sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A geração mais desatenta de sempre

No ano letivo de 2009-2010 não nasceram só as crianças que, década e meia depois, acabaram de protagonizar o maior descalabro global nos índices de leitura do PISA 2025. Esse foi também o ano em que começou a generalizar-se, por todo o mundo, a utilização de telemóveis inteligentes, e em que a internet abandonou de vez a herança estática em que tinha vivido nas duas décadas anteriores, e passou a ser móvel, social e centrada na informação em tempo real.


Esse foi igualmente o ano em que o iPhone da Apple e o sistema Android da Google, lançados originalmente em 2007 e 2008, estabeleceram o seu domínio global, terminando com os reinados dos telemóveis com teclados da Nokia e da BlackBerry. Graças a essas mudanças tecnológicas, entraram em cena muitos dos elementos que hoje são omnipresentes na nossa forma de olhar para o mundo e de comunicar uns com os outros.

O ano de 2009 não foi só aquele em que o Facebook ultrapassou o MySpace e se firmou como maior rede social do mundo. Foi ainda o ano em que a rede de Zuckerberg introduziu, no seu sistema, o botão de like. Ou seja, estava inaugurado o caminho para levar os utilizadores a reagirem instantaneamente, com um simples gesto, sem terem de “gastar palavras” a explicar porque tinham apreciado uma publicação na rede social (mais tarde, com a introdução de um teclado de emojis no iOS em 2011, e outro no Android, em 2013, essa tarefa de exprimir uma emoção ou um estado de espírito passou a ser mais automática e imediata – mais uma vez “a poupar-nos à maçada” de procurar as palavras certas).



Quando vamos aos arquivos dessa época, percebemos também que foi nesses anos que nasceu o hoje omnipresente WhatsApp e que outra rede social, o Twitter, ganhou proeminência com as mensagens então ainda limitadas a 140 caracteres, mas suficientes para marcar a agenda mediática – e até, no final de 2010, para ter um papel importante nas revoltas populares que ficaram conhecidas como a Primavera Árabe.

Foi neste contexto e nestes ambientes que nasceu a geração que agora, segundo os resultados do PISA 2025, registou as maiores quedas em todos os índices, mas em especial em leitura e em matemática (em ciência a queda não foi tão acentuada).

Os resultados desceram em todos os países, tanto nos mais ricos como nos mais pobres, nalguns com governos de esquerda e noutros com governos de direita. Os especialistas em educação – que não é assumidamente o meu caso – podem encontrar diferenças suscetíveis de terem sido influenciadas por diferentes sistemas de avaliação ou até de currículos. Essa é uma reflexão necessária e urgente. E que deve conduzir a um debate que precisa de ser feito sem vieses ideológicos a contaminarem-no. E que deve ser também livre e independente das várias correntes de “eduquês” que, tantas vezes, levam a que se tome como dogma programas e ideias que, anos mais tarde, se revelam desajustados e até errados. Prova disso é o facto de alguns dos piores resultados terem ocorrido em países que, por exemplo, seguiram quase cegamente certas diretrizes da OCDE.

Mas o que estes resultados demonstram, de forma categórica, é algo que todos nós já sabíamos, mas que não queríamos ver: vivemos uma crise grave de atenção. No fundo, aquilo que os números do PISA 2025 confirmam é o que todos nós, sem exceção, sentimos tantas vezes: dificuldade em mantermo-nos concentrados em textos mais longos sem ceder ao impulso de olhar para a última notificação que caiu no telemóvel.

Este é um daqueles casos em que, perante uma adversidade, mais do que perder demasiado tempo a tentar encontrar culpados, é necessário procurar, de maneira racional, soluções que possam minimizar algo que já é muito profundo em todas as sociedades. O PISA apenas iluminou, de forma clara, a realidade específica da primeira geração que viveu, desde a nascença, rodeada de ecrãs, em famílias onde todos gastam horas nas redes sociais, em que a informação passou a ser dada em tempo real e em que, por causa dos algoritmos sem controlo e da ânsia de tantos negócios e atividades de tentar captar a atenção das pessoas, tudo passou a ser entregue de forma resumida. Primeiro foram os textos curtos, depois vieram os vídeos curtos e agora até já estamos nos resumos de IA obviamente também curtos. Portanto, só mesmo por milagre poderíamos ter jovens concentrados em textos longos. Conhecemos agora a geração mais desatenta de sempre – até à próxima, que será já a seguinte.

Rui Tavares Guedes

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