quinta-feira, 4 de junho de 2015

Tudo dentro da lei...

Nossa agremiação recebeu propinas pagas a obras não realizadas e contratos superfaturados, mas tudo impecavelmente aprovado pelos tribunais da Terra e dos céus

Somos legalizantes, legalistas, legalóficos e legalomaníacos. Cremos que a vida social e seus costumes mais arraigados; ou os seus laços mais sagrados, mudam com a lei. Mudamos a lei para não mudar o nosso conforto e a nossa perene má-fé. Em outras palavras, para não segui-la.

Vivemos recessão, inflação e depressão causadas pelos nossos projetos onipotentes, mas tudo dentro da lei. Ficamos imensamente ricos roubando contratos e emitindo notas falsas, mas de acordo com um programa e, é lógico, dentro da lei. Ultrapassamos todos os limites dos nossos papéis de administradores temporários dos bens públicos e confundimos nossas vidas com instituições do partido e do Estado, mas de acordo com a lei.

A mentira em nome do povo tem sido a nossa moeda corrente, mas tudo dentro da lei. Preferimos dar cargos públicos a gente nossa, gente boa, gente do nosso coração, alijando pessoas capacitadas, mas tudo dentro da lei. Encorajamos a confusão entre o pessoal e o público, o local e o nacional, o nacional e o internacional, mas tudo dentro da lei. Tentamos controlar a maquina pública naquilo que ela pudesse nos prejudicar e em tudo que ela pudesse nos ajudar, mas tudo dentro da lei.

A lei nos agasalha, protege, guia e nos ajuda a acusar, a patrulhar e a perseguir os nossos inimigos.

Somos, acima de tudo, legais.

Bons companheiros e camaradas. Amigos de cofre e de mesa, de boa arte e comidas. Tudo dentro da lei. Transformamos interesses pessoais e partidários em leis e instituições, dentro da lei.

Combatemos o bom combate eleitoral usando tudo o que estava e não estava ao nosso alcance, mas dentro da lei. Rigorosamente dentro da lei. Nossa agremiação recebeu propinas pagas a obras não realizadas e contratos superfaturados, mas tudo dentro da lei. Tudo impecavelmente aprovado pelos tribunais da Terra e dos céus.


Aliás, antes de existir o mundo, as pessoas, os bichos, o vasto oceano, as montanhas, as tempestades; os terremotos, as cheias e as secas; a neve, a chuva e o sol de rachar. Antes da praia e do mar azul que poluímos; antes do arroz com feijão, da pipoca, do pirão, do peixe frito e da empada. Antes do cachorro-quente, do circo, da novela, da bossa nova e do carnaval. Antes da guerra, das grandes e pequenas batalhas, inclusive as de confete. Antes da tortura e da Abolição da Escravatura. Aliás, antes mesmo da Linha de Tordesilhas que dividia o mundo entre Espanha e Portugal; e antes do Brasil, havia a lei.

Ela nasceu de um buraco negro e criou a realidade. Construindo-a, ela permite desfazê-la. A nosso gosto e prazer, é claro. Sem amor ou ódio, sem proposito ou alvo, pois a lei é paras todos. Mas, como diz a própria lei, ela é mais para nós do que para eles.

Nossa fraternidade — há quantos anos eu te conheço? — é melhor e, sejamos legais, muito mais honesta e correta do que a deles. A lei pende sempre para o nosso lado, mesmo que ela tenha essa mania estúpida e liberal de ser para todos.


Seria ilegal tratar o querido companheiro como todo mundo. Como reza a lei, a igualdade não é possível. A honestidade, então, nem é bom falar. Ambas são um ardil liberal-capitalista desenhado pelo mercado. Ouça uma coisa e espalhe outra. Assim criaremos um mundo mais justo e perfeito. A boa-fé e a verdade são para o outro mundo.

No mundo do poder pode-se até mesmo esquecer e anular os crimes e a História, desde que seja dentro da lei. A prescrição como figura legal é uma engenhosa máquina do tempo. Com ela, fazemos o tempo retornar para anular crimes. Até Hitler teria sua prescrição especial e compreensiva entre nós.

Lei, lei, lei e lei. Contra a verdade, a lei. Contra a ingenuidade, a lei. Contra o outro, a lei. Contra a boa vontade, a lei. Não insistam: nosso maior adversário não são o crime e a ausência de responsabilidade pública encapsulados imbecilmente como um moralismo barato e de direita: é a lei. Vamos revoga-la? Jamais. Vamos, isso sim, reformá-la e usá-la em nosso benefício como sempre temos feito. O legal é maior que o justo e o real. Adoramos a lei em sua majestade paragrafada, subdividida em sentenças claras, escrita por linhas tortas, mas sempre certas quando nós a temos nas mãos e a aplicamos. Na mentira, na hipocrisia e, acima de tudo, na desfaçatez, fiquem sempre com a lei e pela lei. Somos por todas as legalidades, inclusive e sobretudo pela legalidade da ilegalidade.

Somos um dos países mais corruptos, injustos e desiguais do mundo, mas temos um orgulho: estamos sempre dentro da lei!

Roberto DaMatta 

Lição de Brasil

Por que os fundos de pensão do Brasil perderam 31 bi em 2014?


Em agosto de 2003, o então presidente Lula reuniu seus ministros e os presidentes de Funcef (Caixa Econômica), Previ (Banco do Brasil) e Petros (Petrobras), os três maiores fundos de pensão do país, para pedir a colaboração no financiamento de projetos de infraestrutura no país. Desde então, esses e outros fundos de previdência complementar com patrocinadores públicos se tornaram protagonistas de vários projetos governamentais, como as recentes concessões de aeroportos à iniciativa privada, mas também passaram a levantar suspeitas sobre a forma como são geridos. Após dois anos seguidos de resultados negativos (de 22 bilhões de reais em 2013 e 31 bilhões de reais em 2014), o cerco se fecha contra os fundos, que devem ser alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso Nacional.

Na época em que Lula pediu o auxílio desses investidores, os então 361 fundos de pensão do país (de patrocinadores públicos e privados) detinham um patrimônio de 208 bilhões de reais. Hoje, os cerca de 320 somam 704 bilhões de reais e ostentam o oitavo patrimônio mundial do setor, atendendo a sete milhões de pessoas. O aparente sucesso, resultado de uma rentabilidade de quase 300% nos últimos 11 anos, não parece capaz de blindar os planos após o segundo déficit consecutivo do setor, principalmente depois de o Postalis, fundo de pensão dos Correios, fechar o terceiro ano seguido com resultado negativo, desta vez de 5,6 bilhões de reais, como consequência de duvidosos investimentos em títulos públicos da Venezuela e da Argentina e nas empresas do empresário Eike Batista, entre outros (leia "Quem paga a conta?").

