quarta-feira, 20 de abril de 2016
Onde está a certeza?
O certo — diz uma voz dentro de mim neste histórico domingo, 17 de abril, é uma coisa, a certeza é outra. Será preciso começar fazendo essa distinção.
O certo persegue a certeza, sendo a razão imperativa para que as certezas criem convicções e engendrem ações generosas e positivas para o Brasil.
O certo é simples: nenhuma coletividade de massa nesta era de simultaneidades planetárias e digitalização global as quais engendram uma absoluta transparência pode ser infantilizada pela negação de um claro plano de poder tocado a uma vergonhosa, e quase sempre quixotesca corrupção, a qual acabou por devastar economicamente o Brasil. Realmente, um plano de poder aliado a uma ética dos fins justificando os meios liquidou estatais e fundos de pensão, levou à bancarrota bancos oficiais e, pela ladroagem, transformou funcionários em milionários, ladrões e empresários em símbolos de vileza para seus ilustres clãs políticos e familiares.
Se o alvo era o demonizado capitalismo e um mundo igualmente cruel, o tiro saiu pela culatra, pois ao fim e ao cabo o que houve foi pretender legitimar ladrões como salvadores da pátria. O maior deles, o chefe, Lula da Silva, começou repetindo a imagem do pai dos pobres para ser mais do que a mãe dos ricos, pois é hoje o compadre de um rol de empresários cujo cartel virou um clube de propinas. Esse sinistro capitalismo foi usado para abrir abençoadas contas no exterior e promover financiamentos a países vizinhos reforçando seus governos autoritários.
O povo pode ser bobo, mas não é palhaço. O povo, como se viu domingo, não aceitou ser o filho bastardo de um governo lulopetista que se postava como pai e, depois, mãe, mas que dele abusava de modo incestuoso, roubando-lhe os recursos. A genitora inventada pelo pai-salvador revelou-se dona de mais impaciência e ausência de noção do seu papel do que de amor materno. Postava-se como mãe sem, entretanto, ter o coração materno da famosa canção imortalizada por Vicente Celestino.
Política tem muito de ética pessoal, mas não é família ou casa-grande. Um país é uma casa e senzala, embora seja moradia. Alugá-lo a incompetentes cínicos que admitem terem comido muito mel ao ponto de melarem-se todos é, mais do que uma realidade, é um insulto.
E o povo que usa expletivos como conceitos filosóficos — existe algo mais complexo que explicar o significado de f.d.p ou de um p.q.p? — revelou a sua vontade e o seu pensamento selvagem levi-straussiano, quando vimos a tribo que domingo podou o poder político lulopetista, dando o primeiro passo para afastá-lo do palácio e do imenso aparelho que ele cuidadosamente construiu.
Estou sendo golpista? Para alguns sim. Para quem sabe do meu caráter, não. Não tergiverso com minha honestidade e não vendo minha alma ao diabo na forma de pedidos, favores e dinheiro. Meu nariz está limpo porque jamais ajoelhei para lamber um traseiro ou solicitei um empenho. Quando, um dia, me perguntaram “O que você quer?”, disse sem tremer: “Nada!”
Nessa rede de elos familiares e de simpatias que o ritual de domingo deu provas contundentes, eu jamais entrei. Estudando Brasil eu vi o peso dos favores na condução de nossos projetos de modernização igualitária e encareço aos que desejam real e firmemente mudar o Brasil que prestem atenção a essa trama do dar-para-receber que não amadurece, mas infantiliza. Que não engendra cidadãos responsáveis, mas devedores e, no limite, subserviências. E o faz sem saber, mas sabendo — maldosa e inocentemente.
O que vi domingo foi um grito esperançoso de maturidade com todo o bom humor possível diante dos mais reacionários que, negando o real, recitavam o mantra do ilegal para um ritual que paradoxal e brasileiramente, pois era obviamente legítimo e certo, embora tivesse raízes nos dentes podres com os quais todos — todos! — comemos nossas carniças.
Foi um ritual do mesmo naipe dos estelionatos eleitorais, dos quartos neuroticamente secretos onde aquele sujeito da Petrobras guardava como um Ali Babá os tesouros roubados. Foi uma prova de como o ilegítimo é legal tal como as propriedades do ex-presidente Lula são dos seus amigos do coração.
