quinta-feira, 18 de julho de 2024

Inocência sem flor

A história do Brasil pode ser considerada pelo lado do negro com três pês: pão, pano, pancada. Pelo lado do indígena, entram nessa história feita de assombros nas caçadas humanas três emes: missa, miçanga, mato.

Capítulos dessa história, impregnada de usurpação e açoite, dizem que o Brasil Colonial formou uma dívida com o negro e o indígena que de tão grande nas léguas da desgraça tornou-se impagável.

Em algumas paragens desse Brasil continental, pisado pelo colonizador ávido, chegou-se ao ponto de terem desaparecido populações indígenas que viviam em perfeito entendimento com a natureza, tirando dela apenas o necessário para a sobrevivência.

Às vezes, escuto vozes que rolam dos longes nesses rastros da desgraça. Como acreditar? Houve uma mancha que envergonha. A fuga em desespero tingiu a manhã do horror na taba queimada. Por entre as sombras do que é perverso e não se apaga, remorso não existiu dos que feriram os hábitos da inocência irmanados com o verdor da mata, dizimaram a aldeia, forjaram a chacina, denominando as cenas insanas de façanhas.

Quem saberá quantos ventos na fuga de uma gente sem rumo entoaram lamentos de uma triste música? Gemidos produzidos nas entranhas da selva impenetrável? Como se nada de horror acontecesse num mundo que amanhecia cheio de passaradas, brilhos e fragrâncias.


Pasmem os céus, até hoje sentimentos que escorrem em dó e lágrima ressurgem desses rastros que machucam. Tive conhecimento que a virgindade de meninas indígenas vale pouco, muito pouco na cidade de São Mateus, que fica nos confins do braço norte do território do Japará. Lá um homem branco compra a virgindade de uma menina indígena também com aparelho celular, peça de roupa de marca e com uma caixa de bombom.

As mães das vítimas pediram à polícia há um ano para apurar o caso. Nenhum suspeito foi preso até agora.

Doze meninas já prestaram depoimento. Elas relataram que foram exploradas sexualmente e indicaram nove homens como os autores do crime. Entre eles, há comerciantes locais, um ex-vereador, um médico chamado Pedro de Deus, um farmacêutico, dois sargentos e um açougueiro.

As vítimas vivem na periferia de São Mateus do Japará, município de baixa renda, que vive das atividades agrícolas, com base em lavouras primárias, de pouca duração, nas estações temperadas de sol e chuva. São Mateus do Japará tem quase cem por cento da população formada por gente indígena. Calcula-se que a população seja de quinze mil pessoas.

Entre as meninas exploradas, há as que foram ameaçadas pelos suspeitos. Algumas foram obrigadas a se mudar para casa de familiares, na esperança de ficarem seguras. O repórter da revista “O Planeta” ficou interessado pelo caso logo que tomou conhecimento.

Conversou com algumas dessas meninas. Criou inicial fictícia para cada uma delas, querendo com isso dificultar a identificação.

B, de 12 anos, conta que vendeu a virgindade para um vereador. O acerto, afirmou, ocorreu por meio de uma prima dela, que é também adolescente.

“Ele me levou para o quarto e tirou minha roupa. Foi a primeira vez, fiquei depois sem saber o que fazer.”

A menina informou que uma amiga dela esteve duas vezes com um comerciante.

“Na primeira vez, ela também foi obrigada. Ele deu um celular.”

Já L, de 11 anos, disse que ela e outras meninas ganharam chocolates, dinheiro e roupa de marca em troca da virgindade. Como aconteceu com as outras na primeira vez, ela foi também obrigada. Recebeu trinta reais e uma caixa de chocolates.

Outra menina, S, de 13 anos, disse que presenciou encontros de sete homens com meninas de até dez anos.

“Eu vi meninas passando aquela situação, sem poder fazer nada.” Comentou que eles sempre dão dinheiro em troca disso (da virgindade).

Ela aceitou falar ao repórter porque já tinha denunciado tudo à polícia federal. Sabia que o pior podia acontecer, mas não tinha medo de nada.

“O homem que me usou primeiro falou que se continuasse denunciando eu iria junto com ele pra cadeia.”

A mãe de S disse que, se ela abrir a boca, o homem que tirou a virgindade da filha vai mandar matar ela.

Não é difícil imaginar que a menina S tinha os olhos sumidos no rosto sem brilho, durante a entrevista que deu ao repórter de “O Planeta”.

Quase não saiu o que disse no final:

“Na primeira vez senti as coxas doloridas. A boca com um gosto de coisa ruim. Depois fiquei triste”.

O esplendor da desigualdade

No sábado passado decidi me tornar uma pessoa disciplinada e adiantar a coluna, para não precisar mais virar a noite no desespero da véspera. Escrevo desde que me tenho por gente e, desde que me tenho por gente, entrego tudo em cima do prazo, quando não irremediavelmente atrasado. A minha vida é uma corrida contra um relógio atônito que me olha de banda e que não entende o porquê do esforço: há matéria-prima abundante no mundo para que qualquer colunista de variedades, com um mínimo de organização mental, possa escrever com calma.


Ali estava o casamento do ano na Índia, uma celebração de opulência sem precedentes. O jornal The Guardian, de Londres, calcula que os Ambani, família mais rica da Ásia, gastaram nele cerca de US$ 600 milhões ao longo de cinco meses, quantia inimaginável para a maioria de nós, mas insignificante diante dos seus US$ 115 bilhões — o equivalente a uns R$ 50, digamos, para quem tem R$ 10 mil no banco.

Um ótimo assunto!

E aí a internet explodiu com o atentado a Trump. Todos os meus planos foram notícia abaixo: passei os dias lendo e ouvindo incontáveis análises sobre o panorama político nos Estados Unidos. Quando voltei ao casamento do ano já estava atrasada de novo. Meu destino é varar madrugada, escrevendo em cima do laço.

Enfim, foram festas em cima de festas, banquetes intermináveis e shows exclusivos. Houve um cruzeiro pelo Mediterrâneo para mil pessoas com paradas em Cannes e Portofino. Na lista de atrações das várias comemorações estiveram Rihanna, Backstreet Boys, Justin Bieber, Shakira, David Guetta, Pitbull, Katy Perry, Andrea Bocelli e os principais nomes da música indiana, a começar por A. R. Rahman, que ganhou um Oscar em 2009 por “Jay ho”, a canção do filme “Quem quer ser um milionário”.

Para o casamento propriamente dito, agora no fim de semana, um centro de convenções maior do que o Riocentro foi transformado em aldeia cenográfica para 1.400 convidados, de Boris Johnson a Kim Kardashian, passando por constelações inteiras do firmamento indiano. Foi um desfile interminável de roupas extravagantes bordadas a pedrarias, ouro e prata. Nunca se viram joias iguais em público — ou nunca, pelo menos, desde 1971, quando Indira Gandhi acabou com os privilégios dos marajás.

Uma sucessão de eventos fascinante e obscena ao mesmo tempo.

Os Ambani são a face mais visível da desigualdade na Índia, onde o 1% mais rico detém 40% da riqueza do país. A renda média mensal é de pouco mais de R$ 800, menos de um terço da renda média no Brasil. A pobreza vem diminuindo, mas há mais de meio século não se vê concentração de renda tão elevada.

Faz tempo que esse tipo de ostentação deixou de ser elegante num mundo consciente dos seus desafios — mas, ainda assim, é difícil interpretar o significado e o impacto de tal extravagância, sobretudo quando identidade e branding se confundem. A Índia, que há séculos é conhecida pela pobreza, busca uma nova imagem.

O que vimos na mídia e nas redes sociais não foi um acontecimento de família, mas uma jogada corporativa, voltada para consolidar o prestígio da família Ambani e do seu conglomerado (e que, agora mesmo, acaba de render meia página no GLOBO).

A máquina de RP do grupo deve ter ficado muito contrariada com aquele atirador inconsequente, que roubou as manchetes no fim de semana.


A família mais rica da Ásia gastou US$ 600 milhões numa festa de casamento. Mas o atentado a Trump roubou as manchetes do fim de semana
Cora Rónai

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Individualidade incendiada

Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! A mente humana entra em turbilhão sob as mãos dos editores, exploradores, locutores de rádio, tão depressa que a centrífuga joga fora todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo!

A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?
Ray Bradbury, "Fahrenheit 451"

O horror ao universal

O traço citado no título acima é o mais visível e renitente do nosso estilo de governo. E de viver. Seja em casa ou na rua, na escola ou no bar, na estrada ou na calçada e, muito especialmente, nas filas — que analisei com Alberto Junqueira no livro “Fila e democracia”, em 2017, mostrando sua fraternidade com a igualdade democrática —, damos preferência à exceção que nos refaz como nobres e superiores, como bons membros do “patrimônio”, não como cidadãos.