Tem sido muito forte a vontade de se desligar e deixar tudo para trás


A advogada e cientista política Sandra Starling, o advogado e professor Sacha Calmon e eu, este pobre escriba, na semana passada, em artigos de jornal, manifestamos não só opiniões, mas sentimentos semelhantes. Ou seja: sem nenhum trato prévio, acertamos na temática do que escrevemos. Coincidência ou comunhão de ideias?

Por uma ou por outra, a expressão “está tudo muito estranho” foi usada por Sacha e por mim. Sacha a ouviu do ministro Marco Aurélio Mello, eu, da minha fadiga crescente, que, na verdade, não é só minha, mas de nós três, que temos hoje, ao nosso lado, o apoio declarado de uma multidão de brasileiros cansados e decepcionados, dentre os quais se destacam jornalistas e intelectuais que ainda falam…

Sacha manifestou enorme cansaço não apenas nas entrelinhas do que escreveu, mas também no e-mail que me enviou dizendo que meu artigo “exprimiu o nosso desencanto” – meu, dele e, também, da ex-candidata ao governo de Minas e ex-deputada federal pelo PT (do qual se desligou). No final do e-mail, me confessou que tem tido “vontade de parar e ir embora”. Só não capitula e se manda, completou, porque se acha “no dever de denunciar”. Sandra Starling, em seu artigo, confessa que pensou “em intitular como um circo o que anda acontecendo no Congresso. Mas os circos merecem meu respeito e minha saudade. Um mau teatro? Dele podemos escapar: é só não ir”.

Fiz questão, na terça-feira passada, de ficar ligado ao que discursavam as Suas Excelências que integram a Câmara Federal e o Senado. Ora ouvia os deputados, ora os senadores. Que tristeza! E, antes de ler o artigo de Sandra Starling – que se refere ao incrível caso do ex-senador Gim Argello (“quase” ministro do TCU, pelas mãos de Dilma e Renan…), que sumiu do mapa para dar lugar ao cidadão Jorge Afonso Argello, seu nome verdadeiro, que o levará, pelo menos por algum tempo, ao anonimato –, concluí comigo mesmo: como existe o mau teatro, o mau cinema, há também, Sandra, o mau circo. O nosso atual Congresso Nacional não passa de um circo mambembe, vale dizer, de má qualidade, medíocre, ordinário. Mas ele reflete, continuei concluindo comigo mesmo, e com muita precisão, o que de fato somos.

Vai daí que esbarro, antes de preparar estas linhas, com a entrevista da ex-porta-voz da agência das Nações Unidas para refugiados Laura Boldrini. A italiana deixou o cargo e se candidatou à Câmara Federal do seu país. Eleita deputada, logo após iniciados os trabalhos, ela assumiu a presidência da Casa. Dentre as boas coisas que disse, principalmente sobre financiamento de campanhas, nos brindou com esta concisão: “A política é o espelho da sociedade. Se há problema de corrupção na política, significa que também há na sociedade”. E é disso que se trata: a sociedade brasileira está doente. E não é de agora. Em qualquer setor, privado ou público, a corrupção grassa. A doença se agrava de maneira espantosa. A política, pós-ditadura militar, sepultou vocações e deu vida ao que há de pior. O estudo das causas fica para os cientistas, mas uma coisa precisa ser dita logo: o Brasil sofre a ausência de lideranças efetivas, desprendidas, convincentes, honestas – qualidades próprias do homem público, cujo objetivo é só um: o bem comum. Uma expressão chata! Coisa de velho!

E o problema não está apenas no PT. Está em todos os partidos. Deixemos de hipocrisia e comecemos o tratamento pela sociedade. Por nós, eleitores, que somos os maiores responsáveis!

Brasil, o filho pródigo caiu em si?

Quando decidi renovar meu velho blog, dando a ele o formato atual em www.puggina.org, escolhi duas frases para aparecerem intermitentemente na “testa” do site: “O bom liberal sabe que há princípios e valores que se deve conservar” e “O bom conservador deve ser um defensor das liberdades”.

Creio nisso e me vejo, como católico, identificado com as duas vertentes. A liberdade é um dom esplêndido, que Deus respeita como atributo de suas criaturas muito mais do que elas mesmas costumam respeitar. E as responsabilidades que obviamente advêm da liberdade recaem sobre os indivíduos, sobre as pessoas concretas e não sobre grupos sociais, coletivos ou sistemas como alguns querem fazer crer.

É aí que entram os valores que balizam as condutas individuais e, por extensão, a ordem social e os códigos. É socialmente importante saber conservar o que deve ser conservado e mudar o que deve ser mudado. O bom conservador rejeita a revolução, a ruptura da ordem, a substituição da política pela violência, reconhece o valor da tradição e aprecia a liberdade como espaço para realização digna dos indivíduos e dos povos.

Não é por outro motivo que o movimento revolucionário e os que com ele colaboram atacam vigorosamente uns e outros. Liberais e conservadores são identificados, corretamente, como os adversários a serem vencidos. Essa batalha se trava no mundo da cultura. Gramsci descobriu isso e fez escola. Seus discípulos brasileiros, ditos intelectuais orgânicos, em poucas décadas tomaram o sistema de ensino das mãos dos educadores cristãos, inclusive na maior parte das instituições confessionais.

Nos anos setenta, incorporaram-se a essa tarefa inúmeros novelistas, diretores e produtores de programas de televisão em canal aberto. Tratei deles em meu artigo anterior “Acabou! Acabou! ”. Enquanto o comunismo era propagandeado como expressão sublime da bondade humana (!), coube àqueles profissionais a tarefa de destruir os valores da sociedade, em ação de lago espectro. Assim, foram zombando do bem, exaltando o mal, pregando a libertinagem e depreciando tudo que merecesse respeito. Foi um longo e bem sucedido processo de destruição moral do qual a corrupção que hoje reprovamos é mero subproduto. A população de patifes, canalhas e sociopatas aumentou em proporções vertiginosas.

Houve um relaxamento até mesmo entre as consciências bem formadas. Gravíssima a omissão de quantos a isso deveriam resistir, nas famílias, nas escolas, nas igrejas e nas instituições! Devemos reconhecer, então: há muito mais culpados entre os omissos do que entre os efetivos agentes do processo de destruição dos valores. As liberdades recuaram simultaneamente porque esse era o objetivo final do projeto de dominação cultural: estabelecer a hegemonia política, com o Estado avançando sobre as autonomias dos indivíduos, das famílias e da sociedade e das liberdades econômicas. Foi assim que assistimos, durante décadas, sucessivas derrotas dos conservadores e dos liberais, tão numerosos quanto acomodados.

