sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Lula não pode tudo
Há reviravoltas e reviravoltas. Com estafante insistência, de uns tempos para cá – mais precisamente há quase duas décadas – petistas empedernidos nos falam de uma reviravolta para salvar o Brasil do caos. Suas receitas e promessas, aplicadas em campo na longa temporada que ocuparam o poder, acabaram por legar o próprio emblema do caos lancinante, no plano econômico, social e político, sem exceções, com um tempero de desemprego e recessão recordes na história. Ninguém disso duvida. Mas as patranhas palanqueiras do líder máximo da agremiação, Lula da Silva, hoje detento de ficha 700004553820, seguiram seu curso a despeito das evidências e alcançaram o último pleito, de embate capital no próximo domingo, 28, em segundo turno, com inadvertida desfaçatez. O menestrel das lorotas Lula e seus seguidores, como a caçoar da inteligência alheia, redobraram as apostas repetindo como farsa a ladainha de um resgate do País. Seria decerto uma salvação pela via da corrupção endêmica que massivamente praticaram. Haddad, o poste da vez, travestido de conciliador democrata sem aptidão para tanto, tomou para si o discurso engabelador e aceitou ser servido como presente de grego, na vã ilusão de enganar eleitores e potenciais aliados distraídos. Não colou. Encarnou o papel típico de um Cavalo de Tróia, escondendo em suas entranhas a camarilha de encalacrados petistas que inevitavelmente traria junto em seu projeto eleitoreiro, e se estrepou todo, caminhando para uma derrota fragorosa. Converteu-se em mero figurante do jogo. Pausa para registro: é sabido que Lula, Dirceu & Cia. sempre almejaram resgatar o poder a qualquer custo e de qualquer maneira – mesmo que não pela via do voto, como disse recentemente um deles -, mas decerto representa um lance bizarro, quase ingênuo mesmo, a tentativa do capo petista de empurrar ao Planalto (sem qualquer chance mais a essa altura do campeonato) um preposto da velha esquadra de sequazes saqueadores. Haddad, na campanha montada para lhe vender como algo que não é, virou pilhéria e provocou vergonha alheia. A agremiação escondeu a bandeira vermelha com estrela, marca pela qual é mais conhecida, tirou a imagem de Lula dos santinhos, mostrou seu usual desapego à realidade, lançando acenos que não cumpre, e perdeu-se no fabulário. A verdade não tem versões e o PT não entendeu isso. A ópera dos embusteiros acabou desmascarada. E logo por quem havia acabado de se enfileirar na esquadra de defesa do lulopetismo. “Lula tá preso, seus babacas! Vocês vão perder”, bradou o pedetista cearense Cid Gomes em um desabafo tão franco como surpreendente. Obcecados adoradores do demiurgo não quiseram ouvir. Possivelmente nem acreditaram no óbvio. Nessa marcha da insensatez que empreendem devem mesmo sair derrotados porque, de resto, como os próprios eleitores estão demonstrando nas urnas, Lula não pode tudo. Ninguém pode. A corriola de asseclas e militantes é capaz até de insistir na fé cega da hipótese, afinal muitos habitam um mundo onde as versões predominam sobre os fatos, as imagens virtuais sobre a realidade, no qual o universo paralelo serve de refúgio para negar a seca realidade. Decerto, em dado momento, sairão frustrados. A patota de caciques petista também. Ela estava convicta de que receberia o aval para replicar um modelo tão fraudulento como danoso à Nação. Os formuladores desse pacto foram escorraçados. Receberam um primeiro e eloquente recado ainda nas eleições municipais, há dois anos, e estão agora aprendendo, a duras penas, que não se ganha carta branca da população, indefinidamente, para seguir delinquindo sem punições. A maioria dos comandantes petistas está condenada. Outros respondem na Justiça por seus desvios. Lula segue na cadeia e transformou-se num mero espectro do poder de outrora. Não manda mais nada, não pode mais nada e fala apenas para um pequeno exército “Brancaleone”, cada dia mais ralo. Com o distanciamento dos eventos pregressos é possível notar que o pecado original da parolagem petista foi presumir que a conquista do Planalto lá atrás fazia do Brasil propriedade privada do partido para esbórnias sem fim. Ledo engano. A farra está se esgotando. O PT vive provavelmente o crepúsculo de uma antiga projeção. As artimanhas e as surradas práticas do patrimonialismo espoliador devem, com ele, sumir do cenário político. Será essa a verdadeira reviravolta.
O que será será
Muita gente me pergunta isto, nas ruas e nos aeroportos. Respondo que penso no tema todos os dias e um bom pedaço das noites. Mas não cheguei a uma conclusão que pudesse ser transmitida num diálogo telegráfico. Tudo o que consigo dizer ainda não transcende a sabedoria de um escoteiro: estar alerta.
Não temo pela sobrevivência da democracia brasileira, mas pelos arranhões e pancadas que pode levar no caminho. É um perigo que ronda a democracia em quase todos os lugares onde ela existe.

Acabamos de sair do primeiro processo de eleições disputado principalmente no território virtual das redes. Talvez seja mais reveladora do Brasil que as outras, marcadas por comícios, propaganda na TV e reuniões domésticas. Muita gente participou, compartilhando opiniões.
O processo tem alguns perigos, que já rondaram as eleições presidenciais norte-americanas. O principal deles são as fake news, cada vez mais intensas.
Fake news sempre existiram. No passado as chamávamos de boatos. Na década dos 70 o escritor alemão Hans Magnus Enzensberger escreveu um livro de ensaios com o título Política e Crime. Um dos mais interessantes capítulos é dedicado aos boatos e sua capacidade destruidora em certos momentos políticos. A diferença essencial é que o boato hoje não só circula entre milhões de pessoas, mas o faz numa rapidez incomparável com outras fases históricas.
As fake news não seriam tão assustadoras para mim se houvesse uma vontade genuína de filtrá-las. O perigo apresenta-se no fato de que para muitas pessoas a distinção entre fake news e realidade não interessa mais. E essa indiferença diante de boatos espalhados por máquinas eficazes acaba sendo uma porta aberta para o totalitarismo.
Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, um presidente não escreve o destino do país como se estivesse diante de uma folha em branco. Há instituições, às vezes precárias, é verdade, mas representam um contraponto ao poder.