A lista das exclusões é inesgotável, porque o sistema gira em torno de si mesmo, e não de projetos capazes de promover avanços. Todos os governos que testemunhei tocaram nos mesmos problemas — Previdência, aposentadorias, filhotismo político, pobreza, ajuste de contas públicas, “verdade cambial”, como vituperava um surtado Jânio Quadros, e, sobretudo, a chaga das nossas governanças: uma perene corrupção. Assaltos à coisa pública tanto à direita quanto à esquerda porque, conforme me disse um amigo realista, “ninguém, Roberto, é de ferro!”.


Em suma, é a velha “socio-lógica” dos sistemas patrimonialistas dramatizados por Giuseppe Lampedusa no conhecido “tudo muda para não mudar”.

Mudar, romper com um intragável populismo e inaugurar novos estilos de administrar implicam impessoalidade, em respeito aos mesmos códigos. Coisa difícil num país que experimentou todos os regimes políticos e teve nove moedas que exprimiam os diversos pesos de uma desigualdade que aristocratiza os eleitos pelo povo. Pessoas que se candidatam como Zé Ninguém e, eleitas, moram em palácios e têm uma vassalagem de Versalhes. É claro que odeiam o capitalismo, que, a todo momento, inventa um troço que desbanca outro troço, acachapando marcas e empresas estabelecidas.

A raiva não é com o sistema, mas com o fluxo dinâmico do mercado, esse espaço universal da oferta e procura ou, como disse E.B. Tylor, do casar fora ou guerrear. No caso do Brasil, liquidar o adversário que nosso selvagem realismo político transforma em inimigo ou bandido. Nessa dialética de aversões ideologicamente legitimadas, esquecemos o Brasil.

Abominando a competição, muitos temem o diabólico capitalismo e abraçam o bom e velho patrimonialismo, que, obviamente, a suprime. Nele, tudo é pessoalidade. Exceção e armação. O maior temor do sistema é a universalidade e a igualdade que democratizam e fazem de todos donos do patrimônio nacional.

É curioso e patético ver uma multidão de privilegiados transformando o republicanismo na velha aristocracia luso-nacional das cidadanias reguladas, como disse um saudoso Wanderley Guilherme. Tudo regulado, tudo hierarquizado, logo, tudo legislado, tudo controlado, certo e bom — “legal”!

Papai só toma café sem açúcar, o presidente elegantemente anuncia não ser idoso porque tem “tesão de 20”. Eu, com meus 80 e tantos, invejo. Ademais, ele é o supremo magistrado da nação, e eu um cronista marginal...

Tome ciência. Na terra dos papagaios, o universal é para os comuns. Os “eleitos” têm lugares reservados. Odeiam-se a universalidade e a igualdade das regras gerais que hoje chegam ao futebol. Este atraía, conforme escrevi, precisamente porque todos eram iguais perante as regras.

Sugiro que um dos pontos a discutir seriamente não é o mercado, mas nossa mentalidade antimercado. Mentalidade que, até o Real, promovia uma pandemia de dinheiros que dependiam de seus emissores ou das trocas em curso. Eram várias línguas faladas ao mesmo tempo, como na Torre de Babel, esse exemplo bíblico de inflação.

Inflação, vale lembrar, é um “inchamento” que embaraça limites e bloqueia a ancoragem sem a qual, nós, humanos, não seríamos capazes de sobreviver.

O melhor caso dessas inchações ocorreu quando quase liquidamos a moeda em sua universalidade e irredutibilidade como medida de valor. Normalmente barganhamos preços, mas não moedas, como ocorreu na fase inflacionária, seguindo o inchaço de uma estrutura social em que cada grupo e pessoa recebe um tratamento especial. Um tratamento determinado pela maior ou menor graduação nas regalias, anistias e proximidades com um poder centralizado e aristocrático, legado do traslado da velha Corte portuguesa para a Colônia.

P.S.: a tentativa de assassinar Trump é um daqueles inesperados que esperamos quando o bandido vira vítima. Seria um sinal da tal “brasilianização”?

Projeto mostra a verdadeira face de Trump

Não vou especular sobre o efeito da tentativa de assassinato de Donald Trump no sábado (13) na corrida presidencial de 2024. No entanto, vou fazer uma observação: alguns na direita política estão usando o ataque para insinuar que a crítica aos esforços passados de Trump para reverter os resultados da última eleição, ou qualquer sugestão de que ele represente uma ameaça à democracia, agora está fora dos limites.

Mas duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo: violência política é inaceitável, ponto final. E os esforços de Trump e de seus apoiadores mais radicais para minar a democracia americana continuam sendo inaceitáveis.

Com a convenção republicana desta semana, é importante entender as possíveis ramificações tanto de sua plataforma oficial quanto de suas aspirações não oficiais, incorporadas pelo Project 2025.


Para quem é novo nisso, o Project 2025 é um plano feito por e para alguns dos aliados próximos de Trump, elaborado pela Heritage Foundation, para garantir que, se Trump vencer em novembro, o movimento Maga [Make America Great Again, slogan do ex-presidente] começará a agir imediatamente.

Ele busca fornecer "tanto uma agenda governamental quanto as pessoas certas no lugar certo, prontas para executar essa agenda no primeiro dia do próximo governo conservador".

Os detalhes estão descritos em um documento de aproximadamente 900 páginas, "Mandate for Leadership" [Mandato para a Liderança], com planos de ação específicos para muitas partes do governo federal.

Quão radical é a agenda do Project 2025? No início deste mês, Kevin Roberts, presidente da Heritage, afirmou que o país está no meio de uma "segunda Revolução Americana" que ocorrerá sem derramamento de sangue "se a esquerda permitir".

Os republicanos parecem, no entanto, ter percebido tardiamente que grande parte do que está no Project 2025, especialmente seu ataque em várias frentes aos direitos reprodutivos, é profundamente impopular.

Trump tentou se distanciar do projeto, afirmando na semana passada que não sabe "nada" sobre ele, embora muitas das pessoas que trabalharam nele sejam ex-funcionários e assessores de Trump, e embora em 2022 Trump tenha dito em uma conferência da Heritage que seus apoiadores "iriam lançar as bases e detalhar planos para exatamente o que nosso movimento fará".

De forma mais geral, uma vez que Trump nunca se mostrou um especialista em políticas, há todas as razões para acreditar que, se ele vencer, ele deixará, como fez em seu primeiro mandato, grande parte da formulação de políticas detalhadas para pessoas que se preocupam com os detalhes —então é mais do que razoável pensar no Project 2025 como um guia do que poderia acontecer em um segundo mandato de Trump.

O que isso significaria? Há muitas coisas para se opor no Project 2025, mas eu argumentaria que a coisa mais importante está na seção intitulada "Taking the Reins of Government" [Assumindo as Rédeas do Governo].

Há muito nesta seção, mas basicamente ela pede a substituição de grande parte do serviço público federal, que consiste principalmente de servidores públicos de carreira um tanto isolados de pressões partidárias, por nomeados políticos que podem ser contratados ou demitidos a qualquer momento.

Na verdade, Trump deu um passo significativo nessa direção perto do final de seu mandato, emitindo uma ordem executiva que criou uma categoria de indicado político, o Schedule F, que teria permitido a substituição de muitos funcionários de carreira por leais partidários.

O presidente Biden revogou essa ordem, mas o Project 2025 a traria de volta de alguma forma —provavelmente em uma escala muito maior.

De certa forma, isso representaria um grande passo ao passado. Durante grande parte do século 19, o governo federal operava no "sistema de espólios", no qual os novos governos demitiam muitos funcionários e os substituíam por apoiadores políticos.

Esse sistema tinha grandes problemas: muitos indicados careciam da experiência e competência necessárias para desempenhar suas funções, e a rotatividade constante era um convite aberto ao compadrio e à corrupção.

Em 1883, menos de dois anos depois que o presidente James Garfield foi assassinado por um homem desequilibrado e descontente em busca de um cargo político, o Congresso aprovou a Lei Pendleton, que criou um serviço civil profissional no qual a maioria dos funcionários não pode ser demitida ou rebaixada por motivos políticos.

Havia razões muito boas para essa reforma na época, mas o argumento para isolar a maioria dos funcionários do governo da pressão partidária é muito mais forte agora.

Veja bem, em 1883 o governo federal tinha uma presença muito menor na vida americana; os gastos federais eram apenas um pouco mais de 2% da economia. O governo federal de hoje é cerca de 10 vezes maior e também tem um grande impacto por meio de sua regulação de tudo, desde poluição até aplicação de leis antitruste.

Agora, imagine politizar as grandes partes de nosso governo que atualmente são relativamente apolíticas. É muito fácil imaginar um presidente sem escrúpulos usando o poder que isso lhe daria para recompensar amigos e punir oponentes em todo o país.

Lembre-se, durante as fases iniciais da pandemia de Covid-19, Trump sugeriu abertamente que talvez não ajudasse os estados cujos governadores não o apoiassem: "É uma rua de mão dupla. Eles também têm que nos tratar bem."

