na liberdade individual me parece fruto do avanço da sociedade de mercado e suas ferramentas de sucesso, descritas acima. Se você quiser ver esta liberdade caminhando por ai, vá ao Iguatemi. A riqueza fez de nós descrentes no destino, porque pensamos poder "comprá-lo".

Não duvido dessa premissa: mais dinheiro, mais técnica, mais sensação de liberdade. Mas suspeito que esta crença seja parte da esperança de Pandora. No fundo da caixa de Pandora tinha mais um mal escondido: a crença na liberdade do consumidor como liberdade contra o destino. O destino moderno é enganar-se com o próprio poder de controlar das coisas.

Luiz Felipe Pondé