segunda-feira, 25 de maio de 2015

Maricá entre as seis piores

O Ministério Público Federal analisou os portais de transparência dos 92 municípios do Rio de Janeiro. Nenhum deles conseguiu nota 10 e apenas Niterói e Queimados, os melhores colocados na lista, ficaram com 7,6.

Maricá, governada pelo presidente regional do PT, Washinton Quaquá, ficou entre os seis piores municípios em transparência. Ocupa o 88° lugar com 0,2 ponto, junto com Itaboraí e Engenheiro Paulo de Frontin.

(Fonte: Ministério Público Federal) Veja a lista

Google se torna a empresa que mais gasta para influir em Washington

Empresas de tecnologia investem cada vez mais em grupos de pressão no Capitólio

Faz um ano e meio que Jeff Bezos anunciou a compra do The Washington Post por 250 milhões de dólares (750 milhões de reais). A ação foi interpretada como se o dono da Amazon estivesse apostando na imprensa tradicional. Mas o criador do portal de comércio eletrônico se valia também de uma das armas mais poderosas na capital política dos EUA. Era a demonstração do trabalho crescente de lobby que as empresas de tecnologia fazem, a ponto de o Google ter se tornado a corporação que mais dinheiro investe em Washington. Facebook, Amazon e Apple também aumentam os gastos para defender seus interesses no Capitólio.

Se um político aspira a conquistar uma vaga no Capitólio, precisa de muito dinheiro. Um congressista deve arrecadar no mínimo cerca de dois milhões de dólares (seis milhões de reais) para se eleger. O número se multiplica por cinco no caso dos senadores. A maior fonte dessas contribuições às campanhas tem sua origem em grupos de interesse que querem algo em troca do Governo. Uma vez no posto, o legislador devolve o favor tornando-se um facilitador, enquanto os lobbies, em paralelo, tentam angariar votos nos gabinetes.

As empresas de tecnologia eram as grandes ausentes desse jogo de interesses e poder declarado na política norte-americana. Até agora.O Google destinou 16,8 milhões de dólares (mais de 50 milhões de reais) em 2014 em seus esforços para tentar influenciar as autoridades reguladoras e os parlamentares nos EUA. Um número recorde que será facilmente superado este ano, se se levar em conta que no primeiro trimestre a empresa já gastou mais de cinco milhões (cerca de 15 milhões de reais) para essa finalidade. É o valor mais alto pago por uma corporação, segundo dados do Clerk of the House, o órgão do legislativo que registra o fluxo do dinheiro

.Leia mais a reportagem

Realidade e pessimismo


Não há como negar os efeitos da terrível crise que se abate sobre todas as nossas cabeças, forçando empresas a demitir e determinando economias domésticas até então impensáveis. O estresse está no rosto de cada cidadão. A dona de casa de classe média se chateia em ter que trocar a marca de seu sabão em pó, enquanto aquela que está na base da pirâmide já não encontra alternativas para manter o leite e o pãozinho francês. A carne, como na década de 80, transformou-se em consumo de luxo. Filé? Nem pensar. Melhor partir para o frango ou para o ovo.

O estudante que perdeu o Fies perde agora suas noites de sono, não como deveria, ou seja, com as horas de estudo ou com as provas do dia seguinte, mas com as preocupações de saber como vai dar conta de arcar com a mensalidade.

O empregado tem taquicardia ao sair de manhã e imaginar que pode ser o próximo da lista. Está difícil encontrar alguém que já não tenha sido assolado pela assombração do desemprego ou que não conheça pelo menos uma vítima dessa conjuntura.

Já o trabalhador desempregado começa a sentir os dramas da recessão, confirmada com as sucessivas quedas do PIB. Ainda está sob os efeitos do seguro-desemprego, porém, daqui a três ou quatro meses, não existirá nem isso.

Pior é não conseguir enxergar perspectivas. Para quem não entende nada de economia e política, de estabilidade e do tal compromisso com superávit primário, a confusão é ainda maior. Como entender que o governo vai cortar R$ 70 bilhões?

É inevitável lembrar-se daquele prato vazio que João Santana usou para arrasar com a imagem de Marina Silva quando a ex-senadora liderava as pesquisas.

Daqui a duas ou três semanas o preço da refeição nos restaurantes populares de Belo Horizonte e cidades vizinhas passará para R$ 3. O assalariado ou o informal que já não têm fôlego para pagar a conta de luz sobretaxada, a água mais cara e sua própria passagem de ônibus terão um impacto de mais de 50% em sua alimentação. Somado a isso, tem ainda a crise hídrica, a dengue, a superlotação das cadeias, as greves e a criminalidade que não se desacelera.

Como se todo esse choque de realidade não fosse o bastante, há ainda o pessimismo plantado e a difusão da má informação. Na última quinta-feira, a notícia de que uma fábrica de caminhões em Sete Lagoas teria suas portas fechadas, o que foi desmentido pela empresa horas depois do vazamento da “notícia”, criou um estado de pânico entre trabalhadores, fornecedores e empresários. Irresponsabilidade pura, que, apesar de negada, deixa sequelas, sobretudo emocionais. É muito para o já combalido coração brasileiro. Até quando vamos suportar, sem termos um piripaque ou um surto psicótico?

Sai o Trem-Bala, entra o trem chinês


A máquina de propaganda do governo e a doutora Dilma têm um especial carinho por trens. Em 2004 Nosso Guia perfilhou um projeto de ligação ferroviária entre o Rio e São Paulo. Era o trem-bala. Faria percurso de 500 quilômetros em 90 minutos, cobraria o equivalente a R$ 120 e nada custaria à Viúva. Ficaria pronto para a Copa de 2014. Atrasando, era certo que rodasse em 2016 para a Olimpíada. Deu em nada.

Ou melhor, deu em parolagem e pariu uma empresa estatal, a EPL. Quando o projeto naufragou, surgiu a palavra mágica ouvida por Machado de Assis em 1883: “lingu”. Ele não esclareceu o que isso queria dizer, mas talvez significasse “investimento”: os chineses bancariam o projeto do trem-bala. Pouco depois um mandarim explicou: “Pedir que uma empresa chinesa assuma um risco tipicamente governamental é uma grande piada”.

Antes do desembarque do primeiro-ministro chinês Li Keqiang, saiu da caixa de mágicas do Planalto o projeto de uma ferrovia transoceânica ligando o Atlântico brasileiro ao Pacífico peruano. Teria 4.400 quilômetros. Nas palavras da doutora Dilma “ela atravessará os Andes”. Custaria entre US$ 5 bilhões e US$ 10 bilhões.