Conheço as posições de Bolsonaro e seus aliados em relação ao meio ambiente. Será um osso duro de roer. Mas, ainda assim, creio que há um horizonte para o movimento ambiental. Na minha opinião, ele terá de rever suas alianças preferenciais. Foi mais fácil buscar a esquerda, sempre aberta para absorver lutas contra o sistema.
No entanto, a ciência, a grande aliada estratégica, foi subestimada. O verdadeiro encontro a ser buscado é o da ecologia com a ciência. Não importa a resistência que as ideias encontrem. Apoiadas numa lógica científica têm chance maior de se expandir na sociedade.
Marina teve uma votação muito pequena. No dia seguinte à apuração, dois economistas ganharam o Nobel com trabalhos sobre o desenvolvimento sustentável. O tema continua importante, sobretudo no mundo. A votação de Marina não expressa a irrelevância ambiental na cabeça dos eleitores brasileiros.
O momento histórico, as circunstâncias tornaram a luta contra a corrupção sistemática e a insegurança nas cidades o que realmente importava agora. No campo da segurança pública, outro osso duro de roer. Não só Bolsonaro, mas também parte de seus eleitores, aposta na posse de armas. Vejo isso de uma forma diferente, mas não tão contraditória.
Jair Bolsonaro disse no Rio que gostaria de ver a segurança funcionando como há 50 anos. É compreensível a nostalgia das ruas tranquilas. No entanto, o esforço é fazê-lo olhar para a frente, se não 50, ao menos alguns anos adiante.
As experiências que fortalecem a minha tese estão aí: a tecnologia e a ciência também são aliadas da segurança pública. No Piauí, um aplicativo trouxe mais segurança às mulheres ameaçadas. No momento em que escrevo, estou partindo para a cidade de Guararema, no interior de São Paulo. Ali vou documentar o trabalho de uma verdadeira muralha de câmeras que protegem o lugar. São 96. Há 33 meses não há um homicídio.
Deve haver alguns problemas, como de privacidade. Mas isso vou analisar no local. De qualquer maneira, é um exemplo que fortalece a tese de usar o avanço tecnológico e científico como um grande aliado da segurança pública.
Enfim teremos um novo presidente, novo grupo no governo, mas há um caminho para contrabalançar o poder emergente. Uma instituição com a qual se conta sempre, apesar de sua degradação, é o Congresso. Houve uma renovação, cujos contornos qualitativos é difícil avaliar antes de fevereiro.
A base parlamentar do governo, no momento, são as bancadas do boi, da bala e da Bíblia. Não são monolíticas, nem necessariamente concordam em tudo.
Sempre escrevi que a chamada bancada da bala é formada, parcialmente, por policiais experientes, que têm muito a dizer. A repressão armada é a linguagem que melhor entendem. No entanto, uma investigação sofisticada, um método mais científico pode despertá-los também para outro caminho, ainda incipiente no Brasil.
Na bancada ruralista há gente com mais intimidade com a natureza do que muitos ecologistas. Sua diferença é que trabalha com os fatores sobrevivência e, sobretudo, lucro. Mas com a mediação da ciência é possível algum resultado, assim como com a bancada religiosa, em alguns temas, como meio ambiente e direitos humanos - não, porém, no sentido em que os conheceram nos anos de PT.
Enfim, teremos muito trabalho para tocar o barco. Mas não é impossível. Estamos diante de uma realidade, não adianta chorar o leite derramado. O Brasil é assim, temos de nos ajeitar com ele e dar graças a Deus, porque a alternativa do autoexílio é bastante dolorosa, creio eu.
Tenho visto algumas críticas de que esse raciocínio leva a normalizar o fascismo. Na verdade, o que consideram uma aberração é resultado do voto popular. É preciso um pouco de cuidado com a realidade.
Ainda bem que haverá muito trabalho para todos. E pouco tempo para patrulhar uns aos outros.
E os pobres?
De outro lado, estão os sábios desenraizados do economismo superficial, pseudocientífico, que tem fórmulas mágicas para tudo, na educação, na ciência, na economia propriamente dita, desde que lucrativas. É evidente, pois, que os que "dão" prejuízo ou não dão lucro estão fora das cogitações políticas da nova ordem baseada no racional da iniquidade e na exclusão social e cultural.
É curioso isso. Historicamente, a sociedade brasileira reafirma o seu caráter estamental, volta sempre às desigualdades do passado, douradas por discursos ufanistas e enganadores. Procura restaurar sempre a inferioridade social do nascimento dos pobres que herdamos da dominação colonial.

A pobreza no Brasil, mais do que nunca, já ultrapassa o nível da pouca vergonha. Essa definição não é científica. Mas tampouco a miséria brasileira o é. Um quarto da população brasileira, segundo dados recentes do IBGE, vive com pouquíssimo mais de R$ 18 por dia, R$ 387,00 por pessoa por mês. Menos do que o aluguel mensal de um barraco numa favela em São Paulo. Vivem em pobreza extrema 4,2% da população, os que dependem do Bolsa Família (R$ 85/mês). Vivem com um quarto do salário mínimo per capita 12% dos brasileiros.
A população mais pobre continua concentrada no Norte e no Nordeste, regiões há meio século beneficiadas por políticas de incentivos fiscais que nelas promoveram a difusão de uma economia moderna, poupadora de mão de obra e, portanto, desenvolvedora da economia, mas não da sociedade. Quase metade da população das duas regiões ainda vive na pobreza e na extrema pobreza. São extremamente pobres mais de 7 milhões de nordestinos, mais da metade dos do Brasil.
O Brasil não conseguiu superar a indigência de políticas sociais baseadas na concepção de esmola, caso do Bolsa Família. Nesta campanha eleitoral, nenhum dos candidatos foi além de propostas de políticas sociais baseadas na concepção da dádiva, seja na economia, seja na saúde, seja na educação, seja na seguridade, seja na segurança. O que unifica as propostas é a incapacidade de formular políticas econômicas baseadas no primado dos direitos sociais.
Se os intelectuais do economismo não conseguem ir além da subdesenvolvida concepção de sociedade lucrativa às custas do abandono e do banimento de milhões de brasileiros, melhor é procurar socorro teórico em outras fontes. Há séculos as ciências criaram sua resistência ética e propriamente científica à banalidade do meramente útil e lucrativo. Deveriam criá-la também aqui. A condição humana não se reduz ao lucro a qualquer preço nem com ele se confunde. O lucro é um epifenômeno, um resultado secundário das conquistas sociais. Os países ricos só o são porque a educação os fez culturalmente ricos e socialmente justos. Não estamos conseguindo ir por aí. Queremos imitar os países ricos e dar o salto da iniquidade que minimiza a sociedade para maximizar a economia. Queremos imitar porque os que mandam em nós acham que a macaquice da imitação substitui a diligência do esforço, do estudo, do trabalho. Macaquice não é ciência nem é criação.