Felizmente, a cada dia que passa, cresce o número de brasileiros conscientes das causas da desgraça que acometeu a sociedade brasileira. São as pesquisas que o indicam com clareza. Foi tamanha a lambança, tão generalizada a degradação moral, tão impertinentes os abusos do Estado, a cascavel, enfim, tanto agitou seu chocalho que acabou despertando as consciências de sua letargia. A nação dá claros sinais de estar refletindo sobre o que fez de si mesma.

 Percival Puggina 

BNDES esquece o Brasil para subsidiar países amigos do PT

Para quem conhece o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e trabalhou lá, é inacreditável o festival de protecionismo oferecido pelos governos de Lula e Dilma Rousseff a países da América Latina e da África. Nunca antes, na História deste país, houve tamanha libertinagem com os recursos públicos manejados pelo BNDES, que opera com repasses do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) e do Tesouro Nacional, através de títulos públicos remunerados como a taxa Selic, que atualmente é de 13,25%.

Levantamento realizado pela revista Veja mostra que 70% dos 11,9 bilhões de dólares emprestados entre 2007 e 2014 a esses países foram financiamentos a juros abaixo de 5% ao ano. Isso equivale a 58% dos 516 contratos firmados no exterior neste intervalo.

Diante desses juros ridículos, inacessíveis a qualquer empresário brasileiro, fica explicada a insistência do BNDES e do governo em tentar manter ilegalmente em sigilo as operações do banco de fomento, com a presidente Dilma Rousseff até mesmo arriscando seu mandato, ao vetar irregularmente uma lei aprovada no Congresso para dar transparência aos financiamentos.

O fato é que nos governos do PT os empréstimos do BNDES foram tornados secretos, apesar de existir expressa obrigatoriedade de divulgação na Lei do Sigilo Bancário, que o governo insistiu em descumprir, sujeitando a presidente Dilma à cassação por crime de responsabilidade, vejam a que ponto chegou a insensatez destas autoridades.

Segundo a revista Veja, “do total de 682 milhões de dólares que a instituição liberou para a construção do Porto de Mariel, na ilha dos irmãos Castro, 400 milhões de dólares foram cedidos a um custo entre 4,4% e 4,8% ao ano – abaixo da TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo) e do custo de captação do FAT”. No caso da Venezuela, a operação foi semelhante.

As condições dos empréstimos para Cuba, Venezuela e outros países amigos não são “normais”. Pelo contrário, são absolutamente “anormais”. Nos mais baratos financiamentos do BNDES para empresários nacionais ou estatais com o a Petrobras, não existem juros abaixo de 5%, porque é cobrada a TJLP, que hoje é de 6% ao ano, mais a taxa de apoio financeiro, por volta de 1,5%, acrescida da taxa de risco, em média de 1,0, já atingem um total de 8,5%.


Como os juros cobrados aos países latino-americanos e africanos são inferiores à TJLP, isso significa que o Brasil está subsidiando o desenvolvimento dessas nações, ao invés de estar fomentando a economia nacional, que por lei é (ou seria) a finalidade única do BNDES. Mas que importância tem a lei para os governos do PT?

O BNDES sempre foi implacável com relação a garantias. Foi o que salvou o banco de uma exposição maior no caso das empresas de Eike Batista, cujo prejuízo principal ficou com os bancos comerciais que intermediaram as operações.

No caso dos empréstimos a Cuba, segundo o jornalista Claudio Tognoli, do Yahoo, as garantias são oferecidas pelo próprio governo brasileiro, através de um fundo garantidor que é gerido pelo BNDES.

“Entrei no site do BNDES Transparência e chequei o seguinte: os empréstimos a Cuba são tutelados por esse fundo garantidor, que é do Ministério da Fazenda do Brasil”, escreveu Tognoli.

Não é preciso dizer mais nada. E não vai acontecer nada, porque estamos num país de cidadãos politicamente emasculados, digamos assim.

Dilma premia com sinecuras que a ajudou a se reeleger

A presidente Dilma Rousseff é grosseira. Trata mal seus subordinados. E devota um desprezo especial aos políticos. Mas ingrata não é. Nem mesmo com Lula, por mais que ele se queixe.

A merecida fama de pessoa grata foi reforçada, ontem, com as nomeações de Maurício Requião e Roberto Amaral para conselheiros da usina Itaipu Binacional (Brasil-Paraguai).


Maurício, psicólogo, professor, é irmão do senador Roberto Requião (PMDB-PR). Em 2008, quando governava seu Estado, Requião nomeou Maurício conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.

O emprego era vitalício. Maurício ganharia R$ 26 mil mensais e teria direito a auxílio-moradia no valor de R$ 4,3 mil, carro com motorista e gasolina, além de outros benefícios.

O sonho de Maurício não durou muito. Acabou afastado do cargo pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Sua nomeação feriu a lei que proíbe o nepotismo – o emprego de parentes de primeiro grau.

Dilma deve muitos favores ao senador Requião. No ano passado, ele se candidatou ao governo e apoiou a reeleição dela. No Senado, ajudou-a a aprovar o nome do jurista Luiz Fachin para vaga no STF.

Roberto Amaral não fica atrás no número de favores que Dilma lhe deve. E não somente ela. O PT também. E o próprio Lula. Amaral sempre foi um petista (ou lulista) infiltrado no PSB.

Em 2002, presidente do PSB de Miguel Arraes, Amaral concordou com o apoio do partido à candidatura de Garotinho a presidente da República. Arraes quis e pronto. Estamos conversados.

No segundo turno, Amaral empurrou o PSB para apoiar Lula contra José Serra. Uma vez eleito, Lula retribuiu promovendo Amaral a ministro da Ciência e Tecnologia.

Foi substituído antes do fim do primeiro mandato de Lula. Amaral defendeu a produção da bomba atômica brasileira. Uma asneira! Para preservar a imagem do governo, Lula mandou-o embora.

Voltou-se a saber de Amaral quando Dilma se elegeu pela primeira vez apoiada pelo PSB de Arraes e do Eduardo Campos. Dilma deu-lhe a mão. E Amaral ganhou uma sinecura. Uma não. Duas.

Amaral tornou-se membro do Conselho de Administração da Itaipu – o mesmo emprego que agora voltará a ocupar. E membro também do Conselho de Administração da Nuclebras

Embolsando por mês algo como R$ 40 mil, Amaral ficou nos dois empregos até o PSB lançar a candidatura de Eduardo a presidente. O partido obrigou-o a devolver os cargos ao governo.