As dúvidas foram desfeitas quando o companheiro Li assinou 53 acordos com a doutora. Na mesa havia apenas o interesse mútuo de começar os estudos básicos da viabilidade do projeto. A ferrovia que iria do litoral brasileiro ao peruano era um exagero.

O memorando assinado cuidava apenas da conexão da linha Norte-Sul, que iria de Campinorte, em Goiás, à costa peruana. A linha para o litoral atlântico é uma tarefa brasileira. Se tudo der certo, esse estudo deve ficar pronto em maio de 2016. O que era um estudo básico para analisar a viabilidade do projeto virou uma ferrovia que “atravessará os Andes”.

Cuidando dos seus interesses, os chineses assinaram diversos compromissos, compraram aviões, alugaram navios e arremataram um banco. Todos esses negócios são bons para eles e para o Brasil. Não havia por que botar o “lingu” de Machado de Assis numa ferrovia transoceânica.

A agenda chinesa é sempre precisa. Em geral eles querem recursos naturais e proteínas. Além disso, vendem serviços, bens e máquinas. Jogo jogado. A isso junta-se um interesse do Império do Meio de fornecer sua mão de obra para os projetos onde põe dinheiro. São mais qualificados, conhecem a empresa e às vezes custam menos.

Há cinco anos eram 740 mil, de Angola ao Uzbequistão. Obras chinesas no Brasil já tentaram importar operários mas foram barradas. Esse pode vir a ser um bom debate, pois o que é preferível, um pasto goiano com 50 vaqueiros ou a obra de uma ferrovia com 500 chineses e 500 brasileiros?

Esse item da agenda chinesa chamou a atenção de Machado de Assis. Em 1883, quando o andar de cima queria imigrantes para substituir a mão de obra escrava, chegou ao Rio o mandarim Tong King-sing. Veio acompanhado de um secretário negro, fez o maior sucesso com suas roupas e foi recebido por D. Pedro II. O imperador disse-lhe que não tinha simpatia por seu projeto e, no melhor estilo chinês, ele foi-se embora.

À época, comentando a visita do mandarim, Machado de Assis escreveu uma cronica, transcrevendo uma carta que teria recebido dele. Esclareceu que preferiu manter a grafia do autor.

A certa altura, como se fosse hoje, Machado/Tong escreveu:

“Xulica Brasil pará; aba lingu retórica, palração, tempo perdido, pari mamma.”

O ajuste fiscal é o reflexo de um sistema ineficiente

Charge O Tempo 23/05

Enquanto o ministro da fazenda Joaquim Levy afirma a investidores em Londres que acredita que a desaceleração econômica no Brasil será temporária, e que o pacote fiscal vai proteger a economia contra os efeitos da inflação, aqui em terras brasileiras o assunto evidentemente é bem mais complexo. O fato de que o Produto Interno Bruto (PIB) pode alcançar a marca de 1,2%, pior resultado dos últimos 25 anos e a primeira retração desde 2009, assusta não só especialistas da área econômica, mas mostra que ainda existe um caminho nebuloso a ser percorrido.

Sustenta-se um sistema ineficiente por falta de disposição dos governos para a mudança

Os contribuintes já começaram a sentir o efeito da crise que é visível com o aumento da carga tributária. O ano nem completou o primeiro semestre e os brasileiros já estão arcando com aumento no valor da energia elétrica e de impostos como o IPVA e o IPTU. Reajustes que atingem tanto a classe trabalhadora quanto a empresarial.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), com o ajuste fiscal proposto pelo governo federal, a carga tributária deve subir 0, 8 ponto porcentual do PIB. Isso significa que os brasileiros devem pagar R$ 47,5 bilhões a mais em impostos e contribuições. Colocando tudo na ponta do lápis, a alta de tributos neste ano seria o dobro do registrado em 2014, fechando o ano em 36,22% do PIB. O instituto calcula ainda que, até o final do mandato do governo atual, serão pagos R$ 100 bilhões a mais em impostos.

A conta não seria tão absurda se o Brasil não tivesse uma arrecadação tributária extremamente alta quando comparada a outros países de economia similar. E boa parte desse problema está enraizado no nosso sistema tributário que é totalmente complexo. Conforme avaliação do Banco Mundial, o custo de compliance no Brasil é o mais alto do mundo. Isso significa que gasta-se muito para ditar as regras e manter seu funcionamento.

Em resumo, sustenta-se um sistema ineficiente por falta de disposição dos governos para a mudança. Historicamente a solução adotada em épocas de crises sempre foi a mais fácil, que vem acompanhada do aumento e da criação de novos impostos. A reforma tributária seria a única maneira de reverter o problema atual e não empurrá-lo para frente como tem sido feito nas últimas décadas. Sim, há 20 anos se fala em reforma do sistema sem que nenhum governo tenha se mobilizado. Talvez se isso já tivesse ocorrido hoje a história seria outra.

Impostos no Brasil retorno Boomerangue Bumerangue mata brasileiro sangue peito

O único sinal de que pode haver alguma alteração é no recolhimento do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) que está sendo debatido no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), além do Projeto de Lei 130 do Senado. O que é apenas um ponto diante do emaranhado de tributos brasileiros. A reforma otimizaria a administração de impostos e reduziria a carga sobre o contribuinte, além de gerar efetivas obrigações para que os recursos fossem utilizados de forma sensata, certamente uma questão muito importante diante de todos os escândalos de corrupção presenciados nos últimos anos.

Esse era o momento em que o governo deveria convocar tributaristas e representantes de classes competentes para debater sobre a reforma tributária. Claro que em meio à crise, o ajuste fiscal é a solução mais ágil para o governo reequilibrar as contas, mas isso não deveria suprimir o discurso de mudança que foi amplamente disseminado na campanha eleitoral do ano passado.

Cezar Augusto C. Machado

Ou Casa de Tolerância


O Estado é uma grande Casa de Beneficiência de Vagabundos a que chamam de empregados
Miguel Ángel Astúrias, "Week-end na Guatemala"

Corte sem corte


Quase R$ 70 bilhões. Ainda que inferior ao desejo do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o contingenciamento anunciado sexta-feira no Orçamento da União - o maior da história - impressiona. As lâminas chegaram à Educação e à Saúde, em obras do PAC, e até na menina dos olhos da presidente Dilma Rousseff, o programa Minha Casa, Minha Vida. Mas, de novo, não se viu corte algum no custeio, no tamanho da máquina que não para de inchar.