Se ele vencer e o Project 2025 entrar em vigor, ele estará em posição de se envolver nesse tipo de pressão em grande escala.

Há muitas outras coisas no Project 2025, sobre as quais falarei em futuras colunas. Por enquanto, vamos apenas dizer que é tão ameaçador quanto os críticos relatam. E, apesar das tentativas desonestas de Trump de se distanciar do projeto, nos dá uma boa ideia de como poderia ser um segundo mandato dele.


Paul Krugman - Folha SP

terça-feira, 16 de julho de 2024

Informação não é conhecimento


Fascinados pelo moderno, somos como o Carlos da Maia e o Ega ("Os Maias"), que vão a correr atrás do elétrico na esperança de virem a ser civilizados. 
António Carlos Cortez

A cor de cada um

Na República do Espicha-Encolhe cogitava-se de organizar partidos políticos por meio de cores. Uns optaram pelo partido rosa, outros pelo azul, houve quem preferisse o amarelo, mas vermelho não podia ser. Também era permitido escolher o roxo, o preto com bolinhas e finalmente o branco.


– Este é o melhor – proclamaram uns tantos. – Sendo resumo de todas as cores, é cor sem cor, e a gente fica mais à vontade.

Alguns hesitavam. Se houvesse o duas-cores, hem? Furta-cor também não seria mau. Idem, o arco-íris. Havia arrependidos de uma cor, que procuravam passar para outra. E os que negociavam: só adotariam uma cor se recebessem antes 100 metros de tecido da mesma cor, que não desbotasse nunca.

– Justamente o ideal é a cor que não desbota – sentenciou aquele ali. – Quando o Governo vai chegando ao fim, a fazenda empalidece, e pode-se pintá-la da cor do sol nascente.

Este sábio foi eleito por unanimidade Presidente do Partido de Qualquer Cor.
Carlos Drummond de Andrade, "Contos Plausíveis"

Bolsonaro vai continuar sangrando até ser condenado e preso

Perdi a conta do número de vezes que escrevi que o cerco se fecha em torno de Bolsonaro. Ou então que ele deu mais um tiro no próprio pé. Para não cansar você que me lê, prometo nunca mais repetir essas coisas. Mas que o cerco se fecha, é fato. E que Bolsonaro tem a mania de atirar no pé, também. (Acabo de esquecer a promessa que fiz duas linhas atrás.)

No embalo do atentado a tiros contra Donald Trump, um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, o mais ideológico, espalhou que seu pai, caso Trump se reeleja, sairá vencedor. Uma vez empossado, Trump pressionaria a justiça brasileira e o Congresso para libertar os golpistas do 8 de janeiro. O passo seguinte seria restabelecer a elegibilidade de Bolsonaro.

Você é capaz de imaginar Trump dedicando-se a salvar Bolsonaro e os bolsonaristas condenados por atentarem contra a democracia – e, no caso de Bolsonaro, roubo de joias e fraude em atestados de vacina contra o Covid-19? Faça-me o favor: Trump teria mais o que fazer. Seu interesse pela América Latina é igual a zero. Ele nunca pôs os pés por aqui.


E a justiça brasileira? Dá para imaginar a toga em modo de alvoroço para anular suas decisões e atender aos reclamos do presidente dos Estados Unidos, interessado em libertar golpistas que bateram continência a pneus e acamparam em portas de quartéis clamando por uma intervenção militar? Ora, tenha dó. Menos, menos.

Dó de mim, não de Bolsonaro. Ele não merece sua piedade. Sabe a última de Bolsonaro e da gangue que o cercava, todas pessoas honradas que só queriam o bem do país? O ministro Alexandre de Moraes – sim, sempre ele – suspendeu o sigilo do áudio de uma reunião onde Bolsonaro discute como salvar seu filho Flávio, o senador, da encrenca da rachadinha.

“É o caso de conversar com o chefe da Receita”, sugeriu Bolsonaro a duas advogadas de Flávio. Participaram da reunião que aconteceu em agosto de 2020 o chefe da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), o delegado Alexandre Ramagem, e o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

À época, o secretário da Receita era José Tostes. Bolsonaro menciona ainda o chefe do Serpro (estatal de processamento de dados do governo) e Gustavo Canuto que estava à frente da Dataprev, outra estatal de processamento de dados. Ramagem gravou a reunião – segundo ele, com autorização de Bolsonaro. Tiro no pé ou não?

A certa altura da gravação, ouve-se o general Heleno a comentar:

“Tentar alertar ele que ele tem que manter esse troço fechadíssimo. Pegar de gente de confiança dele. Se vazar [inaudível]."

No período de um mês, o secretário da Receita reuniu-se meia dúzia de vezes com as advogadas no Palácio do Planalto, e pelo menos uma vez com elas e Flávio no apartamento do senador. A gravação foi apreendida pela Polícia Federal no notebook de Ramagem e faz parte do inquérito que apura o uso da ABIN para beneficiar Bolsonaro e seus filhos.

O cerco (perdão!) a Bolsonaro nem tão cedo se fechará.

As festas da Convenção

A Convenção do Partido Republicano, tal como a que vai acontecer com os democratas, é uma festa aclamatória que dura alguns dias e que envolve milhares de membros do partido, em representação dos 50 Estado e do Distrito Federal de Washington. É uma festa pública de várias festas privadas que vão do inicio da tarde, a formal, até às tantas, quando o Sol aparece e o álcool se esgota em Milwaukee.

Tive a oportunidade única de fazer a cobertura, enquanto jornalista acreditado nas campanhas, das duas Convenções, no final dos anos 90, e o espetáculo é inesquecível. A começar logo na «cidade dos media»: são dezenas de espaços e tendas criadas e montadas no exterior do pavilhão onde se concentram milhares de jornalistas de todos os meios, sendo a maioria esmagadora (!) americanos. É nas Convenções que aparecem as maiores estrelas das televisões e jornais, sempre ladeados de um «staff» majestoso e quase infinito, com tudo à disposição. Nesta cidade trabalha-se, come-se, bebe-se, e outras coisas mais.

Desta vez, no Wisconsin, esta Convenção ganhou a proporção de um acontecimento mundial: todos querem ver a orelha e o estado de espírito de Trump, que acredita que Deus o salvou, sendo, por isso, um ex futuro presidente escolhido pela Providência Divina. Ouvimos isto, em 1939, há 85 anos, e acabou na Segunda Guerra Mundial. Deus não vota nas eleições americanas, nem em Trump ou Biden.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Candidatos desprezam temas fundamentais para as cidades

Houvesse maturidade política, as próximas eleições municipais deveriam ser encaradas muito além da disputa entre os maridos da Janja e da Michelle. As urgências são maiores que a pinimba. Se interessa aos dois, sob diferentes adjetivos, a rinha maldosamente esconde os problemas mais candentes já encarados pelas cidades brasileiras. São questões de vida e morte, de presente e futuro, mas a polarização forçada não se mostra compungida com o bem-estar alheio. A temperatura indica, o ramerrão deve continuar o mesmo, sem avanços. De quem é a culpa?

Os rios gaúchos nem bem baixaram a níveis toleráveis, ainda existem desaparecidos tragados pelas águas, mas a tragédia climática, até hoje a maior em grandes metrópoles brasileiras, não ocupa os discursos dos candidatos. Desculpe, eles não sabem o que fazem. Mais fácil é proibir livros (que não leram) nas escolas ou exibir fotos de suspeitos (pretos e pobres) mortos à queima-roupa. Como outra distração, vale também querer explorar petróleo em região de recifes de corais na Foz do Amazonas.


A pandemia escancarou a precariedade dos centros urbanos, embora há muito fosse conhecida por seus moradores. A mudança climática, o oportunismo político das más administrações, as oscilações demográficas, as novas matrizes dos meios de produção, enfim, causas do progresso e de seus malefícios (os benefícios aqui não vêm ao caso) não serão resolvidas no gogó da polarização. Demandam raciocínio, lógica e conhecimento. E escolhas sobre as quais a população merece ser consultada.

Além das falhas técnicas, a tragédia gaúcha traz componentes políticos. Que estão presentes noutras cidades, principalmente no Rio e em São Paulo. Inundações, desabamentos, soterramentos — é um cardápio conhecido nas manchetes anuais ao longo de todas as estações do ano. As construções (ou ocupações) em áreas de riscos naturais são um padrão tolerado em nome da falta de habitação nos grandes centros. É um problema social causado pela inação das administrações e seus políticos de plantão. À equação podem ser acrescentadas as casas dependuradas nas encostas. Primeiro se invade, logo depois um vereador obtém a legalização da área, a despeito de a nova população correr risco de vida e ajudar a poluir as águas (porque ali não há coleta de esgoto, como ocorre, aliás, com 44,5% dos brasileiros). Antes um problema de moradia, agora também uma questão de saúde.