Somos hoje economicamente pobres porque abandonamos os grandes valores que nos foram legados pela tradição humanística civil e militar do almirante Tamandaré e do marechal Rondon, heróis da pátria, que pensavam o futuro do povo brasileiro no marco da superação das contradições da escravidão e da conquista. Ou o legado de empresários como Antônio da Silva Prado, o maior de sua época, que arquitetou o fim da escravidão como engenharia de transformação social. E Roberto Simonsen, fundador da Fiesp, que concebeu o nacional-desenvolvimentismo e a política industrialista baseada na premissa dos direitos trabalhistas e previdenciários. Anticomunista, era leitor de Karl Marx, para desespero da família, como me revelou uma sobrinha sua.
Gente que assegurou a modernização do Brasil com a modernização de sua economia sem crucificar os desvalidos, ao integrar os pobres na sociedade por meio do trabalho livre e do emprego decente.José de Souza Martins
Tudo chute

As últimas pesquisas de “intenção de votos” que estão circulando na praça dizem, em números redondos, que Jair Bolsonaro está com cerca de 60% das preferências do eleitorado, contra 40% de Fernando Haddad. Mas esperem um momento: deve haver alguma coisa errada aí. Até às vésperas da votação do primeiro turno, todas as pesquisas (e a mídia insistia muito nesse ponto: todas as pesquisas) garantiam que Bolsonaro iria perder de qualquer dos outros candidatos no segundo turno. Repetindo: de qualquer candidato. Nove em cada dez análises se fixavam na importância terminal desta informação vinda da ciência estatística. Podia se contar com diversos cenários, mas uma coisa pelo menos estava certa, acima de toda e qualquer dúvida: o candidato da direita iria perder a eleição no segundo turno, seja lá o adversário que sobrasse para a disputa com ele. Até o Meirelles? Aparentemente, não chegaram a medir a coisa nesses detalhes, mas as manchetes diziam que Bolsonaro perderia de todos os candidatos no segundo turno, e como Meirelles (ou o cabo Daciolo, ou o Boulos, ou o Amoedo, ou o Álvaro Dias etc.) eram candidatos, sempre dá para dizer, tecnicamente, que até essas nulidades iriam ganhar dele. Não aconteceu nada de extraordinário de lá para cá. Porque, então, as pesquisas preveem agora exatamente o oposto do que previam cinco minutos atrás?
Os institutos de pesquisa fariam uma especial gentileza ao público se explicassem, em umas poucas palavras compreensíveis, por que seus números devem ser levados a sério no segundo turno, se mostram agora o contrário do que mostravam no primeiro. Não conseguindo fazer isso, talvez ficasse mais simples dizer o seguinte às pessoas: “Esqueçam o que a gente deu no primeiro turno. Era tudo chute”. Chute ou torcida, tanto faz, porque uma coisa é tão ruim quanto a outra e, no fim das contas, nenhuma das duas será cobrada. Como sempre acontece, se Bolsonaro ganhar mesmo as eleições, os autores das pesquisas dirão que ficou provado o quanto eles acertaram – pois o resultado que costuma sobrar na memória é o último. Daqui a pouco, contando com esquecimento geral por parte do público, estarão propondo novas profecias para quem estiver interessado. E em 2022, ou já em 2021, prepare-se para ler que Lula está na frente de todo mundo com 50%, que Marina está subindo e Ciro Gomes começa a crescer. Bolsonaro, se for eleito agora e se candidatar à reeleição, estará com 0%. Na reta final os números serão ajustados de novo (“ocorreram mudanças no processo decisório”) e tudo continuará como sempre foi.
As pesquisas eleitorais de 2018 deixaram claro, mais que em qualquer eleição anterior, o quanto elas estão sendo incapazes de medir aquilo que está realmente na cabeça do eleitor. Foi um desastre. Dilma Rousseff foi garantida como a senadora mais votada do Brasil e ficou num quarto lugar em Minas Gerais. O senador de São Paulo Eduardo Suplicy, outro “eleito” pelas pesquisas, foi exterminado após 27 anos de Senado. Houve erros grotescos nas pesquisas para governador de Minas e Rio de Janeiro – os que acabaram colocados em primeiro lugar tinham 1% dos votos, ou nada muito diferente disso, até poucos dias antes da eleição. Geraldo Alckmin ficou com menos de 5% dos votos. Marina Silva ficou com 1%. No Nordeste, que foi citado durante seis meses seguidos como o grande celeiro de onde Lula poderia operar a sua “volta”, o PT teve 10 milhões de votos a menos que em 2014. Das sete capitais da região, perdeu em cinco. Erros deste tamanho, por mais que os institutos neguem, são sintoma de alguma coisa profundamente errada no sistema todo. Como escrito acima, tudo isso tende a cair rapidamente no esquecimento, sobretudo porque não há paciência para ficar discutindo um assunto que não interessa mais até a próxima eleição. Mas o problema não vai sumir só porque não se falará mais nele.
As pesquisas, com certeza, não conseguiram captar as correntes que se movimentam no oceano da internet e do mundo digital como um todo. Não entenderam nada sobre o peso que as redes sociais tiveram no processo eleitoral. Seus questionários podem não estar fazendo as perguntas certas, na maneira certa, na hora e no lugar certos. Na disputa nacional, o papel da propaganda obrigatória na televisão, tido como algo sagrado, mostrou que está valendo zero – e as pesquisas não estavam preparadas para isso, nem para o efeito nulo dos “debates” entre candidatos na TV, das opiniões dos comentaristas políticos e da orientação geral da mídia. Está surgindo um mundo novo por aí. Não será fácil para ninguém começar a entender como ele vai funcionar. Uma boa razão, portanto, para começar já o esforço.
Bolsonaro não receberá um cheque em branco
O principal atributo de campanhas como a de Bolsonaro, que irradiam um imaginário forte, é ter rompido com a situação anterior, dando a impressão de que nada será como antes. Não é pouca coisa. Foi à cova no primeiro turno aquele PSDB que se oferecia como polo de poder há seis sucessões. Vão à lona no segundo round o petismo e, sobretudo, o lulismo.