Os cortes são mais do que necessários, mas correm longe de ser solução para o país, dilapidado por mais de uma década pelos governos petistas que se divertiram gastando mais do que deviam e podiam.

Antes de tudo, são bombas de efeito antecipado em um ambiente político em que só o cheiro de pólvora já faz tudo explodir.

Ninguém no governo – nem mesmo Levy – pensou em dividir a conta com o próprio governo e com setores ainda intocados: juízes, parlamentares, servidores públicos. Não se abriu mão de um simples ministério, de um único cargo de confiança. Não se mexeu em privilégios. Não se fez um mero gesto.

Na Previdência, por exemplo, um milhão de aposentados do serviço público respondem por mais R$ 60 bilhões do déficit, os outros R$ 50 bilhões de rombo são relativos aos 30 milhões de segurados do INSS. Um vespeiro do qual ninguém quer passar por perto.

Sequer uma voz sobre renegociação de contratos, mesmo depois de as investigações na Petrobras revelarem percentagens fixas de corrupção, padrão que, se acredita, repetia-se em obras de todo o país.

Nem o decreto de Dilma para redução do uso de aviões da FAB por ministros foi cumprido, como, há mais de mês, revelou a jornalista Maria Lima, em O Globo.

Difícil crer que algo tenha mudado.

Elogiados como ato “de coragem” pela diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, para arrepio de alguns setores do PT, os cortes são um ambicioso conjunto de intenções. Diferentemente das medidas provisórias que estão no Parlamento, não produzem efeito imediato. Mesmo sendo valores estratosféricos, apenas limitam os já baixíssimos investimentos do governo e, de quebra, têm caráter recessivo.

Sabe-se que Dilma, Lula e a maior parte do PT odeiam ter de dar o braço a torcer a políticas que até ontem eles taxavam como neoliberais. A trinca, em especial Lula, sabe ainda que qualquer possibilidade de êxito em 2018 depende do sucesso desse rearranjo na economia, seja ele ortodoxo, de direita, conservador.

No momento, se aceita tudo, até aumento de impostos. Só reagem ao desabrigo dos companheiros aboletados no governo. Isso não. Mexer nos cargos de livre nomeação, nem pensar.

Ao que parece, não percebem a exaustão da fábula: as formigas já trabalham cinco meses por ano para encher as burras do governo. Não suportam nem mesmo o canto da cigarra.

Lula que se cuide. 

Câmara banca comilança de deputados

Parlamentares usam cota parlamentar até para almoçar duas vezes no domingo e fazer lanches dignos de lutadores de MMA. Um deles já gastou R$ 11 mil com refeições desde fevereiro. Tudo ressarcido com dinheiro público

As notas fiscais apresentadas para obtenção de ressarcimento pelo deputado federal Francisco Floriano (PR-RJ), no início da atual legislatura, mostram que ele é um homem com muito apetite. A ponto de almoçar duas vezes no mesmo dia ou de fazer lanches que seriam dignos de atletas de MMA. Até embalagens para “quentinhas” Floriano custeou com verba da Câmara.

Em menos de quatro meses, o parlamentar gastou R$ 8.631,16 da Cota de Auxílio de Atividade Parlamentar (Ceap) a título de “fornecimento de alimentação”. Em cerca de 100 dias, o deputado gastou o equivalente a 24 cestas básicas, quando levado em consideração o valor da cesta básica paulista, que é de R$ 354,19 – a mais cara do país. Apesar de gastar R$ 8,6 mil, ele não foi o campeão de dispêndios com alimentação na Câmara. O deputado Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC) foi o que mais gastou com comida neste início da legislatura, conforme dados da Operação Política Supervisionada (OPS). As despesas com alimentação do peemedebista chegaram a R$ 11,1 mil desde fevereiro. Pelas regras da Casa, a cota só pode ser usada para bancar refeições do parlamentar.

No dia 8 de fevereiro, um domingo, Floriano almoçou no Restaurante Carioca, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Depois do almoço, apresentou duas notas fiscais pedindo ressarcimento à Câmara utilizando a cota de auxílio de atividade parlamentar. Uma das notas tinha valor de R$ 209,44 e outra, de R$ 227. Foram dois pratos de picanha assada, um deles acompanhado com purê de batata e outro com banana à milanesa. Uma nota foi emitida às 15h23 e outra às 15h43 conforme revelam os comprovantes fiscais.

Teoricamente, domingo é dia de folga dos parlamentares. Não foram registradas atividades políticas no restaurante da Barra da Tijuca, onde o deputado almoçou. Além das refeições, ele também custeou, com verba da Câmara, couvert artístico de R$ 38 no mesmo estabelecimento. A casa cobra couvert artístico individual de R$ 19. O valor foi incluído na mesma nota fiscal dos alimentos consumidos.

Em um sábado, dia 2 de maio, às 21h37, o congressista fez um lanche digno de atleta de MMA. Segundo nota apresentada por ele à Câmara, Floriano consumiu, em uma casa chamada Bili Bali Sucos, 500 ml de água de coco, um leite de amêndoas, um hambúrguer, uma porção de queijo prato, um ovo frito, uma salada, uma fruta do conde, uma porção de filé mignon e mais duas porções de açaí. O valor da nota: R$ 85,30.

Esse não foi o único lanche de peso do deputado. No dia 6 de março deste ano, uma sexta-feira, o parlamentar também estava no Jardim Botânico (RJ), igualmente na Bili Bali Sucos e fez uma refeição às 23h13. A nota tinha valor de R$ 158,18. Na alimentação de Francisco Floriano, estavam três pratos de filé mignon, duas Coca-Colas em lata, uma Coca de 500 ml, três ovos fritos, uma porção de queijo prato, duas saladas, um açaí em tigela, outro açaí de 300 ml e um hambúrguer.

Governo não corta seus gastos e ainda quer aumentar impostos

O déficit fiscal que estamos vivendo é resultado de anos de aumento de gastos do governo, cuja cobertura tem elevado a nossa dívida pública e, consequentemente, o volume de juros que devem ser pagos ano a ano. A política de incentivo ao consumo, sem melhoria da produtividade nem da infraestrutura, esgotou os resultados que poderiam trazer de aumento momentâneo do PIB e garantiu que a inflação não descesse e, pelo contrário, crescesse.

O loteamento de cargos contribuiu para as perdas causadas pelo mau gerenciamento das empresas estatais e ineficiência das agências reguladoras. Sem falar da corrupção. Consequência: dinheiro jogado fora. Estamos todos preocupados com os fantasmas da estagflação demorada e do desemprego. Mas sem dinheiro e sem infraestrutura, como aumentar o PIB, gerar empregos e evitar a derrocada da “nova classe C”?

