domingo, 5 de julho de 2015

O fogo de Curitiba

O líder político mais poderoso do Brasil do século XXI, capaz de ganhar quatro eleições presidenciais em seguida e de se dar muitíssimo bem em praticamente tudo o que quis nos últimos anos, entrou de uma vez por todas num mato fechado. Vai sair, como sempre conseguiu até hoje? Há muito tempo o ex-presidente Lula acostumou-se a saborear o que já foi definido como uma das melhores sensações que um ser humano pode ter: a de atirarem nele e errarem o alvo. Com base no retrospecto, ele espera que sua vida continue assim — mas vivemos um momento em que estão acontecendo coisas que nunca aconteceram antes, e em que se confirma a velha máxima segundo a qual algo só é impossível até tornar-se possível.

O último exemplo a respeito é o terremoto causado pela prisão do empresário Marcelo Odebrecht, presidente da maior empreiteira de obras públicas do Brasil e empresa-símbolo das relações íntimas de Lula com os colossos do capitalismo nacional que recebem bilhões de reais em encomendas do governo. Era rigorosamente inacreditável que um homem desses pudesse ser encarcerado; nunca tinha acontecido antes, e talvez nunca mais volte a acontecer. Quem seria capaz de imaginar uma coisa dessas em nosso Brasil brasileiro? É como se tivessem prendido o papa Francisco. Mas aí está: aconteceu. Lula, de repente, percebe que não pode contar mais com o impossível.

O ex-presidente está lidando com a carga de TNT espalhada à sua volta com o mesmo sistema que utilizou em todas as suas desventuras anteriores: como ficou claro no jato de declarações que decidiu fazer nos últimos dias, ele se defende negando, simplesmente, a realidade que está na cara de todo mundo. O que vai contra os seus interesses não existe, por maiores que sejam as provas em contrário; continua convencido de que o brasileiro gosta muito mais das coisas que ele diz do que das coisas como elas realmente são. Lula, que imagina ser o líder popular ótimo e máximo, como o deus Júpiter, não pode pôr o pé na rua, com medo de ser vaiado pelo povo de seu país. Não pode dar uma entrevista livre à imprensa, com medo das perguntas que vão lhe fazer. Está mais do que provado que em seu governo, e no governo da sua sucessora, a população foi roubada pela maior onda de corrupção dos 500 anos de história do Brasil.

O tesoureiro do seu partido está num xadrez em Curitiba. Tem a companhia, ali, de empreiteiros de obras que há anos presenteiam o ex-presidente com viagens em jatinhos particulares, utilizaram seus serviços como promotor de vendas, pagaram-lhe milhões de reais em troca de palestras e mantêm com ele uma intimidade tão completa a ponto de lhe darem o amável apelido de “Brahma”. Lula é responsável direto pela invenção de Dilma Rousseff, que está a caminho de tornar-se a pior presidente que este país já teve. Advoga, em público, a favor de diversos dos mais sinistros ditadores do planeta — e por aí segue a procissão. Mas ele parte para sua defesa, mais uma vez, agindo como se tudo isso estivesse acontecendo em alguma galáxia perdida no fundo do universo. Ou, se está acontecendo aqui, o único que não tem nada a ver com a história é ele mesmo.

De quem seria a culpa, nesse caso? Eis uma questão em que o ex-presidente não se aperta; ele é um grande especialista em fuzilar feridos para salvar a si mesmo. Na sua atual ofensiva, e logo de cara, não teve o menor problema em sair acusando o governo Dilma, na esperança de misturar-se aos 65% de brasileiros que acham ruim ou péssimo o desempenho de sua criatura. A presidente, descobriu Lula, está no “volume morto” — como se ele não tivesse responsabilidade nenhuma por nada do que está dando errado. O PT, que vai tão mal quanto Dilma, foi denunciado por “pensar só em cargos” e os petistas por não fazerem “nada de graça” — como se ele não cobrasse pelos serviços que presta aos empreiteiros. Culpou o ódio cada vez maior que existe contra o partido — como se ele não fosse o produtor número 1 do rancor na política brasileira. Acusou o governo Dilma de não fazer nada, com seu “legalismo”, para combater a ação da Justiça nas investigações de corrupção — e o que queria que fosse feito? Não existe a menor ligação disso tudo com a verdade dos fatos, é óbvio. Fica apenas uma soberba sem limites, hoje transformada num vício do qual Lula parece incapaz de se livrar.

Lula precisa fazer mais do que repetir a mesma missa. O fogo de Curitiba, com o correr do tempo e a coleta de provas, deveria estar cada vez mais longe dele. Está cada vez mais próximo.

Corda bamba

Governo vegetal

Acho que é de Caetano Veloso uma música que diz que “alguma coisa está fora da ordem mundial”. O Brasil está, no mínimo, desacorçoado, sem rumo e sem meios para encontrar caminhos.

Dona Dilma, a terrorista de outrora, depois de um tratamento para emagrecer, parece que se deu mal com algum remédio, quem sabe um “anomirineronético”, que com esse nome pode ter provocado um efeito rebote ou empenado de vez “as suas ideias”…

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Falando para um pequeno público que a aplaudia, lascou esta pérola: “Hoje nós estamos comungando a mandioca com o milho e certamente nós teremos uma série de outros elementos que foram essenciais para o desenvolvimento das civilizações ao longo dos séculos. Acho que a mandioca é, sem dúvida, uma das maiores conquistas do Brasil”. E, com ar professoral, mostrou uma bola feita de folhas de bananeira e solenemente proclamou: “Quando nós criamos uma bola desta, nós nos transformamos em homo sapiens ou mulheres sapiens”.

Bem, eu nunca pensei nisso. Sempre considerei a mandioca comida de jegue… Parece o samba do crioulo doido, do inesquecível Sérgio Porto, mais conhecido como “Lalau Ponte Preta”, que descreve como Chica da Silva obrigou a princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes, e este, depois de eleito como Pedro II, procurou o padre Anchieta, e, juntos, Anchieta e Dom Pedro proclamaram a escravidão.

Numa entrevista neste último fim de semana ao jornal norte-americano “The Washington Post”, a presidente, em resposta ao jornalista que havia perguntado qualquer coisa sobre dificuldades do seu governo pelo fato de ser mulher, respondeu: “Há, sim, um pouco de preconceito sexual na forma como é descrita a minha forma de governar…” Parece até que só pensa naquilo, como diria o saudoso Chico Anysio em um dos seus personagens.

Às vezes, penso que Dona Dilma sofre de um tipo de “daltonismo político” e enxerga verde o que é vermelho… Será que – numa boa – não é hora de uma interdição? Há muito tempo, e lá se vão mais de 50 anos, quando estudava direito romano, me lembro de qualquer coisa, no capítulo da curatela, que enquadrava isso como “cura furiosi”.

Sei não, mas a América do Sul precisa prestar atenção em alguns casos de insanidade mental que estão passando para a opinião pública como sendo característica dos novos tempos, quando, na verdade, trata-se de assunto muito mais sério, para o qual a providência própria seria a curatela.

Enquanto dona Dilma fala aqui, com ar superior, na importância da mandioca para o mundo e a saúda como se estivesse enaltecendo uma criatura humana, na Venezuela, um presidente que se chama Maduro diz conversar com um passarinho que lhe transmite notícias e ordens do finado Chávez. Já no Uruguai, o simpático Pepe Mujica libera maconha, anda num Fusca do século passado e vive às avessas, como diria o Juca Saco dos bons tempos da nossa Salinas. Como pano de fundo, a operação Lava Jato segue, afligindo os ex-confortados…

Caindo na real

Chego ao Brasil. Pego táxi de cooperativa no Aeroporto Internacional Tom Jobim, nosso sempre velhusco Galeão, no Rio de Janeiro. Puxo conversa com o taxista. Seu nome não é revelado, por motivos óbvios. Ele não sabe que sou jornalista. O desabafo dura a corrida inteira.

“A economia tá parada, só um ou outro avião vem cheio. Nossa economia vive da corrupção. Sem propina, paralisa. Meu faturamento caiu 40%. Tínhamos na cooperativa um contrato com a Odebrecht. Foi cancelado agora. Tudo aqui neste país você precisa dar 10% a mais. Eu tinha de pagar também para a Odebrecht. Nossas corridas eram todas superfaturadas para o diretor que pegava o táxi levar o dele.”