Foi um passo para a maturidade e para o casamento do ético com o legal. Mas, como estou cansado de testemunhar tal movimento, pois fiz parte dos “conscientizados” da esquerda brasileira, posso ter certeza, mas não estar certo.
Roberto DaMatta
O certo persegue a certeza, sendo a razão imperativa para que as certezas criem convicções e engendrem ações generosas e positivas para o Brasil.
O certo é simples: nenhuma coletividade de massa nesta era de simultaneidades planetárias e digitalização global as quais engendram uma absoluta transparência pode ser infantilizada pela negação de um claro plano de poder tocado a uma vergonhosa, e quase sempre quixotesca corrupção, a qual acabou por devastar economicamente o Brasil. Realmente, um plano de poder aliado a uma ética dos fins justificando os meios liquidou estatais e fundos de pensão, levou à bancarrota bancos oficiais e, pela ladroagem, transformou funcionários em milionários, ladrões e empresários em símbolos de vileza para seus ilustres clãs políticos e familiares.
Se o alvo era o demonizado capitalismo e um mundo igualmente cruel, o tiro saiu pela culatra, pois ao fim e ao cabo o que houve foi pretender legitimar ladrões como salvadores da pátria. O maior deles, o chefe, Lula da Silva, começou repetindo a imagem do pai dos pobres para ser mais do que a mãe dos ricos, pois é hoje o compadre de um rol de empresários cujo cartel virou um clube de propinas. Esse sinistro capitalismo foi usado para abrir abençoadas contas no exterior e promover financiamentos a países vizinhos reforçando seus governos autoritários.
Política tem muito de ética pessoal, mas não é família ou casa-grande. Um país é uma casa e senzala, embora seja moradia. Alugá-lo a incompetentes cínicos que admitem terem comido muito mel ao ponto de melarem-se todos é, mais do que uma realidade, é um insulto.
E o povo que usa expletivos como conceitos filosóficos — existe algo mais complexo que explicar o significado de f.d.p ou de um p.q.p? — revelou a sua vontade e o seu pensamento selvagem levi-straussiano, quando vimos a tribo que domingo podou o poder político lulopetista, dando o primeiro passo para afastá-lo do palácio e do imenso aparelho que ele cuidadosamente construiu.
Estou sendo golpista? Para alguns sim. Para quem sabe do meu caráter, não. Não tergiverso com minha honestidade e não vendo minha alma ao diabo na forma de pedidos, favores e dinheiro. Meu nariz está limpo porque jamais ajoelhei para lamber um traseiro ou solicitei um empenho. Quando, um dia, me perguntaram “O que você quer?”, disse sem tremer: “Nada!”
Nessa rede de elos familiares e de simpatias que o ritual de domingo deu provas contundentes, eu jamais entrei. Estudando Brasil eu vi o peso dos favores na condução de nossos projetos de modernização igualitária e encareço aos que desejam real e firmemente mudar o Brasil que prestem atenção a essa trama do dar-para-receber que não amadurece, mas infantiliza. Que não engendra cidadãos responsáveis, mas devedores e, no limite, subserviências. E o faz sem saber, mas sabendo — maldosa e inocentemente.
O que vi domingo foi um grito esperançoso de maturidade com todo o bom humor possível diante dos mais reacionários que, negando o real, recitavam o mantra do ilegal para um ritual que paradoxal e brasileiramente, pois era obviamente legítimo e certo, embora tivesse raízes nos dentes podres com os quais todos — todos! — comemos nossas carniças.
Foi um ritual do mesmo naipe dos estelionatos eleitorais, dos quartos neuroticamente secretos onde aquele sujeito da Petrobras guardava como um Ali Babá os tesouros roubados. Foi uma prova de como o ilegítimo é legal tal como as propriedades do ex-presidente Lula são dos seus amigos do coração.
Foi um passo para a maturidade e para o casamento do ético com o legal. Mas, como estou cansado de testemunhar tal movimento, pois fiz parte dos “conscientizados” da esquerda brasileira, posso ter certeza, mas não estar certo.