Na política agora adotada, faltam medidas mais agressivas para diminuir de forma equilibrada os gastos de custeio do governo, em vez de sacrificar os investimentos e aumentar a carga tributária. O equilíbrio receita/despesa das contas públicas é primordial para que se construa um caminho sustentável de crescimento.

Não há melhor maneira de perceber o emperramento da nossa burocracia e o peso dos juros de nossa dívida do que comparar a dificuldade de cortar 80 bilhões de reais dentro de um total de despesas estimado em 2.800 bilhões: se para cortar estes 80, que não chegam a três por cento do total, temos que atingir direitos trabalhistas, cortar verbas de universidades a ponto de prejudicar seu funcionamento, adiar investimentos essenciais, pergunto: em que é que são gastos os outros mais de noventa e sete por cento?
Wilson Baptista Jr.

domingo, 24 de maio de 2015

E agora?



Como fica agora, Quaquá, o porto de Jaconé? Seu querido e megaporto que iria trazer a fartura de desenvolvimento para o município de Maricá? Por lá passaram construtoras holandesas, árabes e chinesas e agora a área é tombada. O porto petista, mais uma vez, e sempre, vira balela eleitoreira.
"Quá-quaraquaquá, quem riu..."

O sonho que virou pesadelo

Charge O Tempo 23/05
O orçamento foi aprovado pelo Legislativo, segundo previsão do Executivo, que agora retira 69.9 bilhões de reais do total. Todos os setores do governo foram atingidos, mas a indignação maior refere-se à Saúde, que perde 11.774 bilhões e à Educação, garfada em 9.423 bilhões. Hospitais e escolas, de resto deficientes e insuficientes, sofrem a maior agressão. A quem a população deve reclamar? Aos que puseram a economia nacional em frangalhos, quer dizer, o governo, grande responsável pelo caos que nos assola. Primeiro por sua incapacidade. Depois pela imprevidência. Só que quem vai arcar com o prejuízo somos nós, a sociedade.

Quando em campanha pela reeleição, em outubro passado, a presidente Dilma nem por um momento admitiu as dificuldades já mais do que evidentes. Iludiu a maioria do eleitorado, escondendo-se atrás da falsa euforia e das promessas vãs. Direitos trabalhistas e previdenciários estão sendo reduzidos. Impostos, aumentados. O desemprego caminha a passos largos, junto com a pobreza. A inadimplência se multiplica. A violência também. Uns poucos privilegiados mandam seus milhões para o exterior, enquanto as massas deixam de ranger os dentes pela falta deles.

Convenhamos, alguma coisa precisa ser feita. Em tempos remotos, mas nem tanto, o povo ganhava as ruas e pela força depunha seus governantes. Com o aprimoramento da democracia, estabeleceram-se soluções pacíficas, mas eficientes. No parlamentarismo, caem os gabinetes. No presidencialismo, surgem o impeachment e novas eleições.

Não há porque o país acomodar-se a três anos e meio de novas frustrações, quando nem se tem certeza de as instituições se sustentarem até lá. Para evitar a desagregação nacional a palavra de ordem só pode ser de “basta”. De “fora”, por quaisquer instrumentos ou mecanismos possíveis, de preferência constitucionais.

O governo de Madame acabou com esse melancólico final antecipado. O pouco que lhe restava de credibilidade acaba de sair pelo ralo. O Partido dos Trabalhadores não é mais dos trabalhadores e deixou de ser partido. O corte de quase 70 bilhões acaba de selar o destino do sonho que virou pesadelo
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A riqueza imperecível

Gente suando por mais riqueza, títulos, poder e honras – sem tempo para olhar as estrelas, a natureza, as crianças, a vida que escorre e some pela via. Gente pisando na grama, atropelando a vida, sacrificando animais, arrancando flor pela raiz.

Riqueza fantasiada de felicidade. Riqueza acima do necessário, riqueza arrancada sem escrúpulo, disputada a qualquer preço. Riqueza que desconhece a importância de sua origem, dos métodos usados, dos sofrimentos gerados. Riqueza maldita. Para quê?

Ansiedade, provocação, afã, luta, suor e até sangue.

Ter mais, mais que o vizinho, mais do que tudo.

Riqueza sem objetivo, sem rumo, sem fim, sentada sobre um monte de vítimas. Riqueza para pagar guarda-costas e advogados, para perder o sossego; escancarada, vulnerável, sequestrável. Riqueza para fazer a festa de malandros, exposta à queda da Bolsa, à desvalorização cambial, ao assaltante e ao gatuno.

Riqueza monumental guardada em palácios e moradas, que não cabe no caixão, que será gasta por outro fantoche. Um atrevido, um perdulário, um dissoluto, um bobo, um trapaceiro que a desintegrará, ou um santo, um místico que não saberá o que fazer e se livrará dela como de um peso.

Riqueza que aquieta a sede ou que aflige a alma, que enche de preocupação e tormento. Fome de vento que nunca sacia. Inútil para o espírito que dela um dia se libertará como de um empréstimo.

E o que dizer ao homem que não tem pão, incapaz de conseguir saciar o seu estômago e o de seus filhos? Homens diferentes. Uns ricos querendo ser mais ricos, outros pobres querendo ser ricos. Duas humanidades aparentemente diversas. Um único Deus. Quem tem muito não tem tempo para aproveitar nem sossego para dormir profundo.

Riqueza, para o rei Salomão, é Sabedoria. Dessa diz ele com entusiasmo: “É mais que a saúde e a beleza. Gozei da sabedoria mais do que a claridade do sol, porque a claridade que dela emana jamais se apaga”. Deixa claro o caminho, doce o pensamento, livre o agir.

E mais: “Há na sabedoria um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, puro, claro, inofensivo, inclinado ao bem, agudo, livre, benéfico, benévolo, estável, seguro, sem inquietação, que pode tudo, que cuida de tudo... É ela uma efusão da luz eterna, um espelho sem mancha da atividade de Deus e uma imagem de Sua bondade”.

“Eu a amei e a procurei desde a juventude, me esforcei para tê-la por esposa... por meio dela obterei a imortalidade... e recolhido em minha casa, sem medo, descobridor da minha eternidade, repousarei junto dela...” Sem precisar de mais nada que não seja o essencial.


Sabedoria: riqueza imperecível, grandeza do humilde; justiça do misericordioso; doçura do homem, força, inteligência de quem aprendeu o que é amor. Tudo sem nada em contraposição a nada com tudo.