“E a violência? Tá aqui em cima, olha (indicando o painel do carro, junto à janela), bem à vista, meu celular falso, para eu dar pra vagabundo. Todo dia tem algum arrastão na Linha Vermelha. Na minha casa, no Méier, não posso esperar o portão da garagem abrir para eu entrar. Já tive três carros roubados assim, à mão armada. Três.”

“Recuperei os carros roubados, mas tudo depenado. E não são os bandidos que depenam não. É a polícia. Eles tiram, antes de devolver, o tal kit PM. Rodas, rádio, tudo o que der para tirar. E a gente, para recuperar, precisa pagar à polícia a taxa de resgate. E a mídia não fala nada disso. Só sabe mesmo quem tá na rua, trabalhando.”

“Depois as autoridades vêm me falar das UPPs. Isso aí ninguém quer. Nem os bandidos nem os policiais. Tenho um sobrinho que saiu do Exército e não quer ficar em UPP. O que ele diz é: ‘Tio, nós somos humilhados ali. Jogam água, jogam mijo na gente. Não podemos dar um tiro que a gente vai preso. Ficamos ali só gastando combustível e enxugando gelo’.” 


“Isto aqui, se não ficar igual à China, não vai dar certo. Tem de ter uma ditadura rígida, pena perpétua, morte. Se os caras não ficarem com medo, vão continuar. Tem corrupção em tudo que é lugar. No Detran, nas delegacias, nos batalhões, nos hospitais. E o governo leva também o seu, por trás de toda essa engrenagem. Isso não vai acabar nunca. A não ser que a gente adote a seguinte regra para todo mundo: escreveu, não leu, o pau comeu.”

O taxista está revoltado. Com a Odebrecht, com a PM, com os governos, com os bandidos. É duro ouvir. Nem falo nada. Não adianta.

Lá de fora, acompanhamos a novela atual de maior audiência, o petrolão. Mais ex-diretores da Petrobras no xilindró. Prejuízo da corrupção sobe aos píncaros, R$ 19 bilhões. Surgem golpes simplórios contra quem mais necessita: promessas falsas de emprego, tirando R$ 20 de um, R$ 50 de outro. Os sanguessugas pagam fiança e respondem em liberdade. Assaltos a banco, tiroteios nas favelas, falência de empresas, novos aumentos de combustível e luz.

Lula atordoado, atacando Dilma. Dilma atordoada, atacando delatores. Congresso atordoado, vaivém na redução da maioridade penal. E toma mais provocação do Senado – aprovado o reajuste de 59% a 78% para os servidores do Judiciário, com impacto de R$ 25,7 bilhões nos cofres públicos. Eduardo Cunha e Renan Calheiros, os populistas cavaleiros do apocalipse, se unem por um único credo: hay gobierno, soy contra. Veta, Dilma, veta.


Enquanto isso, a mãe dos pobres resolve economizar R$ 8 bilhões em cima do abono salarial, devido neste semestre a quem ganha até dois salários mínimos. Devo, não nego, pago quando puder. Tudo pelo ajuste, para fechar as contas em 2015. Injusto.

Continua a esquizofrenia do país duplo. De um lado, ferro na iniciativa privada, desestímulo a quem quer abrir um negócio, burocracia enlouquecedora, impostos altíssimos cobrados de quem produz e sem beneficiar o povo. Do outro lado, benesses para servidores públicos, que já dispõem de aposentadoria integral e vitalícia.


O que mais choca, no entanto, é a miséria de nossa Educação. O relatório do Movimento Todos pela Educação é desolador. Mais de 2 milhões de crianças ainda estão fora das escolas. Em regiões carentes, as escolas são precárias, e o ensino de baixa qualidade. Entre 15 e 17 anos, 1,6 milhão abandonam os estudos. Só 9,3% dos que concluem o ensino médio sabem matemática. Só 27,2% dominam o português. Na outra ponta do ensino, a maior universidade federal do país, a UFRJ, com greve e obras paradas por corte de verbas, ameaça fechar em setembro, sem condições de pagar por limpeza, segurança, portaria.

Só confiarei num presidente que mude essa tragédia, de verdade. Uma maciça parcela da população (e não é a elite) quer hoje pena de morte, armas, ditadura e se lixa para direitos humanos. Também é resultado de falta de Educação. Cair na real não precisa ser cair no abismo. Acorda, Brasil. 

O pregador de verdades


Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer.
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 


O alarme de Luiz Inácio


A lógica na esfera política brasileira se alimenta de uma equação: a conquista do poder pelo poder. O verniz ideológico nos vãos de nossa democracia representativa se desmanchou na poeira do tempo.

Se alguém ainda conservava dúvida sobre a existência de DNA doutrinário no sangue de algum dos nossos entes partidários, por exemplo, o PT, que sempre ergueu a bandeira do socialismo, acaba de desfazê-la ao ler as últimas confissões do comandante maior de suas tropas, o ex-presidente Luiz Inácio: os petistas só querem saber de cargos, o PT perdeu sua utopia, está no volume morto, bem como o governo Dilma e ele mesmo.

O que isso quer significar?

É bastante conhecida a verve de Lula como palanqueiro. Nele, os antagonismos se irmanam, a ponto de confundirmos o verbo a favor com o verbo contrário, ponto e contraponto, defesa e ataque.

Não é de admirar, portanto, que as últimas expressões de Lula sobre o PT seus companheiros mais pareceram peroração contundente de líder oposicionista, engajado na guerra para despejar mais lama sobre a imagem combalida do partido.

Luiz Inácio, porém, sabe medir as coisas. A palavra amarga que tem usado é, antes de tudo, um puxão de orelhas nas lideranças e comandos que disputam fatias de poder no governo, desde que o petismo ganhou o primeiro mandato em 2002.

Nos últimos anos, o partido viu acirradas as disputas entre alas e grupos, cujos horizontes programáticos foram trocados por benesses e mandos na máquina da administração. Com exceção de uma ou outra ala, de índole mais radical, todas as outras foram atraídas pelo gozo do poder.

O desabafo de Lula se direciona também às bases. O ânimo da militância petista perde ímpeto sob o tiroteio que atinge o partido desde o mensalão, quando se denunciou a “cooptação desonesta” de parlamentares em troca de apoio ao governo.

Parte das milícias petistas tem resistido aos ataques dos exércitos dispersos da oposição, mas tem sido visível o amortecimento de uma base partidária que recebeu, ao longo das três décadas de vida do PT, um caldo ideológico, algo como mistura de valores éticos e princípios morais, crença no socialismo, mudanças na política, defesa dos direitos humanos, reforma política etc.


A atração fatal pelo refúgio nas asas do Estado acabou rasgando o manto diáfano que o PT desfraldava como exclusividade sua.

O longo duto que conecta o mensalão ao petrolão – Operação Lava Jato – acaba engolfando todo o petismo, a ponto de merecer de seu inspirador e fundador principal, Luiz Inácio, o mais veemente apelo por uma “volta às origens”.

A guinada à esquerda que o ex-metalúrgico pretende liderar seria o contraponto à guinada conservadora que se instala no país. Ele sabe, porém, que, antes disso, precisa arrumar as parcerias. Correu à Brasília para tentar segurar as bases junto ao Governo, a partir do insatisfeito PMDB, que dita a agenda nacional.

Lula receia que uma frente de esquerda formada pela corrente Mensagem ao Partido, liderada por Tarso Genro, siglas mais à esquerda, como PSOL e uma ala dissidente do PSB, possa esmaecer seu perfil de líder maior.

Essa movimentação está em curso e, a depender da evolução da economia e da política, nos próximos meses, poderá se fortalecer ou mesmo perder impulso. Ora, enxerga-se clara manobra do ex-governador gaúcho para arrefecer o poder do lulismo sobre as hostes petistas. Essa é outra abordagem que explica as metáforas do ex-metalúrgico.

Por último, a trombeta que Luiz Inácio começou a usar com intensidade, nas últimas semanas, funciona como um sistema de alarme ante um artefato poderoso que ameaça cair nos arredores de seu Instituto, digamos sua eventual retenção para efeito de depoimento, sob o holofote que o juiz Sérgio Moro tem usado e cujo simbolismo - “erga omnes” - quer demonstrar que a lei é para todos.

O palavrório funcionaria, nesse caso, como convocação da militância, estratégia para juntar as partes quebradas dos desvãos petistas e injetar sangue nas veias das galeras que ainda têm disposição de ocupar as ruas. O fato é que, a cada semana, os dutos da Petrobras chegam perto dos comandos do PT. Lula parece perdido, sem saber ainda o rumo a tomar.

A presidente passa a ser alvo do verbo ácido da mídia, com sua homenagem à mandioca e a estupenda criação das “mulheres sapiens”.