Bolsonaro coleciona no Datafolha 59% das intenções de votos válidos, contra 41% atribuídos a Haddad. O petismo já se dedica à produção de teorias para explicar a derrota. O exercício é tão inevitável quanto inútil, pois não produz a hecatombe que seria necessária para engolir até 28 de outubro os 18 pontos percentuais que separam o substituto de Lula do seu algoz.
Um detalhe potencializa o desafio de Bolsonaro. O resultado da eleição será marcado não pela preferência, mas pela rejeição do eleitorado. Subiu para 54% a taxa de eleitores que declaram que jamais votariam em Haddad. Quer dizer: o capitão será empurrado para a cadeira de presidente pela maior força política da temporada: o antipetismo.
O índice de rejeição a Bolsonaro diminuiu. Mas continua enorme: 41%. Significa dizer que não haverá na plateia muita gente com disposição para aplaudir um governo que não entregue rapidamente a mudança que prometeu.
Do ponto de vista econômico, a aura de Bolsonaro já tem dono: o liberalismo do economista Paulo Guedes. Que esbarrará no fisiologismo do Legislativo. Do ponto de vista político, seu governo precisa virar o sistema do avesso. Fácil de prometer. Difícil de executar.
Em condições normais, o eleitor talvez se esforçasse para distinguir políticos melhores e piores. Mas os gatunos ficaram ainda mais pardos depois que a Lava Jato transformou a política em mais uma ramificação do crime organizado. Depois que o governo empregocida de Dilma Rousseff foi sucedido pela cleptogestão de Michel Temer, a ideologia do eleitor tornou-se uma espécie de radicalismo retrógrado, movido a fúria, desinformação e inconsequência. Deu em Bolsonaro.
Jogando parado, Bolsonaro avisou que não irá a nenhum debate, embora os médicos o tenham liberado. Segundo o Datafolha, 73% dos eleitores avaliam que ele deveria duelar com Haddad diante das câmeras. Entretanto, 76% declaram que não cogitam modificar o voto por causa de debates. Nesse contexto, a fuga parece um grande negócio para o favorito. Mas essa percepção só é válida até certo ponto. O ponto de interrogação.
É verdade que há algo de sádico na forma como os candidatos são expostos, questionados, insultados e até ridicularizados nos debates. Neste segundo turno de 2018, a perversão ganharia nova dimensão, pois um dos contendores convalesce de duas cirurgias provocadas por uma facada.
Mas o sadismo não seria necessário apenas para o esclarecimento de eleitores que parecem dar de ombros para o contraditório. Valeria mais pela educação democrática que propiciaria a um candidato com pendores autocráticos. O mesmo Datafolha que coloca Bolsonaro a um milímetro da poltrona de presidente da República já revelou que sete em cada dez brasileiros enxergam a democracia como o melhor sistema de governo.
É mais uma evidência de que, eleito, Bolsonaro não vai dispor de um cheque em branco do eleitorado. Tiros para o alto ou murros na mesa não serão aceitáveis. O capitão terá de aprender a negociar. Algo que jamais fez nos seus quase 28 anos de Parlamento.
Fazer sentido
Precisamos dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céuErico Verissimo
Petismo, antipetismo e pacificação
Desde que foi criado, o petismo se dedica à criação de antagonismos, fornecendo instrumentos institucionais, organização, recursos humanos e financeiros para o lado que ocupa nos conflitos que cria e estimula. Enorme esforço tem sido despendido pelo PT para que os brasileiros sejam identificados e antagonizados pela cor da pele, pela etnia, pela cultura, pela região do país, pelo tal de gênero, pela faixa etária, pelo extrato de renda, pela relação de autoridade (pais/filhos, professor/aluno, policial/cidadão, criminoso/vítima), pela posição política e ideológica, e por tudo mais que a inventividade possa suscitar. Assim é o petismo.

Mas não é daí que vem o antagonismo. Ele surge do empenho em transformar essas realidades em conflitos nos quais a parte supostamente protegida pelo petismo é ensinada a ver a outra como inimiga. E o que é pior: sendo a ela imputadas as intenções mais vis. É o que acontece quando repetido incessantemente, por exemplo, que o PT é malvisto pela classe média porque esta não quer pobre viajando em avião ou comendo filé mignon. Ou quando se diz que o brasileiro é racista, machista e homofóbico. Ou quando se pretende, em sala de aula, contra a vigorosa reação nacional, confundir a sexualidade das crianças com ideologia de gênero como “conteúdo transversal”, vale dizer, em todas as disciplinas... Ou quando se insulta a direita liberal e/ou conservadora chamando-a de fascista. Ou quando se tenta impedir a projeção de um filme do Olavo ou uma palestra de Yoani Sanchez. Ou quando se afirma que o pobre é pobre porque o rico é rico. Ou quando, aos olhos e ouvidos da população indignada com a roubalheira promovida no país, é dito que os condenados são heróis do povo brasileiro, ou que o preso é um santo julgado por magistrados patifes. Não se diz essas coisas para um povo que foi roubado nas proporções em que os brasileiros foram! Mas o petismo diz.
Tenta-se hoje, por todos os meios, impingir à opinião pública a ideia de que liberais e conservadores “odeiam” todos aqueles cujas posições são fomentadas pelo discurso petista. No entanto, essa é mais uma vilania! A exasperação tem como causa o petismo dizendo o que diz e fazendo o que faz. É o petismo que suscita rejeição; não é o pobre, nem o negro, nem o índio, nem o homossexual, nem o esquerdista, nem sei lá mais quem.
A impressionante renovação promovida pelos eleitores em sete de outubro nada teve a ver com qualquer “efeito manada”. Bem ao contrário, significou a tomada de decisão, livre e soberana, de uma sociedade cuja opinião vinha sendo desprezada por supostos tutores confortavelmente acomodados nos espaços de poder institucional, nos grandes meios de comunicação e no ambiente cultural. A necessária pacificação nacional será difícil, porque todos sabem como se conduz o petismo quando na oposição.
quinta-feira, 18 de outubro de 2018
O abismo é outro
Pergunta que começa com “se” não tem resposta. Por isso pode parecer inútil perguntar como teria sido a corrida eleitoral de 2018 se não tivesse ocorrido o atentado contra Jair Bolsonaro, se Lula não tivesse destruído a possibilidade de uma união inicial das esquerdas, se as forças ao “centro” do espectro político tivessem identificado lá atrás qual o eixo em torno do qual se alinhou a grande maioria do eleitorado (o repúdio ao sistema e o antipetismo).