Sabedoria emprestada de Si por Deus, gerando o homem “à imagem e semelhança dEle”. Nada custa, é de graça, apenas de quem a ama e a quer.Vittorio Medioli

Lava Jato toca a campainha do Palácio


O doleiro do petrolão afirmou, em delação premiada, que o Palácio do Planalto sabia do esquema. Citou pelo menos três ex-ministros de Dilma cujos nomes ouviu várias vezes nos momentos decisivos das operações criminosas. Alberto Youssef disse também aceitar acareações com qualquer um. O esquema bilionário que funcionou mais de década exatamente sob os governos do PT, operado por diretores da Petrobras nomeados ou protegidos pelo grupo político governante, chegou à sua hora da verdade. Ou o Brasil acredita que o doleiro Youssef botou a República debaixo do braço e fez o governo inteiro refém, ou o comando da quadrilha terá de aparecer.

Youssef afirmou, em seu depoimento à CPI da Petrobras em Curitiba, que se sentia “”mais seguro” em suas operações criminosas por saber que tinha a proteção do Palácio do Planalto. Marcos Valério não chegou a dizer literalmente a mesma coisa, mas o julgamento do mensalão mostrou que ele também era assegurado pelo Palácio – tanto que o então ministro-chefe da Casa Civil acabou condenado e preso. Nos dois megaescândalos, dois tesoureiros do PT presos, acusados de participar de desvios de dinheiro de estatais para o partido. E o Brasil, chupando o dedo, não liga lé com cré e se recusa a entender que esse é um padrão de governo.

Aliás, “a única forma de governar o Brasil” — como Lula teria afirmado a José Mujica, ex-presidente do Uruguai. Os dois ex-presidentes naturalmente negaram que se tratasse do reconhecimento do escândalo, mas o livro que traz essa passagem é absolutamente claro ao contextualizá-la como referência ao mensalão. Um dos autores do livro, Andrés Danza, declarou não ter dúvidas de que assim a fala de Lula fora entendida por Mujica — com quem, aliás, Danza tem excelente relação. Possivelmente o ex-presidente uruguaio, chapa de Lula, achou que expondo a confissão de “”culpa” do colega brasileiro em relação ao escândalo iria humanizá-lo. É um tipo de humanismo que passarinho não bebe.

A tolerância do Brasil com os métodos escancarados do PT beira o masoquismo. A pessoa em quem Dilma Rousseff mais investiu para ser seu braço direito no governo chama-se Erenice Guerra, investigada em dois escândalos de tráfico de influência dentro do Palácio — este que Youssef diz que o fazia sentir-se seguro, o mesmo de onde foi engendrado o mensalão. É uma vertiginosa sucessão de coincidências. Ou então o Brasil gosta de apanhar.

Gosta porque não se mexe. Está esperando a Justiça capturar a quadrilha. E vai esperar sentado. A domesticação da corte máxima dessa Justiça apresenta neste exato momento mais um capítulo circense – talvez o de maior audiência, pelo que tem de bizarro. O país assiste à indicação de mais um soldadinho petista para o Supremo Tribunal Federal – um simpatizante do MST, para ter uma ideia do nível de aparelhamento a que está chegando a Justiça brasileira, esta que a platéia está esperando pegar os chefes do bando. O novo indicado por Dilma para o STF tem até site feito pela mesma pessoa que faz o do PT, provando que a independência não livra ninguém dos sortilégios da sincronicidade.

O Congresso Nacional teria a chance de devolver essa carta marcada ao Planalto, reprovando a indicação de Luiz Edson Fachin ao Supremo. Mas o Congresso é… o Congresso. E assim o país vai assistindo candidamente ao adestramento das suas instituições pelos companheiros progressistas, que conseguiram subjugar até as contas públicas — travestindo o balanço governamental através da contabilidade criativa e das já famosas pedaladas fiscais (tão famosas quanto impunes). Claro que a lavagem cerebral companheira já chegou forte a escolas de todo o país — sendo que até colégios militares andam sendo coagidos a ensinar o conto de fadas petista, coalhado de ideologias exaltando as pobres vítimas do capitalismo que mandam no Brasil (pelo visto, para sempre).

O Congresso Nacional está em cima do muro, o governo está atrás do muro e o Supremo está atrás do governo. Só o povo, com ou sem panelas, pode afrontar essa barricada no coração do Estado brasileiro e libertá-lo — exigindo que a Lava Jato siga o dinheiro até o fim. E levando a investigação até dentro desse Palácio que protege doleiros.
Guilherme Fiúza

À procura de uma bússola

Políticos desgastados, imagem do governo federal em frangalhos, sociedade descrente e atordoada, estrutura social começando a se queixar do bolso mais vazio e inflação emagrecendo a geladeira, formam o pano de fundo sob o qual devem ser analisados os aspectos pontuais da crise que vive o país.

O repertório de depoimentos e denúncias diárias, ao contrário do que seria de esperar, de tão banalizado, parece anestesiar a sociedade. A repetição cansativa de escândalos embrutece a sensibilidade, como se uma pesada camada de chumbo estivesse cobrindo nossos corpos.

O governo federal patina na rotina de fazer aprovar seu pacote fiscal. E passa a ser cobrado de maneira contundente pela forma com a Petrobras foi administrada nos últimos 12 anos. E nem pode berrar alto porque é refém das crises que ameaçam a governabilidade: a econômica, a política e a de gestão, com extensão na escassez de água nos reservatórios e ameaça de curto circuito na malha energética.

Os governadores estaduais correm à Brasília em busca de socorro. Ficam sem saber o que fazer e dizer ante a opção que lhes apresentam: promover um pacto federativo para recompor a divisão do bolo tributário. Por onde começar? Senadores dão uma no cravo, outra na ferradura, desaprovando Patriota, aprovando Fachin e adiando a MP 665, que endurece as regras para o seguro-desemprego e do abono salarial. Deputados querem acelerar a reforma política, mas não há consenso sobre nenhum ponto.

A paisagem escancara a baixa capacidade do governo de levar adiante o fabuloso programa de obras, refrãos e slogans, que o ciclo do petismo prometeu e, que nos últimos tempos, ficou restrito ao lema “Pátria Educadora”.

A má gestão, dizem os estudiosos de política, é aquela que consome o capital político do governante sem alcançar os resultados anunciados e perseguidos e isso ocorre por desorganizado manejo técnico. Os dirigentes esquecem os compromissos de suas campanhas eleitorais, não fazem o cálculo do balanço da gestão e, principalmente, não a projetam para o futuro.