O lulopetismo passa por sua maior prova depois de três décadas. Poderá até não morrer, mas está na UTI. Sua maior expressão vai para o canto do ringue, tentando se desvencilhar de um adversário portentoso, treinado nas artes, ou melhor, nas letras jurídicas, o juiz do Paraná.

Qual o remédio que poderá salvá-lo?

A fórmula medicinal da bula da economia, chamada BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça. Bolso satisfeito, Barriga cheia, Coração emocionado, Cabeça agradecida. Nesse caso, a médica será sua pupila, dra. Dilma Rousseff. Mas a recuperação não será este ano. Teremos um segundo semestre pior que o primeiro. E, por enquanto, não se enxerga luz no fim do túnel.

P S Nessa sexta, Lula virou a página do alarme e passou a defender Dilma, ao dizer que a crise política não é da responsabilidade dela. Garantiu que ela vai arrumar o Brasil. Quem ainda acredita nisso?

Do túnel do tempo

Era doce e se acabou


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já não é mais o mesmo. Pouco parece ter sobrado do hábil hipnotizador de plateias. Na sexta-feira, durante a 5ª Plenária Nacional da Federação Única dos Petroleiros, nem o macacão laranja - figurino que já usara em 2006 para anunciar, de mãos sujas de óleo, a autossuficiência de petróleo que nunca veio - conseguiu salvá-lo.

Reuniu pouco mais de uma centena para ouvi-lo mandar a sua pupila Dilma Rousseff ir para as ruas, enquanto ele só tem falado sob a proteção de quatro paredes. E entre amigos. Desta vez, no auditório da Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST, em Guararema (SP).

Como de costume, o objetivo era colocar-se como vítima e defensor exclusivo da Petrobras, da qual o seu governo e o de sua afilhada fizeram gato e sapato. “Se quiserem um brasileiro que tem orgulho da Petrobras, eu estou aqui.”

Se caráter tivesse, se diria envergonhado. Pediria desculpas.

Empresa que já ocupou o oitavo lugar entre as maiores do mundo, a Petrobras viu seu valor e sua credibilidade despencarem nos quatro últimos anos. No ranking da revista Forbes divulgado em maio, caiu da 30ª para a 416ª posição. Postergado por meses, o balanço auditado da companhia apresentou prejuízo de quase R$ 22 bilhões em 2014, o maior de uma empresa brasileira de capital aberto desde 1986. E, confessamente, escrito lá no balanço, mais de R$ 6 bilhões foram perdidos para a ladroagem, cifra que a Polícia Federal considera timidíssima. A PF calcula, por baixo, que a corrupção comeu R$ 19 bilhões da estatal. Um rapa sem igual.

Não foram poucas as histórias da carochinha contadas pelo ex-líder das ruas.

Falou do mau humor que domina o noticiário, protestou quanto ao tratamento que recebe e, sem indicar os protagonistas, reclamou do que diz ser vazamento seletivo da Lava-Jato, rebatendo na tecla de que querem acabar com o PT.

Perdoou a Dilma que ele disse ter mentido ao Brasil durante a campanha eleitoral, rogando a Deus para que ela não perca a tranquilidade.


Insistiu na ladainha de que o cenário internacional é responsável pela crise brasileira e escancarou um pecado desconhecido por seus torcedores: a fórmula utilitária com que sempre tratou a massa que até há pouco tempo ele inebriava. “Nas horas mais difíceis, não tem outra alternativa a não ser encostar a cabeça no ombro do povo e conversar com ele”, ensinou. Uma lógica que não deixa dúvidas quanto aos momentos em que para ele o povo importa.

Lula é guloso. Saboreia o poder com prazer infinito. Lambuzou-se o quanto pode. Mas é também um sobrevivente. Sempre soube se reinventar.

Como presidente da República, pediu perdão aos brasileiros pelo mensalão. Ao deixar o cargo, negou a existência do que até a Lava-Jato era tido como o maior escândalo do país, afirmando que até o resto de seus dias brigaria para provar que tudo não passara de armação. Impingiu a neófita Dilma e foi vitorioso. Fala mal dela, puxa-lhe o tapete para afagá-la no dia seguinte.

Joga todos - o PT, Dilma e ele próprio - nas profundezas do volume morto, para tentar sair de mãos limpas.

Tenta imaginar-se como uma fênix, capaz de renascer das cinzas. Mas até Lula parece saber: seu encanto se quebrou.

O que é, o que é?


Tem patas de um elefante, tronco de um elefante, cabeça de um elefante, presas de um elefante e não é um elefante? Vai pensando aí enquanto a gente explica o outra metade da aula de massinha para dissimulados e afins. Toda a esquerdalhada do país se engajou num imenso esforço patético de dourar a pílula. Segundo os párias e colegas do crime sem castigo, “os ideais da esquerda estão sendo conspurcados por uma quadrilha de bandidos comuns”. É mesmo, cara pálida? Conta agora a do papagaio.

Uma presidente que se desmanchou em si mesma como purê de mandioca brava, cacarejando seus mantras e visões do apocalipse enquanto enfiava os docinhos da festa infantil no bolso não me parece uma ruptura de um sistema apodrecido de véspera e uma forma de dar corpo e alma ─ ambos podres – a uma mentalidade que se esforça em subir pelo atalho. Os caras detonaram as leis, a decência, a ética e a liberdade ensaiadas neste país imberbe tão somente para fazer de otária uma sociedade inteira, pagante e não reclamante de uma verdadeira orgia feita com o nosso dinheiro público bem diante de nossos olhos, narizes e bocas caladonas para o malfeito, mal parido e mal pago sistema político brasileiro.

Ensaiam hoje um tímido parlamentarismo parlapatão, muito mais pela vertente presidencialista dos detentores do poder no Congresso que pela conclusão pura e simples de que presidencialismo, reeleição, urna eletrônica sem fiscalização, oposição de quatro para o realismo fantástico que nos assola são tão somente as notas trôpegas de uma mesma música indecente, que já dói nos ouvidos. Já me esgoelei por aqui de olhar o tabuleiro a uma distância segura e ver que todas as suas peças executam um balé esquisito, que cabe mais como uma luva nos ideais idiotas da estrabaria de esquerda que temos por aqui que na defesa honesta de nossos preceitos democráticos e de nossa liberdade de ir e vir e mandar um pé no traseiro bem dado em toda essa escumalha que nos desgoverna.

Em que pese o fato de que a sociedade lentamente se dá conta que lhe passam a mão nos fundilhos sem pudor nem complacência, é de se esperar que em algum momento essa mesma sociedade se encha até a tampa de Marilenas Chauís patrocinadas pela anta, Suplícios cantando blowin’ my balls in the wind de cueca vermelhinha e ministros Edinhos cacarejando inocência, com o bolso cheio de docinhos da mesma festa onde a camarada Wanda surrupiou os brigadeiros. Fala serio. É uma quadrilha que está no poder, meus amigos.

Tem patas de quadrilha, tronco de quadrilha, cabeça de quadrilha e só não vê quem não quer a verdadeira natureza desse ajuntamento de bandidos. Os meliantes se organizaram para nos rapinar, em nome de uma tal infraestrutura que os caras foram superfaturar na África, em Cuba, na Venezuela e em outros potentados da mesma camorra aboletada no tal Foro de São Paulo e cercanias. É um golpe sem vergonha. Um golpe que conta com o compadrio, a omissão, a covardia e a enganosa elegância destes nobres cúmplices esquerdos de tabuleiro, blindando a dona de seus próprios desatinos enquanto procuram um substituto da mesma esquerda calhorda para apaziguar as coisas e continuar a dança picareta.

Para quem ainda não entendeu, o que tem patas de elefante, cabeça, tronco e presas de um elefante sem sê-lo por completo é o ESQUELETO DE UM ELEFANTE. Justamente o que vai sobrar em nosso lombo se essa gente não for apeada de onde se aboletam, roubando porcamente o nosso futuro. Eu quero é ver o oco, dona dilma. Sua mandioca definitivamente está assando.

Vlady Oliver

Ladrão lá em casa

Depois que o ladrão tentou entrar lá em casa pela porta dos fundos, que dava para o pátio, tive  noites mal-dormidas, deixando minha mãe preocupada. Ela não sabia mais o que fazer para tirar aquela ideia de minha cabeça que insistia em me dizer  que o ladrão podia de novo  tentar entrar lá em casa, a qualquer hora da noite,  quando todos estivessem dormindo. Foi na época das eleições municipais que o ladrão tentou arrombar a porta dos fundos, forçando-a várias vezes. Acordei sobressaltado com os tiros que meu pai desferiu com o revólver na porta que o ladrão estava forçando.