Roberto DaMatta
Temer e a ditadura da corrupção
“Não entram na minha cabeça todos esses zeros da corrupção”, me diz o servente de pedreiro, Elton John, que trabalha em uma obra do Rio, mexendo com argamassa o dia inteiro, faça chuva faça sol.
Para ele, um milhão, que é troco para os políticos corruptos, já é uma cifra das galáxias.
Eu o entendo quando, depois de me informar quanto ganha por mês, lhe expliquei que um milhão de reais é o que ele receberia trabalhando durante oitenta anos. Olhou-me espantado e exclamou: “Tudo isso?”.
Se Temer chegar a assumir a Presidência da República vai logo precisar convencer a sociedade de que não só tentará boicotar, embora isso seja feito nos bastidores e nas sombras, a ditadura da corrupção, como a combaterá com maior rigor que seus antecessores.
Será possível para ele semelhante proeza com o respaldo que vai ter no Congresso dos deputados e senadores abertamente incriminados na Lava Jato?
Pode ser que até os mercados o perdoassem. É possível que forças importantes de poderes fáticos assim exijam. Os cidadãos seriam os únicos que nunca o perdoariam, a começar pelos que hoje abandonam, às vezes com um rompimento doloroso, o PT, acusado, mais do que ter quebrado a economia, de ter-se convertido em um partido tão corrupto ou mais que os outros.
Temer terá de prestar contas de como pensa combater a ditadura da corrupção implantada no Brasil e que a sociedade coloca nas pesquisas como sua maior preocupação.
Sim, a ditadura da corrupção, porque existem as ditaduras militares, de esquerda ou de direita, mas também as sociais e éticas.
As militares matam e torturam e despojam os cidadãos de suas liberdades. A ditadura da corrupção golpeia também não só simbolicamente, mas física e moralmente.
Quando os cidadãos que trabalham duro para levar adiante sua família e seus sonhos dão de cara com a ditadura da corrupção, abraçada pelos políticos, se sentem também moralmente torturados.
A ditadura da corrupção golpeia também fisicamente, já que esses bilhões de dólares roubados da sociedade são subtraídos da saúde, que acaba produzindo, nos hospitais sem recursos, dor e morte. Não por acaso os mais pobres são os mais indignados com os políticos corruptos.
A ditadura da corrupção fere e mata, física e psicologicamente, os milhões de pessoas golpeadas pelo drama do desemprego ou afogadas em dívidas. Ou as que ficarão culturalmente inválidos por toda a vida por terem sido castigados com um ensino que não os prepara para enfrentar o futuro.
Se Temer veio para dar o golpe fatal à luta contra a corrupção, melhor que, antes que seja tarde, diga também ele aos que o empurram a essa triste aventura: “Tchau, queridos”.
A sociedade lhe agradeceria.
Para ele, um milhão, que é troco para os políticos corruptos, já é uma cifra das galáxias.
Eu o entendo quando, depois de me informar quanto ganha por mês, lhe expliquei que um milhão de reais é o que ele receberia trabalhando durante oitenta anos. Olhou-me espantado e exclamou: “Tudo isso?”.

Será possível para ele semelhante proeza com o respaldo que vai ter no Congresso dos deputados e senadores abertamente incriminados na Lava Jato?
Pode ser que até os mercados o perdoassem. É possível que forças importantes de poderes fáticos assim exijam. Os cidadãos seriam os únicos que nunca o perdoariam, a começar pelos que hoje abandonam, às vezes com um rompimento doloroso, o PT, acusado, mais do que ter quebrado a economia, de ter-se convertido em um partido tão corrupto ou mais que os outros.
Temer terá de prestar contas de como pensa combater a ditadura da corrupção implantada no Brasil e que a sociedade coloca nas pesquisas como sua maior preocupação.
Sim, a ditadura da corrupção, porque existem as ditaduras militares, de esquerda ou de direita, mas também as sociais e éticas.
As militares matam e torturam e despojam os cidadãos de suas liberdades. A ditadura da corrupção golpeia também não só simbolicamente, mas física e moralmente.
Quando os cidadãos que trabalham duro para levar adiante sua família e seus sonhos dão de cara com a ditadura da corrupção, abraçada pelos políticos, se sentem também moralmente torturados.