Amaral tudo fizera para demover Eduardo da ideia de sair candidato. Depois da morte dele na queda de um helicóptero, tudo fez para que o PSB não apoiasse a candidatura de Marina Silva.

No segundo turno, defendeu que o PSB não apoiasse nem Aécio nem Dilma. Mas quando o partido decidiu apoiar Aécio, Amaral lançou uma nota apoiando Dilma e criticando o PSB.

Ele e Maurício Requião ganharão, cada um, R$ 20.804,13 mensais para participar de ao menos seis reuniões anuais do Conselho de Administração de Itaipu, uma a cada dois meses.

Receberão ainda remunerações variáveis como diárias de viagem e bônus por lucro, conforme ocorreu com o ex-conselheiro de Itaipu e ex-tesoureiro nacional do PT João Vaccari Neto.

Réu por corrupção e lavagem de dinheiro na Operação Lava Jato, Vaccari deixou o posto de conselheiro em janeiro e foi substituído pelo secretário-geral da Presidência Giles Azevedo, amigo de Dilma.

Nos últimos sete anos, Vaccari declarou à Justiça Federal renda bruta de 3,4 milhões de reais – mais da metade, cerca de 2 milhões de reais, vieram de rendimentos de Itaipu.

O novo-velho emprego de Amaral não exigirá muito dele – pelo contrário. Basta que referende as decisões tomadas pela diretoria executiva do capítulo brasileiro da hidrelétrica. Moleza!

A diferença

Paralelos são melhores para identificar diferenças do que para iluminar semelhanças. Na Itália, o partido da esquerda desempenhou papel relevante, mas acessório, na derrota dos juízes de Milão. No Brasil, o lulopetismo é a principal ameaça às investigações conduzidas pelo juiz e pelos procuradores de Curitiba.
Demétrio Magnoli 

País dos desdentados

Quase 75% dos atendimentos de saúde bucal aconteceram na rede privada, diz pesquisa do IBGE

O Brasil tem 11% da sua população sem nenhum dente, o que corresponde a um montante de 16 milhões de pessoas. Entre as mulheres, essa porcentagem sobe para 13,3% e, entre os homens, cai para 8,4%. Das pessoas com 60 anos ou mais, 41,5% já perderam todos os dentes. E 22,8% dos brasileiros sem nenhuma instrução ou sem ensino fundamental concluído estão completamente desdentados 

Além disso, 23% dos brasileiros perderam 13 dentes ou mais, e 33% usam algum tipo de prótese dentária.Os números constam da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), divulgada nesta terça-feira pelo IBGE, que, em convênio com o Ministério da Saúde visitou cerca de 80 mil domicílios, em 1.600 municípios de todo o país no segundo semestre de 2013.

A pesquisa também mostra que o atendimento odontológico no país acontece majoritariamente na rede privada. Entre os brasileiros com mais de 18 anos que buscaram atendimento de saúde bucal, 74,3% recorreram a consultórios particulares. As unidades básicas de saúde foram responsáveis por apenas 19,6%.

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'Desenvolver não significa diminuir desigualdades'

Em 1974, Celso Furtado escreveu um pequeno livro que ainda hoje impressiona pela sua capacidade crítica em relação a um dos fundamentos da noção econômica de progresso. Nele, a própria noção de desenvolvimento econômico era descrita como um “mito”.

Furtado se bateu constantemente contra a maneira com que a visão do desenvolvimento se circunscrevia à lógica dos meios, ou seja, como a simples ampliação quantitativa do “crescimento”, do “investimento”, da “exportação” nunca nos levaria a uma real transformação. Daí por que ele dizia que a fixação em tal mito do desenvolvimento econômico era responsável pela paralisia da criatividade social.

Nesse contexto, “criatividade” significava a capacidade de transformar globalmente o horizonte do progresso da vida social, colocando em questão meios e fins para abrir o espaço à constituição de novas formas de vida.

Agora, no momento em que o Brasil termina um ciclo de desenvolvimento que teria durado uma década e recebeu o nome de “lulismo”, é salutar voltar os olhos à teoria de Celso Furtado a fim de se perguntar se, afinal de contas, ela não foi a mais bem acabada expressão de um “mito”.

Não se trata aqui de negar como, no final de 2010, assistimos a fenômenos como a ascensão social de 42 milhões de pessoas com sua ampliação da capacidade de consumo, a elevação do salário mínimo a 50% acima da inflação, entre outros.

Mas trata-se de perguntar se a circunscrição do pretenso sucesso do modelo econômico lulista à tal “lógica dos meios” não expressa claramente a incapacidade de setores hegemônicos da esquerda brasileira de assumir como tarefa maior a crítica do mito de desenvolvimento econômico e a absorção da “criatividade social” como conceito fundamental para a definição do que pode ser entendido como “progresso”.


Por exemplo, é claro que o que vimos no lulismo não foi o combate à desigualdade, mas a capitalização dos setores mais pobres da população, o que é muito diferente. Os rendimentos dos mais ricos continuaram aumentando, mesmo que os mais pobres tenham sido relativamente capitalizados. Com isso, os rendimentos dos mais ricos puxaram preços para cima, transformando São Paulo e Rio em algumas das cidades mais caras do mundo. Isso corroeu o ganho dos mais pobres, fazendo com que as conquistas do modelo rapidamente se esvaíssem, como vemos agora.

Por não ter pensado o desenvolvimento fora da chave de sempre, o lulismo foi mais um capítulo de um mito que a própria esquerda brasileira havia diagnosticado há 40 anos.

Desajuste fiscal

O ajuste fiscal é o principal tema nacional do momento, mas pouco se discute sobre as causas e responsabilidades pelo desajuste fiscal que caracteriza o presente e sobre as bases históricas do desajuste estrutural. Há décadas o Brasil adia reformas estruturais. Há anos alertamos sobre os riscos provocados por decisões irresponsáveis com as finanças públicas, mas os alertas foram repudiados.

A euforia ilusória que o atual governo propagandeou à opinião pública, realimentando-se dela, impediu que a realidade em marcha fosse vista. Além da cegueira, a lógica de governar para atender reivindicações imediatas de grupos específicos e a ganância eleitoral levaram a irresponsabilidades desajustadoras. O resultado é a triste necessidade de ajustes, que, além de trazer retrocessos para a economia e a sociedade, ainda enfrentam resistências que talvez impeçam seu êxito.