– Os tiros vararam a porta. O ladrão teve muita sorte. Por incrível que pudesse parecer não foi atingido por uma bala – disse meu pai ao vizinho no outro dia.  Saiu correndo apavorado pelo pátio estreito, dando um salto ligeiro feito macaco para alcançar o muro que separava nossa casa do quintal do vizinho, nos fundos.

Falei aos amigos como o pai tinha enfrentado o ladrão. Contei que não tive medo em nenhum momento quando acordei com os tiros que meu pai desferiu contra o bicho. Disse que peguei no cabo da vassoura, fiquei abaixado  atrás da mesa, à espera da hora certa para bater nele, caso os tiros desferidos por meu pai não atingissem o bandido e ele conseguisse entrar lá em casa. Claro que não ia deixar que o monstro ferisse meu pai ou minha mãe com alguma faca. Estava disposto a  dar uns socos bem fortes e quebrar o nariz dele, como uma vez vi no filme Roy Rogers fazer quando prendeu  o bandido, depois de lhe aplicar  uma boa surra.

A pior hora do dia agora era quando anoitecia. A sombra do ladrão acompanhava-me por todos os cantos da casa. Recolhia-me inquieto ao quarto para dormir. Não conseguia pegar no sono e, quando cochilava, acordava sobressaltado, chamando minha mãe para ficar junto de mim. Falava do meu quarto que o ladrão estava forçando a porta dos fundos, querendo entrar na sala. Ela vinha até o quarto para me acalmar, dizendo  que tudo era impressão minha, o ladrão nunca ia voltar para tentar entrar lá em casa outra vez depois do perigo que passou.

Minha mãe resolveu me mandar passar uns dias com  tia Bebé, em Ilhéus, cidade vizinha, que tinha praias belíssimas. Um porto ativo com embarcações entrando e saindo pelo canal. E até navio com bueiro que soltava fumaça quando estava atracado no porto. Apitava quando estava saindo ou entrando na baía. Era bonito de escutar e ver o navio apitando feito um bicho enorme do outro mundo.

Regressei  duas semanas depois. Fiquei sabendo que a caneta Park de meu pai, sumida antes de o ladrão tentar entrar lá em casa, foi achada no pátio. Minha mãe estava varrendo a terra dos vasos de planta  que o ladrão havia quebrado na fuga. Meu pai ficou surpreso, como minha mãe, quando viu a caneta Park. Ninguém falava mais em seu sumiço, ocorrido lá em casa no mês de junho. Suspeitava-se  de que tinha sido roubada pela empregada Francisca.

Meu pai contou ao delegado como a caneta Parker havia aparecido  no pátio depois da fuga do ladrão. O delegado Arnaldo Gigante soltou uma boa  risada quando acabou de saber todos os detalhes do aparecimento da caneta. Sabia que uma coisa estava ligada ao ladrão. A sorte estava ajudando-o a pegar de uma só vez dois coelhos naquela caçada.  Ele conhecia o marido da empregada, um ladrão perigoso, com várias entradas na delegacia. Daí chegando-se  até o bandido, o delegado deu uns apertos nele para que confessasse tudo, o que  não foi difícil.

O ladrão declarou que queria entrar lá em casa para roubar várias coisas e se vingar de meu pai e minha mãe pelo roubo frustrado da caneta Parker. A mulher dele tinha roubado a caneta quando minha mãe foi para a  novena na igreja de Santo Antônio, no mês de junho, e meu pai estava jogando sinuca no bar. Dias depois, ela ia sair com a caneta Parker enfiada no sutiã quando chegou o soldado Hilário. Com medo de tudo ser descoberto naquele momento, ela tirou a caneta escondida no sutiã, enfiando-a apressada em um dos vasos de planta junto ao muro..

Fiquei contente com a descoberta  do ladrão, que foi  recolhido à cadeia  pelo soldado Hilário. Embora já  tivesse  esquecido que um ladrão perigoso, marido de uma ex-empregada, uma noite quis entrar lá em casa. Tirou-me o sono várias  vezes seguidas e, no seu lugar, trouxe-me a noite circulando pelos cômodos  com suas sombras vagarosas.

Maioridade penal: a discussão que faltou


Parte de um pressuposto incompleto, para não dizer desonesto, o debate sobre aredução da maioridade penal capitaneada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Na tribuna onde deputados beijam a cruz e juram aos deuses estarem preocupados com a nossa segurança, triunfava o discurso comum de que nossos jovens são aberrações agressivas que precisam de medidas corretivas para não mais perturbarem a paz de nossas cidades e nossos lares.

Isolada a passionalidade do tema, qualquer eleitor atento poderia se questionar: Qual paz, cara pálida?

Sem entrar no mérito sobre efetividade do endurecimento da lei – já que esta discussão é levantada, ao menos no Congresso, sem base empírica, estatística ou pesquisa de campo sobre a chamada delinquência juvenil – é preciso dizer que se algo ficou claro na forma como foram conduzidas as discussões é que padecemos de uma total incapacidade de refletir sobre nós mesmos e nos assumir como uma população fundada e desenvolvida na violência. Isso não é privilégio de uma juventude aparentemente imune a punições.

Desculpem os puristas, mas selo de nação pacífica, adepta da negociação, do jeitinho, da cerveja e do churrasco ao fim da briga é uma lenda. Este selo não explica por que os moradores de um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza praticaram, num ano, mais de 50 mil homicídios – sendo a maior parte das vítimas descendentes de escravos e ex-escravos de um país que nega a reconhecer, e consequentemente combater, o próprio racismo.

Quando debruçamos seriamente sobre esses números, e descobrimos que parte desses crimes não só não foi solucionada como foi acobertada pelos próprios agentes de segurança envolvidos até a medula na política de extermínio, percebemos, então, que os deputados não passaram nem perto de apresentar qualquer solução para nossos males.

Não se trata de debater a índole de policiais treinados para o confronto, mas de refletir minimamente sobre uma política de segurança que transforma seus agentes em bedéis de faculdade no centro das cidades e em bucha de canhão de uma guerra às drogas fadada ao fracasso nas periferias onde sobram bares e faltam escolas. Mas essa máquina de moer gente, do qual os policiais são também vítimas, parece longe do radar de governadores e parlamentares.
“Mais presídios, menos escolas”, pedem, em tom de zombaria, os justiceiros, escribas e doutores da lei de um país já suficientemente esfacelado. As construtoras e fabricantes de armamento agradecem a preferência.

Fato é que, quando o diagnóstico é baseado numa violência que isola o "mal maior" de outros males, ela nos exime da responsabilidade de compreender e transformar as bases da nossa hostilidade. Por exemplo, condenamos o estuprador, mas achamos normal que homens pobres ou ricos, jovens ou velhos, julguem, exponham e tratem suas mulheres como posse ou objeto sem qualquer distância ou consentimento entre corpos e desejos. Por isso não somos capazes de entender e debelar as violências praticadas, no cerne da família, por pais, padrastos, amigos e conhecidos contra as próprias filhas. Pois é mais fácil acreditar que o meliante é um alienígena criado longe dos nossos domínios, e não o vizinho de boa instrução que se gaba por embebedar e constranger, pela vergonha do dia seguinte, as suas vítimas.

Da mesma forma, assistimos diariamente jovens serem constrangidos, excluídos e apedrejados desde cedo por conta de sua orientação sexual. Essa agressividade provoca sofrimento, angústia, depressão e exclusão, e se desenvolve sob os olhares complacentes de nossas autoridades mais próximas, muitas delas instaladas no ambiente escolar. Pois a solução para acabar com essa violência é...proibir que professores possam refletir e discutir sobre ela.

Na escuridão, fica difícil até tatear nosso cinismo. Compreender e jogar luz sobre nossas contradições mais enraizadas exigem a dispensa de qualquer purismo ou esforço retórico para definir que de um lado existem pessoas de bem e, de outro, meliantes que furaram o pacto da boa convivência. Esse pacto está furado de velho e tem a hostilidade como raiz. Refletir sobre ela talvez nos leve a perceber que até mesmo o conforto do nosso lar é também resultado de uma agressão.