A política tirou do vocabulário a ideia de reforma agrária. Mas a reforma urbana jamais entrou na plataforma das administrações. Preferem-se prédios desocupados por décadas em áreas centrais a seu uso como moradia popular, algo que é política pública em metrópoles de países capitalistas desenvolvidos.

Os erros ou acertos urbanos jamais são considerados pelos prefeitos e pelos despreparados vereadores. Nos três últimos anos, São Paulo passa por um frêmito de construção de imensos prédios, a partir da reformulação de seu Plano Diretor. Como justificativa, a necessidade de adensamento próximo às estações de metrô. A vista grossa oportunista não coloca no cálculo do progresso o aquecimento da cidade, algo que ocorre também pela falta de circulação de ar e pelos edifícios altos e espelhados que rebatem o sol. Interessante que Nova York debateu semelhante problema cem anos atrás, quando da reformulação da Park Avenue — e seus legisladores ofereceram soluções. (Não tratarei aqui novamente das sombras à beira-mar de Camboriú, a meca do bolsonarismo, causadas pelos gênios de sempre).

Entre vários outros problemas (como as cracolândias), as plataformas dos candidatos poderiam se ater às questões trazidas pela longevidade da população. Nem falarei das creches, porque isso já foi resolvido por nossos estadistas. O tempo passou para aquelas crianças que não foram atendidas na infância. Quem sabe na velhice… Pense em envelhecer em São Paulo ou no Rio. De cara, as calçadas, onde centenas de pessoas são tragadas diariamente por suas crateras. Depois as bicicletas dos deliveries que disputam espaço. Por educação ideológica não se deve falar dos motoboys que avançam as faixas em cima dos pedestres (talvez seja uma luta de classes motorizada).

Países como Suécia ou Japão já estabelecem políticas públicas diante do rápido envelhecimento da população. Questões como moradia, centros de amparo, pisos seguros, rampas, entre outras, estão no cardápio. Anos atrás, os ingleses criaram o Ministério da Solidão. Sem ser cínico, não sei o que os candidatos a prefeito pensam sobre o tema. Me parece algo muito delicado para perguntar na frente das crianças.

Pensamento do Dia

 


Poema aos Homens do nosso Tempo - VIII

Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.

Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.

Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.

Hilda Hilst

Insônia

Foi no tempo do terror, a ditadura. Eu não conseguia dormir. O medo era grande. Amigos já tinham sido mortos. Levantei-me, fui até a janela do prédio e olhei. A cidade dormia. O silêncio era quebrado apenas pelos apitos dos guardas noturnos, informando os ladrões da sua aproximação. Olhei para o céu estrelado. Pensei que ele tinha estado lá por bilhões de anos e continuaria a estar lá daqui a bilhões de anos. Lembrei-me do que um prisioneiro deixou escrito na cela de um campo de concentração nazista: “Daqui a cem anos tudo isso terá passado”. Com essas palavras na cabeça, voltei a dormir.

Rubem Alves, "Ostra feliz não faz pérola"

Este é o patrimonialismo no Brasil

O “rouba, mas faz”, “sabe com quem está falando”, as “rachadinhas”, o caso das joias, o orçamento secreto, o jeitinho brasileiro para tudo, o pistolão, a carteirada e tanta coisa mais são manifestações de uma coisa ainda mais antiga do que o Brasil: o patrimonialismo.

Trata-se mais do que um sistema de governo e de relações de poder, que resvala para uma cultura mais ampla e para uma maneira de ser. Uma de suas características é a inexistência de distinção entre público e privado. Se tenho um cargo de governo, posso meter a mão à vontade. Só tenho de evitar indiscrições, porque parte das leis e do Código Penal foi escrita sob outros princípios.


Em Economia e Sociedade, Max Weber definiu o patrimonialismo como um sistema de poder e de governo. Por aqui, os pensadores mais importantes a identificar o patrimonialismo como um dos principais traços da política e da cultura local foram Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, e Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder.

Chegou ao Brasil com as instituições coloniais. As capitanias hereditárias distribuíram territórios em que o donatário mandava e tinha como seu qualquer bem de sua propriedade – ou de seu patrimônio.

Outras manifestações do sistema no Brasil são o clientelismo, o mandonismo, o coronelismo e o corporativismo. Contam mais as relações pessoais e familiares (nepotismo) e menos a competência do favorecido. As nomeações sempre comportam o “toma lá dá cá”, favores se retribuem com favores, pouco importando o interesse público.

No sistema, a corrupção e o roubo são quase incompreensíveis. Como posso roubar o que já é meu? E é o que explica em boa parte por que a Operação Lava Jato fracassou e por que a Justiça acabou por apegar-se a questões processuais para jogar fora a criança com a água do banho.

No Brasil, as esquerdas também foram tomadas por variações patrimonialistas. O aparelhamento de instituições públicas é justificado pela necessidade de tomar o “estado burguês”, supostamente em benefício da causa maior, que é a redenção social, digamos assim, embora muitas vezes essa tomada desemboque na apropriação pessoal de bens do Estado. Tudo o que não vai nessa direção é entendido como neoliberalismo ou submissão ao imperialismo.

Até agora, o presidente Lula parece não ter entendido por que o Banco Central e as agências reguladoras têm funções próprias previstas em lei e não devem ser submetidas a determinações do maioral da hora.

O patrimonialismo explica por que, no Brasil, o desenvolvimento acaba emperrado, por que o protecionismo corrói a competitividade da indústria e por que tantas oportunidades históricas são perdidas.

Como mudar isso? Alguma coisa já vem mudando. Bem ou mal, o espírito republicano vai sendo incorporado. Mas coisas tão arraigadas no jeito de ser do brasileiro levam mesmo tempo para mudar.

Todos os irmãos Batista

Faz bastante tempo, e muitos de vocês nem eram nascidos, havia duas irmãs muito famosas. Eram as irmãs Batista, Dircinha e Linda, cantoras. Havia uma outra chamada Odete, mas que não entrava na história.

As irmãs Batista da minha infância eram rainhas do rádio. Pode não parecer nada hoje, mas o título importava na época em que o rádio era a única diversão. As irmãs Batista cantavam em filmes de carnaval. Se me lembro bem, elas puxavam um pouco nos erres. O pai foi ventríloquo e cantor. Fez tudo para que as filhas seguissem a carreira artística.

É coisa de velho, eu sei, mas cada vez que falam nos irmãos Batista, o que me vem à lembrança são as irmãs Batista da minha infância. Os irmãos Batista, Joesley e Wesley, não são cantores, embora os nomes sugiram uma dupla de sertanejo universitário. Vendem carne para o mundo e surgiram num grande escândalo no governo Temer. Foi gravada uma conversa com o presidente em que um deles falava de suas visitas e de seus agrados a Eduardo Cunha, para que ele não contasse todas as aventuras do PMDB com os empresários.

A frase de Temer ficou muito conhecida:

— Tem que manter isso aí, viu?

Mantenham isso, quer dizer, continuem tratando bem o Cunha para evitar escândalo. Mas o escândalo explodiu a partir daí, e os irmãos Batista fizeram longos depoimentos, delações premiadas, e sua história rolou por muito tempo na imprensa.



Passados alguns anos, depois de tanta exposição, os irmãos Batista voltam à cena. O ministro Dias Toffoli perdoou uma multa de R$ 10,3 bilhões definida no acordo de leniência que fizeram com as autoridades. A mulher de Toffoli tinha trabalhado como advogada dos Batistas, mas tudo parece ter sido uma coincidência.

Os Batistas foram ao exterior convidados na caravana do ministro da Agricultura. Afinal, são exportadores de proteína animal. Participam de seminários com autoridades, e parece que organizam também alguns debates sobre grandes temas nacionais.

Os irmãos Batista entraram no ramo da energia. Compraram várias pequenas produtoras e criaram a Âmbar, que venderia para a distribuidora Amazonas Energia, uma empresa falida. Teriam enlouquecido? Vender energia para quem não paga nem pode pagar! O governo resolveu a questão editando uma Medida Provisória em que pagamos todos a dívida da empresa falida, e o negócio fica viável para os Batistas. A Amazonas devia mais de R$ 10 bilhões; agora, quem deve somos nós, que pagaremos aos poucos em nossas contas. No último dia 28, a empresa dos irmãos Batista formalizou um plano de compra da distribuidora beneficiada pela MP do governo.

Eles visitaram 16 vezes o Ministério de Minas e Energia, mas o governo continua dizendo que foi tudo uma coincidência. É o célebre “não é o que você está pensando”, que sempre aparece quando descobrimos o casal na cama sem roupa.

O governo deveria prestar mais atenção a esses detalhes, se é que podemos chamar de detalhes os bilhões que, por coincidência, acabaram favorecendo Joesley e Wesley. Eles podem cantar de novo, e ficaremos sabendo que, no fundo, nada mudou: o país continua sendo saqueado como foi no passado recente.