A primeira dificuldade para superação do atual quadro está no fato de que o ajuste é patrocinado e executado pelo mesmo governo que provocou o desajuste. A presidente parece não ter entendido a dimensão do problema nem aceita reconhecer que a crise decorre de seus erros. Assim, fica difícil conseguir entendimento para formular e credibilidade para executar as medidas necessárias.

A segunda dificuldade decorre do tamanho do país. Em outros tempos, já estaríamos de volta ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para obter empréstimo que cobrisse o déficit fiscal. Mas nossos problemas são maiores do que as soluções que os organismos internacionais podem proporcionar. Tampouco podemos contar com receitas extras, como as do pré-sal, pois o Brasil não cabe num poço de petróleo. Nossa dívida bruta é de R$ 3,48 trilhões. A conta de juros nominais do setor público, que exigiu R$ 396,6 bilhões nos 12 meses terminados em março de 2015, supera o PIB de 116 países. Isso dá a dimensão do problema a ser enfrentado para controlarmos o crescimento da dívida e podermos pensar em retomar minimamente os investimentos.

A terceira dificuldade para superação da crise vem da falta de um sentimento nacional. O país está dividido em corporações e grupos preocupados com interesses específicos e imediatos, banqueiros ou trabalhadores, sem considerar o interesse coletivo e o futuro. Isso se agravou com a radicalização da política e com o uso de instrumentos marqueteiros, sectários e descomprometidos com a verdade, como aqueles a que recorreu a presidente Dilma durante a campanha eleitoral de 2014.

Mas a maior dificuldade decorre dos desajustes estruturais e históricos de uma sociedade que não fez as escolhas certas no passado, não teve a devida responsabilidade, nem fiscal nem social, aceitando cair na inflação, na desigualdade e na ineficiência. O Brasil é grande demais, imediatista demais, descrente demais e desgovernado demais para superar as atuais dificuldades sem um entendimento político, necessário para ajustar nossas contas públicas e corrigir nossos desajustes estruturais.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A relatividade de tudo


Pelo título, pode parecer que desejo falar da Teoria da Relatividade de Einstein. Não, não se trata disso. Na verdade, o título “a desrelatividade de tudo” expressaria melhor minha ideia. Coisa de doido? Nada! Doido é quem procura entender o que está acontecendo em Brasília em termos de legislação.

Como sempre, e por acaso, encontrei um velho amigo de andanças políticas, o curioso e divertido “Zequinha mais ou menos”: “Ô, Dota, que bom te vê, eu tava pensando em ligar procê, pra resolver pra mim como vou ter que fazer pra me aposentar. Tô com a documentação mais ou menos em dia, mas parece que eles muda tudo todo dia...” Ô Zeca, vamos esperar um pouco até que seja publicada a nova tabela que o Congresso acaba de votar... “Mais ou menos quantos dias?” Ah... Isso não deve demorar... “Meu medo é eles mexer no tempo e nas contribuição... como é qu’eu faço nesse acontecido?” Não se preocupe, você já tem direito...

Pois sim, quem garante isso neste Brasil? O direito do pobre é torto. Eles faz de nós gato e sapato, e nós fica só com os direito... Fazer o quê? Antigamente deva que era muito pior, eles tinha mania até de pregar os outro na cruz... Agora eles só abusa e enche o saco da gente, tá até mais ou menos, né?”

Saí dali pensando: de que adianta saber que existe o “princípio da anterioridade” da lei, que diz que ela vige no tempo e no espaço? Saber eles sabem, só não aplicam ou praticam e, por agir assim, o país vive, no meu entendimento, seu pior momento de insegurança jurídica. E o que é essa insegurança jurídica de que tenho falado? A melhor definição seria dizer que é “o próprio governo do PT”. O lobista ex-Luiz, logo que tomou posse na Presidência da República (melhor seria dizer: logo que tomou de assalto,) nomeou o criminalista Márcio Thomaz Bastos ministro da Justiça. E uma das primeiras medidas tomadas pelo novo governo foi mandar mensagem para o Congresso Nacional instituindo a cobrança da contribuição previdenciária aos aposentados de todas as categorias, públicas e privadas. E daí?
Daí é que começou, no meu entendimento, a insegurança jurídica no país, que, desde então, só se agrava. O ex-Luiz não sabe nada disso, mas o professor e famoso criminalista Márcio Thomaz Bastos não só sabia, como deu sustentação para o lobista-mor cometer tamanha inconstitucionalidade. As leis podem operar dois tipos de efeitos em sua vigência: “ex-tunc” e “ex-nunc”. O “ex-tunc”, mais próprio das inconstitucionalidades, retroage para alcançar, é o caso dessa contribuição absurda; e o outro tem vigência a posteriori, ou seja, “a partir de”. Pessoas que contribuíram a vida inteira para receber a retribuição na aposentadoria, de repente, tiveram de voltar a contribuir no final da vida para continuar recebendo...

E daí o povo brasileiro se acostumou a engolir sapos sem arrotar, e as leis deixaram de ser normas produzidas pelo Estado para serem conselhos convenientes para essa corja do governo. Quousque tandem?

Qual democracia?

É urgente recuperar a capacidade dos governos e dos partidos políticos para respeitar e escutar as vozes das ruas

(Para Rodrigo)

O ano de 2015 está sendo marcado por novas e importantes ameaças à liberdade de manifestação.

Nos Estados Unidos, a polícia vai à rua como se fosse à guerra, tão impressionante é o aparato bélico mobilizado para enfrentar manifestantes. Na Espanha, uma nova lei, apelidada pelos críticos de “Lei da Mordaça”, busca coibir os protestos em lugares públicos. Aqui no Brasil, assistimos estarrecidos, no dia 29 de abril, às imagens da polícia do Paranáreprimindo violentamente uma manifestação de professores, que resultou em mais de 200 feridos, alguns em estado grave.

Semana passada, o estudante universitário Rodrigo Avilés foi gravemente ferido quando participava (pacificamente) de uma manifestação pela reforma educacional em Valparaíso, no Chile. O caso de Rodrigo, que continua internado em estado grave no hospital, simboliza um problema maior. Desde 2011, quando os estudantes chilenos começaram a se mobilizar, seus protestos de rua terminam sempre em guerra aberta com policiais. Pelo menos uma vez por mês, há já quatro anos, um protesto acaba com centenas de presos e feridos.

Algo que deveria ser uma anomalia – o uso excessivo e desproporcional da força do Estado – virou parte do cotidiano.

Os efeitos da repressão

Infelizmente, o que estamos vendo em 2015 não é novo. A repressão excessiva e injustificável a manifestantes tem se tornado comum nos últimos anos. O incrível – inaceitável – é que isso se dê em países democráticos e não em países sob regimes autoritários, nos quais a repressão é esperada simplesmente porque não existe o direito de manifestação.