A ditadura da corrupção golpeia também fisicamente, já que esses bilhões de dólares roubados da sociedade são subtraídos da saúde, que acaba produzindo, nos hospitais sem recursos, dor e morte. Não por acaso os mais pobres são os mais indignados com os políticos corruptos.
A ditadura da corrupção fere e mata, física e psicologicamente, os milhões de pessoas golpeadas pelo drama do desemprego ou afogadas em dívidas. Ou as que ficarão culturalmente inválidos por toda a vida por terem sido castigados com um ensino que não os prepara para enfrentar o futuro.
Se Temer veio para dar o golpe fatal à luta contra a corrupção, melhor que, antes que seja tarde, diga também ele aos que o empurram a essa triste aventura: “Tchau, queridos”.
A sociedade lhe agradeceria.
Do ABC aos grotões
O mapa da votação na Câmara Federal aponta uma dessas ironias da História. No seu nascedouro, no ABC paulista, o lulopetismo pintou como produto da modernidade do desenvolvimento capitalista - a exemplo de outros partidos operários que se erigiram em poder em países capitalistas e, de fato, criaram um ordenamento social mais justo.
Treze anos depois de ser governo, e no momento mais dramático da crise terminal de seu projeto de poder, o lulopetismo tem suas casamatas nas unidades da federação menos desenvolvida, onde a dependência do Estado marca a ferro e fogo a população e seus representantes, os parlamentares.
A ironia é exatamente essa: o partido que se propunha ser a força transformadora da sociedade é hoje um partido não mudancista e atrasado, perpetuador da forma ossificada de se fazer política. Está de costas para o agronegócio, para a economia real e seus trabalhadores e para a classe média moderna - urbana e rural. Isto explica porque os melhores desempenhos eleitorais da presidente Dilma Rousseff foram no Nordeste e em Estados governados pelo PT.
Aonde o capitalismo chegou e se instalou plenamente, o Partido dos Trabalhadores perdeu substância. Hoje exerce influência nos movimentos sociais ainda não incorporados à economia moderna, como o MST, principalmente o do Nordeste e Norte, onde a bandeira da reforma agrária ainda tem apelo, e nos excluídos da modernização urbana; como o exército de subproletariado do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.
Para entender este definhamento, essa transmutação em um “partido dos grotões” e dos “bolsões de miséria” há que se mergulhar no tempo.
Para chegar ao poder, Lula selou um contrato, através da Carta aos Brasileiros. Elegeu-se acenando com um jogo de ganha-ganha. Verdade que os de cima ganharam bem mais e aos de baixo sobrou a menor parte do bolo: a ampliação da rede social de proteção e dos programas sociais distributivistas.
A luz amarela acendeu para as classes médias urbanas, com o escândalo do mensalão. Ali trincou o cristal. As camadas médias começaram a perceber o engodo do discurso do “é diferente de tudo que está aí”. Descobriram que o PT fez coisa muito pior, inovou em matéria de assalto à coisa pública.
O boom das commodities permitiu Lula ir em frente. Tudo ia bem no país das maravilhas. Ali por 2010, as aparências, essa face enganosa das coisas, indicavam o Brasil como o grande país emergente, estável econômica e politicamente, com status de reivindicar um assento no Conselho de Segurança da ONU e futura sede de dois eventos mundiais: a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas 2016.
A autoestima do brasileiro estava lá em cima, como demonstra as palavras de um jovem, em uma entrevista de 2011: “O Brasil está muito mais posicionado no mundo do que estava há alguns anos. É uma valorização daquilo que é brasileiro, voltado para o Brasil. Isso faz com que essa geração tenha um sentimento muito maior de ser brasileiro”.
O gigante tinha pés de barro.
A bolha das commodities passou. O lulopetismo desperdiçou uma oportunidade de ouro para universalizar os direitos sociais básicos - saúde, educação e saneamento - e promover a cidadania dos excluídos. Em 2013, a sociedade deu seu recado quanto à sua insatisfação e seu cansaço com a baixa qualidade dos serviços públicos e com a forma de se fazer política no país, cujas mazelas foram elevadas ao infinito nos governos Lula-Dilma.