Ocorre que o exercício do contrafactual (“o que teria sido se”) é útil, sim. Antes de mais nada, serve para demonstrar que não existe o “inevitável”. Que a política é, por definição, o terreno do imponderável e do acaso. E que escolhas feitas por agentes políticos – por Lula, Bolsonaro, Fernando Henrique, Ciro, ou quem você quiser – têm a condição de alterar o rumo das coisas dentro dos grandes limites impostos, por exemplo, pela herança do passado.
Pois sendo coerente com os princípios acima, nem está “garantido” que essa onda produza os resultados que Bolsonaro simboliza neste momento e nem sabemos que capacidade de articulação e liderança políticas ele será capaz de demonstrar – diante dos desafios e das encruzilhadas nos quais o País se encontra, vencer as eleições terá sido apenas a mais fácil de todas as tarefas.
Derrotar o petismo como agremiação política não significa derrotar as ideias que o partido defende e que, na minha opinião, estão na raiz do fato de o Brasil se encontrar perigosamente preso na armadilha dos países de renda média, ter sido complacente com corrupção, atraso e taxas horrendas de criminalidade. Essas características de mentalidade não foram inventadas pelo PT, que deve grande parte de seus sucessos eleitorais justamente por representá-las tão bem.
Essa mentalidade é o que chamei no fim do segundo parágrafo deste texto de limites impostos pela herança do passado. É neste ponto – na capacidade de rebelar-se contra os limites reconhecidos – que se destacam os verdadeiros agentes políticos da mudança e das transformações capazes de alterar o rumo de acontecimentos.
Do jeito que as coisas estão, o Brasil está à beira do perigosíssimo abismo da estagnação, paralisia e mediocridade.
Não é inevitável cair nesse abismo. Depende de escolhas humanas além daquelas que já parecem ter sido feitas pelos eleitores.
Ocorre que o exercício do contrafactual (“o que teria sido se”) é útil, sim. Antes de mais nada, serve para demonstrar que não existe o “inevitável”. Que a política é, por definição, o terreno do imponderável e do acaso. E que escolhas feitas por agentes políticos – por Lula, Bolsonaro, Fernando Henrique, Ciro, ou quem você quiser – têm a condição de alterar o rumo das coisas dentro dos grandes limites impostos, por exemplo, pela herança do passado.
Sendo enorme a probabilidade de que o tsunami político que empurrou Bolsonaro o elegerá presidente, essa onda, “inevitavelmente”, nos conduzirá até onde? Parece evidente que esse fenômeno social e cultural (o embate político tem as características da “guerra cultural” de valores, não importa se a gente aplaude ou repudia o que Bolsonaro e o PT dizem) alterou fundamentalmente nossa paisagem política, dando cara e voz a um nutrido eleitorado antes disperso e desorganizado (estou evitando colocar rótulos).
É um eleitorado que desconfia da imprensa, da Justiça, da política e que tem medo, sente-se órfão das instituições, acha que seu esforço individual é torpedeado pelo Estado, pelos impostos, pela burocracia e por “eles” em Brasília, e encontrou uma resposta (se você gosta ou não, é outra conversa) na figura de Bolsonaro. O que eu algumas semanas atrás chamava de “choque de placas tectônicas” entre o desejo de mudança e a velha política parece ter produzido o rompimento de um dique político e abriu uma enorme avenida de oportunidade ao mesmo tempo em que levanta um ponto de interrogação igualmente enorme.
É um eleitorado que desconfia da imprensa, da Justiça, da política e que tem medo, sente-se órfão das instituições, acha que seu esforço individual é torpedeado pelo Estado, pelos impostos, pela burocracia e por “eles” em Brasília, e encontrou uma resposta (se você gosta ou não, é outra conversa) na figura de Bolsonaro. O que eu algumas semanas atrás chamava de “choque de placas tectônicas” entre o desejo de mudança e a velha política parece ter produzido o rompimento de um dique político e abriu uma enorme avenida de oportunidade ao mesmo tempo em que levanta um ponto de interrogação igualmente enorme.
Pois sendo coerente com os princípios acima, nem está “garantido” que essa onda produza os resultados que Bolsonaro simboliza neste momento e nem sabemos que capacidade de articulação e liderança políticas ele será capaz de demonstrar – diante dos desafios e das encruzilhadas nos quais o País se encontra, vencer as eleições terá sido apenas a mais fácil de todas as tarefas.
Derrotar o petismo como agremiação política não significa derrotar as ideias que o partido defende e que, na minha opinião, estão na raiz do fato de o Brasil se encontrar perigosamente preso na armadilha dos países de renda média, ter sido complacente com corrupção, atraso e taxas horrendas de criminalidade. Essas características de mentalidade não foram inventadas pelo PT, que deve grande parte de seus sucessos eleitorais justamente por representá-las tão bem.
Essa mentalidade é o que chamei no fim do segundo parágrafo deste texto de limites impostos pela herança do passado. É neste ponto – na capacidade de rebelar-se contra os limites reconhecidos – que se destacam os verdadeiros agentes políticos da mudança e das transformações capazes de alterar o rumo de acontecimentos.
Do jeito que as coisas estão, o Brasil está à beira do perigosíssimo abismo da estagnação, paralisia e mediocridade.
Não é inevitável cair nesse abismo. Depende de escolhas humanas além daquelas que já parecem ter sido feitas pelos eleitores.
Quem pedia uma nova ditadura militar vai ganhar uma democracia militar
Tenho dúvidas de que Deus seja brasileiro, mas considero absolutamente compreensível que escreva certo por linhas tortas. Basta conferir o que está acontecendo agora no Brasil. Depois do mensalão, do petrolão, do impeachment e da ascensão de um governo formado quase que exclusivamente por corruptos (Temer, Padilha, Moreira, Gedell, Renan, Barbalho & Cia), uma enorme parcela da sociedade começou a defender a necessidade de uma intervenção militar não prevista na Constituição. Ou seja, exigiam um novo golpe, e o faziam abertamente, sem temer a Lei de Segurança Nacional.
Aqui na “Tribuna da Internet”, essa tese do novo regime de exceção ganhou adeptos entusiasmados, que alinhavam estranhos argumentos, alegando que seria uma intervenção apenas durante algum tempo, para clarear a situação, e depois os militares devolveriam o poder aos civis, como se fosse possível uma bobagem dessas.