“Vivemos um período terrível”, diz a enfermeira do filme As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand, enquanto atende o professor de história interpretado por Rémy Girard. “Mais ou menos”, responde o personagem. “No século 16, portugueses e espanhóis conseguiram, sem câmeras de gás nem bombas, fazer desaparecer 150 milhões de índios da América Latina. Deu trabalho, irmã: 150 milhões de mortos a machadadas. Mesmo com o apoio da sua igreja, foi um grande feito. A ponto de holandeses, alemães, ingleses e americanos se sentirem inspirados e massacrarem mais 50 milhões. Um total de 200 milhões de mortos. O maior massacre da humanidade foi aqui ao nosso redor. A história da humanidade é a história do horror”, diz.

Conflito por terra, grilagem, pistolagem, negociatas, políticas higienistas, desmate, assoreamento, despejo irregular de lixo, restos, dejetos: por aqui, por onde caminhamos não há um centímetro de espaço que não tenha sido ocupado sem algum tipo de agressão ou coerção. A começar pelo genocídio de nossos índios ainda hoje. Ou a expulsão de comunidades inteiras que atravancam a passagem do progresso, como aconteceu nas cidades-sede da urgente Copa de 2014.

O resultado são cidades entupidas, tomadas por asfalto, concreto, buzinas, gases poluentes, espaços públicos privatizados, muros, cercas eletrificadas, gritos, berros, neuroses, ameaças contra vizinhos, briga pelo estacionamento. Por trás da nossa agressividade está um modelo de desenvolvimento que, diante de tanta escassez, derrubou, explorou e consumiu tudo até a última ponta, do pau-brasil ao minério, da água da barragem aos cofres públicos e privados. Nosso medo de perder a vez na fila nos transforma em autômatos incapazes de pensar em quem vem depois. Todo o resto é conquistado no grito, e basta ver o nível de estresse de uma partida de futebol, na qual é preciso pressionar, ofender e constranger árbitros, juízes, bandeirinhas, jogadores, torcedores e animadoras de torcida para obter a vitória a todo custo.

Por aqui, agredimos quando contrariados.

Agredimos quando temos medo.

Agredimos quando ouvimos contrapontos.

Agredimos para fugir da agressão.

Agredimos quando ensinamos que, para sobreviver, é preciso agredir.

Agredimos e agredimos.

Agredimos porque, no fundo, somos covardes, e nossa covardia nos impede de nos assumir como uma nação violenta. E quanto mais fugimos deste confronto, menos nos entendemos. Quanto menos nos entendemos, mais agressivos ficamos. Quanto mais agressivos, mais leis criamos.

Essas leis podem ter a melhor das intenções, mas desacompanhadas da disposição para compreender e analisar nossa própria perversidade, seguiremos o que sempre fomos e temos sido: um país que se mata aos montes.

sábado, 4 de julho de 2015

O leão e o rato


 Depois que o Leão desistiu de comer o rato porque o rato estava com espinho no pé (ou por desprezo, mas dá no mesmo), e, posteriormente, o rato, tendo encontrado o Leão emvolvido numa rede de caça, roeu a rede e salvou o Leão (por gratidão ou mineirice, já que tinha que continuar a viver na mesma floresta), os dois, rato e Leão, passaram a andar sempre juntos, para estranheza dos outros habitantes da floresta (e das fábulas). E como os tempos são tão duros nas florestas quanto nas cidades, e como a poluição já devastou até mesmo as mais virgens das matas, eis que os dois se encontraram, em certo momento, sem ter comido durante vários dias. Disse o Leão:

– Nem um boi. Nem ao menos um paca. Nem sequer uma lebre. Nem mesmo uma borboleta, como hors-d’oeuvres de uma futura refeição.

Caiu estatelado no chão, irado ao mais fundo de sua alma leonina. E, do chão onde estava, lançou um olhar ao rato que o fez estremecer até a medula. “A amizade resistiria à fome?” – pensou ele. E, sem ousar responder à própria pergunta, esgueirou-se pé ante pé e sumiu da frente do amigo (?) faminto.

Sumiu durante muito tempo. Quando voltou, o Leão passeava em circulos, deitando fogo pelas narinas, com ódio da humanidade. Mas o rato vinha com algo capaz de aplacar a fome do ditador das selvas: um enorme pedaço de queijo Gorgonzola que ninguém jamais poderá explicar onde conseguiu (fábulas!). O Leão, ao ver o queijo, embora não fosse animal queijífero, lambeu os beiços e exclamou:

– Maravilhoso, amigo, maravilhoso! Você é uma das sete maravilhas! Comamos, comamos! Mas, antes, vamos repartir o queijo com equanimidade. E como tenho receio de não resistir à minha natural prepotência, e sendo ao mesmo tempo um democrata nato e confirmado, deixo a você a tarefa ingrata de controlar o queijo com seus próprios e famélicos instintos. Vamos, divida você, meu irmão! A parte do rato para o rato; para O Leão, a parte do Leão.

A expressão ainda não existia naquela época, mas o rato percebeu que ela passaria a ter uma validade que os tempos não mais apagariam. E dividiu o queijo como o Leão queria: uma parte do rato, outra parte do Leão. Isto é: deu o queijo todo ao Leão e ficou apenas com os buracos. O Leão segurou com as patas o queijo todo e abocanhou um pedaço enorme, não sem antes elogiar o rato pelo seu alto critério:

– Muito bem, meu amigo. Isso é que se chama partilha. Isso é que se chama justiça. Quando eu voltar ao poder, entregarei sempre a você a partilha dos meus bens que me couberem no litígio com os súditos.

Você é um verdadeiro e egrégio merítissimo! Não vai se arrenpender!

E o ratinho, morto de fome, riu o riso menos amarelo que podia, e ainda lambeu o ar para o Leão pensar que lambia os buracos do queijo, E enquanto lambia o ar, gritava, no mais forte que podiam seus fracos pulmões:

– Longa vida ao Rei Leão! Longa vida ao Rei Leão!

MORAL : Os ratos são iguaizinhos aos homens.
Millôr Fernandes

A extinção da mulher sapiens

mulheres sapiens
Dilma chegou lá. Conseguiu enfim bater a popularidade de Collor na época do impeachment. Alcançou um dígito de aprovação (9%), segundo o Ibope, e 68% de rejeição. A façanha se deu logo após a confissão de Ricardo Pessoa, o homem-bomba das empreiteiras. Ele confirmou que financiou a campanha de Dilma em 2014 com dinheiro roubado da Petrobras. É o flagrante definitivo do nacionalismo companheiro. O que faz uma mulher sapiens diante de tal obscenidade?

Faz o de sempre: joga areia nos olhos da plateia, como diagnosticou Fernando Gabeira. Mas a tática de embaralhar e confundir, quando utilizada por uma pessoa embaralhada e confusa, produz um resultado esquisito. “Não confio em delator”, rebateu Dilma, atirando no mensageiro. A presidente explicou que a ditadura tentou fazê-la delatar seus companheiros, e ela não aceitou. Até Joaquim Barbosa surgiu de seu exílio para dizer que Dilma feriu o instituto da delação premiada com esse paralelo estapafúrdio. Mas Joaquim não entende nada da lógica companheira.


Lula da Silva já justificou massacres impostos pelo seu amigo ditador do Irã como “briga normal entre flamenguistas e vascaínos”. Agora ele admitiu que Dilma mentiu na eleição, conforme revelou o GLOBO, ao dizer que ajuste fiscal era coisa do seu adversário. Mas durante a campanha, quando o adversário denunciava as mentiras de Dilma — o ajuste de Armínio Fraga ia esvaziar o prato do povo —, a infantaria petista gritava que era agressão contra a mulher. Mulher sapiens, vítima da ditadura, coitada profissional. Haja areia.


A Operação Lava-Jato, que não deixa em paz esse governo sofrido e discriminado, prendeu donos de empreiteiras. Entre eles o presidente da Odebrecht, cujo lobista levou Lula para passear pelo mundo. As prisões foram feitas sob a teoria de domínio do fato, isto é, autoria indireta dos crimes. Ricardo Pessoa, Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef já inundaram o processo do petrolão com evidências de que o esquema prosperou à sombra do Palácio do Planalto. Pela teoria de domínio do fato, Lula e Dilma estariam no centro das investigações. Procura-se um homo sapiens capaz de fazer isso acontecer.



Aí vem o Tribunal de Contas da União mandar a presidente justificar as pedaladas fiscais. Só pode ser uma conspiração da direita. Como a orgia nas contas públicas não é justificável, a plateia aguarda com a respiração presa o próximo truque para livrar Dilma do crime de responsabilidade. Cuidado com os olhos, porque lá vem areia. Já mandaram o ex-secretário do Tesouro dizer que a culpa foi dele — mais um aloprado desses que fazem o diabo por conta própria e não obedecem a ninguém. Como não há estoque de álibis que chegue para tanta fraude, o governo do PT está por um fio.

