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| Roberta, a 'Miriam Cordeiro' da vez |
Uma frase resume a entrevista de Luchsinger, além dos xingamentos: “Um homem desse não pode continuar na Presidência da República”. Flávio Bolsonaro certamente concorda com ela. Em 1989, Cordeiro afirmou sobre Lula, com quem teve uma filha, Lurian, que sempre esteve ao lado do pai: “Eu não apoio o Lula e não quero apoiar o Lula porque eu acho que apoiar o Lula seria uma traição a mim mesma. Eu fui uma pessoa que sofreu muito na mão do Lula. […] Eu não posso, sob hipótese nenhuma, apoiar um homem que acabou com a minha vida, tá?”
A lobista, que falou neste sábado, acusa o presidente de ter acabado com o seu negócio. Disse ter perdido clientes que mantinha havia 10 anos, embora não fique claro exatamente o que ela faz. Distribuiu insinuações contra Lulinha, sugerindo que um empresário se deu bem em razão dessa amizade, mas afirmou também não ter conhecimento de irregularidades. Acha que o ex-amigo tem de ser investigado. Por quê?
Não por contratos irregulares que a dupla tenha conquistado no governo. Ela insiste que inexistem os ditos-cujos e que nada fez de errado. Mas aí se saiu com o seguinte truque: se houver, que a polícia diga, e ela se prontificou a colaborar. Talvez não lhe tenham dito como funciona a Lei nº 12.850: o colaborador tem de começar por confessar os próprios crimes. Mas delatar o quê, se ela diz não ter cometido nenhum? Luchsinger confunde uma delação com a simples acusação dos inimigos da hora.
Está obviamente injuriada porque o presidente a chamou de “pilantra”, e chegou até a ensaiar alguns surtos de feminismo seletivo. Contra um adjetivo, uma pilha: “mentiroso, mau-caráter, senil, esclerosado…”. Jurou que era defensora do governo e perguntou: “O que eu recebi em troca?”.
Desse governo, obviamente, nada. Se Flávio vencer, teremos a chance de saber se haverá alguma compensação no próximo.
Num dos momentos que seriam até hilariantes, não fosse tudo bastante melancólico, afirmou que ministros de Estado recorreriam à sua intermediação para conseguir audiência com o presidente da República… Entra na categoria das coisas que nem erradas conseguem ser.
Mas como isso se daria? É tudo confuso — ela estava muito furiosa para pensar com clareza, embora o objetivo da entrevista tenha sido claríssimo —, mas parece que sua amizade com Marcola (Marco Aurélio Ribeiro), ex-chefe de gabinete de Lula, facilitaria o acesso. Pergunta óbvia de resposta idem: por que um ministro de Estado ligaria para ela em vez de passar a mão no telefone e procurar Rui Costa, então chefe da Casa Civil?
É claro que se trata de uma entrevista para tentar interferir na eleição. Cordeiro afirmou em 1989 naquele depoimento absurdo no horário eleitoral de Collor: “Eu peguei a Lurian e entreguei no colo dele e falei: ‘agora você mata; porque, quando ela estava na minha barriga, eu não permiti’.” Luchsinger agora diz que Lula será o responsável por qualquer atentado que venha a sofrer.
Eu não sou ombudsman da imprensa, claro! Mas me pergunto: faz sentido levar ao ar um troço como esse? Ouitra pergunta óbvia de resposta idem: se a extrema direita atentasse contra a vida dela, o responsável seria Lula?
A síntese da entrevista é a seguinte:
– o presidente não gosta dela nem ela do presidente;
– ela não conseguiu fechar nenhuma parceria com o governo;
– diz não ter cometido crime nenhum, mas afirma querer delatar os outros, o que não tem suporte legal;
– afirma estar sendo perseguida pela “máquina pública”, embora não tenha evidência disso;
– quer saber por que Lulinha não é investigado, embora ele esteja sendo investigado;
– diz não ter cometido crime nenhum, mas sugere que seu ex-amigo pode ter cometido algum, embora não diga qual.
E, como se nota, ela está pedindo proteção. Ingênua não é — o que talvez Cordeiro fosse. Ela fez uma aposta na derrota de Lula. E parece esperar que o futuro lhe seja ameno, uma vez que diz topar uma delação premiada contra os outros e se diz inocente como as flores.
Que a “Operação Luchsinger” não seja bem-sucedida como foi a “Operação Cordeiro”.

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