Nas eleições de 2014 já era visível o deslocamento de parte substantiva da sociedade, particularmente nos polos desenvolvidos do país. Dilma perdeu a eleição até mesmo no “cinturão vermelho” do entorno de São Paulo e na outrora cidadela do petismo, o ABC paulista.
O arrefecimento da crise ética, econômica e política destes dois últimos anos horizontalizou o fosso entre o lulopetismo e a sociedade. Ele não se resume apenas às camadas médias, perpassa todas as classes sociais e todas as regiões. Há uma coincidência interessante a ser observada. Em média, o governo Dilma é desaprovado por algo e m torno de 70% a 75% dos brasileiros. Pois bem, a presidente foi derrotada na Câmara por 73% dos deputados.
A conclusão do enrosco é que Lula e Dilma prestaram enorme desserviço à própria esquerda. Jogaram o pêndulo da sociedade para a direita, tiraram da toca a extrema direita, que estava sem espaço desde a democratização de 1985. Serão necessários v& aacute;rios anos para que um novo projeto de esquerda, mesmo de uma esquerda democrática, galvanize o conjunto da sociedade.
Não há dois Brasis, um avançado e outro atrasado. Não são dois rios distintos que jamais se encontram. Corremos todos no mesmo leito. E é impossível um “partido dos grotões” impedir o curso das águas.
Treze anos depois de ser governo, e no momento mais dramático da crise terminal de seu projeto de poder, o lulopetismo tem suas casamatas nas unidades da federação menos desenvolvida, onde a dependência do Estado marca a ferro e fogo a população e seus representantes, os parlamentares.
A ironia é exatamente essa: o partido que se propunha ser a força transformadora da sociedade é hoje um partido não mudancista e atrasado, perpetuador da forma ossificada de se fazer política. Está de costas para o agronegócio, para a economia real e seus trabalhadores e para a classe média moderna - urbana e rural. Isto explica porque os melhores desempenhos eleitorais da presidente Dilma Rousseff foram no Nordeste e em Estados governados pelo PT.
Aonde o capitalismo chegou e se instalou plenamente, o Partido dos Trabalhadores perdeu substância. Hoje exerce influência nos movimentos sociais ainda não incorporados à economia moderna, como o MST, principalmente o do Nordeste e Norte, onde a bandeira da reforma agrária ainda tem apelo, e nos excluídos da modernização urbana; como o exército de subproletariado do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.
Para entender este definhamento, essa transmutação em um “partido dos grotões” e dos “bolsões de miséria” há que se mergulhar no tempo.
Para chegar ao poder, Lula selou um contrato, através da Carta aos Brasileiros. Elegeu-se acenando com um jogo de ganha-ganha. Verdade que os de cima ganharam bem mais e aos de baixo sobrou a menor parte do bolo: a ampliação da rede social de proteção e dos programas sociais distributivistas.
A luz amarela acendeu para as classes médias urbanas, com o escândalo do mensalão. Ali trincou o cristal. As camadas médias começaram a perceber o engodo do discurso do “é diferente de tudo que está aí”. Descobriram que o PT fez coisa muito pior, inovou em matéria de assalto à coisa pública.
O boom das commodities permitiu Lula ir em frente. Tudo ia bem no país das maravilhas. Ali por 2010, as aparências, essa face enganosa das coisas, indicavam o Brasil como o grande país emergente, estável econômica e politicamente, com status de reivindicar um assento no Conselho de Segurança da ONU e futura sede de dois eventos mundiais: a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas 2016.
A autoestima do brasileiro estava lá em cima, como demonstra as palavras de um jovem, em uma entrevista de 2011: “O Brasil está muito mais posicionado no mundo do que estava há alguns anos. É uma valorização daquilo que é brasileiro, voltado para o Brasil. Isso faz com que essa geração tenha um sentimento muito maior de ser brasileiro”.
O gigante tinha pés de barro.
A bolha das commodities passou. O lulopetismo desperdiçou uma oportunidade de ouro para universalizar os direitos sociais básicos - saúde, educação e saneamento - e promover a cidadania dos excluídos. Em 2013, a sociedade deu seu recado quanto à sua insatisfação e seu cansaço com a baixa qualidade dos serviços públicos e com a forma de se fazer política no país, cujas mazelas foram elevadas ao infinito nos governos Lula-Dilma.
