quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Pequeno manual de combate a incêndios

O fogo é um tema recorrente na literatura universal. No Brasil, devorou O ateneu (1888), de Raul Pompéia, e pôs fim a'O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, obras seminais da nossa literatura. Nos dois casos, representavam o fim de uma era, com apagamento do passado. Na vida real, foi o que aconteceu literalmente no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2 de setembro de 2018, e na Cinemateca Nacional, em São Paulo, no dia 29 de julho de 2021. E pode estar acontecendo agora com nossos principais biomas.

Fundado em 1818, por dom João VI, o Museu Nacional possuía o mais importante acervo de história natural da América Latina, com 20 milhões de itens, entre os quais, coleções de fósseis de dinossauros do mundo, múmias andinas e egípcias, e 537 mil livros da Coleção Francisco Keller. No galpão da Cinemateca Nacional, arderam quatro toneladas de documentos sobre cinema no Brasil, além de películas e arquivos.


Desde o Brasil Colonial, o fogo é usado para expulsar indígenas de suas terras e, agora, incendiar favelas, como se fazia com os antigos quilombos. Históricos casarões e sobrados, tombados, pegam fogo para possibilitar a construção de prédios horrorosos. O fogo nas florestas, para eliminar flora e fauna e ampliar as fronteiras agrícolas, também é coisa antiga. Entretanto, agora saiu completamente do controle.

Incêndio não é sinônimo de fogo, cujo domínio foi fundamental no processo civilizatório. O que difere as chamas do fogão ou da churrasqueira é o controle sobre elas. Desde Arquimedes, o fogo é objeto de estudos, porém, foi o francês Antoine Lawrence Lavoisier, aquele mesmo da Teoria dos Vasos Comunicantes, no século XVIII, que descobriu as bases científicas do fogo.

A principal experiência que lançou os fundamentos da ciência do fogo consistiu em colocar uma certa quantidade de mercúrio (Hg — o único metal que normalmente já é líquido) dentro de um recipiente fechado, aquecendo-o. Quando a temperatura chegou a 300°C, ao observar o interior do frasco, Lavoisier encontrou um pó vermelho que pesava mais do que o líquido original.

O cientista notou, ainda, que a quantidade de ar no recipiente havia diminuído em 20%, e que o ar restante possuía o poder de apagar qualquer chama e matar. Lavoisier concluiu que o mercúrio, ao se aquecer, "absorveu" a parte do ar que nos permite respirar (essa mesma parte que faz um combustível queimar: o oxigênio). Os 80% restantes eram nitrogênio (gás que não queima) e o pó vermelho era o óxido de mercúrio.

Da breve explicação, vê-se que para iniciar a combustão, são necessários o combustível, o oxigênio e a energia (a temperatura de ignição). Mas isso existe em toda parte. O que faz a diferença é a proporção entre esses componentes do chamado "triângulo do fogo".

Os incêndios que estamos acompanhando são eventos naturais e/ou provocados por ação humana. No Cerrado brasileiro, a partir de análises do carvão armazenado em solos profundos, há incêndios se repetindo há mais de 30 mil anos. Nas estações secas, a ignição ocorre naturalmente por uma descarga elétrica. Mas não é o caso nesta estiagem.

Temperatura acima de 30 graus, num momento em que a umidade seja menor do que 30% e vento acima de 30 km/h, são o ambiente ideal para um incêndio. Basta alcançar a ignição, por meio de uma bituca de cigarro jogada na estrada ou um palito de fósforo aceso. Há mais dois fatores: indivíduos incendiários, que tem atração pelo fogo, os piromaníacos; e o criminoso que ateia fogo por vingança ou algum interesse econômico, seja limpar o terreno para fazer um grande empreendimento imobiliário ou formar uma pastagem.

Uma vez iniciado, o fogo se espalha muito rápido e é extremamente difícil de controlar, por causa do vento, do calor e da baixa umidade. Ocupantes do Cerrado desenvolveram técnicas de queima controlada, atuando para diminuir a biomassa e, com isso, evitar os grandes incêndios. Mesmo esses "aceiros", quando saem do controle, podem provocar grandes incêndios, com perda de plantas, animais e danos até aos microrganismos do solo, sem contar na morte de pessoas, inclusive bombeiros.

No Pantanal e na Amazônia, o problema se tornou mais grave, porque o desmatamento faz com que a proteção natural da própria floresta, principalmente sua umidade, perca a capacidade de conter a propagação das chamas, principalmente se a seca for muito forte, como agora. Se pegar fogo em árvores que têm resinas, pode queimar por muito tempo e impedir ações efetivas para deter o incêndio.

Conforme as plantas vão queimando, primeiro saem os materiais voláteis, com substâncias prejudiciais à saúde, inclusive cancerígenas. Se não chover, todo esse material fica suspenso e forma "nuvens de fumaça", que estamos vendo em vários lugares do Brasil. Sofrem os nossos pulmões, os animais e até as plantas. Se a situação piorar muito, teremos uma situação realmente caótica.

Apesar dos frequentes alertas, as autoridades subestimaram os efeitos catastróficos do que temos presenciado. E, agora, correm atrás do prejuízo, inclusive o governo Lula, apesar das advertências da ministra do meio Ambiente, Marina Silva.

Como disse o poeta pernambucano Luís Turiba, em 1989: "Ou a gente se Raoni, ou a gente se Sting".

As cadeiradas invisíveis

O Brasil se surpreendeu com a cadeirada visível que o candidato Datena aplicou em um seu opositor, mas não se surpreende com as cadeiradas invisíveis que há décadas o povo brasileiro recebe de políticos vazios de propostas, sem compromissos nacionais e com excesso de demagogia e irresponsabilidade.

A cadeirada visível foi sobre a cabeça do outro candidato e quebrou-lhe uma costela; as invisíveis são dentro da cabeça do eleitor e quebra sua esperança em um Brasil melhor, uma cidade mais eficiente, pacífica, com convivialidade.

Pena que um candidato descontrolado aplique uma cadeirada visível em seu opositor, pior quando os candidatos executam friamente cadeiradas invisíveis contra os cérebros e esperanças dos eleitores.


A observação dos horários eleitorais, sobretudo dos discursos e debates ao longo da atividade política, no Parlamento, nas entrevistas tem correspondido a uma agressão mental e emocional, por ação ou omissão” sobre o eleitor.

Em 2025, o país completa quarenta anos de democracia sem que os políticos e candidatos ofereçam propostas para completar o processo iniciado em 1985, e pagar as dívidas ainda em aberto.

Não discutem a persistência da pobreza, manutenção da concentração de renda, péssima qualidade e abissal desigualdade da educação, a armadilha que não permite aumentar a produtividade e a renda média, a podridão da corrupção e a ferrugem da burocracia, a instabilidade jurídica e fiscal, a violência generalizada….

Este debate desapareceu dos discursos políticos, como uma violência intelectual e moral, uma pancada, uma cadeirada dentro do cérebro dos eleitores matando suas crenças nas lideranças e suas esperanças no futuro.
Cristovam Buarque

terça-feira, 17 de setembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Materialização da insegurança

O que é a riqueza? Para um, uma velha camisa já é a riqueza. Outro é pobre com dez milhões. A riqueza é uma coisa relativa e pouca satisfatória. No fundo não passa de uma situação particular. Ser rico significa depender de coisas que se possui e que se é obrigado a proteger da destruição, acumulando as posses e as novas dependências. A riqueza não passa de uma materialização da insegurança

Franz Kafka

Quais são as limitações da inteligência artificial

A principal limitação do debate sobre inteligência artificial é a praticamente nenhuma referência à superioridade e à necessidade da inteligência tradicional. O desencontro entre a expansão das funções da inteligência artificial e a lentidão de adaptação dos seus descartados à modernidade que ela representa responde por um doloroso processo de exclusão social, que é anticapitalista e inimigo da empresa.

A inteligência artificial nasce e prospera para suprir, e não para substituir a inteligência natural e tradicional, para completá-la e ampliar o domínio do que é inteligente sobre o que é espontâneo. Foi Gramsci, pensador italiano vítima do fascismo, quem sublinhou a importância do bom senso do homem comum na realidade social.


A inteligência artificial se desenvolve para multiplicar os efeitos econômicos e sociais do conhecimento erudito. Porém, nos vários campos de sua aplicação, ela não supre a carência criada pelos descartes de talentos que provoca.

Tampouco a inteligência artificial pode criar instrumentos, técnicas e meios que se sobreponham à criatividade do repente, da improvisação, da intuição, do senso comum sensível às informações não codificadas dos meios artificiais de inteligência. Ela não pode vencer com prontidão o prejuízo inesperado decorrente das contradições econômicas e das irracionalidades sociais.

Do ponto de vista antropológico, a inteligência artificial não é inteligente. Ela não vem primeiro. É criatura da inteligência tradicional. Falta-lhe o principal elemento da cultura e da condição humana: o reconhecimento da necessidade, da legitimidade e da probabilidade do erro. O desafio da interpretação.

Nesse sentido, só o acerto, que é próprio da inteligência artificial, é um erro. Erro dominado e controlado pela inteligência artificial não é erro porque é erro previsto, insuficiente para que seja definido como erro, como ato não inteligente. O erro e o inesperado são partes integrantes da verdadeira cultura da descoberta e da invenção, do aperfeiçoamento. Onde não existem, não há criatividade.