A repressão pode ter dois efeitos: desmobiliza ou reenergiza os movimentos sociais. Em contextos democráticos, é comum que a repressão tenha um efeito não esperado, ou seja, que gere mais mobilização. A facilidade cada vez maior para obter imagens que registram de forma inequívoca o uso injustificado da força só aumenta a probabilidade de que a repressão leve a mais – e não menos – protestos. A indignação frente à violência do Estado junta (ainda que talvez temporariamente) atores da sociedade que talvez não tenham plataformas comuns para além do clamor por justiça. A capacidade de mobilização por meio das redes sociais da Internet também facilita a disseminação rápida das notícias e dos chamados a novos protestos.

Em junho de 2013 vimos como a violência com que a polícia reprimiu os que se mobilizavam contra o aumento de tarifas de ônibus em São Paulo precedeu um dos mais massivos ciclos de protestos da história do país. Hoje está acontecendo algo parecido no Chile. A luta de Rodrigo pela vida está emocionando o país. Vigílias e novas manifestações de rua vêm se sucedendo, agora com ímpeto renovado. Essas mobilizações colocam em cheque não apenas a polícia, mas o governo do país de forma geral, já enfraquecido por escândalos recentes de corrupção. Nesse contexto, amplos setores da sociedade se juntaram para prestar solidariedade, demandar justiça e defender o direito de manifestação.

Mas esses efeitos da repressão têm um custo elevado demais. Um custo que Rodrigo e sua família hoje têm que pagar, e que nossas democracias não podem ignorar. É urgente recuperar o papel democrático da polícia como garantidora do direito à livre manifestação. É urgente recuperar a capacidade dos governos e dos partidos políticos para respeitar e escutar as vozes das ruas.

Acabou! Acabou!

Outro dia, escrevi sobre o comportamento abusivo de setores sociais que se consideram corregedores da opinião pública. Referia-me a grupos empenhados em nos instruir segundo seus próprios padrões de conduta. Estranhamente, percebi hoje, deixei de lado os autores e diretores de novelas da Rede Globo. Como fui esquecê-los? A explicação é simples: há muitas décadas não assisto novela alguma. Mas sei que foi constante e persistente o trabalho desses profissionais para impor à sociedade suas pautas e suas posições político-ideológicas, através da audiência da maior emissora de tevê do país.

Serviram à população, lentamente, doses crescentes de drogas que a tornassem dependente e destruíssem seus princípios e seus valores. Muitos dos atuais males vividos pelas instituições nacionais, partindo da família, passando pelo sistema de ensino, até chegar à política e às instituições do Estado, resultam, em boa parte, do longo processo sobre o qual aqui escrevo. A discussão sobre ele é antiga e se resume, essencialmente, em saber quem reflete o quê: a novela expressa a vida ou a vida reflete a novela?

Essa dúvida eu nunca tive. Durante anos participei de um grupo que fazia palestras sobre a formação do senso crítico, para criar mecanismos de defesa no ambiente familiar e escolar, construindo trincheiras de consciências bem formadas. Com o passar dos anos, o grupo se desfez por motivos que nada tiveram a ver com a tarefa em si. Mas sinto uma ponta de orgulho em saber que, há tanto tempo, tivemos claro discernimento sobre para onde a nação estava sendo conduzida. Em entrevista que li lá pelo início dos anos 90, um dos maiores da profissão, filiado ao PCB, Dias Gomes, admitiu explicitamente que sua atividade profissional sempre estivera orientada nessa direção, inclusive durante os governos militares.


Por todas essas e por muitas outras, a matéria da Veja sobre a reação de Gilberto Braga e Dennis Carvalho, respectivamente autor e diretor da novela Babilônia, me fez muito feliz. Encantou-me o desalento da dupla que quis aumentar um pouco mais a dose da droga que serve à sociedade e obteve como resposta uma sólida rejeição. A novela virou o maior fiasco do horário em toda a história da TV Globo. Mas o melhor de tudo foi ler que a dupla está estarrecida com a “caretice” da população. “Nós estamos no século 21, em 2015, e de repente as pessoas ficam chocadas com coisas que não chocavam antigamente”, lamuriaram-se.

Mas não é a novela que imita a vida, senhores? Agora mudou tudo? A rejeição da sociedade a essa novela mostra que sempre foram vocês que estiveram conduzindo a população através da falta de caráter e limites de seus personagens. E agora, que os telespectadores lhes dizem – Basta!” - têm a audácia de atribuir a rejeição ao “politicamente correto”? Mas essa maldição do politicamente correto foi outra construção do mesmo plano sinistro que conduziam!
Esse ardiloso uso do poder da televisão também chega ao fim. Aquelas três novidades tecnológicas que mencionei outro dia – internet, smartphones e redes sociais - estão derrubando o comércio de droga à população através da TV. As pessoas estão sabendo mais, lendo outras coisas, assistindo vídeos de formação, ampliando seu discernimento e percebendo que com a perda da noção de limites são perdidos, também, muitos dos mais valiosos bens de que todos podemos dispor para nossa felicidade.
Percival Puggina

Quando se governará este ano?

Pedaladas

Na minha casa era a maior confusão para dar uma volta na velha bicicleta preta da marca Philips. Até hoje há controvérsias de como ela apareceu na nossa sala do dia de Natal. Éramos sete homens e quatro mulheres a disputar algumas pedaladas. Ela era inglesa, dois quadros, bagageiro, farol e uma bomba pneumática fixada na barra inferior. As meninas e os menores pedalavam com as pernas entre os quadros; maior perigo! A alegria durou pouco. Meu pai percebeu o risco das brincadeiras, quando os machucados se multiplicaram e ele decidiu vender a bicicleta. Ainda bem que não foi para um vizinho, pois, se assim fosse, morreríamos de raiva.

Durante anos as bicicletas, pelo menos nas grandes cidades, perderam espaço para os transportes coletivos e sumiram das ruas. Voltaram recentemente com a divulgação maciça das vantagens para a saúde daqueles que pedalam habitualmente.

Competições também incentivaram o desenvolvimento do esporte e o aparecimento de atletas conceituados ou não, como foi o caso do campeão Lance Armstrong que, depois de vencer a “Volta da frança” por sete vezes, confessou praticar doping, dando pedaladas nos adversários. Caiu da bicicleta e perdeu os seus títulos.