Aqui na “Tribuna da Internet”, essa tese do novo regime de exceção ganhou adeptos entusiasmados, que alinhavam estranhos argumentos, alegando que seria uma intervenção apenas durante algum tempo, para clarear a situação, e depois os militares devolveriam o poder aos civis, como se fosse possível uma bobagem dessas.
O certo é que, com a aproximação das eleições, houve o crescimento da candidatura do deputado Jair Bolsonaro, e tudo mudou. O movimento a favor do golpe militar foi arrefecendo à proporção que aumentava a viabilidade da candidatura do deputado-capitão, que percorria incansavelmente o interior do país, conquistando apoio local para implantar outdoors nas estradas.
Em março de 2016, quando anunciou sua pré-candidatura, era filiado ao Partido Social Cristão (PSC), mas já sabia que não lhe dariam a legenda para disputar a eleição e teria de se filiar a outro partido.
Apareceu o PEN, que para homenagear Bolsonaro até trocou de nome, passando a se chamar Patriotas. Mas o candidato acabou se desentendendo com os dirigentes e não se filiou. Continuou a campanha sozinho, até iniciar as negociações com outro partido nanico, o PSL.
O partido nem interessava a Bolsonaro, porque o importante era a mensagem de mudanças. Manteve a rotina das viagens pelo país e sua aceitação foi crescendo, de forma espantosa.
Agora, Bolsonaro se prepara para chegar ao poder e traz consigo um grupo de oficiais-generais, que o ajudaram a montar o governo. Ou seja, quem defendia um golpe militar será atendido com um governo militarista, mas eleito democraticamente, vejam como Deus escreve certo com as linhas tortas.
Pessoalmente, o editor da TI continua achando que Bolsonaro é um idiota completo, mas tem condições de fazer um grande governo, se for bem assessorado. Se isso acontecer, prometo que passaremos a classificá-lo de o idiota que deu certo e foi conduzido por divinas linhas tortas, como as usadas genialmente por Garrincha.
Agora, Bolsonaro se prepara para chegar ao poder e traz consigo um grupo de oficiais-generais, que o ajudaram a montar o governo. Ou seja, quem defendia um golpe militar será atendido com um governo militarista, mas eleito democraticamente, vejam como Deus escreve certo com as linhas tortas.
Pessoalmente, o editor da TI continua achando que Bolsonaro é um idiota completo, mas tem condições de fazer um grande governo, se for bem assessorado. Se isso acontecer, prometo que passaremos a classificá-lo de o idiota que deu certo e foi conduzido por divinas linhas tortas, como as usadas genialmente por Garrincha.
O genocídio laboral de toda uma geração
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| Kazimir Malevich |
Se compararmos o exemplo artístico de envolvimento entre labor e lazer com a nossa própria experiência percebemos que algo está errado com a forma como trabalhamos. Se desejamos que termine porque nos está a destruir, não trabalhamos de forma correta nem saudável. Provavelmente o que está mais profundamente errado no sistema laboral tradicional prende-se com a exigência de elevadíssima produtividade. Esta não é amiga da perfeição porque não respeita o amadurecimento das ideias nem o resultado do processo laboral. Precisamos de trabalhar mais lentamente, com menos pressão, para que o trabalho não nos transforme numa bigorna do mercado.
No outro dia li na Imprensa que dos jovens trabalhadores recentemente entrados para o mercado de trabalho se exige que sejam capazes de trabalhar sob grande pressão, argumentado que esse tipo de exercício desenvolve as capacidades de raciocínio. Esbocei um sorriso cínico e doído. As organizações económicas e sociais sabem produzir os discursos que melhor servem os seus objetivos. Os discursos funcionam porque as ideias muito repetidas tornam-se verdades para quem ouve, sem tempo para pensar nas consequências, quanto mais nas origens, mas uma verdade-falsa nunca passará de uma mentira, por vezes de um crime de genocídio de toda uma geração.
Ele ganha. E como governa?
Há eleitores que estão assustados com a falta de segurança. E não gostam das lideranças e movimentos que criticam a ação da polícia quando esta se mete em confrontos e mata bandidos. Acham que é preciso mais e não menos polícia. Mas não são justiceiros. São pessoas que têm medo de sair de casa, ficam preocupadas com os parentes que demoram a voltar. Assim, compram o discurso que a polícia precisa endurecer, mesmo que Bolsonaro não diga como será a política de segurança. Também aprovam a redução da maioridade penal e uma maior liberação da posse de armas.
Mas, atenção, não são pessoas que estão prontas para comprar armas e sair matando bandido. Lembram-se do referendo do desarmamento? Uma imensa maioria manifestou-se contra a proibição da venda de armas. E não houve aumento na venda de armas.
Há uma classe média que está farta do peso do Estado e do governo em suas vidas. Gente que não consegue abrir um negócio legalmente sem pagar propinas ou mesmo sem pagar taxas abusivas antes de começar a trabalhar. Gente que paga imposto demais e ainda percebe que precisa colocar seus filhos em escola particular e comprar plano de saúde.
Há também na onda Bolsonaro os eleitores liberais no sentido amplo da palavra: liberais na política, na economia e nos costumes. Na economia, pedem um Estado menor e mais espaço para a iniciativa privada. Na política, apoiam as posições e grupos independentes de partidos. Nos costumes, não é que sejam contra a “agenda progressista” (raça, gênero, etc.), mas acham que o Estado não tem que se meter nisso e deixar que cada um resolva como quiser o seu modo de vida. Ou seja, são contra a imposição daquela agenda, ou por lei (cotas, por exemplo, que consideram injustas) ou por pressão das elites e formadores de opinião. Mas frequentemente, são favoráveis a agendas como a liberação da maconha.
Mas há também eleitores que simplesmente estão cansados da agenda progressista. Acham que não tem nada a ver com o dia a dia. Querem saber de emprego e bons serviços públicos.
Há ainda uma maioria difusamente conservadora, pela família, religião, Brasil. E que se assusta com a “libertinagem” da sociedade moderna e do que considera coisa das elites que não trabalham.
E, claro, os antipetistas, antipolíticos, anticorrupção – vertente na qual cabem todas as anteriores. Aqui encontram-se eleitores que dizem: não precisa de reforma da previdência, nem aumentar impostos, nem cortar gastos, nada; basta eliminar a roubalheira e os privilégios dos políticos.