A recusa em aceitar uma nova relação se manifesta também na insistência em manter no cargo um ministro das Comunicações acusado pela Polícia Federal de desvio de verbas públicas. Ele ficará no cargo até que provem sua culpa. No governo Itamar Franco, foi inaugurada a prática de o acusado deixar o cargo para provar sua inocência. Regredimos, portanto.

Neste momento em que os irmãos Batista aparecem com a corda toda, manobrando bilhões que, por coincidência, lhes são legados por decisões de um ministro do STF e por uma Medida Provisória do governo, lembro-me das irmãs Batista.

No meio da década de 1980, elas foram recolhidas em seu apartamento na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, por uma ambulância. Estavam paupérrimas, desnutridas, na miséria. Foi um choque ver o estado das rainhas do rádio, destituídas de todo o esplendor de sua carreira. Eram apenas artistas populares num país que segue na normalidade, exceto por alguns eventos extremos, tiroteios intensos, incêndios e devastações em nossas matas. Pátria amada, Brasil.

América do Sul se autossabota mesmo em cenário favorável

Foi uma cúpula histórica para o Mercosul na segunda-feira (08/07) em Assunção, capital do Paraguai: após várias tentativas, a comunidade econômica sul-americana aceitou a Bolívia como quinto país-membro. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, comemorou a adesão como um grande passo estratégico. O Mercosul se tornará agora um importante elo na cadeia produtiva para a transição energética global, disse Lula.

O bloco expandido poderá, de fato, se tornar um ator fundamental na transição das economias mundiais para processos de emissões zero de gases de efeito estufa: a Bolívia e a Argentina têm as maiores reservas mundiais de lítio, utilizado na produção de baterias. Em países membros como Uruguai, Paraguai e Brasil, a eletricidade é gerada predominantemente a partir de fontes de energia renováveis. O Mercosul também pode fornecer uma vasta gama de terras-raras e outros minerais críticos, que estão se tornando cada vez mais importantes para o Ocidente em meio a tensões geopolíticas entre a China e os EUA.

Conclusão: com a adesão da Bolívia, o Mercosul ganha peso geopolítico. Isto torna a comunidade econômica sul-americana mais atraente como região parceira para potências mundiais concorrentes - da China aos EUA e à Europa.

Mas, na América do Sul, muitas vezes um passo em frente é seguido de um passo para trás. Isso porque alguém não quis participar da cúpula: o presidente da Argentina, Javier Milei.


A Argentina é a segunda maior economia do bloco sul-americano, atrás apenas do Brasil. No entanto, o presidente libertário preferiu enviar sua ministra das Relações Exteriores.

Milei já havia feito uma afronta ao Brasil. Na véspera, havia viajado para Santa Catarina a convite do ex-presidente Jair Bolsonaro para um encontro de populistas de direita. Foi a primeira viagem de Milei ao país vizinho desde que assumiu o cargo, em dezembro. A antes da viagem ele voltou a descrever Lula como um "comunista corrupto”.

Com suas constantes aparições sem todo o mundo como estrela pop da nova direita, Milei aparentemente quer garantir popularidade entre seus seguidores. Mas o presidente argentino parece representar cada vez menos os interesses da política externa de seu país. E, ao fazer isso, está isolando cada vez mais a Argentina e prejudicando a si próprio.

Milei usa suas aparições no exterior para alimentar seu ego, em vez de promover a Argentina ou negociar parcerias. Selfies com empresários do Vale do Silício ou com políticos como Trump parecem ser mais importantes para ele do que visitas aos seus parceiros comerciais mais importantes (Brasil, China, EUA, UE). Além disso, a sua política externa está ser tornando cada vez mais ideológica.

Na semana passada, ele instruiu sua ministra das Relações Exteriores a rejeitar, em uma reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), quaisquer resoluções relacionadas à Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável. As passagens sobre gênero, violência baseada no gênero, LGBTQ+ e alterações climáticas devem ficar de fora da declaração final.

O rumo ideológico cada vez mais direitista de Milei poderá bloquear novamente as negociações entre Mercosul e UE - como aconteceu sob o governo do ex-presidente Bolsonaro no Brasil. Naquela época, a UE congelou as negociações por mais de três anos por causa das políticas climáticas de Bolsonaro e sua falta de interesse em combate o desmatamento da Amazônia.

Para os numerosos opositores do acordo entre Mercosul e Europa, o rumo estritamente direitista de Milei é um trunfo.

A política ideológica de direita de Milei poderá, mais uma vez, se tornar um argumento - ou melhor: um pretexto - para interromper as negociações.

O fato de Lula não ter embarcado em declarações polêmicas contra Milei na cúpula é uma prova do pragmatismo do presidente brasileiro.

"É uma bobagem imensa o presidente de um país como a Argentina não participar da reunião do Mercosul. É triste para a Argentina", disse.

Mas Lula esqueceu de acrescentar: é igualmente triste para a América do Sul que os Estados da região raramente consigam falar em uníssono.

domingo, 14 de julho de 2024

Pensamento do Dia

 


'Arma' sacra

Você não deve ter medo de alguém que tem uma biblioteca e lê muitos livros; você deve temer alguém que tem apenas um livro, e o considera sagrado, mas nunca leu
Friedrich Nietzsche

Brasília é uma usina de reciclagem de erros

Com a reforma tributária na reta final, os carros elétricos entraram, ao lado do tabaco e das bebidas alcoólicas, na lista dos produtos que pagarão o “imposto do pecado”. Em tese, esse imposto recairá sobre mercadorias que fazem mal à saúde ou agridem o meio ambiente. Ganha um fim de semana num incêndio do Pantanal quem souber o que um carro elétrico tem a ver com isso.

As montadoras nacionais fazem o que podem contra os carros elétricos, valendo-se do trânsito de que dispõem pelo corredores de Brasília, mas desta vez exageraram.

Uma reforma tributária que pretende ser racional acabou acordando o velho monstro do atraso.

A sabedoria convencional ensina que tendo sido um dos últimos países a abolir a escravidão (em 1888), Pindorama tem um pé no atraso. A coisa é pior. Até 1850 o andar de cima nacional estava amarrado ao contrabando de africanos escravizados, uma atividade supostamente ilegal desde 1831.

Admita-se que isso é coisa de um passado remoto, mas o atraso está sempre por aí.


Em 1978, a Associação dos Supermercados excluiu de seu quadro social a rede Carrefour porque ela aceitava pagamentos com cartões de crédito. Nessa época, burocratas e espertalhões criaram um regime pelo qual era mais fácil entrar no Brasil com um pacote de cocaína do que com um computador.

Encrenca-se com os carros elétricos em nome de uma proteção ao parque industrial das montadoras. Trata-se de uma jovem indústria, septuagenária e anacrônica. Enquanto fábricas reinventam-se pelo mundo afora, no Brasil fala-se em importar linhas de montagem de veículos a gasolina desativadas pelo progresso. Seria o ProSucata.

Em 2003, os maganos das montadoras viviam muito bem quando um jovem chamado Elon Musk se meteu no mercado de carros elétricos e criou a Testla. A China foi na bola e hoje suas montadoras têm a maior fatia do mercado mundial.

Quando Juscelino Kubitschek dirigiu o primeiro carro saído de uma montadora de São Paulo, os chineses andavam de bicicleta. Em matéria de fazer besteiras, a China batia o Brasil de longe. Pindorama tinha JK, quando a China teve o Grande Salto de Mao Zedong (Mao Tsé-Tung), com dezenas de milhões de mortos de fome. Os dois países diferem em muitas coisas, mas a China consegue abandonar as ideias erradas. Enquanto o Brasil recicla-as.

Uma PEC sem-vergonha

Se fizermos uma pesquisa entre cientistas políticos perguntando qual é o princípio mais fundamental das sociedades civilizadas, são grandes as chances de que a resposta majoritária seja "o império da lei" ("rule of law"), a noção de que todos, incluindo governantes e legisladores, estão sujeitos às mesmas leis.

É o que assegura um mínimo de igualdade entre os cidadãos e previne o exercício arbitrário do poder. De forma mais pragmática, é o que possibilita um mercado razoavelmente competitivo de ideias, que tem favorecido os avanços tecnológicos e o aumento da produtividade econômica.

É contra esse império da lei que nossos congressistas conspiram ao aprovar a chamada PEC da Anistia. A proposta já passou pela Câmara, mas ainda pode ser barrada no Senado. A PEC é uma maldisfarçada licença para que os partidos políticos violem regras eleitorais.

A proposta perdoa irregularidades variadas cometidas pelas legendas, notadamente o descumprimento de cotas de financiamento para candidaturas minoritárias. O detalhe perverso é que a maior parte das normas violadas são leis aprovadas por representantes desses mesmos partidos (a outra parte são determinações da Justiça Eleitoral, que obviamente também precisam ser obedecidas).