Os políticos, por sua vez, aproveitam-se das circunstâncias para tirar proveito. Como a economia capenga, a crise transforma-e em oportunidade para a esfera política expandir sua força. O Parlamento Nacional torna-se um amplo território de articulação, negociação e pressão, o que, convenhamos, o coloca no palco dentro do processo decisório, eis que o Executivo torna-se dele refém, ao contrário da nossa tradição.

As casas parlamentares desejam impor uma pauta forte e agir de forma independente da vontade do Palácio do Planalto, exercendo sua função legislativa, debatendo os problemas nacionais e fiscalizando os atos do Executivo. Os governadores, por sua vez, estão desmotivados. Não mostraram praticamente nada desde sua posse. Não têm gás para acender o farol da gestão.

O Judiciário abarrota-se de demandas judiciais, permanecendo sob a fosforescência midiática desde os tempos do mensalão, ganhando agora a luminosidade da Operação Lava Jato, na esteira da qual, um juiz, Sérgio Moro, sobe os degraus da fama e alcança o mais alto prestígio no ranking do respeito e da credibilidade.

Brilha o facho de um advogado, Luiz Edson Fachin, que ascende à mais alta Corte, o Supremo Tribunal Federal, ganhando o título do maior sabatinado pelo Senado em toda a história daquele Poder. Como agirá na nova casa? Olhando para o visor constitucional, promete. A tensão entre os Poderes continuará alta. E se as novas delações premiadas ampliarem o leque dos envolvidos na Lava Jato? Qual será a tendência do Congresso ante a eventual condenação de algum de seus membros de alto conturno?

O fato é que cada Poder está à procura de uma bússola, da direção mais conveniente para enfrentar o amanhã. Por enquanto, olham para a escuridão, com o olho se acostumando a encontrar o nada. Há imensos no espaço social. Novas lideranças não emergem no cenário. FHC? Encostado no pijama do guru. Lula? Não mais parece o leão furioso dos velhos tempos. Quem tem hoje autoridade para atrair as massas? Quem agrega o dom do equilíbrio? Quem canaliza as aspirações mais legítimas da população, a força moral? Quem possui as melhores condições de subir ao pódio dos próximos tempos?

Na Babel de linguagens tortuosas e bordões de promessas vazias, quem dá o tom é a indignação social.

A sociedade, por sua vez, está a exigir um reequipamento convivial, que implica a recuperação da infra-estrutura social (os serviços fundamentais do Estado) e o resgate de valores éticos e morais. Distancia-se tanto do sistema de representação formal, sem acreditar que ele seja capaz de produzir melhorias na política. Aguarda, com muita expectativa, a punição exemplar de políticos culpados, na crença de que os horizontes do amanhã tragam de volta a ética e novos padrões.

Muita água há de rolar carregando novas correntes. Como rugiu Zaratustra, o profeta de Nietzsche: “Não apenas a razão dos milênios - também a sua loucura rompe em nós. É perigoso ser herdeiro. Ainda lutamos, passo a passo, com o gigante chamado acaso”. 

Gaudêncio Torquato

Medo

A voz de pato, a cara borrada, cada vez mais medo, até para falar de assuntos banais agora há medo, presente, todo dia, toda hora. Qualquer lugar, raça, credo, condição social. Repare. Vivemos aterrorizados e não estou falando exatamente de fobias, dos medões, daqueles que só tratamento psicológico resolve. Trato do nosso dia a dia vivendo num país esquisito, de onde brotam vingadores, odiadores, e onde cruzamos no presente com gente sem passado e sem futuro

Devo mesmo ter morrido em alguma vida passada por golpe de arma branca. Veja só. Sou até capaz de brincar com uma arma de fogo, achá-las bonitas, revólveres, pistolas, fuzis. Manuseá-las sem problemas; com elas convivi desde criança. Mas só de ouvir falar em faca, minha espinha dorsal fica diferente - não sei bem como descrever, mas você já deve ter sentido isso - como se um líquido corresse em direção anormal por alguns segundos. Mais do que o frio na espinha. Sempre foi assim. Cheguei a pensar em fazer esgrima pra ver se ajudava, me livrava desse temor, para você ter uma ideia. Desisti.

Com isso posso declarar que estou absolutamente aterrorizada com o que está acontecendo no Rio de Janeiro e que peço a Deus seja estancada essa "tendência", que não se espalhe como costumeiramente modas cariocas acontecem. Só esse ano, li em algum lugar, 167 pessoas foram esfaqueadas por lá, em assaltos e desinteligências, palavra de que gosto porque é objetiva no descrever da violência descontrolada.

Mas se fosse "só" isso! Alguém está se dando conta que o medo invadiu de tal forma nossas vidas que está modificando a nossa própria história? O medo, gente, paralisa. O medo atrasa. O medo tira nossa criatividade e espontaneidade. O medo nos torna piores. Muito piores. Arredios. O medo mata. O medo cria, nos hábitos, uma série de círculos viciosos infinitos, infinitos até que chegue o finito, e quando ela chegue, a morte. Espero que "do outro lado" não existam medos.


A crise está nas nossas portas, o medo do desemprego, de precisar de recursos que não há. Não sair porque não pode gastar, mas também por medo de perder o pouco que tem. Viver tenso, de medo de ficar doente e sem condições de tratamento. O medo da violência geral grassando onde não há educação, saúde, estrutura nem infra, nem social, nem ética. Medo da própria família, do abuso da criança, da briga, do ciúme, da traição, da vingança. Do dizer e ser perseguido. Do não dizer e morrer calado, aos poucos.

Medo da facada pelas costas. Mesmo que sem faca, e sem sangue. Muitos de nós já a experimentaram e é terrível, porque nos mostra vulneráveis, porque nos derruba.

Ora, se a criança na escola é estuprada por outras crianças, se o asilo pobre, quase desgraçado, faz um bazar para pedir piedade pelo amor de Deus, e logo depois é assaltado, se quem devia proteger bate e arrebenta, como não ter medo? Do que não ter medo?

Só se for da chuva, do amor, de amar, da borboleta, do compromisso. Dos espíritos das pessoas boas que partiram e que sabemos que deles só podem vir coisas boas e proteção. Até as baratas, aranhas e outros bichos a gente pode dominar.

Mas não podemos dominar os homens, os governos, o poder. Ultimamente, não dá para perder o medo do escuro, de avião, de falar em público, da ameaça de dar uma entrevista para a tevê. Não dá pra deixar de temer o hospital, as agulhas, as facas dos cirurgiões, os ferrões dos pernilongos. Nem a solidão ou seu contrário, as multidões.