Tudo considerado, essa grande maioria não é formada por fascistas, homofóbicos, autoritários ou violentos. Há os radicais, perigosos, certamente, mas no geral são pessoas de bem, que pouco a pouco foram ficando fartas de um país que não deslancha, que não cria bons empregos. Estão cansadas de viver em cidades em que passar perto de um tiroteio, ter o carro roubado ou ser assaltado na rua é tão normal que nem vale a pena chamar a polícia. Deve-se incluir aí uma classe média mais rica, assustada com a escassez de oportunidades para seus filhos.
Como esse povo todo foi parar em Bolsonaro? Por pura falta de opção.
Mais ainda: as pessoas, cada uma de seu lado, reconhecem as carências de seu candidato. “Sim, ele é fraco, mas se a gente aguentou tanto tempo o PT …” já me disseram.
Outras ainda têm certeza que sua agressividade é da boca para fora, que não haverá ameaça à democracia e à liberdade das pessoas.
Resulta daí um enorme problema. Com essa massa, Bolsonaro ganha a eleição, mas terá dificuldades para governar. Ele certamente está sendo eleito para fazer e para não fazer a reforma da previdência. Para privatizar e para estatizar – só para citar dois pontos cruciais. Ou seja, o governo vai incluir e excluir eleitores. E ainda não se sabe como.
Quase metade da população mundial vive abaixo da linha da pobreza
Segundo um relatório da organização sediada em Washington, 3,4 bilhões de pessoas, ou 46% da população mundial, vivem com menos de 5,50 dólares por dia – a quantia limite para uma situação de pobreza em países de renda média-alta, como o Brasil.
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| Brasil da miséria |
Em nações de renda média-baixa, estar abaixo da linha da pobreza significa viver com menos de 3,20 dólares diários. Segundo o Banco Mundial, mais de 1,9 bilhão de pessoas – ou 26,2% da população mundial – têm renda inferior a essa quantia.
Embora ainda "inaceitavelmente alta", a contagem total de pessoas vivendo na pobreza foi reduzida em mais de 68 milhões de cidadãos entre 2013 e 2015, "um número aproximadamente equivalente à população da Tailândia ou do Reino Unido", afirmou o relatório.
Além disso, a renda dos 40% mais pobres aumentou em 70 dos 91 países analisados pela instituição. Em mais de metade das economias, a renda dessa parte da população cresceu mais do que a média, o que significa que estão recebendo uma parcela maior dos rendimentos econômicos.
No Brasil, o índice de cidadãos abaixo da linha da pobreza foi menor do que a proporção global. Cerca de um quarto da população do país – ou 50 milhões de pessoas – vive abaixo desse limite, o que corresponde a uma renda mensal de 614 reais.
A proporção é semelhante na América Latina e no Caribe, onde 26% dos cidadãos têm renda diária inferior a 5,50 dólares, e 11% vivem com menos de 3,20 dólares. Segundo o relatório, a pobreza na região está mais associada a aspectos não monetários, como a falta de acesso a água potável, saneamento básico e eletricidade.
A região da Ásia Oriental e do Pacífico teve os melhores resultados em matéria de prosperidade compartilhada: a renda dos 40% mais pobres aumentou, em média, 4,7% entre 2010 e 2015.
Muitos países da Europa e da Ásia Central, por outro lado, sofreram recuos no crescimento dos rendimentos dos 40% mais pobres, principalmente por causa da crise financeira e do aumento da dívida, explicou o Banco Mundial.
Ainda assim, a região apresentou a porcentagem mais baixa de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Contudo, em relação ao acesso à educação, o desempenho foi pior do que em regiões como Ásia Oriental e Pacífico ou América Latina e Caribe.
Já a África subsaariana é a região com o maior número de pessoas vivendo na pobreza. Sua população quase duplicou entre 1990 e 2015, sendo que um dos maiores aumentos se deu entre as pessoas que vivem com menos de 3,20 dólares por dia.
O relatório destaca, porém, um avanço importante em nível global: menos pessoas vivem hoje em situação de pobreza extrema, ou seja, com menos de 1,90 dólar por dia. A proporção caiu de 36% da população mundial em 1990 para 10% em 2015.
"Erradicar a pobreza extrema até 2030 e promover a prosperidade compartilhada são os nossos objetivos, e continuamos comprometidos com eles", afirmou o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, em comunicado.
Deutsche Welle
'Ótoridade' de manda-chuva
Só o capitão poderá levar o deputado a perder a eleição

A pesquisa do Instituto Datafolha (59% contra 41%) já disse tudo. O brasileiro está de saco cheio do PT e, em grau igual, do PSDB (que sucumbiu e terá que ter forças para voltar a ser o que foi), mas, sobretudo, dessa narrativa demagógica e desonesta que diz a todo instante que Lula é preso político e o impeachment de Dilma foi golpe de Estado. Os mineiros, nas urnas, já desfizeram parte dessa narrativa e mudaram o rumo da ex-presidente, que sonhou com a ida para o Senado como mais uma representante de Minas. O duro castigo veio a cavalo.
Não teria sido melhor para o PT, mas, principalmente, para Fernando Haddad, seu candidato, reconhecer a verdade? Não seria melhor que já tivessem feito um exame público de consciência? Não é possível que nunca se toquem pelo mal que fizeram ao país! As acusações contra Lula constam de processo que obedeceu ao princípio do contraditório. Nele atuaram acusação e defesa, e esta através de advogados competentes – por sinal, aliás, muito bem remunerados. O impeachment de Dilma também passou por análises políticas e jurídicas.
Ah!, dizem os eternos defensores do líder/ideia, nossa Justiça não vale uma pataca furada! É corrupta, incompetente e injusta. Mas como, se Lula foi julgado por vários juízes, que se fundaram, para proferir sentença, em provas à mão cheia? As provas de corrupção, no seu governo e nos do “poste” que elegeu, não lhes bastam?
A atuação criminosa de Lula foi a maior responsável pelo surgimento da onda de antipetismo e, ao mesmo tempo, pelo desejo de alternância no poder, que é princípio indispensável ao regime democrático. Para conquistá-la, os eleitores disseram, nas urnas, que ela não depende em nada do eleito: “Se Bolsonaro não acertar, o tiraremos daqui a quatro anos. O que não se pode tolerar mais é essa comilança por parte dos atuais donos do poder”, disse-me um motorista de táxi.