O apoio à PEC foi bem ecumênico. Irmanou legendas antípodas como o PT de Lula e o PL de Bolsonaro. Apenas o Novo e o bloco PSOL-Rede se posicionaram contra a proposta, que passou na Câmara pelo elástico placar de 344 contra 89.

Como eu já disse aqui, a aprovação dessa anistia representará uma tripla canelada na democracia. De um só golpe, os parlamentares conseguem desmoralizar a ideia de que leis devem ser cumpridas, esvaziar a autoridade da Justiça Eleitoral e trazer ainda mais descrédito para a imagem do Congresso.

Até crianças da 5ª série sabem que o jogo de futebol só funciona se todos concordarem em seguir as regras sem recorrer a artimanhas.

Tempo de profecia

Nasceu um bisão branco no Parque Yellowstone, Montana, EUA. Raríssimo, o acontecimento corresponde a profecias de mudanças profundas segundo a teologia dos Sioux, Cherokee, Comanche, Dakota e Navajo. Zoólogos atêm-se, claro, a explicações científicas orientadas para fenômenos de metamorfose. Mas seria precipitado julgar que os mitos já eram: brasas do passado continuam acesas em situações não devidamente explicadas, em todo o mundo.

Uma delas é a mutação na consciência cívica e social. À primeira vista, uma saturação baixa dos discursos e valores liberais, portanto, má circulação do oxigênio democrático. Perspectiva talvez razoável para a sociologia das formas de vida, mas não explica a contaminação do fenômeno pelo espírito regressivo da ultradireita.


No entanto, esse é o espírito de ressentimento e ódio, acionado pelo "fogo das paixões perversas, ou seja, aqueles extremos carregados de afeto, dos quais a natureza humana é capaz, mas que, no cotidiano, são repudiados, reprimidos, escondidos ou, acima de tudo, inconscientes" (C.G. Jung em "Um mito moderno sobre coisas vistas no céu"). Nesta linha explicativa, o pensador combina mito e arte interpretativa.

Uma antiga afirmação alquímica, "o que a natureza deixa incompleto, é completado pela arte", foi bem acolhida por pensadores influentes do século passado. Arte, em sentido amplíssimo, como abordagem de situações inapreensíveis pela linguagem racional. Donde a produção de imagens e narrativas que sempre couberam nas mitologias.

Assim, o bisão branco, evento sagrado para povos originários, revelaria que algo de bom ou de mau acontecerá numa mudança significativa, para a qual os seres humanos deveriam se preparar. Do imaginário à história, há um salto metafórico possível. No aspecto negativo, a mudança é portal para aqueles que se alimentam da ignorância dos outros, por meio da mentira e do aceno a um passado tóxico.

Imaginariamente, seriam metamorfos: nos contos nórdicos, seres mitológicos capazes de se transformar em outras pessoas, devoradores de formas vitais de existência. Dele há variações tenebrosas, como a do "devorador do luto", que se alimenta do sofrimento dos indivíduos. Na história, gente como Hitler, Stálin, Putin.

Mito é o fundo duplo da história. Estaria nesse viés de mutação mental a raiz do fundamentalismo religioso e político, que captura comunidades carentes e sujeitos de miséria afetiva. Isso que advém como negação da realidade e indiferença às verdades. Ante a debilidade do discurso progressista, a consciência permeável à mutação abre-se a extremos perversos como Trump, Putin e réplicas. Na coligação do capital necrofílico com a tecnologia, as profecias suscitam a indagação sobre se os humanos não estariam de novo a bordo de um Titanic.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Um nacionalismo internacionalista?

A ideia do internacionalismo vem da esquerda. Apareceu no Manifesto Comunista, um pequeno livro assinado por dois jovens autores, Karl Marx e Friedrich Engels. Jovens de verdade: em fevereiro de 1848, quando a brochura incendiária foi lançada, Marx tinha 29 anos de idade e Engels, 28. O bordão que eles inventaram, “Proletários do mundo, uni-vos”, sobreviveu a ambos e demarcou o conceito.

No século 20, uma das incompatibilidades fatais entre Josef Stalin e Leon Trotsky passava exatamente por aí. O primeiro, já entronizado como tirano da União Soviética, abraçou (feito urso) a tese de que era possível erigir o socialismo num só país. O segundo, pulando de exílio em exílio, afirmava que a revolução socialista teria de ser internacional – ou não seria nem revolução, nem socialista.

Stalin levou a melhor e se firmou numa ascensão mortífera. Em sua folha corrida constam milhões de cadáveres, incluindo os que foram tragados pela fome-terror na Ucrânia, durante o Holodomor, em 1932 e 1933. No mesmo período, por meio dos fraudulentos “processos de Moscou”, o “guia genial dos povos” dizimou vários de seus camaradas que, em 1917, faziam parte do Comitê Central do Partido Bolchevique. Pouco depois, em 1940, enviou o agente secreto Ramón Mercader para assassinar mais um deles, Leon Trotsky. Em Coyoacán, na Cidade do México, Mercader usou uma picareta de alpinista para abrir o crânio de sua vítima e, em 1961, recebeu a medalha de Herói da União Soviética. Prestou serviços ao stalinismo em terras distantes, mas nunca foi internacionalista – matou um.

Entre o bem e o mal, o movimento operário sempre se vinculou a organizações supranacionais. Umas eram melhores, outras eram vis. A Segunda Internacional, ligada à social-democracia, inspirou a criação do PSDB no Brasil. A Quarta Internacional, de Leon Trotsky, fragmentou-se em cisões sequenciais até se estilhaçar em pedacinhos praticamente invisíveis. A Terceira Internacional, comandada por Moscou, limitava-se a transmitir as ordens do Kremlin para suas filiais mundo afora.

Agora já era. O sonho do internacionalismo solidário mergulhou em viés de baixa. Às vezes é um hino na vitrola – ou num baile da saudade. Outras vezes, é sucata ideológica. Nos nossos dias, veja você, a notícia mais momentosa é que a extrema direita nacionalista, cobrindo de sombras pesadas o palco da política, quer ser internacional.


Sim, é uma contradição em termos. Forças xenófobas – dessas que abominam imigrantes, arrostam a ONU, enxovalham a OMS, esnobam o Mercosul, bajulam Elon Musk e desdenham dos esforços para conter o aquecimento global – vêm se dedicando a promover encontros internacionais. Encontros para quê? Ora, para celebrar a desunião e exacerbar o ódio contra qualquer forma de entendimento, de acordo, de encontro internacional. Se há algo que, por definição, não pode ser internacionalista, de jeito nenhum, é o nacionalismo, mas o nacionalismo parece que não foi avisado.

Marx e Engels diziam que o movimento operário tinha de ser internacionalista porque as relações de produção já tinham sido internacionalizadas pelo capital. Portanto, se quisessem virar o jogo, os partidos revolucionários não poderiam se limitar aos espaços nacionais. Nesse ponto, foram cartesianos. Você pode até discordar dos dois rapazes, mas não tem como não reconhecer a lógica do raciocínio.

Já o nacionalismo internacionalista é ilógico. Seus expoentes proclamam, entre outras aporias involuntárias, que são contra a globalização. Será que eles não viram que a globalização é uma consequência da ordem econômica que juram defender em armas? Não viram que eles mesmos são um sintoma reverso da globalização? Atacam o “globalismo” – a que atribuem a culpa pelas migrações e pelo dinheiro digital, que dá a volta no planeta em menos de um segundo –, sem notar que aqueles a quem xingam de “globalistas”, longe de serem os culpados, são os que mais denunciam os efeitos perversos da globalização.

Não entenderam a si mesmos e abominam quem entendeu. Em transe anticívico, em ritmo de embalo sísmico, acalentam fantasias globalitárias. Talvez desejem um futuro em que as nações, fortificadas, armadas e enclausuradas em si mesmas, vão competir umas com as outras até o fim dos tempos. Talvez acreditem que, da guerra de todos os nacionalismos contra todos os nacionalismos, o paraíso brotará como um cogumelo.

Para complicar o tabuleiro, uma parcela do Brasil embarcou nesse delírio tanático, entre a nulidade mental e a opulência performática. Sem surpresas. Temos convivido há décadas com fenômenos incongruentes que transitam por aí como se fossem normais. Tome-se, por exemplo, o adjetivo “progressista”, que denomina um pessoal convertido às pautas mais conservadoras. Tome-se outro adjetivo, “republicano”, que batiza um segmento de adoradores de igrejas. Existem ainda os liberais iliberais. Nesse meio, os nacionalistas internacionalistas são mais do mesmo. Será que eles sabem que o internacionalismo é de esquerda? Provavelmente não. Eles nunca souberam que o nazismo era (e é) de direita.