E quem segura esse fio é um elenco admirável. Há jornalistas importantes (com e sem mesada), intelectuais respeitáveis, expoentes da cultura. Eles formam a tropa de choque da Dilma — mais ou menos como aquela liderada por Roberto Jefferson na via crúcis de Collor. Esses bem-pensantes não se importam com o estelionato petista, que em nome da justiça social depenou o país, porque estão com os olhos enfiados na Bíblia. Luiz Inácio é seu pastor e nada lhe faltará (se cortejares o partido certo). Se vires milhões nas ruas contra a impostura do PT, enxergarás apenas a faixa pedindo intervenção militar — e gritarás contra a “onda conservadora”. Caminhando e cantando e seguindo o cifrão.

Evidentemente chegará o dia em que esses dogmas de 1,99 vão se esfarelar, e a mulher sapiens irá para o museu de história natural. Nesse dia, os gladiadores progressistas da Dilma dormirão como heróis dos oprimidos raciais, sociais e sexuais, e acordarão como avalistas da maior picaretagem do Brasil contemporâneo. Gente, é sério: isso vai dar uma ressaca danada.


Lula foi fazer comício para os petroleiros e gritou (quanto menos ouvem, mais ele grita) contra a perseguição “das esquerdas”. Ele está falando com vocês, seguidores do livro sagrado dos maniqueísmos. O povo não está nem aí para esse papo de esquerda. O que o povo sabe é que o emprego está indo embora e a inflação está voltando, por obra de um governo que destruiu as finanças públicas com sua gana parasitária. Isso é ser de esquerda? Resolvam aí entre vocês, antes que seja tarde.


A explicação do governo bonzinho para as doações confessadas pelos presos da Lava-Jato é que tudo foi recebido de maneira absolutamente legal. Ou seja: o dinheiro era sujo enquanto era propina, mas ao entrar legalmente no caixa do PT ficou limpinho. Como resumiu Renata Lo Prete: no mensalão, a estratégia petista era alegar caixa dois; no petrolão, a estratégia é alegar caixa um.

Quem pode acreditar que essa má fé compulsiva provém de um projeto humanitário de poder? Atualizem logo o seu selo de bondade, prezados cidadãos conscientes. Largar a mão da mulher sapiens quando ela estiver sendo varrida pelo dilúvio não vai pegar bem.

Manual de direitização

Desfiles de protesto, participação nas eleições, exercício do poder. Estes três tipos de acção política têm uma característica comum: as categorias populares estão a afastar-se ou a ser afastadas deles. Quando, a 11 de Janeiro último, milhões de franceses manifestaram a sua solidariedade com as vítimas dos atentados de Paris, a mobilização das classes médias contrastou uma vez mais com a do mundo operário e a da juventude dos bairros desfavorecidos, relativamente mais modesta. Há anos que a «rua» está a aburguesar-se. As urnas também. A cada nova eleição, ou quase, as taxas de participação regridem, em conjunto com o nível de rendimento. E a «representação nacional» não é em nada menos privilegiada, uma vez que o seu rosto se confunde com o das classes superiores. Será a política um desporto de elite?

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Isto já se observa no caso da esquerda europeia. Criado no início do século XX pelos sindicatos, o Partido Trabalhista britânico tinha a vocação de representar o eleitorado operário. Em 1966, 69% dos trabalhadores manuais davam-lhe o seu voto; esta percentagem passou para 45% em 1987, e depois para 37% no escrutínio de 7 de Maio último. O blairismo pensava que era preciso dar prioridade às classes médias. Missão cumprida: é com o eleitorado mais burguês da sua história que os trabalhistas acabam de sofrer uma estrondosa derrota eleitoral …

«A crescente desafeição dos meios populares pelos partidos de esquerda, observável em todas as democracias ocidentais electivas», salienta o politólogo Patrick Lehingue, «não é sem dúvida alheia à rarefacção dos eleitos que eram oriundos dos meios desfavorecidos e haviam passado pelas condições de vida ali existentes». Veja-se o caso francês. Em 1945, um quarto dos deputados franceses eram operários ou empregados antes de serem eleitos; hoje já são apenas 2,1%. Em 1983, setenta e oito autarcas de comunas com mais de 30 mil habitantes provinham ainda destas duas categorias sociais (maioritárias na população); passados trinta anos eram apenas seis.

Será o sistema representativo? Mais de metade dos americanos consideram que o Estado devia redistribuir a riqueza taxando fortemente os mais abastados. Entre estes últimos – é humano – só 17% partilham tal desejo. Contudo, o funcionamento das democracias ocidentais garante que a sua opinião será vencedora, uma vez mais sem debate real. Uma classe consciente dos seus interesses mostra-se tanto mais serena quanto diversos temas de distração realçados pelos media que ela detém continuarem a encantar o debate público. E a opor entre si as categorias populares.

Quando este sistema está bem oleado, já só falta convocar peritos muito sapientes cuja missão é recordar-nos que tanto a apatia de uns como a cólera dos outros se explicam pela «direitização» das nossas sociedades…

Serge Halimi

Dilemas da crise


O sistema parlamentarista de governo vigeu por todo o período monárquico, garantindo a estabilidade política de um país em formação, palco de sucessivos levantes regionais de cunho separatista. Teve eficácia para garantir a unidade nacional.

A república, proclamada por meio de um golpe militar, introduziu o presidencialismo, inspirado no modelo dos Estados Unidos, único país que soube conciliá-lo com a democracia.

O Brasil não absorveu essa particularidade – e abraçou-se com a instabilidade. Caiu na vala comum, oscilando entre a ditadura e a democracia fisiológica, a que temos hoje em plena vigência. O parlamentarismo, contudo, não foi sepultado. Foi posto no freezer.

Em 1961, com a renúncia de um presidente conservador, Jânio Quadros, e a perspectiva de posse de um presidente esquerdista, João Goulart, em plena Guerra Fria, a criatividade política retirou do congelador, como medida paliativa, o parlamentarismo. Era um remendo para driblar a crise militar.

Tancredo Neves, negociador da solução, assumiu o cargo de primeiro-ministro, ao qual renunciaria, diante do empenho de Jango e da esquerda em sabotar aquela saída.

Passou o cargo ao deputado Brochado da Rocha, cujo nome se adequava ao que se pretendia: mostrar a impotência do parlamentarismo para resolver os desafios da crise brasileira. O presidencialismo foi restabelecido por plebiscito, em 1963, desembocando no golpe militar de 1964.

O golpe, na verdade um contragolpe, teve apoio civil, na expectativa de que cumpriria apenas um mandato tampão até as eleições do ano seguinte. As eleições diretas não vieram – viriam apenas 25 anos depois, em 1989, com a eleição de Collor.

Na Constituinte de 1988, ainda se tentou a solução parlamentarista, abortada pelo governo Sarney e remetida a novo plebiscito, em 1993. Como em 63, o povo optou pelo presidencialismo, graças à retórica populista das lideranças políticas. Não é simples explicar as tecnicalidades de um sistema político complexo, o que favoreceu a preservação do status quo.

Hoje, diante da falência do governo Dilma, volta-se a falar em parlamentarismo – e mais uma vez como truque para uma transição política anódina, com data marcada para ser abortado. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi claro: o parlamentarismo vigeria por este mandato, em que, assim sendo, seria ele próprio um dos favoritos para ocupar o posto de primeiro-ministro.

Em 2018, voltaria o presidencialismo, com a eleição direta do novo presidente da república. Desnecessário dizer que, nesses termos, as chances de cumprir a missão estabilizadora serão nulas. Funcionará como mero anestésico, adiando a crise e seus conflitos. Há ainda complicadores jurídicos: o fato de ter sido derrotado em dois plebiscitos – o anterior já sob a vigência da atual Constituição – poderia gerar questionamentos judiciais.

Seja como for – e aqui não se está discutindo os méritos da mudança, que exigiriam artigo específico -, o simples fato de tal discussão já estar sendo feita a céu aberto, com a participação e o patrocínio do presidente da Câmara, indica que ninguém mais questiona o fim do governo Dilma. Acabou-se – e ponto.

Discute-se, isto sim, como será formalizada sua saída: se por impeachment (pedaladas fiscais), se por cassação (caso se confirmem as doações eleitorais com dinheiro roubado da Petrobras) ou se por renúncia.