Os simples, sujeitos da inteligência cotidiana, são a mediação de desafios que provocam a necessidade de saber. O antropólogo português Adolfo Coelho, em estudo primoroso, destacou que ser analfabeto não é o mesmo que ser ignorante. Coisa que aqui no Brasil temos dificuldade de compreender.

Trabalhei em fábrica quando era menino e adolescente. Achava que aquela maquinaria toda, complicada, era brinquedo de adulto e de engenheiro. Em parte criado na roça, na minha ingenuidade, via e intuía coisas que eram irrelevantes para os sábios da empresa, os engenheiros e técnicos.

Foi o que aconteceu quando o demônio “apareceu” para as operárias numa das seções da fábrica, num momento de reiterada produção defeituosa que eles não sabiam explicar. O imaginário delas continha explicações que o deles não continha.

Eu via, também, embora não compreendesse, que havia uma guerra de saberes entre dois poderes da fábrica, representados pelos antigos mestres, de um lado, e os engenheiros, de outro.

Roberto Simonsen, o fundador da empresa, formado pela Escola Politécnica de São Paulo, quando chegou o tempo de modernizar o processo produtivo, intuiu que, sem os velhos mestres, os novos engenheiros não conseguiriam fazer a empresa funcionar.

Fundador da Fiesp, ele era também fundador da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionava história econômica do Brasil. Sabia que a ciência na produção tinha limites sem as ciências sociais, sem o diálogo investigativo com o conhecimento popular, com o senso comum, com a lógica e as regras do saber tradicional.

Enquanto a cultura empresarial da coexistência pacífica entre saberes desencontrados e de diferentes idades fosse acatada, a empresa continuaria produzindo lucros. No fundo Simonsen considerava os saberes dos simples um capital social, que estava à disposição da empresa gratuitamente.

Os filhos de Simonsen continuaram a tradição do pai. Mas uma nova geração da mesma família, em vez de assumir a direção da empresa, entendeu que assumiu o poder da empresa. Suprimiu a mediação da coexistência de saberes distanciados pela diferença de idades do conhecimento industrial.

O capital social da sabedoria antiga tinha sido descartado. Faltou o diálogo de saberes que corrigisse e equilibrasse as consequências irracionais do desenvolvimento econômico desigual. A empresa acabou fechada, depois de 80 anos de funcionamento, e demolida.

Apesar dos recursos da crescente disponibilidade de inteligência artificial e impessoal na indústria, ela criou uma espécie de orfandade do novo empresariado de senso comum pobre.
José de Souza Martins 

A Era da Água Escassa chegou

No que diz respeito à água, o mundo enfrenta uma situação insustentável. No entanto, resolver o problema está a nosso alcance; e é o resultado mais fácil de se obter, porque permite lidar com as mudanças climáticas e gerar empregos e crescimento.

A crise da água é evidente. Ano após ano, em uma região após a outra, ondas de calor e secas recordes são seguidas por tempestades e inundações destrutivas. Os sistemas alimentares estão secando e as cidades estão afundando à medida que atingimos os limites de extração de água da terra. Mais de 1.000 crianças menores de cinco anos morrem a cada dia em decorrência de doenças causadas por água potável insegura e falta de saneamento. Centenas de milhões de mulheres passam horas todos os dias coletando e transportando água.

Esta é uma crise criada pelo ser humano, e pode e deve ser resolvida por meio de intervenções humanas. Mas para alcançar equidade e sustentabilidade em todos os lugares, precisaremos de novas formas de governo da água; de uma onda de investimentos muito maiores que os atuais; de inovação em escala e capacitação. Os custos dessas ações são insignificantes em comparação aos danos econômicos e humanitários que serão infligidos se a falta de ação continuar

O primeiro passo é reconhecer que os problemas que enfrentamos não são meramente tragédias locais. Todos os cantos do mundo estão sendo afetados, e cada vez mais, por m ciclo de água desestabilizado. As abordagens atuais tendem a lidar com a água que podemos ver – a “água azul” em nossos rios, lagos e aquíferos – e assumem que o suprimento de água é estável ano após ano. Mas isso não é mais verdade, pois as mudanças no uso da terra, as mudanças climáticas e um ciclo de água fora de controle estão afetando os padrões de chuva.

O pensamento convencional ignora, com frequência, um outro recurso crítico de água doce — a “água verde” que aparece em nossas florestas, plantas e solo; que transpira e é reciclada pela atmosfera. A água verde gera cerca de metade da precipitação que cai na terra, a própria fonte de toda a nossa água doce. E os países não estão conectados apenas por meio de fluxos de água azul (como rios), mas — o que é mais importante — por meio de fluxos atmosféricos de umidade. Como um componente essencial do ciclo global da água, a água verde precisa urgentemente ser melhor gerenciada.

O mais perigoso é que as interrupções no ciclo da água estão profundamente interligadas com o aquecimento global e o declínio da biodiversidade planetário, sendo que fenômeno reforça o outro. Um suprimento estável de água verde no solo é fundamental para sustentar os sistemas naturais terrestres que absorvem de 25% a 30% do dióxido de carbono emitido pela combustão de combustíveis fósseis.

Esse processo representa um dos aportes naturais mais significativos para a economia global. No entanto, a perda de áreas úmidas e da umidade do solo, juntamente com o desmatamento, está esgotando as maiores reservas de carbono do planeta, com consequências que podem tornar insuportável o ritmo do aquecimento global. O aumento das temperaturas desencadeia ondas de calor extremas e aumenta a demanda de evaporação na atmosfera, o que seca severamente as paisagens e aumenta o risco de incêndios florestais.

Portanto, a crise hídrica afeta praticamente todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e ameaça as pessoas em todos os lugares. A insuficiência de alimentos para uma população mundial crescente, a disseminação acelerada de doenças e o aumento da migração forçada e dos conflitos entre fronteiras são apenas alguns dos resultados previsíveis.


Um problema coletivo e sistêmico de tão grande escala só pode ser resolvido com uma ação conjunta em todos os países e por meio da colaboração entre fronteiras e culturas. É fundamental que haja um entendimento compartilhado do Comum. Caso contrário, o que pode parecer bom para um país hoje pode facilmente criar problemas para esse mesmo país amanhã, bem como para outros em todo o mundo.

A situação exige não apenas maior ambição, mas também uma abordagem da água voltada para a missão. Uma abordagem que abranja vários setores e se concentre em todos os níveis, desde o gerenciamento de bacias hidrográficas locais até ao estabelecimento de uma cooperação multilateral. Podemos e devemos ter sucesso nas missões hídricas mais importantes do mundo:


*Lançar uma nova Revolução Verde nos sistemas alimentares para reduzir o uso da água e, ao mesmo tempo, aumentar a produção agrícola para atender às necessidades nutricionais de uma população crescente.

*Conservar e restaurar os habitats naturais que são essenciais para proteger os recursos hídricos verdes.Estabelecer uma economia de água “circular” em todos os setores.

*E garantir que todas as comunidades vulneráveis tenham serviços adequados de água limpa e segura e saneamento até 2030.

Embora essas missões devam impulsionar mudanças nas políticas, alinhar os setores público e privado e estimular a inovação, elas também exigem novas formas de governar. A formulação de políticas deve se tornar mais colaborativa, responsável e inclusiva de todas as vozes, especialmente as dos jovens, das mulheres, das comunidades marginalizadas e dos povos indígenas que estão na linha de frente da conservação da água.

A mudança política mais fundamental está na valorização adequada da água para refletir sua escassez, bem como seu papel fundamental na sustentação dos ecossistemas naturais dos quais toda sociedade depende. Precisamos acabar com a subvalorização da água em toda a economia e com os subsídios agrícolas prejudiciais que impulsionam o uso insustentável e degradam a terra. O redirecionamento desses fundos para a promoção de soluções de economia de água e o fornecimento de suporte direcionado para os pobres e vulneráveis seriam de grande ajuda.

Para corrigir o subinvestimento crônico em água, precisamos redefinir a prioridade da infraestrutura hídrica nas finanças públicas, onde ela é estranhamente negligenciada na maioria dos países. Os formuladores de políticas podem se basear nas melhores práticas de parcerias público-privadas para oferecer incentivos justos para compromissos de longo prazo e, ao mesmo tempo, atender aos interesses do público, especialmente das comunidades carentes.

Dada a natureza coletiva do desafio da água, devemos garantir fluxos financeiros maiores e mais confiáveis para ajudar os países de renda baixa e média-baixa a investir na resiliência da água. Os bancos multilaterais de desenvolvimento, as instituições financeiras de desenvolvimento e os bancos públicos de desenvolvimento precisarão trabalhar em estreita colaboração com os governos para apoiar as missões nacionais de água que refletem as necessidades locais e as condições ecológicas. Os acordos comerciais internacionais também oferecem possíveis alavancas para promover o uso eficiente da água, pois podem ajudar a garantir que a “água virtual” incorporada aos produtos comercializados não agrave a escassez em regiões com estresse hídrico.

Assim como estamos fazendo em relação às emissões, devemos compilar dados de alta integridade sobre as pegadas hídricas corporativas e criar estruturas para a divulgação do uso da água. Também precisamos desenvolver sistemas para avaliar a água como parte do capital natural. A fixação de um preço para esse recurso fundamental poderia gerar dividendos significativos para os países ao longo do tempo.