Não há extrema direita moderada

O que faz de nós brasileiros é a implacável capacidade de banalizar barbaridades. O esporte nacional neste país é justificar com voz mansa e sorriso no rosto a arma na cabeça de filhos de diplomatas, desde que negros, por óbvio, a legítima defesa do tiro de fuzil nas costas de João Pedro, de 14 anos, e, mais recentemente, o racismo da extrema direita europeia. Dos criadores do bolsonarismo moderado —movimento cujo slogan era uma arma executando opositores— fomos presenteados com o oxímoro do extremista moderado, desde que seja branco, por óbvio.


Por trás dos debates semânticos sobre o que é a extrema direita e das nuances perdidas na tradução das adjetivações ultra, extrema e radical, está a tentativa de normalizar o extremista. Na forma como foi transplantado ao Brasil, o debate é menos sobre as graduações do extremismo de Le Pen e cia. na França e mais sobre como ficar em paz com a possibilidade de que a única via capaz de barrar forças progressistas seja, a curto prazo, versões higienizadas do neofascismo.

Conceitos não são realidades objetivas; partem de uma posição política. Conceitos são relacionais: faz sentido falar em extrema direita em relação ao espectro francês e ao europeu. Na França, o Conselho de Estado rejeitou, em março deste ano, questionamento do partido de Le Pen após ser enquadrado como extrema direita. No Parlamento Europeu, o partido de Marine Le Pen lidera a nova coalizão de direita no extremo do espectro político europeu, ao lado de Orbán.

Conceitos são históricos. Não é porque Le Pen desinfetou o discurso, distanciando-se de antigos parceiros neonazistas, que o seu programa político-partidário não esteja ainda fincado na ideia de nação em bases étnico-raciais. Não é porque Le Pen suavizou o antissemitismo por razões estratégicas que o seu racismo anti-imigrante e antinegro não seja igualmente definidor de seu extremismo. A diferença está nas costas de quem as botas do extremismo vão pisar e quem vai lambê-las.

Pega ladrão!

Durante três anos de Bolsonaro, esta coluna o chamou de corruptor. De corruptor, não de corrupto. Embora fosse evidente sua prática de comprar o Exército para costurar o regime de força que viria no segundo mandato, não se sabia que roubasse além da prática familiar da rachadinha, que lhe rendeu mais de 50 imóveis. Só quase no quarto ano percebi o óbvio: não existe corruptor sem corrupção. Bolsonaro não estava usando seu dinheiro para subornar os militares. Estava usando dinheiro do Estado, e isso é corrupção.


Alguns dirão que, diante das facilidades da Presidência, Bolsonaro viu a oportunidade de meter a mão, como no caso das joias. É a velha ideia de que a ocasião faz o ladrão. Mas Machado de Assis, em seu romance "Esaú e Jacó" (1904), já corrigiu esse equívoco: "A ocasião faz o furto. O ladrão já nasce feito". A prova é que, manipulando os bilhões do Orçamento à sua vontade, Bolsonaro foi apanhado pungando objetos que poderia muito bem comprar, e até com dinheiro vivo, como de praxe nos Bolsonaros.

Bolsonaro reduziu o Palácio da Alvorada a uma caverna de Ali Babá, com suas arcas de relógios, brincos, colares, anéis, braceletes, pingentes, canetas e abotoaduras de ouro e diamantes, e fez de seus auxiliares, civis e militares, a horda dos 40 ladrões —pelo menos 11 até agora. Em seguida, transformou o Alvorada num camelódromo, para vender esses bens que não lhe pertenciam. Vendidos, tiveram de ser vergonhosamente recomprados quando a Justiça deu por falta deles. Raro um contrabandista tão desastrado.

O Houaiss dá várias definições para o ato de se apossar do que é alheio: afanar, agafanhar, assaltar, defraldar, desfalcar, despojar, empalmar, furtar, gatunar, larapiar, pilhar, piratear, rapinar, subtrair, usurpar —em suma, roubar. Há vários nomes para quem se dedica a essas práticas.

Mas há um bem simples e que resume Bolsonaro: ladrão.

Pensamento do Dia

 


A inteligência artificial prejudica o meio ambiente

Não há dúvidas de que a inteligência artificial (IA) é um setor em pleno desenvolvimento. Graças, em parte, ao entusiasmo em relação a novas ferramentas como o ChatGPT, concebido pela empresa americana OpenAI, que é financiada pela Microsoft e cofundada pelo bilionário Elon Musk.

O ChatGPT tem a capacidade de conversar, enviar mensagens de texto e compor poemas e ensaios de uma forma surpreendentemente humana. E isso desencadeou uma corrida entre gigantes da tecnologia para lançar no mercado produtos semelhantes e, possivelmente, mais sofisticados.

Com isso, os investimentos em IA também crescem rapidamente. Hoje, estima-se que esse mercado esteja avaliado em 142,3 bilhões de dólares (129,6 bilhões de euros). A expectativa é de que cresça para quase 2 trilhões até 2030.

Os sistemas de IA já estão presentes na vida cotidiana de várias maneiras. Ajudam, por exemplo, pessoas, governos ou empresas a trabalhar com mais eficiência e a tomar decisões baseadas em dados. Mas também têm suas desvantagens.

Para que os modelos de IA possam realizar suas tarefas, eles precisam processar montanhas de dados. Ou melhor: ser "treinados" para isso. Para aprender a reconhecer a imagem de um carro, um algoritmo precisa examinar milhões de imagens de carros. No caso do ChatGPT, ele é abastecido com vastos bancos de dados de texto da internet para aprender a lidar com a linguagem humana.


O desenvolvimento disso ocorre em datacenters (salas de servidores), que demandam uma enorme capacidade computacional e consomem muita energia.

"A infraestrutura conjunta das centrais de computadores e das redes de transferência de dados é responsável por 2% a 4% das emissões globais de CO2 em todo o mundo [número próximo ao do setor da aviação]. Não é apenas a IA, mas ela é uma grande parte do problema", diz Anne Mollen, pesquisadora da organização não governamental Algorithmwatch, com sede em Berlim.

Em um estudo de 2019, pesquisadores da Universidade de Massachusetts, nos EUA, descobriram que o treinamento de um modelo de IA comum de grande porte pode emitir até 284 toneladas equivalentes a CO2 – quase cinco vezes as emissões de um carro durante toda a sua vida útil, incluindo a fabricação.
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"Quando li esses dados pela primeira vez, fiquei realmente chocada", diz Benedetta Brevini, professora associada de economia política da comunicação na Universidade de Sydney, Austrália, e autora do livro Is AI good for the planet? (A IA é boa para o planeta?).

"Se você pegar um avião de Londres para Nova York, as emissões de carbono serão de 986 quilos. Para treinar um algoritmo, no entanto, emitimos 284 toneladas. Por que não conversamos sobre como podemos reduzir essa pegada de carbono?", questiona Brevini.

Ainda assim, a estimativa baseada no estudo feito em Massachusetts se referia a um modelo de IA particularmente intensivo em termos de gastos de energia. Modelos menores consomem menos, podendo ser executados em um laptop. Mas os modelos que trabalham com a chamada deep learning (aprendizagem profunda), como algoritmos que fazem a curadoria de conteúdo de mídia social ou ChatGPT, exigem uma quantidade considerável de poder de processamento.

Além da "fase de treinamento" da tecnologia, outras emissões ocorrem quando o modelo é aplicado no mundo real, o que pode acontecer bilhões de vezes por dia – por exemplo, toda vez que um tradutor online traduz uma palavra ou um chatbot responde a uma pergunta. De acordo com Mollen, essa fase pode ser responsável por até 90% das emissões no ciclo de vida de uma IA.

Como a pegada de carbono da IA pode ser reduzida?

Todas as questões ambientais devem ser levadas em conta desde o início, inclusive na fase de projeto e treinamento do algoritmo.

"Temos que levar em conta toda a cadeia de produção e todos os problemas ambientais associados, especialmente o consumo de energia e as emissões, mas também a toxicidade dos materiais e o lixo eletrônico", argumenta Brevini.

Em vez de desenvolver modelos de IA cada vez maiores, como aponta a tendência atual, Mollen sugere que as empresas usem modelos menores com conjuntos de dados reduzidos e garantam que a IA seja treinada no hardware mais eficiente disponível.

O uso de datacenters em regiões que dependem de energia renovável e não requerem muita água para resfriamento também pode reduzir a pegada de carbono da IA.


Enormes instalações nos Estados Unidos ou na Austrália, por exemplo, onde os combustíveis fósseis compõem grande parte da mescla de energia, produzem mais emissões do que as da Islândia, que usa muita energia geotérmica, e as temperaturas externas mais baixas facilitam o resfriamento dos servidores.