A torcida é que se dê por renúncia, que permitiria uma liturgia sucessória protocolar, sem maiores contratempos. O próprio Lula, convertido em demolidor da criatura que ele mesmo inventou – e sonhando em voltar à presidência em 2018 -, torce por essa solução. Tornou-se subitamente adepto do parlamentarismo-tampão, que o devolveria à oposição, alheio aos dolorosos ajustes econômicos que as sucessivas gestões do PT tornaram imperativos.

A confusão é geral - e, tendo a operação Lava-Jato como pano de fundo, o país assiste, perplexo, a mais um capítulo da falência de seu sistema político. Em tal contexto, cabe o velho axioma das crises: quem disser que sabe o que vai acontecer está no mínimo mal informado.

A escolha da morte

O Estado que achaca


Um Estado existe para servir aos que o compõem. O cidadão é o seu começo, meio e fim. Quando o Estado começa a atormentar rotineiramente a vida da sua matéria-prima, é porque seu sistema de alternância autolimpante não tem efeito. O voto, obrigatório, vira mera formalidade.

O Poder, atolado, renova-se sem sair do lugar. É escravo da máquina burocrática que se instalou há séculos, alimentada pela corrupção. O cidadão iludido por um sistema político ineficaz desconfia de ações de um governo que assaca, acua. Não sabe mais se está sendo acolhido ou achacado. E é incapaz de reverter os motores.

Em 1.º de janeiro de 1999, tivemos que ir às pressas atrás de um kit de primeiros socorros, valor médio de R$ 10, estojo fajuto com dois rolos de atadura, tesoura com ponta arredondada, dois pares de luvas de procedimento, esparadrapo, dois pacotes de gaze e bandagem de algodão, que, pelo artigo 122, se tornara obrigatório na aprovação do Código de Trânsito Brasileiro. Multa de R$ 115 e mais cinco pontos no prontuário do motorista flagrado sem o kit.

Meses depois, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei prevendo o fim da sua obrigatoriedade, que podia causar sérios prejuízos se usado inadequadamente. Tarde demais: ela movimentara um comércio de cerca de R$ 270 milhões.

“A única razão da existência do kit é fomentar o lucro dos fabricantes dos materiais e equipamentos e dos revendedores. Os motoristas e a população nada têm a ganhar com a exigência dele”, afirmou o deputado Padre Roque (PT-PR), autor da revogação.

Em janeiro de 2000, passei com toda família o Réveillon da virada do milênio em Angra, num inédito reencontro de irmãos, sobrinhos e cunhados que moram aqui e na Europa, brasileiros e estrangeiros, planejado com antecedência.

A foto com todos de branco foi tirada. A data merecia o encontro histórico. Deu tudo certo. Mas quase terminou em tragédia.

Eu, minha irmã mais velha e meu cunhado voltávamos juntos na minha van adaptada. É um carro feito em 1995 sob medida, com plataforma móvel, porta automática, que um tetraplégico não completo, como eu, consegue dirigir. Tínhamos três opções de caminho: Barra Mansa, Taubaté-Ubatuba e Tamoios.

Meu cunhado a dirigia, enquanto eu papeava com a irmã atrás. Decidimos pela Taubaté-Ubatuba. No pé da Serra, enchemos o tanque de 70 litros e começamos a subi-la, com aroma de gasolina ainda entre nós. É das estradas mais lindas e íngremes que cruzam a Serra do Mar, com poucos pontos de ultrapassagem, que exige perícia e potência do motor. O câmbio automático trabalhava. O seis cilindros rangiam. Até uma fumaça branca começar a entrar pelos dutos de ar. A van parou de funcionar num trecho sem acostamento. Meu cunhado disse: “Não anda mais”. Uma fila de carros se formou atrás.

Um carro nos ultrapassou velozmente, parou numa distância prudente à nossa frente. O passageiro saltou e nos acenou com os braços. Ele está tentando nos dizer algo. Meu cunhado abriu a janela calmamente. “Pulem! Está pegando fogo embaixo do carro!”, gritava.

Consegui orientar didaticamente o meu cunhado: “Coloque o câmbio do PARK, desligue o motor. Pegue o extintor aí na porta, apague o fogo, enquanto opero a plataforma elétrica”.

Ele desceu do carro. Era uma operação cheia de botões, comandos e relês: abrir a porta, estender a plataforma, me encaixar nela e descer. Com o motor ligado, não desceria. Sem bateria, não funcionaria. Consegui. Me afastei do carro seguido pela minha irmã. Vi meu cunhado sob ele. Vi as labaredas. Ele mirava o jato de espuma no fogo. Uma mancha de óleo fluía no asfalto. Estourara a caixa de câmbio. O óleo escorreu pelo cano de escapamento fumegante e pegou fogo. Ele conseguiu apagar antes de o fogo chegar ao tanque de combustível. Seria uma explosão pra lá de Bagdá.

Graças a um equipamento do tamanho de uma berinjela, que se compra em qualquer posto de gasolina por R$ 50, estamos vivos. E mais. Meu carro, que não existe similar nacional, e importei quando o dólar valia R$ 0,80, está comigo até hoje.

Então eu soube que meu anjo da guarda agora é considerado obsoleto. Todos os veículos em circulação no País devem possuir a partir deste mês um novo tipo de extintor, o ABC, capaz de apagar incêndios de uma variedade maior de materiais (em madeira e tecidos, materiais comuns em carros). A medida faz parte da resolução 333 do Conselho Nacional de Trânsito. Chegou a ser derrubada por uma liminar e voltou a vigorar.

Até então, os extintores do tipo BC, como o meu, eram recomendados apenas para materiais como líquidos inflamáveis e equipamentos elétricos. Quem rodar com o extintor fora das especificações está sujeito a multa de R$ 127,69 e a inclusão de cinco pontos na carteira. Os teóricos da conspiração têm todo o direito de dizer: “Aí tem...”.

Tais normas não aparecem da noite pro dia. Técnicos de agências oficiais garantem estudos e pesquisas. Mas sua implantação nos pega sempre de surpresa.

No governo Lula, em duas canetadas, duas normas mudaram regras antigas e devem ter dado muito lucro a alguém ou alguns: a da tomada de três pinos (nada universal) e a reforma ortográfica, que tirou uns hifens de um lugar e colocou em outros, extinguiu uns acentos precisos, como de “pára”, mas deixou outros, obrigando a indústria editorial a se reformular.

Alguns pensaram em quem faturaria com novos adaptadores, que tornaram todas as instalações elétricas obsoletas, e no faturamento de parques gráficos e vendedores de papel.

Anos atrás, fomos obrigados a regular os motores para a inspeção veicular anual, medida ambientalmente justa, mas que está suspensa pela própria Prefeitura. Nesta semana, outra novidade: toda empresa (exceto as cadastradas no Simples) é obrigada a ter certificado digital, o e-CNPJ, que custa em torno de R$ 500, para emitir notas fiscais. Não existe opção de quem não quer ser digital.

É obrigatório, a obrigatoriedade, a partir de tal data, a regra, a norma, tem quê! Um Estado que viveu quase 400 anos sob regras monárquicas, custa a debater seus problemas e conflitos republicanamente com seus cidadãos.

E os adversários do consumo o que dizem?

A indústria automobilística registrou no primeiro semestre do ano uma queda de 20% em suas vendas e avalia que em fins de dezembro esse percentual chegue a 23%. Neste momento, 325 mil veículos estão estocados nos pátios das fábricas e 35,8 mil trabalhadores, ou 25% de todos os recursos humanos das montadoras, estão em férias coletivas, licença ou suspensão dos contratos de trabalho.
Enquanto, no primeiro trimestre do ano, o consumo das famílias caiu 1,5%, os indicadores da intenção de consumo sinalizam para uma trajetória de ainda menor e, portanto, para menores vendas. Segundo pesquisa da Fecomercio/SP, a intenção de consumo das famílias caiu 26,3% em 12 meses. No varejo paulista, o mais dinâmico do país, as vendas caíram 12% no mês de abril quando comparadas com o mesmo mês de 2014.

Na outra ponta do novelo em que o governo enredou a economia nacional, o desemprego, entre maio de 2014 e maio de 2015, subiu de 4,6% para 6,7% e o IBGE informa que o número de pessoas à procura de vaga chegou a 1,6 milhão, com crescimento de 39% em relação a igual período do ano passado. Dezesseis por cento são jovens.

Quando as coisas iam bem, o governo festejava como seus os números mensais do crescimento do emprego. Era como se cada vaga fosse aberta não pela ação empreendedora dos empresários, mas por decisões do governo. Sabe-se hoje, pela evidência dos fatos, que o governo petista foi um desastre marcado pela irresponsabilidade fiscal e pela decadência moral. Agora, quem desemprega são as empresas. Ah!