Uma simples faca pode zunir e furar, ameaçar, matar. Acabar de vez com o medo de alguém.

Na 'Pátria Educadora' de Rousseff, crise põe em risco Plano de Educação

Com cortes, pasta não teve aumento em relação ao que foi investido no ano passado. Gestores já temem não conseguir cumprir as metas para a área pactuada em 2014

Depois de anunciar que o lema de seu novo mandato seria "Pátria Educadora", a presidenta Dilma Rousseff deu à educação um dos maiores cortes globais no anúncio do ajuste fiscal feito nesta sexta-feira. A área terá 9,4 bilhões de reais a menos para investir neste ano. A verba da área para as despesas discricionárias (que não são obrigatórias, como a folha de pagamento, por exemplo) caiu de 48,81 bilhões para 39,38 bilhões de reais -valor similar ao gasto no ano passado e 15 bilhões acima do mínimo constitucional obrigatório.

Se por um lado isso era esperado, já que a pasta tem o segundo maior Orçamento da União, por outro, a situação gera um grande incômodo: a falta de aumento nos investimentos pode representar uma ameaça ao cumprimento do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado no ano passado em meio a comemorações do próprio Governo e que tem algumas metas a vencer já no ano que vem.

"É preciso ver com atenção onde serão os cortes dentro da pasta. A preocupação é que os prazos do plano já estão chegando e isso exigirá um esforço adicional", afirma Alejandra Meraz Velasco, coordenadora-geral da ONG Todos pela Educação. O Governo ainda não anunciou ao certo o que será cortado em cada área, mas o mais provável é que as novas obras sejam as mais afetadas.

O problema é que esse "esforço adicional", ao qual Velasco se refere, também tem sido difícil, já que Estados e municípios, que injetam a outra parte do dinheiro necessário para a área, têm sofrido com a queda em suas próprias arrecadações. Por lei, eles são obrigados a gastar 25% das receitas em educação -quando as receitas caem, a verba aplicada na área também cai. Em muitos locais, o cenário já é composto por obras paradas, salários de professores atrasados (e docentes em greve) e até mesmo falta de verba para comprar papel higiênico ou cortar a grama com a mesma regularidade de sempre.

Mãos ao alto, cidadão!

Certamente uma das mais pesadas e polemicas frases dita aos 4 ventos pelos libertários mundo afora é “IMPOSTO É ROUBO.” Se considerarmos a forma como ele nos é retirado forçadamente e sem chance de defesa, e se atentarmos às consequências de não acatar a “ordem” dada, o imposto é sim um roubo. O monopólio da violência dá ao estado essa possibilidade, para não dizer premissa, para retirar do cidadão parte de algo que não lhe pertence. Mude o sujeito da frase é terá caracterizado um ladrão.

maosaoalto
Advogados me corrijam se estiver errado, mas temos os tipos de roubo: furtos ou assaltos. Os impostos indiretos, ou seja, aqueles que o consumidor paga sem sabe que esta pagando se assemelham ao furto; enquanto os impostos mais diretos e escandalosos, tal qual era a CPMF é são hoje ainda IPVA, IPTU, ITBI etc, são assalto mesmo, à mão armada e sem chances de defesa!

Sempre se escuta uma tia bem intencionada dizer que “aceitaria pagar impostos se recebêssemos de volta as contrapartidas. É assim na Suécia.” . Também me perdoem os amigos psiquiatras, mas ela certamente sofre da “Síndrome de Estocolmo”, com o perdão do trocadilho. É a paixão doentia por aquilo que pode lhe fazer o mau. Certamente o modelo escandinavo é menos pior do que o nosso “tropicaliente”, mas não torna o ato de tributar menos imoral. Tributados não são os produtos/serviços; quem é tributado é o próprio cidadão! É sobre nós que a carga pesa.

Se o imposto é ou não roubo, não há consenso. Mas claramente há coisas que o imposto não é (ou não deveria ser), e muitas delas o governo insiste em ignorar.

Só para começar:

Imposto não é ferramenta de justiça social: não deve ser usado para “distribuir” a riqueza. Tributar a renda de forma predatória inibe a construção de poupança interna.

Imposto não é ferramenta socioeducativa: sobretaxar a bebida, o cigarro, os alimentos chamados “não nutritivos” não faz com que as pessoas bebam, fumem ou comam menos porcaria.

Imposto não é uma proteção para o trabalhador nacional: esse mesmo trabalhador é um consumidor e vai pagar mais caro pelas coisas de que precisa pra viver. Tanto as feitas no país quanto as que vem de fora.

Comicamente esses usos são mais comuns do que se pensa. O governo não decide o que quer.

Taxa o cigarro, o adesivo de nicotina e o remédio da quimioterapia;

O hambúrguer, o moderador de apetite e o tênis de corrida;

A bebida alcoólica, a consulta com o endocrinologista e o suco natural.

O papel, a tinta, o livro e a renda que ganha o autor.

Depois dá bolsa cultura pra poder comprar a obra de Paulo Coelho ou o CD do Chico Buarque.

Existe uma imoralidade indissociável da cobrança de tributos: ao encarecer o preço final das coisas, os impostos dificultam o acesso das pessoas aos avanços civilizatórios, desde os mais simples aos mais complexos. Somos tributados a todo momento: água tratada, luz, remédios, combustível, comida, roupas, educação, tratamentos de saúde, habitação, veículos, passagens aéreas e terrestres, ferramentas, maquinário e uma infinidade de itens que não teria linhas suficientes para citar.

Pragmaticamente falando, impostos deveriam ser a fonte arrecadatória para pagar aquelas atividades definidas pela sociedade como sendofunções do Estado. As sociedades precisam então impor aos seus respectivos estados o limite; além de fiscalizar os gastos e questionar com veemência cada aumento alardeado como sendo para “o bem comum”. O “bem comum” é um álibi historicamente terrível e sob o seu pretexto foram cometidas enormes atrocidades. E nada nos fará melhor que um Brasil com menos impostos.”

Guilherme Moretzsohn

Parada psicológica

Nem vírus, nem hackers. Apenas o costumeiro (no Brasil) ladrão, que por sinal demonstra mais uma vez ser a má educação a trilha do crime. Levam aparelhos vendáveis, deixam livros e mais livros intactos. Sequer entram na biblioteca.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O Brasil é para poucos

Em 1974, o economista Edmar Bacha cunhou um termo, Belíndia, que buscava sintetizar as contradições do Brasil: segundo ele, tínhamos uma Bélgica incrustrada em uma Índia. A palavra, popular nos anos 1980, a nossa década perdida, caiu em desuso, inclusive porque não faz muito sentido —a Índia, um país de 1,3 bilhão de pessoas, possui um sistema milenar de castas sociais justificado por princípios religiosos, que gera marajás e miseráveis. Mas se o conceito não tem fundamento não é porque mudou o cenário:continuamos a ter uma das maiores concentrações de renda do planeta —10% da população detêm 42% do total das riquezas do país.

