O candidato Flávio Bolsonaro escolheu usar a entrevista à TV Globo para falar com sua bolha bolsonarista. Falou superficialmente como fará o prometido ajuste fiscal, defendeu o armamento da população e subiu o tom em alguns momentos. Mas não dirimiu dúvidas.
A estratégia de Flávio foi usar cada pergunta para fazer propaganda de si mesmo. A técnica pode parecer esperta, mas o candidato perdeu a oportunidade de esclarecer dúvidas sobre suas propostas. Não respondeu de forma satisfatória a quase nenhuma das questões sobre o que pretende fazer caso seja eleito. Essa estratégia não ajuda a conquistar eleitores indecisos e independentes. Ao contrário, mantém o candidato falando para sua própria bolha.
Ao longo da entrevista, Flávio tentou usar as perguntas como trampolim, para atacar seu adversário, em vez de esclarecer suas próprias propostas. Não explicou a origem do dinheiro que recebeu nem os pedidos insistentes que fez a Daniel Vorcaro relacionados a esses recursos.
Sobre ajuste fiscal, ele continuou não dando qualquer consistência à sua promessa de fazer um corte de R$ 200 bilhões no primeiro ano de governo. O candidato tentou fazer omelete sem quebrar os ovos. Disse que pretende garantir aumento real para o salário mínimo, a indexação das aposentadorias ao salário mínimo e manter os pisos constitucionais da saúde e da educação. E não disse onde cortará. Segundo ele, o ajuste fiscal será tirar Lula do poder, o que sinceramente nada explica do programa econômico do candidato.
Também mistura o prejuízo das estatais dependentes do Tesouro com o resultado das empresas estatais em geral. O lucro da Petrobras, por si só, cobre todo o desequilíbrio das demais estatais. Claro que isso não resolve o déficit de empresas como os Correios, que o pai dele prometeu privatizar e não o fez.
Ao ser questionado sobre o fim da escala 6x1, aproveitou de novo para fazer propaganda, mas não explicou por que mudou tão drasticamente de posição sobre o tema. Renata Lo Prete lembrou que aliados do candidato afirmam que, se ele vencer, a proposta será alterada. Flávio garantiu que respeitará o texto aprovado pelo Congresso.
O candidato da extrema direita também fugiu da pergunta sobre Kassio Nunes Marques para voltar a atacar Alexandre de Moraes, ministro que condenou seu pai e outros réus por tentativa de golpe de Estado.
O candidato recorreu ainda a uma frase de apelo populista: “Se eu for eleito, o meu pai será o povo brasileiro”. A declaração parece buscar identificação com o eleitorado evangélico ao evocar uma passagem bíblica em que Jesus afirma que sua família ( mãe e irmãos) são “todo aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos Ceus”, e alargou a ideia de família nuclear.
Na área de segurança pública, Flávio não respondeu sobre o projeto que defendeu para retirar o registro das balas, o que dificultaria a identificação dos criminosos. E de novo atacou. Essa estratégia costuma provocar efeito adverso.
Flávio usou a entrevista como palanque em vez de responder às perguntas com dúvidas razoáveis sobre a sua candidatura. Isso o faz lacrar entre os que já são seguidores, mas há dúvidas sobre se isso consegue convencer os indecisos e os independentes. Terminou a entrevista sem aproveitá-la como oportunidade para responder às perguntas que existem sobre a sua candidatura. De novo ele nega que tenha havido uma tentativa de golpe, chamou de “golpe da Disney” e repete que o julgamento foi uma farsa. Ou seja, quem tem medo de que história se repita com ele no poder permanece não teve elementos para superar a apreensão.

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