Em resumo, precisamos moldar os mercados em nossas economias – da agricultura e mineração à energia e semicondutores – para que se tornem radicalmente mais eficientes, equitativos e sustentáveis no uso da água.

O relatório preliminar de 2023 da Comissão Global sobre a Economia da Água apresentou os argumentos para buscar uma mudança fundamental na forma como o mundo gerencia a água. Nosso relatório final em outubro deste ano mostrará como podemos fazer isso por meio de uma ação coletiva transformadora.

Estamos apenas em 2024. Se não enfrentarmos esses problemas, os incêndios florestais, as inundações e outros eventos extremos causados pela água e pelo clima se tornarão mais intensos e mortais nos próximos anos. Promover a agenda de segurança hídrica pode parecer mais difícil em meio às crescentes tensões geopolíticas, mas apresenta uma oportunidade de provar que a colaboração pode beneficiar todos os países e possibilitar um futuro justo e habitável para todos. Não podemos fugir desse desafio.

A cobra vai fumar

– A COBRA VAI FUMAR! Gritou o Mascarenhas de Morais no começo da Segunda Grande Guerra Mundial, fazendo gracinha com a participação ou não do Brasil na briga dos outros. Só sobrou para nós. Ninguém acreditava e todos diziam que era mais fácil “A COBRA FUMAR” que o Brasil entrar na guerra. O Brasil entrou e não foi nada bom para os nossos heróis. Muito diferente do que as telas mostraram, os brasileiros passavam entre duas montanhas de rochas duríssimas, e um riozinho de cinco metros, com centímetros de profundidade. Ninguém me disse. Eu fui lá, vi e chorei.

Pois é! Brincaram com o terrível vício das nossas rastejantes, até que elas se reuniram, em congresso patrocinado pelo Centrão, e resolveram fumar, todas juntas, o claudicante e incrédulo Brasil. As bichinhas estão fazendo uso dos seus trinta e nove gramas. Estão crazies! muito crazies!

O norte mandou as suas surucucus pico-de-jaca, o centro-oeste foi representado pelas jararacas, o sul pelas cobras corais e o nordeste pelas arrepiantes e barulhentas cascavéis.


As sinuosas começaram a puxar os seus enroladinhos lá na bela São Paulo e saíram se dividindo por Rio de Janeiro, Mato Grosso, Amazonas, Salvador e o Brasil foi tomado por uma imensa cortina de fumaça.

Agora, neste ano de 2024, senti falta da Greta TINTIN Thunberg, sueca, 21 aninhos, conhecedora da fauna amazônica, notadamente dos seus elefantes, rinocerontes, hipopótamos, avestruzes e girafas. O Leonardo Di Caprio também não bateu seu ponto porraqui. Por que será? O Brasil pegou fogo, virou carvão, ainda sobra fumaça e os dois bombeiros sumiram!

Ainda bem que o nosso Presidente Lula esticou suas viagens para o Brasil do PIBinho e espalhou suas esmolas tão esperadas e sempre bem-vindas. O Presidente, agora, irá atender aos governantes do sul e sudeste. Esses profissionais da esmola sabem dar pouco e pedir com muita vontade e fome.

“Presidente, eleições à parte, o senhor será sempre bem-vindo porraqui!”

Presidente, quando vier porraqui, conosco, traga a Presidenta Dilma, foi ela que estendeu os benefícios da Zona Franca por mais setenta e dois anos. Esses benefícios fazem um bem desgraçado para o Brasil. Uma das coisas ruins que a Zona Franca faz: é manter os pobres depositados aqui, por todos os ricos do mundo, evitando que eles invadam São Paulo e Brasília atrás de comidinha e aguinha.

Presidente, que ninguém nos ouça, porque a maioria não sabe ler e, quando sabe, não interpreta corretamente, mas São Paulo continua sendo o máximo, mesmo sem água para os que lá habitam. Já pensou um deslocamento de três milhões, de famintos e sedentos, na direção do sul e passando pelo centro-oeste? Será pior que a dinamitadora Coluna Prestes, onde o Chefe ia na frente, sonhando, e os “colunáveis” acompanhavam: assaltando, estuprando, matando, tocando fogo e destruindo tudo. Nós não merecemos isso na nossa terrinha. Venha mais vezes, estenda as suas bondades e traga a Presidenta Dilma.

Ao pessoal que tem PIBão, abra a sua mão, mas não esqueça que eles possuem as quatro estações do ano, e nós, aqui de cima, temos apenas duas: o verão do sol que racha as nossas ideias, e o inverno, que as afoga. Divida bem dividido o dinheiro desse Brasil e que todo o dinheiro dado, sem que nenhum trabalho seja criado, está vitaminando a nossa velha e cansada inflação e que não a merecemos nem a aguentamos mais.

A fumaça vai passar muito mais rápido que a grande seca que já fincou suas garras em todos os quadrantes e parece não querer nos largar tão cedo. Acredito ter chegado o momento de convocar o mundo científico para vir estudar e ajudar as nossas mais capacitadas cabeças, a entender, realmente, o que está acontecendo. Chegou a hora de fazermos barragens? Estaremos passando pelo que os americanos do Tennessee e outros estados americanos passaram? A conversa já está nesse nível: ou barragens ou desgraça. Vamos entrar na guerra contra a desertificação de grandes alagados.

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Pensamento do Dia

 


As eleições da alienação

O delegado Alexandre Ramagem, perguntado pela Veja sobre a preparação do Rio de Janeiro para o risco climático, disse que há “muito desentendimento mundial de narrativas sobre as mudanças climáticas”. Não há desentendimento, nem narrativas. Esse tempo passou. Há muitos anos, existe um consenso entre cientistas sobre a mudança climática, com o recuo dos poucos que ainda negavam. O que a resposta de Ramagem mostrou é como esse grupo político está despreparado para enfrentar a tarefa de governar as cidades brasileiras, país que tem mais de dois mil municípios considerados vulneráveis.

A realidade é de derreter o mais empedernido ceticismo em relação à ciência, mas os negacionistas ainda tentam construir respostas usando palavras como “desentendimento” e “narrativas”. O delegado Ramagem é apenas a face mais visível do fiasco de Jair Bolsonaro em seu reduto. O que é realmente importante é o drama que o país está vivendo.


Não há controvérsia de que a mudança do clima é um risco existencial para os seres humanos e que ele está diante de nós brasileiros no ano mais devastador que vivemos. Em maio, o Rio Grande do Sul naufragou numa inundação catastrófica, agora a seca devasta quase todo o país, a fumaça de incêndios criminosos invade os pulmões dos brasileiros contratando doenças presentes e futuras, a Amazônia enfrenta a segunda estiagem severa consecutiva. E nada disso está refletido nos debates eleitorais.

O Brasil realiza uma eleição em 5.569 municípios e esse assunto passa de raspão nos debates entre candidatos, nos programas, e nas discussões. Deveria ter a centralidade que tem o problema hoje no país. O Brasil está sufocando, mas o que atraiu até agora mais atenção foram as performances canhestras de um farsante, com suas mentiras patéticas e seus truques surrados.

O Congresso esta semana parecia habitar outro planeta. Ele agregou à sua agenda antiambiental um comportamento totalmente alienado. Mergulhou em si mesmo e lá ficou impermeável à realidade. Voltará ao tema do meio ambiente toda vez que houver oportunidade de atrapalhar e agravar a situação.

O governo enviará as propostas de um arcabouço para enfrentar a médio e longo prazo esse problema, com a criação da Autoridade Climática, o Comitê Científico, o plano de enfrentamento dos efeitos da mudança climática e o estatuto jurídico da emergência climática. Com leis e órgãos, o Executivo quer organizar a forma de atuar diante dos desastres que virão. Certamente o Congresso criará dificuldades, e uma já está desenhada, a de tentar levar para a Casa Civil a Autoridade Climática, caso a aprove. O problema é que foi exatamente na Casa Civil que essas propostas do Executivo ficaram estacionadas por tempo demais.

A mudança climática é um fenômeno global, ela atinge todos os países, mas acontece nos municípios. É em São Paulo que há uma semana não se respira, foram as cidades gaúchas que tiveram que buscar forças para emergir das enchentes, são as cidades da Amazônia que furam poços atrás de água. Por isso é tão impressionante que este não seja o tema central dessa campanha eleitoral. Candidato que ignora o risco ameaça a vida do cidadão.

Em debate na semana passada na Livraria Travessa, no Rio, o jornalista Claudio Ângelo e o engenheiro florestal Tasso Azevedo falaram da pesquisa que fizeram durante três anos para escrever o excelente “O silêncio da Motosserra: Quando o Brasil decidiu salvar a Amazônia”. O livro fala com profundidade da relação do Brasil com a maior floresta tropical do mundo, com seus erros e acertos, e foca nos anos em que foi possível reduzir em mais de 80% o desmatamento na Amazônia. Com essa experiência vitoriosa, de 2005 a 2012, como pano de fundo, os autores disseram que o desmatamento zero está ao nosso alcance, mas não é mais suficiente.

O que era a resposta desejável até há pouco tempo ficou insuficiente pelo aumento do patamar do desafio climático. O cientista Carlos Nobre, em entrevistas durante a semana, alertou que o mundo chegou à elevação de um grau e meio na temperatura, sete anos antes do previsto pela ciência. E ele, um dos maiores climatologistas do mundo, se diz perplexo com o ritmo da aceleração do aquecimento global.