Os equipamentos se tornaram sofisticados e há no mercado bicicletas mais caras do que carros, abrindo os olhos de marginais que atacam seus proprietários para roubarem os veículos. A coisa ficou tão feia que alguns latrocínios amedrontam as pessoas e as inibe de praticar a saudável pedalada.

Há, ainda, a utilização da “pedalada” para indicar procedimentos econômicos e políticos que encobrem as reais condições do país. O governo Dilma tem sido acusado de manipular contas para demonstrar a pujança da economia nacional. A oposição já protocolou ação contra a presidente por causa das pedaladas mais recentes. O caso é grave, mas parece que ainda não será desta vez que a presidente cairá da sua magrela.

É bom lembrar que John Kerry, secretário de Estado Americano que adora se mostrar sobre o seu “camelo”, levou um tombo numa ruazinha da Suíça e fraturou o fêmur.

Aliás, magricela como está, Dilma, seguindo as orientações de seus marqueteiros, decidiu pedalar para aparecer na mídia e transformar a “pedalada econômica” em agradável passeio pelas avenidas da capital.

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A presidente deve ter cuidado com essas peripécias, pois a idade também pesa no final das contas. O ideal é que volte a caminhar na ciclovia da Península dos Ministros, acompanhada do seu fiel cão Nego, como fazia em seus tempos de paz. Ali, nunca foi hostilizada, mesmo sabendo que os demais frequentadores a olhavam com receio em razão de sua intolerância.

Por fim, não se pode esquecer de Joseph Blatter, presidente da FIFA, também recentemente eleito, e que tentou de “bicicleta” dar uma pedalada no FBI e acabou no fundo das redes.

Que Justiça é essa?

Estamos revoltados.

“A justiça atrasada não é justiça; senão injustiça qualificada e manifesta”. Rui Barbosa.

“Quanto mais leis, menos justiça”. (provérbio alemão).

Somos um país injusto, pois muitas leis só beneficiam os poderosos, que podem pagar quem os defenda.

Artigo 5º diz: todos são iguais perante a lei. Foro privilegiado não é contra a constituição? O que faz o STF? Um pobre coitado rouba um pedaço de pão tem seu rosto publicado na tv e nos jornais; um empresário compra o julgamento do CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais),e tem sua multa absolvida ou diminuída. O procurador pede a prisão e o juiz nega. É justiça?
Para bandido pequeno não há segredo de justiça? Para bandido de colarinho branco tem segredo de justiça? Por que?


Um empresário é preso pela justiça no lava- jato por roubar muito e depois é solto pelo STF; mas com direito a tornozeleira eletrônica;

Roubaram a Caixa Econômica Federal (falam em 100 milhões – operação fidúcia) e ladrões soltos e passeando no shopping sem tornozeleira, em Fortaleza; pode?

O povo não entende a diferença entre roubar muito ou roubar pouco e o Grupo Guararapes, também;
O Brasil treme pela quantidade de roubo grande. Mensalão – petrolão – Caixa Econômica Federal no Feará – CARF, somando tudo roubaram mais de 20 vinte bilhões. É o que falam.

Pergunta: estes ladrões grandes não criam a desgraça social? Não são mais perigosos do que ladrão de galinha? Não são os Al Capone da vida? Não são aqueles que aumentam a desigualdade social? Os hospitais estão sem remédio e doentes no chão. Eles (bandidos) levaram o dinheiro meu, seu e do povo brasileiro; é certo?

Por que os envolvidos no mensalão não pegaram a mesma pena? Não estavam juntos, praticando os mesmos crimes com a mesma finalidade?

Por que os políticos envolvidos no mensalão estão em casa e outros bestas presos?

De março de 2014 até fevereiro de 2015 o setor público brasileiro pagou 344 bilhões (R$344.000.000.000,00) de juros ou um bilhão (R$1.000.000.000,00) a cada 25 horas e meia. (Vinicius Mota – FSP 6 abr 2015). O dinheiro roubado não poderia diminuir o pagamento do juro?
As perguntas feitas precisam de resposta.

Quem poderá nos informar? OAB? – STF? – STJ? – Procurador Geral da República? – TCU? – Senado da República? Ministério da Fazenda?
Do Getúlio pra cá cortaram: 000.000.000.000.000.000 ( 18 zeros ).

O povo agradece às respostas.
Grupo Guararapes

O drama shakespeariano do PT

O Partido dos Trabalhadores realizará seu 5º Congresso em meio a um gravíssimo problema de identidade, como admite o manifesto de sua corrente majoritária, Construindo um Novo Brasil.

O dilema não tem a ver com uma crise de consciência ou com a tentativa de limpar a própria biografia dizimada por escândalos e malfeitos.

Na verdade, o que preocupa os petistas é como firmar posição, manter o poder e se locupletar com o melhor dos mundos: usufruir do bônus de ser governo sem arcar com o ônus.

Só isso explica o grande ponto em comum entre as sete teses apresentadas pelas diversas correntes do PT: a crítica ao ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy.

O caleidoscópio petista é vasto.

Vai de quem simplesmente quer a cabeça do ministro da Fazenda e um giro de 180 graus na política econômica da presidente Dilma Rousseff, até quem considere o ajuste fiscal como um “recuo tático” que “recai mais sobre os trabalhadores do que sobre outros setores das classes dominantes".

Essa é a posição mais moderada, defendida pela corrente majoritária e cuja chapa ironicamente se chama “O Partido que muda o Brasil”. Sabemos muito bem onde essa mudança desaguou.

Vamos deixar de lado algumas pérolas da tese da maioria, como suas lamúrias contra o ”presidencialismo de coalizão” e seu mea-culpa por causa do “cretinismo parlamentar” praticado por alguns petistas ao longo das últimas legislaturas.

Mais importante do que tudo isso é a aposta numa luta intestina entre Joaquim Levy e o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, com Dilma desempatando o jogo em favor dos “desenvolvimentistas”, como fica claro na seguinte passagem:

“Face à disposição manifesta pela Presidenta Dilma de preservar as conquistas dos trabalhadores nos últimos 12 anos, é necessário que as medidas fiscais sejam complementadas por propostas governamentais que apontem – como já declarou o Ministro do Planejamento – para uma retomada do crescimento ainda este ano”.

O delírio é livre.

O dilema hamletiano dos petistas não se resume apenas a ser ou não ser governo. A crise do PT é tão profunda (talvez seja a maior crise já vivida por um partido político na história brasileira) que o desencanto vem batendo firme em couraças até recentemente impenetráveis. A catatonia e a perplexidade tomaram conta das bases.

Mais: petistas de alto coturno avaliam até que ponto é negócio disputar as próximas eleições pela legenda, ou se não é o caso de criar um biombo para se proteger da severa punição que o eleitorado anuncia.

