Não sabemos exatamente o que aí vem. Mas sabemos que a democracia parece estar cada vez mais moribunda em todo o mundo. As pessoas subverteram o sentido do exercício democrático do voto.
Como se sabe, as pessoas já não votam em propostas políticas nem em candidatos. Pelo contrário, vota-se num exercício de puro protesto, de modo a dar vazão ao ressentimento pessoal e à frustração social. Num mundo onde a riqueza está cada vez mais concentrada num ínfimo grupo de pessoas, a esmagadora maioria da população luta para sobreviver, enquanto a fome e a pobreza crescem de forma avassaladora. Sabe-se que cerca de metade da população portuguesa em pobreza persistente tem emprego, mas não consegue sair dessa situação.
Ainda há dias, inúmeros eleitores de outro país foram questionados na rua, durante um período eleitoral, sobre o seu sentido de voto e, desafiados a nomear algum projeto do candidato que disseram apoiar nas urnas, nenhum deles soube citar nem sequer um único exemplo. A desculpa invariavelmente apresentada para a sua intenção de voto foi que seria necessário mudar o governo.
Quando lhes perguntaram por que razão apostavam na mudança, afirmaram que estava tudo pior. Confrontados com diversas medidas que esse governo tinha tomado indo ao encontro dos seus interesses e que beneficiaram claramente a maioria da população, ficaram gaguejantes, desconfortáveis e voltaram ao mantra da mudança sem mais argumentos.
Verifica-se, portanto, que o voto deixou de ser um exercício livre de cidadania para passar a ser um grito de socorro nalguns casos, e uma expressão de raiva ancorada em boatos, chavões, notícias falsas e manipulação daqueles que se deixam influenciar pelas redes sociais.
O voto tornou-se, sobretudo, uma resposta em linha com o discurso de ódio da direita radical populista e da extrema-direita. Cada vez vota-se mais de forma emocional e não racional. A política tornou-se uma espécie de futebol, onde não há espaço nem tempo para a racionalidade, mas apenas emoção, e por isso se cavam trincheiras.
Este populismo de tipo clubista ataca as instituições, tal como o populismo político, neste caso a arbitragem e, se necessário, agridem-se até fisicamente os homens do apito, que representam a autoridade instituída dentro das quatro linhas.
Mas o problema é antigo. Goethe pensava que “a democracia não corre, mas chega segura ao objetivo.” Só que os cidadãos habituaram-se a limitar a sua intervenção política ao exercício do direito de voto, de quatro em quatro anos, e demitiram-se de uma cidadania ativa. Não compreendem que deviam começar por se responsabilizar a si próprios pela passividade e não apenas a responsabilizar quem elegem em cada momento.
Durante o processo de democratização em Portugal, dizia-se que “o voto é a arma do povo”. Pois agora a arma democrática do voto está a ser usada não com vista à construção duma sociedade mais digna, fraterna, coesa e próspera, assente nos direitos humanos, mas sim com o objetivo confessado de semear o ódio e a exclusão.
Aqui na Europa, parece que não aprendemos nada com estas décadas de paz, prosperidade e estado social. Está tudo posto em causa, os direitos dos mais pobres e vulneráveis, das minorias e os progressos alcançados na igualdade de género. Entretidos em ascender e manter o poder, os governos adormeceram e descuidaram as tarefas de promover nos eleitorados a crença no processo e nas instituições democráticas. Sem habitação, sem trabalho, sem dinheiro e com um futuro incerto, dificilmente se conseguem manter as pessoas numa postura de bem com a República.
A cabeça diz que não dá para acreditar nos modernos apregoadores dos amanhãs que cantam, mas as emoções puxam para aí, porque as pessoas precisam de esperança como de pão para a boca. Aqui chegados é preciso que os partidos realmente democráticos parem para refletir sobre como ressuscitar a esperança na população, e transformem isso em palavras, atos e projetos de esperança. Caso contrário, é a democracia que fica a arder e emergirão de seguida os homens providenciais e as ditaduras, que trarão consigo muito mais dores e cujo fim já conhecemos.
Albert Einstein definiu a democracia como ideal político, “para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado.” Mas hoje temos quem seja aclamado pelo povo como mito, aos gritos, dentro das igrejas. São os novos tempos. Afinal, nada como um poeta para clarificar o que parece confuso: “Democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder” (Carlos Drummond de Andrade).

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