De acordo com a Constituição de 1988, o salário mínimo deve suprir as necessidades básicas (alimentação, moradia, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social) do trabalhador e de sua família. Atualmente, esse valor equivale a R$ 788,00 mensais (cerca de 260 dólares). Segundo levantamento do Banco Central, 28% dos trabalhadores recebem um salário mínimo por mês, e 54%, de um a três (até R$ 2.364,00 ou 790 dólares). Menos de 1% da população ganha mais de 20 salários mínimos mensais (R$ 15.760,00 ou 5.300 dólares). As mulheres brancas, em qualquer camada social, ganham, em média, 30% menos que os homens para exercer as mesmas funções. Um homem negro recebe 57% da média paga a um branco —e uma mulher negra, menos da metade.

Continuamos a ter uma das maiores concentrações de renda do planeta: 10% da população detêm 42% do total das riquezas do país

Lideramos o ranking de cirurgias plásticas por razões estéticas: 1,5 milhão de intervenções em 2013, o que equivale a 12% do total mundial. Além disso, alguns de nossos hospitais destacam-se como referência em especialidades como cirurgia cardíaca, transplantes, tratamentos de câncer e de aids, por exemplo. No entanto, o sistema público de saúde é caótico: leva-se meses para agendar uma consulta, outros tantos para a realização de exames laboratoriais, mais alguns para marcar uma operação. Morremos ou de problemas típicos de países ricos —doenças circulatórias e respiratórias, câncer, diabetes— ou de países miseráveis —aids, cólera, hanseníase, hepatite, sarampo, malária. A tuberculose, doença social por excelência, que atinge particularmente pessoas pobres, registra 70.000 novos casos por ano e 5.000 óbitos. E em 2015 foram notificados 750.000 casos de dengue no país, com o registro de 229 mortes, sendo 169 apenas no estado de São Paulo, o mais rico do Brasil.

A USP, listada entre as 100 melhores instituições de ensino superior do mundo, é uma universidade pública e gratuita, quer dizer, mantida por impostos pagos por ricos e pobres. Mas ali até hoje não vigora um sistema de cotas, e sim um programa alternativo, e restritivo, de inclusão social e racial, por meio de bônus. O ingresso naquela universidade dá-se por meio de um dos vestibulares mais concorridos do Brasil e o acesso à maioria de seus cursos restringe-se a alunos que estudaram nas melhores escolas privadas. A USP mantém-se como reduto exclusivo da elite paulistana. Enquanto isso, segundo a Universitas 21, o Brasil ocupa o 38º lugar no ranking que avalia a qualidade do ensino superior em 50 países. O gasto por estudante brasileiro é de 3.000 dólares anuais —contra a média mundial de 9.500 dólares e muito distante dos primeiros lugares, Suíça (US$ 16.000 dólares) e Estados Unidos (15.000 dólares).


Morremos ou de problemas típicos de países ricos —doenças circulatórias e respiratórias, câncer, diabetes— ou de países miseráveis —aids, cólera, hanseníase, hepatite, sarampo, malária

Embora não haja dados precisos, estima-se que apenas 46.000 pessoas sejam donas da metade das propriedades rurais do país. Enquanto isso, segundo dados do Incra, 4,8 milhões de famílias permanecem sem terra para trabalhar. Dos 400 milhões de hectares titulados, somente 60 milhões (15% do total) são utilizados, e, conforme o IBGE, os pequenos proprietários, donos de áreas com menos de 100 hectares, são responsáveis por 80% da produção de alimentos e 80% da contratação de mão de obra. Noventa mil famílias vivem acampadas em precárias condições ao longo das rodovias e o Brasil lidera o ranking de violência rural: segundo a Ong Global Witness, em 2014 foram assassinados 29 militantes da reforma agrária, sendo quatro deles lideranças indígenas.

Estima-se que apenas 46.000 pessoas sejam donas da metade das propriedades rurais do país. Enquanto isso, segundo dados do Incra, 4,8 milhões de famílias permanecem sem terra para trabalhar

Dependendo de onde nos situamos no espectro social podemos usufruir do que o Brasil oferece de melhor ou de pior do mundo, porque aqui, no mesmo espaço, convivem tempos civilizacionais inteiramente diferentes. A complexidade do nosso país é tão grande quanto a extensão de suas terras —atribuem a Tom Jobim a frase que talvez melhor resume a dificuldade de compreendê-lo (ou de nos compreendermos dentro dele): O Brasil não é para principiantes. Não é mesmo, porque, ao contrário do que apregoava lema governamental recente, o Brasil não é de todos, é de poucos.

Luiz Ruffato

Frei Betto e os erros de Lula



Quando o PT faz a opção de assegurar a governabilidade pelo mercado e pelo Congresso – daí as alianças e a “Carta aos Brasileiros”, que na verdade é a “carta aos banqueiros” -, ali o PT abandona sua matéria-prima, que são os movimentos sociais pelos quais deveria ter assegurado a governabilidade,

Fiquei dois anos e, de repente, o governo matou o Fome Zero para substituí-lo pelo Bolsa Família. Tive então a certeza de que essa opção contrariava a tudo aquilo que o PT vinha pregando desde a fundação. O Fome Zero era um programa emancipador, o Bolsa Família é compensatório. O Fome Zero ia mexer na estrutura do país e por isso foi boicotado pelos prefeitos. Era coordenado por comitês gestores municipais, não passava pelos prefeitos, não havia como usar os recursos para fazer jogo eleitoreiro, então os prefeitos se rebelaram, pressionaram a Casa Civil, que pressionou Lula. No fim, Lula cedeu e eu caí fora.

O erro do Lula foi ter facilitado o acesso do povo a bens pessoais, e não a bens sociais – o contrário do que fez a Europa no começo do século 20, que primeiro deu acesso a educação, moradia, transporte e saúde, para então as pessoas chegarem aos bens pessoais. (...) As pessoas estavam consumindo, o dinheiro rolando e a inflação sob controle, mas não se criou sustentabilidade para isso. Agora a farra acabou, está na hora de pagar a conta

A vocação literária de Frei Betto, entrevista à revista Cult