As eleições municipais de 2024 estão sendo uma oportunidade perdida. Agora era a hora exata de os candidatos mostrarem aos eleitores suas propostas para enfrentar o risco que nos assombra.

Ricos de fuligem


São Pedro é mais importante para o agro do que juros
Felippe Serigati

O triunfo da boçalidade

A racionalidade é a matriz que identifica o ser humano. É a marca que lhe confere o dom da razão. Quando desprovido do farol que guia seus passos, o homem afunda no abismo da ignorância. Cai na vala dos insensatos.

Ao correr da história, tem sido longo o registro de figurantes públicos da pá virada, cujos nomes frequentaram a literatura política graças a gestos e feitos tresloucados.

Lembremos dos idos de ontem; Calígula, o imperador que nomeou cônsul seu cavalo Incitatus, transformando-o em um ente de seu Estado teocrático. Ou mesmo Nero, outro imperador amalucado que mandou assassinar a mãe, Agripina, e suas duas esposas, Cláudia Otávia e Pompeia Sabina —e acusado ainda de iniciar o grande incêndio de Roma, que devastou parte da cidade por nove dias.

Pulemos para os nossos dias. Não é nonsense constatar um candidato à Presidência dos Estados Unidos incentivar a invasão de um símbolo da democracia, o Capitólio, por ambição de chegar ao poder central com devastação de monumentos públicos e golpe nas instituições? Donald Trump é essa figura. A mesma indicação pode ser feita sobre o estrambótico personagem que estaria por trás da "Festa de Selma", a arrumação golpista para solapar a democracia brasileira? Jair Bolsonaro, segundo se sabe, seria o inspirador da devastação do 8 de janeiro em Brasília.


Na mesma categoria de situações absurdas, a mostrarem os disparates cometidos por um alentado rol de governantes sem escrúpulos, estariam Vladimir Putin, com sua decisão de invadir uma nação soberana, a Ucrânia, para surripiar dela territórios. Ou Nicolás Maduro, suspeito de esconder as listas das urnas, que teriam garantido a vitória de seu opositor, na Venezuela, Edmundo González, no pleito de 28 de julho último.

A larga galeria de protagonistas que ultrapassam as fronteiras do bom senso resulta de uma ferrenha disposição em chegar ao poder ou perpetuar seu mando por obra e graça de métodos radicais, identificados como eixos de sistemas ditatoriais que teimam em se alastrar pelos quadrantes do planeta.

O historiador britânico, John Emerich Edward Dalberg-Acton, mais conhecido por Lord Acton, já descrevia em sua obra que, em todos os tempos, o progresso da liberdade enfrentou inimigos naturais, pela ignorância e superstição, pela sede de conquista, pelo desejo de poder. E concluía com o famoso ditado: "o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente".

Nesse ponto, o poder absoluto chega à encruzilhada da corrupção, sob a égide da violência, para formar a quadra sombria já descrita pelo professor Samuel Huntington em seu livro "Choque de Civilizações", onde desenha a imagem do "puro caos": a quebra no mundo inteiro da lei e da ordem, as ondas de criminalidade, o declínio da confiança na política, a degradação dos valores morais.

A conclusão é que, nesses tempos de celebradas descobertas nos campos da biotecnologia, das ciências médicas e farmacêuticas, tempos em que o ciclo de vida dos humanos ganha acentuado alongamento, passamos a retroceder na área da política, em clara sinalização de resgate da barbárie. Um retrocesso civilizatório. As lutas fratricidas se sucedem (vejam a Faixa de Gaza e as já citadas Ucrânia e a Rússia), a fome ceifa a vida de milhões de pessoas nos devastados países da África, a miséria se expande nos vãos e desvãos das democracias, acentuando as desigualdades.

Fixemos nossos olhos na linha do horizonte. O que vemos? O planeta pedindo socorro. Primeiro, para evitar seu sufoco, ante a escalada das calamidades climáticas. Nosso habitat clama por uma economia de baixo carbono, baseada em fontes de energia que produziriam baixos níveis de emissões de gases do efeito estufa.

Nos últimos dias, a ONU divulgou um alerta mundial com uma ameaçadora previsão: o nível do mar deve subir de forma dramática nas próximas décadas, em consequência do aquecimento global. No sul do Oceano Pacífico, o nível do mar subiu 15 cm nos últimos 30 anos. Se o Pacífico continuar a subir, os países-ilhas podem até sumir do mar.

A ambição desmesurada de muitos governantes é a de fincar pé na economia do petróleo, que sustenta seus projetos de poder. A ignorância, a estupidez, a insensatez dão as cartas no painel civilizatório. Eis a ficha dos nossos tempos: o triunfo da boçalidade.

Quem somos (ou queremos ser)?

No Brasil, a ideia de modernismo, que só se consolidou em 1922, mudou nosso modo de pensar sobre nós mesmos. Não se tratava mais de procurar entre nós as melhores pistas de valores consagrados lá fora, mas de criar nossos próprios valores necessariamente distintos dos de “lá fora”.

Tratava-se de inventar uma nação que ainda não existia, a partir de costumes originais que sempre existiram, de uma linguagem inédita que nunca percebemos existir, de paisagens geográficas das quais mal nos orgulhávamos, de personagens e situações que só nós conhecíamos e, portanto, só nós sabíamos e podíamos torná-las uma narrativa com sentido.

O Brasil já começou a resolver a questão das incertezas de nosso futuro, garantindo a exibição dos filmes brasileiros, protegendo-os contra o massacre do mercado. Mas ainda falta muita coisa que já foi concluída em outros países com menos pressa econômica e cultural, e mais baixa qualidade de resultados.

Nossas melhores cabeças pensaram ou sonharam com esse projeto de Brasil para o século 21. Ele está no mito de nossa formação racial, a única indo-luso-africana em todo o planeta. Ele está no mito do país imenso e no milagre de ser um só desse tamanho todo, com uma só língua e costumes semelhantes. Ele está no mito da cordialidade com que nos acostumamos a nos autorreferir. Ele está no mito de nossa musicalidade, no samba e outras bossas. Ele está no humanismo de nossa melhor produção cultural. Ele está em nossa permanente esperança de sermos o futuro Ser Humano.

Do ponto de vista da democracia, só existe essa governabilidade, a outra será sempre uma espécie de chantagem exercida em nome de forças ocultas, sem identidade conhecida. Enquanto não encontrarem coisa melhor, é preciso se conformar com a beleza do voto garantindo o poder para o que a maioria deseja e o direito de manifestação livre da minoria, que daqui a quatro ou cinco anos terá outra oportunidade de se tornar maioria.

Tentamos encontrar em outros autores, tantos outros, uma resposta para aquele horror de nossa frustração, o fracasso objetivo do pensamento socialista vencido pela realidade, com o exemplo maior da União Soviética, berço de tudo. Não podíamos imaginar que não houvesse alternativa ao regime de exploração do homem pelo homem.

Os movimentos identitários partiam da defesa da diversidade, da defesa do outro. Hoje esses movimentos se transformaram em autopiedade socializados, cada uma dessas minorias desfaz daqueles outros líderes, pouco se importam com os outros, nem deixam que os outros se metam nos assuntos que não lhes “pertencem”. John Stuart Mill, iluminista inglês do século XIX, chamava a isso de “tirania da maioria”.

Em 1936, na Espanha, Millán-Astray, fundador da franquista Legião Espanhola, costumava interromper as manifestações de professores na Universidade de Madri com gritos que diziam: “Abaixo a inteligência, viva a morte!”. Quando tentou fazer isso com o grande poeta e filósofo dom Miguel de Unamuno, este lhe respondeu com curto discurso que terminava com uma declaração que se tornou universal e eterna: “Somos mais pais de nosso futuro do que filhos de nosso passado”.

Temos vivido um vendaval como essas de opiniões radicais e histéricas de todos os lados, que não têm nada a ver com o presente do país. Imagine só seu futuro!

Por mais que a gente tente mantê-la sob controle, a vida é feita sobretudo de acasos, eventos que não programamos e que podem chegar até nós por uma sucessão de acontecimentos pessoais ou por disposições políticas do lugar e do tempo em que estamos. Em política, isso acontece constantemente, e nem sempre podemos dar um jeito no acaso para que ele possa se acertar com nossos planos.
Cacá Diegues

Que falta nos faz um consenso nacional

Uma das questões mais angustiantes da política brasileira é a ausência de um projeto de desenvolvimento sustentável, em bases democráticas, que conte com amplo apoio político e respaldo social. Sem um consenso nacional, a agenda é pautada pela “transa” entre seus protagonistas, movidos por interesses da pequena política. Essa urgência é dada pela distância crescente entre nosso país e outras nações, não somente os Estados Unidos ou os países europeus, mas, também, os asiáticos, como China e Índia, que, hoje, ocupam a posição de segunda e quinta economias do mundo, enquanto ficamos para trás.

