Um dos textos mais importantes deste ano foi publicado na revista piauí de 1º de outubro último: "O que esses brasileiros sabem", do jornalista e cineasta João Moreira Salles. Tratava da tendência de parte da elite brasileira a "desviar o olhar" dos riscos à democracia pela então possível, até provável, vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial, em troca de seus interesses empresariais e financeiros. Moreira Salles, ex-acionista do Banco Itaú, faz parte dessa elite — mas não dessa parte da elite.
Em seu artigo, ele observou a compreensível preocupação da Faria Lima com a situação fiscal do país, os gastos públicos e a dívida interna, mas que isso não justificava a aproximação dos farialimers com um candidato que, assim como o pai, o ex-presidente e presidiário Jair Bolsonaro, defendeu a prática da tortura na ditadura militar. Segundo Moreira Salles, a elite sabe bem do apreço do clã Bolsonaro por rupturas democráticas, mas isso não lhes faria maior diferença desde que a economia os favorecesse.
Numa atitude quase inédita por aqui, Moreira Salles deu os nomes de 28 empresários e executivos a quem atribuiu o flerte com o bolsonarismo — um deles, CEO do próprio banco controlado por sua família. Dias depois, às vésperas do segundo turno, seu artigo gerou uma contundente resposta de outro empresário (não citado na lista), o qual argumentou que "aproximar-se de um candidato e conhecer suas ideias não significa apoiá-lo". Mas, na última linha, o autor da resposta deixou escapar que aprovava as ditas ideias, ao sugerir, "em nome da alternância no poder, a troca de Lula por Flávio".
Apesar deles, a troca não se deu, e os farialimers terão de sobreviver a mais um governo Lula, talvez com um ou outro bilhão de reais a menos em seus bolsos. O que me intriga é saber o que estão achando dos destemperos, despautérios e desatinos com que Flávio Bolsonaro reagiu à derrota, comportando-se como o charlatão invertebrado que sempre foi.
E se Flávio continua a lhes parecer à altura de presidi-los.

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