Além dos que vicejam à sombra do governo e a tudo aplaudem, há um grupo de pessoas, raramente mencionadas, que devem estar especialmente exultantes com os males da economia brasileira. Quem são? Você já as ouviu falando. Criticam a sociedade de consumo. Não se desgostam com as filas de Cuba e da Venezuela. Sonham com uma sociedade de demandas mínimas. Talvez seu modelo de vida pudesse ser representado pelas comunidades menonitas, mundialmente conhecidas como amish, que rejeitam os bens produzidos pela indústria e pela tecnologia. Os amish brasileiros, porém, são fake, vão às compras como todo mundo e certamente gostam de ganhar presentes. Mas condenam a sociedade de consumo, típica do capitalismo.

Seus motivos são ideológicos. Como resulta impossível comparar os bens sociais, tecnológicos, científicos, culturais e econômicos do capitalismo com os do socialismo e do comunismo, eles rejeitam o efeito para reprovar a causa. 


Esquecem-se de que empregados e desempregados, empreendedores de todos os níveis, e até os servidores públicos cujo pagamento depende dos impostos incidentes sobre a riqueza gerada no país, estão torcendo para que se retomem as condições necessárias ao crescimento da produção e da demanda. Ninguém quer viver como amish! Por que será que os países comunistas estão completamente fora dos fluxos migratórios de que hoje tanto se ocupam os governos do Ocidente?

Por uma questão de justiça, em tempos de crise, assim como os eleitores do PT deveriam pagar mais impostos para cobrir os estragos do governo que elegeram e reelegeram, os adversários do consumo alheio deveriam ser priorizados na hora do desemprego, não é mesmo?

Falou, mas não disse

Como diria o conselheiro Acácio, o bom da ficção é que ela não tem compromisso com a realidade. Descobri esse óbvio ululante há alguns anos, ao tirar férias das biografias para escrever dois romances, "Bilac Vê Estrelas" e "Era no Tempo do Rei". Embora trabalhasse com personagens reais, respectivamente o poeta Olavo Bilac e o jovem príncipe D. Pedro, podia fazê-los falar o que eu quisesse. Mas, não sei como, em certo momento ganharam autonomia e passaram a falar por conta própria.


A presidente Dilma, ela, em si, um personagem de ficção –seu autor foi Lula–, já atingiu o estágio em que pode falar o que quiser, sem compromisso com a realidade e, muitas vezes, significando o contrário. Exemplo: em 2014, antes da eleição, foi à TV anunciar um corte de 18% nas contas de luz e que o Brasil era "o único país a baixar o custo da energia e aumentar a produção no setor elétrico". Não ria.

Há meses, Dilma anunciou o programa "Brasil: Pátria Educadora". Ato contínuo, decepou 31% do orçamento do MEC (o maior corte entre todos os ministérios), representando R$ 7 bilhões a menos em circulação no setor. Tal medida deixou de tanga professores, alunos, bolsistas, funcionários das universidades, terceirizados e fornecedores, além de apunhalar o setor editorial com a queda radical na compra de livros este ano e calote nas compras do ano passado.

Esta semana, Dilma comparou-se a Tiradentes e declarou "não respeitar delatores". Referia-se aos que estão praticando a delação premiada, medida que ela assinou, autorizando, e elogiou em outubro último como "útil para desmontar esquemas de corrupção".

Agora, jogando para a galera em Washington, Dilma prometeu que "até 2030, o Brasil terá desmatamento zero". Considerando-se seu histórico, tudo indica que, até 2030, teremos uma Amazônia careca.

O perigo do robô que trabalha ao lado

A morte de um trabalhador em mãos de um robô em uma fábrica da Volkswagen na Alemanha despertou os piores pesadelos relacionados com a robótica: por um lado, a possibilidade bem remota de que máquinas com capacidade para tomar decisões possam fazer mal a seres humanos de modo voluntário, por outro, a crescente presença, muito real, de robôs nas dependências industriais e na agricultura, que acabem substituindo os trabalhadores.

A morte, que está sendo investigada pelo Ministério Público alemão, teve lugar na segunda-feira na montadora da empresa automobilística alemã de Kassel-Baunatal, situada 100 quilômetros ao norte de Frankfurt, no centro do país. O jovem de 21 anos trabalhava para outra empresa e estava na fábrica para instalar maquinário, informa Luis Doncel desde Berlim. As primeiras investigações indicam que um companheiro que se encontrava fora das instalações acionou por engano o robô, que aprisionou o rapaz pelo tórax, arrastando-o até uma placa metálica, segundo explicou o porta-voz da empresa, Heiko Hillwig. Depois do acidente, o jovem foi levado para o hospital de Kassel, mas o serviço de emergência já não pôde fazer nada por sua vida. A procuradoria investiga o caso, mas seu porta-voz disse que ainda é muito cedo para atribuir responsabilidades. A fábrica de Baunatal tem 800 robôs.

Paul Verschure, diretor do Specs, o grupo de trabalho sobre inteligência artificial e robótica da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, também tem a impressão de que se tratou “de um erro humano”, embora reconheça que ainda faltam muitos detalhes. “Esses robôs não são autônomos, são máquinas com muita força que levam a cabo tarefas muito rudimentares e repetitivas”, garante em conversa telefônica. “É um exagero chamar a isso de robô porque não tem percepção, nem sentidos. Há um erro de segurança. Não estamos diante de um Terminator nem diante de um pesadelo de robôs matando humanos”, prossegue esse perito em inteligência artificial, que dirige uma equipe de 30 pessoas.

A possibilidade de que as máquinas acabem dominando os humanos entrou na imaginação quase no mesmo instante em que surgiu a robótica, através de filmes como Metrópolis, a sequênciaExterminador do Futuro ou o recente Ex Machina. O cientista Isaac Asimov estabeleceu já em 1942 as chamadas três leis da robótica, feitas para que um robô nunca pudesse fazer mal a um ser humano: “Um robô não irá ferir um ser humano ou, por negligência, permitirá que um ser humano sofra algum dano, um robô deve obedecer às ordens dadas pelos seres humanos, exceto se essas ordens entrarem em conflito com a primeira lei, um robô deve proteger sua própria existência na medida em que essa proteção não conflite com a lei N° 1 ou a lei N°2”.

Ainda que existam centenas de universidades e empresas com programas de inteligência artificial, e tenham ocorrido avanços extraordinários em terrenos como a percepção e nos sentidos das máquinas, todos os especialistas concordam que a presença de robôs como o C3PO e o Exterminador do Futuro ainda está muito distante de acontecer e que os robôs do futuro se parecerão mais com as sofisticadas máquinas que limpam sozinhas – existem atualmente por volta de dez milhões nos lares de todo o mundo –, com minúsculos robôs capazes de operar dentro do ser humano – Harvard está trabalhando nisso – e com carros autônomos. “Robôs confiáveis, especialmente aqueles que possam trabalhar fora de recintos de segurança em uma fábrica, são muito difíceis de fabricar. Os robôs continuam sendo muito estúpidos. Eles nos fascinam, mas ainda falta muito para que façam alguma diferença no mundo”, escreveu a revista The Economist em uma recente reportagem de capa sobre a robótica.


Os robôs, entretanto, representam uma indústria crescente – a UE anunciou em 2014 um investimento de 2,8 bilhões de euros (9,6 bilhões de reais) para um setor no qual a Europa possui 32% do mercado mundial, enquanto o Google comprou oito empresas de robótica nos últimos dois anos. De acordo com dados do setor, os robôs já movimentam 19 bilhões de euros (65 bilhões de reais) por ano. E sua presença na indústria é cada vez mais importante, assim como o debate sobre a possibilidade de que milhares de empregos atuais em setores como o automotivo e a indústria sejam perdidos em um futuro bem próximo. A empresa de consultoria norte-americana Gartner – a principal no campo da tecnologia – disse em junho que “quanto mais sofisticadas as máquinas forem, se transformarão cada vez mais em alternativas viáveis aos trabalhadores humanos, o que sem dúvida terá repercussões na indústria”. “As máquinas que somos capazes de fabricar são cada vez melhores”, explica Verschure. “Essa é a revolução que iremos viver, o final de um modelo de trabalho que surgiu no século XIX. Mas daí a culpar os robôs pelo desemprego é outra história: a Espanha tem um desemprego altíssimo e poucos robôs na indústria”.