Mollen ressalta que as gigantes da tecnologia têm um histórico muito bom no que diz respeito ao uso de energia renovável em suas operações. A Google, por exemplo, afirma ter uma pegada de carbono zero graças aos investimentos em medidas de compensação e tem como objetivo operar com energia livre de CO2 até 2030. A Microsoft se comprometeu a ser neutra em termos de CO2 até 2030 por meio do uso de tecnologias como a captura e o armazenamento de carbono. E o Grupo Meta planeja alcançar uma pegada líquida zero em toda a sua cadeia de valor até 2030.

A energia, porém, não é o único aspecto em relação ao impacto ambiental da IA. As imensas quantidades de água que os datacenters precisam para evitar o superaquecimento dos servidores causam grandes problemas em regiões com escassez de água, como em Santiago, no Chile, onde a presença do datacenter da Google "agrava a seca, e as comunidades locais estão protestando contra o centro e a construção de novos datacenters", diz Mollen.

Mesmo que as grandes empresas de tecnologia reduzam o consumo de energia de sua IA, há outro problema. E isso pode ser ainda mais prejudicial ao meio ambiente, destaca David Rolnick, professor assistente do Departamento de Ciência da Computação da Universidade McGill, no Canadá, e cofundador da organização Climate Change AI. Como exemplo, ele cita o uso de algoritmos na publicidade: "Eles são intencionalmente projetados para aumentar o consumo, o que certamente tem um custo significativo para o clima."

Rolnick também ressalta um relatório da consultoria de tecnologia Accenture e do Fórum Econômico Mundial, que prevê que a IA e a análise avançada ajudarão o setor de petróleo e gás a lucrar cerca de 425 bilhões de dólares até 2025.

O Greenpeace, por outro lado, tem criticado duramente os contratos de IA firmados entre empresas de combustíveis fósseis e Amazon, Microsoft e Google. Em um relatório, a organização ambiental disse que a Shell, a BP e a ExxonMobil usariam ferramentas de IA para expandir suas operações, cortar custos e, em alguns casos, aumentar a produção. Esses contratos "prejudicariam significativamente os compromissos climáticos assumidos" pelas gigantes da tecnologia.

Desde então, a Google declarou que não desenvolverá mais ferramentas de IA personalizadas para ajudar empresas a extrair combustíveis fósseis.
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É provável que o papel da IA se torne ainda mais significativo no futuro. E esse é outro motivo pelo qual Rolnick acredita que seja necessária mais regulamentação para garantir que o desenvolvimento seja sustentável e que não dificulte o cumprimento das metas de emissões de gases de efeito estufa.

"É uma questão de priorizar, intervir cedo e moldar as decisões que serão tomadas", diz ele.

Na União Europeia (UE), legisladores trabalham há dois anos em uma lei que tende a ser um marco na área. A IA deve ser regulamentada, e os respectivos riscos dos diversos aplicativos devem sofrer classificações. Até o momento, porém, ainda não está claro se as preocupações ambientais também serão levadas em conta no projeto de lei.

Enquanto isso, outros governos também estão trabalhando para regulamentar o uso da IA. Por um lado, para alavancar a inovação no setor e colher os benefícios da tecnologia. Por outro, para evitar possíveis ameaças e proteger seus cidadãos.
Natalie Müller

Apropriação privada e liberdade de expressão

Toda essa polêmica aberta pelos políticos, em tempos pré-eleitorais, sobre a velada intenção de privatizar as praias brasileiras, espaço de descanso, diversão e lazer de quase 100 milhões de brasileiros, provoca uma boa mobilização. Faz-me lembrar do esquecido artista plástico Ricardo Saunders, que desencadeou, em Florianópolis, uma campanha, de denúncia contra a apropriação particular de quase sessenta praias da Ilha. Foram ocupadas pelas imobiliárias, entre 1960 e 1970, entusiasmadas com a enorme atração que exerciam sobre os argentinos. Em São Paulo já surgiam os primeiros condomínios privados.

Saunders, de origem paraense, morava em Brasília, mas casara-se com a pintora catarinense, Vera Sabino, e vivia agora em Florianópolis. Era encantado com a paisagem da Ilha. Durante três anos caminhou solitário pelo seu entorno, carregando cavaletes, tintas e pincéis, tentando recompor, em telas, a paisagem original daquelas belíssimas praias, protegidas como terrenos de Marinha. Seus quadros desapareceram rapidamente.


Os incorporadores imobiliários e empresas de engenharia, que sempre financiavam campanhas políticas, direcionavam recursos a segmentos e candidatos locais que melhor se acomodavam aos seus interesses pouco explícitos, e que chegavam à população fantasiados pela publicidade.

Isso traz à memória o nome de Ricardo Saunders. Ninguém se lembra dele em Belém, em Brasília, no Rio de Janeiro e São Paulo, onde esteve também, em Florianópolis, Goiânia, finalmente, Pirenópolis, onde morreu, aos 52 anos, por volta de 1998. Foi enterrado, sem qualquer registro especial, quase como um anônimo.

Curioso, habilidoso e criativo desenhista, tinha sangue índio misturado com o de inglês. Sua mãe era uma missionária que desembarcara na Amazônia, na baia de Guajará, junto com outros evangelistas britânicos. Nas suas visitas às comunidades indígenas, terminou passando a viver com um caboclo amazonense, seu guia, que vivia da extração da castanha e do látex. O prolífico casal gerou três a quatro filhos, entre eles o Ricardo, um menino esperto e virtuoso.

Desde criança, Saunders ouvia as histórias contadas pelos pais. Nascida em Southhampton, de onde partiam os navios ingleses para o mundo, ela falava da Inglaterra. O pai, sobre os e crenças da floresta amazônica.

Menino ainda, aquelas lendas inspirou-o a brincar de fazer máscaras e esculturas de madeira e cascas de coco, com expressões meio escatológicas, que vendia pelas ruas de Belém. Havia terminado o curso secundário, e ainda não sabia o que fazer.

Certo dia, foi atraído, casualmente, por uma palestra de Darcy Ribeiro, ao entrar, no cinema Olympia, em Belém. Na tentativa de atrair estudantes para a Universidade de Brasília, Darcy e Anísio Teixeira, viajavam pelo País, falando sobre a nova Universidade: "Pública, livre, autônoma, laica e gratuita!”. Cursos superiores no Brasil eram quase todos privados e pagos. Por onde passava, Darcy fazia um chamamento aos jovens: "Vão para Brasília! Na UnB tem mais vagas do que candidato". Além disso, tem alojamento e restaurante estudantil.

Saunders despertou, e resolveu perguntar a Darcy se na UnB tinha lugar para ele. Já reitor, Darcy respondeu afirmativamente. Ele arranjou um dinheirinho, tomou o ônibus que já fazia o percurso de Belém a Brasília e, uma semana depois desembarcava no campus, carregando algumas tralhas. duas calças de brim e três batas com desenhos do grafismo marajoara. Empolgou-se, de imediato, com aquele movimento de obras e de jovens de todo o Brasil que chegavam ali. Instalou-se no barracão do Instituto de Artes, e logo fez amigos: Marcos Ribas, da Comunicação, e Raquel...., das Artes. Vez por outra pintavam uma parede por ali e, eventualmente, deixavam sua marca em muradas mais expostas do Plano Piloto. Teriam sido eles, os primeiros grafiteiros de Brasília.

Ganhou uma sala no ICA, mas não tinha sequer matrícula regular. Ali, ele o Marquinhos e a Raquel, desafiados por uma máquina de filmar que ninguém usava, começaram a produzir desenhos em quadrinhos, a partir de grafites, traçados sobre folhas de acetado e celofane barato, apagados, após serem filmados, para gravar novas histórias em quadrinhos, que sumiram no meio daquelas invasões policiais no campus.

Seus desenhos grafitados tinham um estilo lúdico, debochado e, ao mesmo tempo, originalíssimos. Foi dele a primeira ideia do "Eixão do Lazer", em Brasília, que consistia em fechar o trânsito de automóveis aos domingos e feriados, destinando-o para o lazer das famílias que habitavam os prédios aos lados. Ali, ele fazia desenhos lúdicos para crianças.

Achava Brasília propícia para bicicleta. Chegou a ter uma. E andava pela cidade procurando paredes nuas para pintar grandes painéis, mas não tinha vocação para a clandestinidade. As paredes internas do Shoping Conic eram suas preferidas imaginárias. Além de proibida, a grafitagem era vigiada pelos defensores do projeto modernista (limpo) da Capital. Até tentou, mas foi pego, e teve de desmanchar tudo com as próprias mãos.

Os grafite brasiliense que veio, em seguida, terminou liberado, após os prédios da avenida W-3 amanheceram um dia todos grafitados, sem que a polícia descobrisse os autores. Separado da mulher, Ricardo Saunders trocou Brasília por Pirenópolis (Go). A Florianópolis nunca mais voltou depois que tomou conhecimento da inutilidade dos seus protestos: o ensaio das imobiliárias tornara-se realidade. Os condomínios praianos privados terminaram espalhados pela costa brasileira. Agora querem mais.