Em um artigo publicado na Carta Capital, a ministra do Planejamento, Simone Tebet, expôs de forma resumida uma agenda de integração do Brasil com os demais países da América do Sul que contempla obras de infraestrutura, transição energética, avanços da ciência e da tecnologia, além de medidas voltadas para as questões aduaneiras, policiais e o turismo. Hoje, lamentavelmente, o contrabando de mercadorias, o comércio ilegal de armas e o tráfico de drogas, além da imigração de refugiados — particularmente, de venezuelanos, que cresce —, têm mais visibilidade do que a agenda positiva.

Batizado de Consenso de Brasília, os países da América Latina têm predisposição de agir em conjunto, em que pese os problemas políticos no continente. E as mudanças geopolíticas transformaram a China na maior interessada em que essa integração ocorra. Por motivos óbvios: a Nova Rota da Seda é como um rio que busca o leito mais favorável. Mais uma razão para o Brasil acelerar a implementação das cinco rotas de integração com os países vizinhos, que são multimodais. Envolvem hidrovias, rodovias, infovias (fibra óptica), portos, linhas de transmissão elétrica, ferrovias e aeroportos.

O deslocamento do eixo do comércio mundial do Atlântico para o Pacífico impõe a modernização de nossa infraestrutura logística em onze estados de fronteira: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima e Santa Catarina. Segundo a ministra Simone Tebet, três dessas rotas passam pelo Centro-Oeste e o Norte do país (Rota 1/Ilha das Guianas; Rota 2/Amazônica; Rota 3/Quadrante Rondon); duas englobam a Região Sul: (Rota 4/Bioceânica de Capricórnio, que sai de São Paulo até Antofagasta, no Chile, passando pelo Paraguai) e a Rota 5/Porto Alegre-Coquimbo, também no Chile, que cruza a Argentina).


“Uma rota não briga com a outra. O sucesso da saída mais ao leste, como a pavimentação da BR-156, no Amapá, fronteira com a Guiana Francesa, não atrapalhará, por exemplo, o escoamento de produtos na perna mais ao leste, como Tabatinga, no Amazonas”, explica Tebet. O governo Lula conta com uma carteira de US$ 10 bilhões, contados os recursos do BID, CAF, Fonplata e BNDES, para investir no projeto. Os vizinhos somam 200 milhões de habitantes, o equivalente a um Brasil inteiro, e são potenciais consumidores e produtores de bens e serviços.

Projetos dessa envergadura não acontecem apenas por vontade dos governos, há que se ter convergência de forças econômicas, políticas e sociais. Uma consciência coletiva é necessária para virar a chave e inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento. Foi assim como o Plano de Metas de Juscelino Kubitscheck, na década de 1950, para um novo salto na industrialização do país, e com o Plano Real, nos governos Itamar Franco e, principalmente, Fernando Henrique Cardoso, que enfrentou a hiperinflação e estabilizou a moeda, rompendo a lógica da “inflação inercial” como forma de financiamento dos investimentos públicos. Em ambos os casos, havia os descrentes e quem fizesse oposição frontal ao projeto, mas criou-se um amplo consenso de que o país deveria estar engajado. Esse consenso é que evita, mitiga ou corrige os erros. É assim que funciona na democracia. A via de modernização autoritária, como correu no Estado Novo e no regime militar, dispensa amplos consensos, mas não nos interessa.

O que isso tem a ver com o momento político que estamos vivendo? Muito pouco. Não está nas prioridades do Congresso Nacional, haja vista o debate sobre as emendas parlamentares ao Orçamento da União, que abocanham R$ 44,67 bilhões, sendo que R$ 25,07 bilhões em emendas individuais, R$ 11,05 bilhões em emendas de comissões, e R$ 8,56 bilhões em emendas de bancadas estaduais. Esses recursos são pulverizados, voltados para interesses paroquiais e, alguns casos, desviados. Momentaneamente, foram suspensos, por falta de transparência, mas o que interessa aqui é o espírito da coisa.

O que está por trás de tudo isso não é a grande política, um projeto nacional. É apenas a pequena “política como negócio”, que faz parte da ordem capitalista democrática, mas, aqui, é feita de forma escamoteada e sufoca a “política do bem comum”, que deveria ser hegemônica, para usar os conceitos do filósofo e sociólogo alemão Max Weber, autor de A política como vocação e A ética protestante e o espírito do capitalismo (Companhia das Letras).

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Medir em vez de discutir

Sempre tive ar condicionado em casa, mas ultimamente tenho-me sentido ainda mais encalorado do que é costume, levando-me a duvidar do aparelho.

Mas afinal o aparelho estava bom e eu é que estava avariado. Decidi comprar termômetros aqui para casa, para ver até que ponto é que o meu termóstato interior estava desafinado.

Há muita gente que não sabe que a temperatura ideal para o conforto masculino (20 ou 21 graus) é diferente daquela que determina o conforto feminino, que é 24 ou 25 graus.


Destes graus de diferença — que são uma média planetária — nascem diariamente biliões de discussões, sempre em torno da questão de estar frio ou estar calor.

São estas as temperaturas que permitem ao ser humano não pensar na temperatura e poder pensar, sei lá, noutras coisas. Para mais, durante o ano inteiro, seja qual for o tempo que está lá fora.

Mal espalhei os termômetros pela casa, senti-me logo desmentido. Bem que tentei imaginar que estivessem todos feitos uns com os outros, para me enganar, convencendo-me de que não estava o calor que eu sentia.

Mas contra seis termômetros — com uma margem de erro máxima de 1 grau — é impossível marrar.

De um dia para outro, deixei de usar o ar condicionado. Deixei de ter calor. Foram os números dos termômetros que me acalmaram. Desafiaram-me a continuar a ser histérico. E eu desisti imediatamente.

O ser humano precisa de números. Precisa de medir. Ir contra os números é ir contra a natureza humana. Por muito que gostemos de discutir se está frio ou calor, ou se vamos depressa ou devagar, ou se ganhamos muito ou pouco, ou se somos altos ou baixos, gordos ou magros, novos ou velhos, há um limite para essas tagarelices: são os números.

Os números constituem o limite da tagarelice.

A matemática pode ser difícil para a grande maioria das pessoas, mas para uma minoria considerável (que se pode medir e avaliar) é um prazer essencial.

Os números não são mágicos: nós é que somos ilusionistas.

Os impactos da Teologia da Prosperidade

Quem zapeia os programas de TV das igrejas evangélicas logo percebe a frequência que é dada a quadros do tipo “xô pobreza!”, com seguidos depoimentos de gente que estava na pior e começou a prosperar, sempre com as graças do senhor.

São histórias que seguem mais ou menos este roteiro: “Estava largado da mulher, comecei a beber, não tinha onde cair morto, acabei dormindo debaixo da ponte, mas caí em mim, orei para o Senhor, recomecei e dei a volta por cima. Hoje tenho uma empresa com vários empregados, dois carros, estou ficando rico e vou ficar ainda mais...”.


Não é coisa de meia dúzia de casos. São milhares e milhares. As igrejas evangélicas vêm cultivando a versão brasileira para o que, em 1904, o sociólogo alemão Max Weber chamou a atenção em seu livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

É a ideia de que pobreza é atraso de vida, que tem de ser erradicado das pessoas e das famílias. O enriquecimento pessoal e o empreendedorismo são sinais da graça de Deus, concedidos a quem se esforça, cultiva os bens materiais e se torna patrão de si mesmo. Se vier uma ajuda do Estado e do político da hora, vá lá, não é para desprezar, mas não se pode contar com isso. O importante é trabalho, é suor e subir na vida.

A digitalização do cotidiano, por meio dos aplicativos, vem ajudando a espraiar a nova mentalidade que valoriza as qualidades individuais, a prestação de serviços, de preferência a vários clientes, e a criação da jornada independente de trabalho. Para esse novo estrato social, a ação sindical só atrapalha.

O PT tenta dialogar com essa clientela ligada aos evangélicos que escapa de sua área de influência. Mas insiste em explicações e na visão antiga de mundo que não os atingem, como a teoria da luta de classes e a da organização do proletariado contra a dominação da burguesia, para a construção da sociedade socialista.

As implicações políticas e econômicas dessa busca da prosperidade começam a ficar claras. As pequenas e médias empresas e o trabalho autônomo se multiplicam. Os sindicatos, que já vinham se esvaziando por outras razões, tendem a se enfraquecer ainda mais. Aumentam os apelos ao avanço social, em alguns casos sem olhar para que meios, como se vê pela ascensão do candidato Pablo Marçal, em São Paulo. Como a contribuição ao INSS é muitas vezes ignorada, as finanças da Previdência vazam sem controle, o que concorre para o aumento do rombo fiscal.

A Teologia da Prosperidade e esse novo empreendedorismo são coisas relativamente novas neste Brasil colonizado pelos jesuítas que pregavam o desprendimento dos bens materiais. Tudo isso é um vasto assunto à procura de mais estudos para avaliação de seu impacto sobre a economia e a política.
Celso Ming

Trabalhar é para otários

"A riqueza, para o brasileiro, não é o acúmulo penoso de dinheiro poupado graças a muitas horas de trabalho", disse Stefan Zweig. "É algo com que se sonha; tem que vir do céu e no Brasil, a loteria é esse céu. É a esperança quotidiana de milhões. A roda da fortuna gira todos os dias. Nos bares, nas ruas, a bordo e nos trens oferecem-se bilhetes de loteria. Todos os brasileiros os compram com o que sobra do seu salário. A determinada hora vê-se grande multidão diante do local da extração; em todas as residências e casas comerciais estão ligados os rádios; a expectativa do país inteiro se volta para um número. O que lhe falta de cobiça, o brasileiro compensa com esse sonhar cotidiano de um enriquecimento repentino."