Esse parece ser o jogo de Lula. Está com Dilma, pero non mucho.

Ora prestigia a presidente, ora avaliza a pregação do ex-governador Tarso Genro em torno de uma frente de esquerda.

Se houver o milagre da recuperação de Dilma, o caudilho será candidato em 2018 pela legenda e sua campanha terá como símbolo uma enorme estrela. Mas se for confirmada a tendência atual, pode se descolar da criatura e se candidatar por algo semelhante à Frente Ampla do Uruguai, atrás da qual venham a se esconder petistas de todos os cantos.

Enquanto o horizonte não se esclarece, Lula fará o que Juan Perón sempre fez na Argentina: arbitrar a disputa interna entre a direita e a esquerda do seu partido para impor o princípio da “verticalidad”.

É um princípio cristalino. O debate interno é livre, mas a última palavra é a do caudilho.

O proletariado vai ao paraíso


O flagrante da deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) desfrutando das comodidades da classe executiva da Air France num voo para Paris, segundo Augusto Nunes ) “prova que a crise econômica não tira o sono do alto escalão do governo”. Nem do alto, do médio, do baixo e do comissariado petista e cúmplice.

Quando os jornais e revistas nacionais abrem espaços amplos para divulgar os “passeios” do ex-proletariado, agora entronizado como governo, infelizmente não sobra sequer lugar para uma notinha de pé de página sobre a mordomia com os de hoje, por todo país, que ganharam na loteria do poder. São bem mais do que se pensa e desfrutam das benesses comissárias com que se doam como bênçãos divinas por seu trabalho (?).
Em Nice, por duas vezes,  compra de espaço na feira com dinheiro público
Um dos imensamente favorecidos é Washington Quaquá, presidente regional do PT e prefeito de Maricá, que em 2009, logo após assumir, comandou um bonde a Cuba. Desde então não parou mais e tem um carnê de milhas aéreas de fazer inveja à própria Dilma, perdendo logicamente apenas para Lula. O prefeitinho é o mais viajado do país para “trazer investimentos estrangeiros” que nunca pousaram no fechado aeroporto municipal, que só serve para aeroclube.
Anúncio na revista do prefeito sobre outro grande investimento imobiliário
A carreira internacional do prefeito vai além de Europa, França e Bahia. Na França, por dois anos consecutivos, junto com uma patotinha, na Itália e na Espanha, foi bancar o corretor imobiliário para vender condomínios de alto luxo num município sem água e saneamento básico, o mesmo que repetiu na Itália. A mordomia, a compra de espaço e a instalação de estande nessas feiras foram bancadas logicamente pelo contribuinte, que não foi consultado e teve explicações sobre as viagens de corretagem imobiliária. A farra foi tão boa que até anúncio internacional conseguiu para a revista da família (Maricajá), editada por Lurian Lula.

Na China, foi o único prefeito brasileiro a pisar atrás dos investimentos tão propalados para um polo naval em Jaconé, que já teria sido transformado em reserva ambiental. Pousou lá depois de Lula e Dilma.
Reunião na China com o empresariado para trazer "desenvolvimento"
A boa vida do comissariado e dos petistas parece ser bem mais confortável e paradisíaca do que a da população sob o seu jugo. Com o dinheiro público, esbanjam em suas turnês atrás sempre de “investimentos” que nunca chegam e, se chegarem, por engano dos investidores, encontrará uma terra de ninguém, arrasada pela roubalheira governamental. A fundo perdido deixarão ruínas de obras inacabadas, outras apenas nas placas, ou malfeitas como os quilômetros alardeados de “asfalso”, sistema ecológico que tem curto prazo de validade. E aquele desenvolvimento que sempre foi de garganta, para enganar trouxas e colocar um dinheirinho no bolso para não mais ser tachado de pé de chinelo.
Quaquá (PT) é afastado do cargo pela Câmara de Vereadores
Pose na Itália durante turnê de 17 dias "em favor de Maricá" 

O Brasil sem marqueteiro

Comunidades mantêm bolsões de extrema pobreza. Para especialistas, condições urbanas acentuam penúria
Com o olhar perdido no horizonte, Maria Eunice Guimarães mastiga um sonho, desses de padaria. A vista é para o mar de Ipanema e Copacabana. Mas, como já dizia a música dos Titãs, “miséria é miséria em qualquer canto”. E Maria Eunice, aos 51 anos, nunca escapou dela. Quando criança, viu os irmãos morrerem de fome. Aos 7, fugiu de casa, segundo ela, porque sua mãe não acreditou que seu padrasto queria estuprá-la.

Criou-se na rua. Admirava cartões-postais nas bancas de jornal. E foi parar numa paisagem digna de um deles. Mas a beleza não esconde as feridas ainda abertas em sua vida: mora no ponto mais alto do Pavão-Pavãozinho, 780 degraus morro acima, no pedaço da favela conhecido como Caranguejo, onde predominam barracos de madeira, como o de Maria Eunice, e casas de pau a pique.


Lá estão os mais excluídos, uma espécie de favela dentro da favela. Situação que, como mostra a terceira e última reportagem da série “Os miseráveis”, se repete em outras comunidades da capital. Nesses bolsões, está boa parte dos 178.815 cariocas (2,8% da população) que vivem na extrema pobreza, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social. Eles estão quase sempre em lugares de difícil acesso, muitas vezes em situação de risco. No Pavão-Pavãozinho, onde uma casa na parte baixa custa até R$ 200 mil, o barraco de Maria Eunice não tem banheiro ou eletrodomésticos. É o contraste dentro da comunidade, que tem, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), apenas 0,9% de miseráveis.

Sem acesso a programas sociais, Maria Eunice e o companheiro, Washington de Freitas, são “garimpeiros urbanos", sobrevivem do que moradores de Copacabana jogam fora. Quase tudo o que o casal tem foi achado no lixo. Inclusive o sonho que Maria Eunice comia na manhã de 21 de maio.

— Achamos no lixo do mercado. Pegamos também carne, resto de mortadela, raspa de queijo. Não tenho vergonha. Cumpri 17 anos de prisão por roubo e homicídio. Há seis, estou em liberdade. E ganho minha vida honestamente, embora eu já tenha jogado minha carteira de trabalho fora. Ninguém emprega ex-presidiário — conta Washington.

O desemprego no Pavão-Pavãozinho, no entanto, não é dos mais graves. O Diagnóstico Socioeconômico das Comunidades com Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), da Firjan, diz que está em torno de 5%, o sexto menor entre 26 favelas pesquisadas. Mas a escolaridade média é de 5,9 anos.