Grande parte da classe média, responsável pelas eleições de Lula e Dilma, não tolera mais as agressões. E é a ela que a filósofa Marilena Chauí despejou incríveis xingatórios, no lançamento do livro “Dez Anos de Governos Pós-liberais: Lula e Dilma”. Disse, em gritos, que “odeia a classe média”. Disse que “a classe média é uma abominação política porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta e é uma abominação cognitiva porque é ignorante”.
Agora, tomem! Haddad, antes considerado “um bom quadro do PT” (por gente fora do PT, pois lá dentro nunca teve esse conceito, era considerado “tucano”), demonstrou sua pusilanimidade diante do presidiário de Curitiba. Quis desdizer o passado e apagar os malfeitos através de providências primárias de marketing político. Só conseguiu provar, com clareza, que esse instrumento é um desperdício nas eleições. Tornam-nas caras e facilitam o desvio de dinheiro público.
“E agora, José?”
quarta-feira, 17 de outubro de 2018
Vingança dos irmãos Gomes mostra ao PT que empulhação eleitoral tem limites
Ciro se picou para a Europa, e Cid usou toda a elegância típica do clãpara enterrar de vez o cadáver natimorto da tal "frente democrática" —a predileção do PT pelo monopólio da moral pública enquanto exerce prestidigitação é comovente.
Nada mais previsível. Mesmo quando, lá em 1815, Ciro e Fernando Haddad se encontraram para uma conversa que acendeu esperanças naqueles desejosos de ver algo que não fosse visto como uma candidatura teleguiada da cadeia por Lula, o teatro era ilusório.
Ciro não toparia ser vice de Haddad e vice-versa. Simples assim. O pedetista até acalentou o sonho, animado por Jaques Wagner e outros, de que Lula poderia apoiá-lo. Durou até o petista arrancar o PSB de seus braços, ofertando a cabeça de Marília Arraes em troca, um ótimo negócio para os pessebistas de Pernambuco ao fim.
Já Lula fez o que pôde, manteve seu pedaço fidelizado de eleitorado, manteve cidadelas nordestinas e garantiu a robustez possível para sua bancada federal sobreviver em temos incertos e fragmentários no Legislativo. Ser oposição a uma figura como Bolsonaro é oportunidade de sobrevida do partido, semelhante ao gás que o fracasso do governo Temer após o impeachment lhe deu.
Haddad, bom, Haddad está hoje muito perto de voltar a dar aulas, após cumprir o roteiro humilhante que lhe foi dado.
Se o campo conservador encarnado em partidos tradicionais foi destroçado pela onda Bolsonaro por incompetência de leitura da realidade, o PSDB que o diga, não se pode achar nada muito melhor da esquerda liderada pelo PT.
Apesar do entusiasmo de gente de boa fé, assustada com tudo de regressivo que vem associado a Bolsonaro, o partido foi o de sempre na costura da tal "frente democrática", aspas compulsórias. Agiu como bedel moral do eleitor, atribuindo o voto ao deputado do PSL apenas a uma bem fabricada campanha de "fake news". Esperou olimpicamente que todos os progressistas do país se unissem e virassem o jogo, desde que sob seu comando pois afinal chegou ao segundo turno.
Não deu certo de saída. Aí não adianta nada beijar a cruz constitucional na Globo, ir papar hóstia no dia de Aparecida, atenuar a Manuela, ter a Gleisi a defender adoção de outras bandeiras, cortar o Lula da campanha e dar uma mão de verde e amarelo sobre a parede vermelha.
É tarde, muito tarde. O eleitor pode ser enganado e é demonstrável que isso ocorre em praticamente todas as eleições, mas há limites para a empulhação em espaço tão curto de tempo. O que Ciro começou e Cid terminou, noves fora a vingança, foi apenas um lembrete disso tudo.
Nada mais previsível. Mesmo quando, lá em 1815, Ciro e Fernando Haddad se encontraram para uma conversa que acendeu esperanças naqueles desejosos de ver algo que não fosse visto como uma candidatura teleguiada da cadeia por Lula, o teatro era ilusório.
Ciro não toparia ser vice de Haddad e vice-versa. Simples assim. O pedetista até acalentou o sonho, animado por Jaques Wagner e outros, de que Lula poderia apoiá-lo. Durou até o petista arrancar o PSB de seus braços, ofertando a cabeça de Marília Arraes em troca, um ótimo negócio para os pessebistas de Pernambuco ao fim.
Agora é relatório de danos. Ciro saiu maior politicamente do pleito, embora em fatia de eleitorado tenha basicamente repetido seus desempenhos de 1998 e 2002. Por outro lado, vai ter trabalho para manter-se na ribalta política sem mandato ou cargo —haja meme.
Já Lula fez o que pôde, manteve seu pedaço fidelizado de eleitorado, manteve cidadelas nordestinas e garantiu a robustez possível para sua bancada federal sobreviver em temos incertos e fragmentários no Legislativo. Ser oposição a uma figura como Bolsonaro é oportunidade de sobrevida do partido, semelhante ao gás que o fracasso do governo Temer após o impeachment lhe deu.
Haddad, bom, Haddad está hoje muito perto de voltar a dar aulas, após cumprir o roteiro humilhante que lhe foi dado.
Se o campo conservador encarnado em partidos tradicionais foi destroçado pela onda Bolsonaro por incompetência de leitura da realidade, o PSDB que o diga, não se pode achar nada muito melhor da esquerda liderada pelo PT.
Apesar do entusiasmo de gente de boa fé, assustada com tudo de regressivo que vem associado a Bolsonaro, o partido foi o de sempre na costura da tal "frente democrática", aspas compulsórias. Agiu como bedel moral do eleitor, atribuindo o voto ao deputado do PSL apenas a uma bem fabricada campanha de "fake news". Esperou olimpicamente que todos os progressistas do país se unissem e virassem o jogo, desde que sob seu comando pois afinal chegou ao segundo turno.
Não deu certo de saída. Aí não adianta nada beijar a cruz constitucional na Globo, ir papar hóstia no dia de Aparecida, atenuar a Manuela, ter a Gleisi a defender adoção de outras bandeiras, cortar o Lula da campanha e dar uma mão de verde e amarelo sobre a parede vermelha.
É tarde, muito tarde. O eleitor pode ser enganado e é demonstrável que isso ocorre em praticamente todas as eleições, mas há limites para a empulhação em espaço tão curto de tempo. O que Ciro começou e Cid terminou, noves fora a vingança, foi apenas um lembrete disso tudo.
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