Assim escreveu o vienense Zweig em "Brasil, País do Futuro", livro que publicou em 1941 e foi destroçado pela nossa imprensa. Zweig, judeu refugiado no país, foi acusado de tê-lo escrito por um visto de permanência. Era mentira, mas, como não podiam desafiar a censura e atacar a ditadura de Getulio, os críticos foram a ele. Um dos argumentos era sua descrição da mania brasileira pelos jogos de azar, incluindo os cassinos e o jogo do bicho. Disseram que não era verdade. Mas todos sabiam que era —e, como a história provou, sempre seria.

Nos anos 1970, tivemos o boom da Bolsa. Depois, a inacreditável obsessão pela loteria esportiva. Mais alguns anos, a febre dos bingos. E, há pouco, a da mega-sena. Mas esta tem agora um concorrente: as bets, em que se pode jogar pelo online e se tornaram o esporte nacional. Estão ao alcance até das crianças, inclusive como banqueiras —no Instagram, há influencers de 8 anos agitando notas de R$ 100 e prometendo dinheiro à vista no Jogo do Tigrinho. A palavra "bet" se incorporou à língua.

Nunca se jogou tanto no Brasil. As apostas parecem tomar 100% da publicidade em todas as mídias. É uma indústria que já movimenta R$ 100 bilhões no país, em ganhos para poucos e quebradeira para muitos. O governo tem outras preocupações. Firma-se a ideia de que é fácil ficar milionário e que trabalhar é para otários.

Zweig tinha razão.

Haja espaço para caber

O espaço é grande. Grande, mesmo. Não dá pra acreditar o quanto ele é desmesuradamente inconcebivelmente estonteantemente grande. Você pode achar que da sua casa até a farmácia é longe, mas isso não é nada em comparação com o espaço

Douglas Adams, "O Guia do Mochileiro das Galáxias"

Congresso ignora um país que arde

O Congresso adora se queixar de que os demais Poderes, quase sempre o Judiciário, atropelam suas atribuições e legislam em seu lugar. Mas onde está o Parlamento brasileiro no momento em que quase todo o território nacional está debaixo de fogo ou de fumaça carregada por esses incêndios, com graves consequências para o meio ambiente, a saúde pública e a economia? Está envolvido demais em suas próprias pautas, que em nada interessam ao conjunto da sociedade.

Não bastasse o segundo semestre ter sido decretado um grande ponto facultativo em razão das eleições municipais, nas poucas semanas em que se dignaram a bater ponto em Brasília, os congressistas decidiram reduzir a pauta a resolver o problema das emendas, a conchavos para a sucessão nas mesas da Câmara e do Senado e à agenda pessoal de Jair Bolsonaro. Nada mais descolado da realidade de um país que assiste a rios secarem e tem dificuldade para respirar.

A terça-feira não poderia ter sido mais sintomática desse descolamento da realidade por parte do Legislativo. Enquanto Lula se deslocava à Amazônia com uma caravana de ministros, e o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinava ações para o Executivo — em mais uma dessas bolas divididas que têm se tornado mais e mais frequentes —, os deputados passaram o dia envolvidos em fofoca e numa tentativa canhestra por parte da extrema direita de aprovar um projeto de anistia aos golpistas do 8 de Janeiro.

Claro que o foco não são os executores do vandalismo que tomou de assalto as sedes dos três Poderes no início de 2023, mas os mandantes, financiadores e idealizadores dos atos, cujo julgamento está para acontecer. Em resumo, Bolsonaro e aqueles que, ainda na Presidência, ele arregimentou para um plano continuado de desestabilização do processo eleitoral e da transição de poder.

Depois de tomar para si o 7 de Setembro, transformado numa espécie de evento fixo do calendário de culto à personalidade, Bolsonaro enxergou noutra discussão alheia aos interesses da maioria da população, a troca de guarda no comando das duas Casas do Congresso, a oportunidade de encaixar a anistia para si e para os seu

Resolveu passar a chantagear os candidatos à presidência da Câmara, atrelando os votos de seu partido, o PL, à promessa de um dos postulantes ao cargo de Arthur Lira de que votará o trem da alegria para os golpistas. Com isso, bagunçou o coreto de Lira e do governo, que vinham apostando em relativa tranquilidade para construir maioria em torno do nome de Hugo Motta, do Republicanos, um azarão que correu por fora na disputa pela valiosa cadeira.

Diante das cenas cada vez mais flamejantes de um país que arde, e das consequências graves para o fornecimento de energia elétrica e para as lavouras e pastagens, para ficar apenas em alguns setores que sofrem com os incêndios e a estiagem, os senhores parlamentares deverão começar a falar do assunto que até aqui desprezaram nos próximos dias, essa é uma certeza. Mas então já estará evidenciado o efeito nefasto da paulatina transformação do Congresso Nacional numa caixa de ressonância pura e simples da polarização ideológica, que tem capturado os debates e relegado ao segundo plano assuntos urgentes, sobretudo neste ano.

Enquanto a pauta negacionista e golpista galopa no Salão Verde, cabe, de novo, a um ministro do Supremo tomar decisões. As medidas determinadas por Dino, desta vez, incomodam também o governo, que tem de executá-las. Mas é o tal negócio: não existe vácuo de poder. E, diante de uma situação cada vez mais evidente de que a emergência climática virou tema permanente, alguns parecem ter acordado mais rapidamente que outros.
Vera Magalhães

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Pensamento do Dia

 


País não sabe agir diante dos incêndios

O Brasil está em chamas, sofrendo uma amarga mudança em sua relação com a natureza. Uma transformação jamais pensada porque o país era imaginado como “coração do mundo, pátria do Evangelho”, estava protegido dos desastres naturais.

Abrigados por Deus e pela Virgem, estávamos livres para fazer tudo com nossas matas, montanhas e rios. Até que surgiu a tal “mudança climática” — obra de comunistas e malvados capitalistas. Sua última encarnação é o bandoleiro golpista Elon Musk, que abriu o perturbador baú da informação com liberdade — mercadorias funestas porque obrigam a discutir limites, sobretudo para o enraizado elitismo que os rejeita.

Estávamos a salvo e “deitados eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo”. Dormitávamos numa terra açucarada, movida a escravidão africana e baronatos amulatados. Não precisávamos de segregação porque todos os inferiores conheciam seus lugares. Desse modo, a massa de imigrantes-escravos finalizou a modelagem de uma cruel hierarquia social que nosso elitismo de direita e esquerda jamais percebeu.



Hoje, entretanto, nos damos conta de que o governo não tem instrumentos ou capacidade para lidar com os problemas fora de uma esclerosada politicagem personalista, que reduz questões sociais a pessoas.

Nessa velha politicagem, basta um discurso veemente, um churrasco ou um encontro discreto, regado a troca de privilégios em alguma “Bras”, para selar “soluções” que significam adiamentos, porque “mexer nisso dá muito problema”.

O sistema político, a despeito de suas iniquidades, contradições e ineficácia, ganha em estabilidade, tornando-se um fosso de contradições. Ambiguidades que, no plano legal e ético, despertam e lamentavelmente justificam todas as desconfianças, engendrando os aventureiros que podem terminar no seu cume.

O que fazer — perguntam os “povos originais” ao lado de quem tem um mínimo de senso — com um sistema cujo projeto consiste precisamente em confundir progresso civilizatório com derrubada, poluição, contrabando, contravenção e desmatamento?

Tudo se passa como se fôssemos vítimas de nossos costumes. Como se fôssemos dominados por um viés antitransformação que nos obriga a viver a História sem viver as transformações que o devir histórico obriga a realizar. Negamos ou pouco valorizamos nossas conquistas e avanços se eles forem obras de adversários — o que mostra como, na política, o outro conta mais que o Brasil.

Quando um partido político que se pensa como inovador classifica como “herança maldita” um plano que restituiu a universalidade da moeda, como o Plano Real, temos a prova de quanto somos conservadores, senão reacionários. Aliás, seria a Rússia reacionária por ainda ser comunista? E você, meu amigo, não acha que o comunismo de Lênin ficou tão idoso quanto o capitalismo de Rockefeller e Henry Ford, hoje confrontado com o capitalismo digitalizado de Musk e Trump?

Como disse noutra crônica, é preciso não misturar o conceito de polaridade, que faz parte da cognição humana, com polarização, que leva ao assassinato do novo antes mesmo de conhecê-lo. E produz um reacionarismo incapaz de distinguir progresso, desde que esse progresso venha do outro: do bandido suspeito.

O tal solucionar não solucionando que tipifica o sistema em que somos “educados” para concordar com tudo e esperar — porque um dia “tudo será resolvido”— tem marcado nosso viés político. A tal ponto que hoje, além dos confrontos rotineiros entre posicionamentos ideológicos, temos de agir concreta e resolutamente para fazer face às devastações climáticas. Um tipo de problema que nossa cosmologia católico-jesuítica jamais poderia prever. Pois, nela, o mundo não seria feito por nossa ações, mas por artes divinas, e seria imutável. Foi essa relação entre nosso “Brasil brasileiro” e a natureza — esta terra que tudo produz — que mudou e hoje se agrava numa dinâmica que nosso sistema governamental, voltado para si próprio, é incapaz de enfrentar. O Brasil está, pois, em meio a fogos ideológicos e incêndios históricos. Haja Apocalipse...

Bolsonaro está desmoronando?

O bolsonarismo está destinado a perdurar como quadro da extrema direita brasileira, uma mistura de fascismo com conotações nazistas, que tenta se conectar com a nova direita que cresce no mundo, do bizarro ao perigoso, porque questiona os valores da democracia e assassina a essência da política com o seu extremismo.


O Brasil, com o capitão Jair Bolsonaro, que emergiu das trevas dos anos como deputado sem luz nem poder à Presidência da República de uma forma bizarra, uma mistura de messianismo religioso e anseios autoritários e até golpistas, criou uma revolução que ajudou a desenterrar uma direita que esperava por um líder depois dos governos lulistas de esquerda.

Se a pseudo-revolução de Bolsonaro serviu a algum propósito, foi para dar espaço a um direito que estava latente à espera de um líder e que contava com o apoio do grande capital e do desejo de liberalismo face a anos de políticas sociais que libertaram milhões de pessoas do inferno da fome. Hoje Bolsonaro, como ficou demonstrado na manifestação a seu favor e contra o poder do Supremo Tribunal Federal, realizada no mítico cenário da Avenida Paulista, a maior cidade da América Latina com 20 milhões de habitantes – a das grandes concentrações, que já recebeu meio milhão de pessoas no passado -, continua a ser uma referência para a bizarra extrema-direita. O legado da manifestação, vista à luz de alguns detalhes que por vezes apontam para o futuro, foi a crise de um mito em declínio.

Convocada no momento mais grave para Bolsonaro, que enfrenta mais de uma dezena de processos judiciais que podem levá-lo à prisão e que têm gerado dúvidas até entre seus seguidores mais próximos, a manifestação realizada no simbólico aniversário da República revelou alguns sinais de decadência do mito e uma espécie de carreira dos maiores líderes da direita. Para substituí-lo ou encurralá-lo.

Os números nas manifestações de protesto não são tudo, mas acabam tendo um valor simbólico que reflete a força do ídolo exaltado. Nas últimas cinco manifestações a favor de Bolsonaro, a do último sábado ganhou importância extra porque ocorreu às vésperas das eleições municipais que são vistas como o prelúdio das eleições presidenciais de 2026. Nelas, em jogo, a verdadeira força no poder local da extrema direita e o governo de centro-esquerda que luta pela reeleição de Lula.

É verdade que os números das manifestações são relativos, mas por vezes também significativos. A manifestação de sábado foi fundamental porque serviu de termómetro da força ainda viva de um bolonarismo que está em crise, mas não desapareceu.

No dia 25 de fevereiro deste ano, a manifestação a favor de Bolsonaro, acusado de ter tentado um golpe de estado militar, reuniu 185 mil pessoas em São Paulo. Foi uma multidão que impressionou a esquerda. Em 2022, também no dia 7 de setembro, festa da República, 64 mil pessoas participaram de uma manifestação na mítica praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. E agora, o que foi apresentado como contestação ao Supremo acusado de perseguição ao bolsonarismo? Segundo dados oficiais, compareceram apenas 45.700 pessoas, todas, como sempre, envoltas nas cores verde-amarela da bandeira nacional que os ultras de direita assumiram.

Mas talvez o que melhor revele um certo colapso do mito neste momento tenha sido uma série de detalhes que podem parecer insignificantes, mas que concentram um forte significado simbólico. E como dizem, o diabo está nos detalhes. No sábado, Bolsonaro teve que subir à tribuna da Avenida Paulista como vencedor, o “imortal”, como se define na medalha que oferece aos amigos e às autoridades internacionais. E esperava que eles estivessem ao seu lado, não apenas apoiando-o em sua contestação ao Supremo Tribunal Federal, mas também apoiando-o, aqueles que aspiram a sucedê-lo, entre eles um punhado de governadores que se formam para entrar na área como seus sucessores. Não foi assim. Muitos deles preferiram ficar em casa e observar os touros do lado de fora.

E talvez o mais simbólico do evento e o que mais exasperou Bolsonaro foi o fato de Bolsonaro estar prestes a não poder comparecer ao evento. Ele mesmo, o político que costuma exibir seu machismo, sua força, seu desprezo pelo feminino, seu amor por se exibir em grandes motos ou cavalos de corrida como os antigos imperadores, o imbatível que Deus, segundo ele, tirou a salvo da faca recebeu na barriga no meio da campanha que o levou à vitória e que de alguma forma o santificou.

Na verdade, ele acordou na manhã da manifestação sem voz, doente. Ele foi levado às pressas para o hospital enquanto seus seguidores o esperavam como um deus imortal. No final, conseguiu conquistar a torcida, embora ainda quase sem voz e com menos presença do que o previsível. Bolsonaro não escondia sua irritação. Será que não só os milhares de seguidores começaram a abandoná-lo, mas também os possíveis substitutos de uma direita que já existia e espera que alguém levanta a sua bandeira?

Essa direita, nem sempre extremista, liberal, anti-social, lutava há algum tempo para chegar ao poder. Embora a tinta do bolsonarismo esteja sempre em suas mãos, não será mais a do capitão que começa a vislumbrar o fim de seus sonhos de dar um golpe de estado e acabar com uma ditadura que, segundo ele, a brasileira , era muito mole e não sabia como liquidar com todos os “comunistas”.

Mas a manifestação a favor de Bolsonaro e da sua direita esdrúxula e perigosa ainda não acabou. Sua intensidade será medida no próximo dia 4 de outubro, data do comparecimento dos brasileiros às urnas. Do resultado, dependerá também a sorte da possível e desejada reeleição de Lula.

Desfazimentos e omissão

Com autoridade de ministra do Meio Ambiente e símbolo mundial na defesa da natureza e do desenvolvimento sustentável, Marina Silva disse que até o final deste século o Pantanal poderá deixar de existir. A responsabilidade por esse desfazimento não é apenas do Brasil: a crise ambiental é resultado de dois séculos, sobretudo sete décadas, de progresso mundial baseado na produção e consumo desenfreados.

Mas a responsabilidade do Brasil é especial, por termos uma das maiores economias, sermos o maior destruidor de florestas e não usarmos com seriedade nossa força política para defesa e exemplo de desenvolvimento sustentável. Apesar da ECO-92, Rio 20, da COP30, do Proálcool nos anos 1970 e do recente esforço na área de energia solar e eólica, o desfazimento que a ministra denuncia para o Pantanal pode ser percebido também para as demais florestas, inclusive a Amazônica, para os rios e as cidades. No mesmo ano em que organizamos a realização da COP30, comemoramos o aumento na produção de petróleo e estamos caminhando para autorizar sua exploração no mar a pouca distância da foz do Rio Amazonas e da cidade onde essa reunião ocorrerá. A destruição de nosso patrimônio natural é apenas uma mostra dos significativos desfazimentos que ocorrem no Brasil.


A violência urbana mostra o desfazimento do tecido social corrompido pela insegurança que caracteriza a sociedade brasileira, cercada e assustada, ameaçada por balas perdidas, assaltos e altíssimos índices de assassinatos; suas crianças impedidas de irem à escola enquanto bandidos e policiais não adotam trégua entre eles. A desconfiança e o medo são provas do desfazimento da convivialidade em cidades partidas por apartação social, com parcela presa em condomínios e parte jogada em calçadas.

A prática política é demonstração e causa de desfazimento pela corrupção generalizada, gigantescos saques e assaltos dos recursos do povo, apropriados ou roubados sob o título de emendas parlamentares enormes e sem destinação de interesse público, e pela perda de credibilidade e legitimidade na democracia usada para atender aos interesses dos políticos e dos partidos enredados no individualismo, imediatismo, eleitoralismo, sem causas e sem propósitos. O Brasil também se desfaz pela instabilidade das regras e da prática do sistema jurídico, movido muitas vezes por razões políticas, não por justiça. A união da corrupção política com a instabilidade jurídica leva ao desfazimento da democracia.

A impunidade, como o crime é tratado, especialmente, o roubo chamado de corrupção, contribui para desfazer o Brasil. Sobretudo quando se percebe a força das milícias e do crime organizado, em cidades e regiões como a Amazônia. O crescimento da dependência das drogas e a ocupação de cidades por cracolândias demonstram um desfazimento do Brasil. No lugar de reduzir a impunidade, a prisão de quase um milhão de criminosos em condições desumanas, a maioria negros, pobres e analfabetos, aumenta o sentimento de desfazimento. Igualmente indicadores são os milhões de jovens que resistem e não caem na tentação da droga, para o consumo ou o tráfico, mas sobrevivem sem escola e sem emprego, sem sonhos e sem perspectivas. Muitos deles sonhando apenas em emigrar para fugir pessoalmente do desfazimento.

O maior exemplo do desfazimento nacional está na permanência da pobreza e da desigualdade social, que assumem o atual quadro de apartação, com a população tão dividida e segregada em condomínios ou favelas que a ideia de nação parece extemporânea. De tão antigo, esse desfazimento social decorre sobretudo da omissão ao longo de décadas ignorando a necessidade de um sistema nacional robusto de educação de base para todos, independentemente da renda ou do endereço da família. Incinerando patrimônio maior do que o Pantanal: o potencial dos cérebros das crianças deixadas sem a educação de base, despreparadas para a busca da felicidade pessoal e para a construção do progresso econômico, com justiça social e equilíbrio ecológico.

A ministra símbolo mundial da ecologia nos alertou para o caso do Pantanal, mas não deve ficar omissa diante dos muitos outros incêndios que desfazem o Brasil em outros setores, especialmente o maior deles: o desprezo pela educação de base. O Brasil precisa enfrentar e punir os que fazem incêndios de florestas, mas também os que ficam omissos diante do descuido com a educação de qualidade para nossas crianças.

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Riqueza fascina nas redes e na política

Há duas semanas, eu disse na TV que Pablo Marçal usava uma aura de sucesso profissional e prosperidade para seduzir a juventude da periferia. As patrulhas caíram em cima, por acharem que não o criticava com vigor. Ignoram meus artigos e não percebem que eu apenas buscava uma vereda de análise para entender um fenômeno político.

Com a prisão no Recife da advogada Deolane Bezerra, posso voltar ao tema, com um pouco de calma. Ela tem 20 milhões de seguidores. O exame de suas postagens nas redes sociais mostra Deolane testando carros de luxo, navegando com a família, saindo carregada de compras de uma loja da Louis Vuitton. Tudo com a ajuda de Deus.


As pessoas parecem se identificar com os que amealham grandes fortunas, sem se questionar muito sobre os métodos usados. Quem conhece melhor que eu comunidades pobres costuma dizer que os meninos que trabalham para o tráfico de drogas parecem mais atraentes para as garotas porque ostentam um nível de consumo maior.

Uma das minhas hipóteses é que essa vertente que se revela na política é inspirada pelo sucesso pentecostal da Teologia da Prosperidade. Muitas denominações religiosas apresentam a prosperidade como uma espécie de amor divino e argumentam com esta passagem da Bíblia, em João 10:10:

— Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.

Naturalmente, o favor divino é atrelado à generosidade com que se paga o dízimo. Quanto maiores as doações à igreja, maior será o retorno financeiro como resposta divina.

A Teologia da Prosperidade é alvo de controvérsia entre religiosos que centram sua vida espiritual no amor ao próximo, independente de riqueza pessoal. Mas o conflito maior se dá na projeção política. Se a esquerda não fosse tão entorpecida, poderia compreender a Teologia da Prosperidade como algo que desafia as propostas de políticas públicas em busca de segurança coletiva. Educação de qualidade, serviços de saúde eficazes e saneamento só se tornam um antídoto contra essa ilusão de enriquecimento pessoal nos lugares onde funcionam. Mesmo assim, como pude testemunhar nos longos anos vividos na Escandinávia, muita gente reclama do Estado de Bem-Estar porque, segundo dizem, os impostos altos reduzem seu crescimento individual.

No caso brasileiro, a julgar pelas manifestações de 2013, não se confia mais em partido político. Mesmo aqueles que adotam o discurso do bem-estar coletivo são vistos como usando um disfarce para esconder aquilo que realmente interessa: o enriquecimento pessoal. As denúncias de corrupção em governos servem para confirmar a suspeita de que a realidade é a busca pessoal de enriquecimento, e a segurança coletiva apenas uma cantiga para ninar os ingênuos.

Com esse contrabando das práticas religiosas para a política, não teremos adiante apenas um grande número de candidatos ostentando luxo e prometendo-o a seus potenciais eleitores. Muito possivelmente, tentarão fazer milagres, estimulando paralítico a andar, prometendo curas para todas as doenças. Quando o espaço político entra em decadência, começa não só o paraíso da aventura, mas torna-se mais fraca a própria mensagem religiosa de amor ao próximo e solidariedade.

O caminho não é fazer o elogio da pobreza, muito menos defender a segurança coletiva desprezando a singularidade individual. As políticas públicas precisam funcionar, e a prosperidade obedecer a alguns princípios éticos, não pode florescer à margem da lei.

Neste momento, as perspectivas são desoladoras. O país arde, e a elite política trata incêndios como algo que acontece no Afeganistão. É cedo para afirmar, mas pode ser que a campanha americana produza alguma indicação de como combater a antipolítica sem cair no terreno pantanoso da pura troca de acusações.
Fernando Gabeira

Pensamento do Dia

 


A leveza do ser já era

Como o silêncio não entra na prioridade das políticas públicas, os ônibus continuam fazendo seu barulho metálico nas ruas. Aliás, quais seriam essas prioridades? Ninguém discute. O que vemos por aí são candidatos vestidos da antipolítica agarrados a um humor de baixo nível, o que parece fundamental para angariar votos. Saudades do macaco Tião, voto de protesto, sim, mas incapaz de entregar a coroa aos patifes que a querem só para si.


Atualmente, novos patifes. Ou canalhas. Gosto tanto desta palavra. Salve Nelson Rodrigues, um de seus cultuadores. Volto ao raciocínio. Os novos canalhas não querem apenas roubar o erário, mas, em nome – e só em nome – de não roubar, anseiam destruir o que é público. E por razão nenhuma. Quer dizer, alguns candidatos não têm a menor ideia do que querem. São eficientes em manipular o mundo virtual, embora ideologicamente não passem de títeres em mãos para lá de gananciosas e poderosas. E só. O presidente anterior foi o que foi, um desastre. Mas isso não parece depor contra ele e seus seguidores amestrados. A cidade de São Paulo corre o risco de ser entregue a um sujeito que, na pele de um coach, meteu seus seguidores numa fria, perdidos na floresta. Não fosse o corpo de bombeiro. Mas ele, se chegar à prefeitura, acabará com o corpo de bombeiro. Quer dizer, acabaria, caso fosse de sua alçada. É a turma do incêndio. Dos que aumentarão o subsídio aos que investirem no barulho metálico dos ônibus e promoverão o fim das campanhas de vacinação. Dos que permitirão a volta dos cigarros em ambientes públicos fechados. Tudo em nome de Deus, contra o qual, desconfio, lutam, pois, não sendo nem ateus nem agnósticos, estão na trincheira do diabo.

Disse a uma amiga que sou um cara leve. É verdade, as coisas estão ruindo – pessoal ou socialmente – e estou fazendo graça, fiel à ironia. Aprendi a ser assim. Meu pai e o mundo em torno dele eram assim. Paciência. Mas ultimamente transpus a fronteira. Piso agora o solo do pessimismo (não ainda o do mau humor). Os ônibus continuarão a fazer seu barulho metálico, às nove da manhã, às três da tarde, às dez da noite e, quando passam, em plena madrugada. Que se dane o sono dos justos e dos injustos. O meu, antes tão profundo, hoje com o pé na insônia, não é interrompido pelos ônibus, pelos tiros nas comunidades mais ou menos perto – nas quais, devo confessar, os conflitos não têm sido tão comuns –, pela saída noturna do filho, pela cirurgia que a prima fez, pelos perrengues dos amigos e os meus. O meu sono picotado responde ao fato de minha leveza ter ido para o vinagre, e com ela lá vai indo minha saúde (não se assustem, por enquanto é uma metáfora).

Pensar dói?

Pesquisadores da Universidade Raboud, na Holanda, analisando cerca de 5.000 participantes de 358 tarefas cognitivas, chegaram à conclusão de que pensar dói. Não ria. A análise foi feita com o auxílio de um programa especial da Nasa, o que lhe dá mais autoridade do que a de pesquisadores limitados a só usar o cérebro. Pelo que entendi, certas atividades cerebrais, como fazer cálculos matemáticos, ler Gertrude Stein ou tomar decisões que envolvam um sim ou não de vida ou morte, provocam sensações orgânicas que podem ser classificadas como dolorosas. 

Segundo o estudo, quanto maior o esforço mental, maior o desconforto físico. Não é preciso pensar muito para se chegar a este óbvio, por definição, ululante. O estudo não considera a hipótese de todo esforço mental ser relativo —para muitos, calcular uma reles raiz quadrada será uma tarefa intransponível, enquanto, para outros, discutir a Conjectura de Poincaré com Alfred North Whitehead pode ser tão simples como falar de futebol no botequim. O estudo, pelo menos, admitiu certa possibilidade de diferença entre as pessoas, citando estudantes universitários e militares —imagino que cada um numa ponta do espectro cognitivo.

O que me espanta é que a conclusão de que pensar dói tenha vindo de uma instituição da Holanda, país admirado por produzir pensadores em tantos ramos. Eram holandeses Erasmo de Roterdão (1466-1536) e Spinoza (1632-1677), dois pilares da filosofia, atividade cuja única ferramenta é o pensamento. E não há registro de que Erasmo e Spinoza sofressem de lumbago ou dor de dentes por pensar.

Holandeses foram enormes pintores como Van Gogh, Rembrandt, Hieronymus Bosch, Vermeer e De Kooning, e pintar envolve decidir em um segundo se se dá esta ou aquela pincelada. E alguns dos jogadores mais cerebrais da história do futebol eram holandeses —Cruyff, Van Basten, Gullitt, Neeskens, Bergkamp—, a provar que nem sempre o cérebro precisa estar na cabeça.

Os holandeses inventaram também a fita cassete, o CD e o DVD, e temos de lhes ser gratos por isso. Mas depois os desinventaram — e pensar nisso, sim, dói.