Nas eleições de 2014 já era visível o deslocamento de parte substantiva da sociedade, particularmente nos polos desenvolvidos do país. Dilma perdeu a eleição até mesmo no “cinturão vermelho” do entorno de São Paulo e na outrora cidadela do petismo, o ABC paulista.
O arrefecimento da crise ética, econômica e política destes dois últimos anos horizontalizou o fosso entre o lulopetismo e a sociedade. Ele não se resume apenas às camadas médias, perpassa todas as classes sociais e todas as regiões. Há uma coincidência interessante a ser observada. Em média, o governo Dilma é desaprovado por algo e m torno de 70% a 75% dos brasileiros. Pois bem, a presidente foi derrotada na Câmara por 73% dos deputados.
A conclusão do enrosco é que Lula e Dilma prestaram enorme desserviço à própria esquerda. Jogaram o pêndulo da sociedade para a direita, tiraram da toca a extrema direita, que estava sem espaço desde a democratização de 1985. Serão necessários v& aacute;rios anos para que um novo projeto de esquerda, mesmo de uma esquerda democrática, galvanize o conjunto da sociedade.
Não há dois Brasis, um avançado e outro atrasado. Não são dois rios distintos que jamais se encontram. Corremos todos no mesmo leito. E é impossível um “partido dos grotões” impedir o curso das águas.
Dilma critica impeachment sem olhar para o PT
Quando Dilma acrescentou ter “certeza de que não houve um único presidente depois da redemocratização do país que não tenha tido processos de impedimento no Congresso”, não mencionou que foi o seu partido, o PT, que banalizou o uso do impeachment como instrumento para puxar o tapete de presidentes eleitos.
Estava claro que o PT, ao atear fogo sistematicamente em administrações adversárias, trabalhava contra os seus próprios interesses, já que a legenda frequentava a cena como alternativa de poder. Mas o partido não parecia preocupado com o que pensariam dele no futuro quando foi às ruas com faixas de “Fora Sarney'' e “Fora FHC.'' Jogo jogado.
Na sua fase pós-redemocratização, a democracia brasileira produziu apenas quatro presidentes eleitos pelo voto direto: Fernando Collor foi despachado para casa mais cedo. Lula e FHC resistiram às tentativas. Se o Senado confirmar o impedimento de Dilma, a taxa de letalidade do impeachment será de 50%. Altíssima!
Dilma chegou a insinuar que Collor, hoje na sua base de apoio, talvez tenha sido cassado injustamente, já que o STF o absolveu posteriormente das imputações penais. A insinuação é espantosa, mas todo mundo tem o direito de fazê-la. Porém, para não insultar a inteligência alheia, Dilma talvez devesse reconhecer: sempre que foi intimado pela história a optar, o PT revelou sua preferência por virar a mesa em vez de sentar-se a ela.
Se quiser melhor, faça por merecer
Podem apontar o que quiserem na votação de domingo na Câmara, mas participantes e espectadores têm as mesmas caras e ideologias. Siameses da gema até em transformar a Câmara em palco para torcidas organizadas.
O Brasil é de uma cretinice atávica de se condenar quando fica diante do espelho. Esperava ver uma câmara de lordes, mas o que aparecia era uma câmara dos comuns, mais comuns impossível. Revoltou-se, é claro, porque se acredita vivendo sob uma democracia de primeiro mundo, sob o som do Big Ben, quando sua democracia é de terceira classe atrasada como o relógio da Central. Que assim seja, ao menos, para não cair em tentações em arapucas.
O que se viu na Câmara, no domingo, é o reflexo do nosso descaso com a política, pouco caso do cidadão consigo próprio. O Brasil da política suja é o dia a dia brasileiro. Ainda não se entendeu aqui que o respeito que se pede ao político tem que se dar na própria cidadania.
Político sujo, ladrão, de conchavos, mentiroso, espelha a convicção do eleitor, que precisa urgentemente repensar o que deseja de cidadania, indo às ruas, reclamando direitos, condenando voto por dinheiro e dinheiro por voto. Enquanto se emprenhar pela publicidade política, pelo noticiário direcionado e a falta de cultura política, de educação, no sentido de formação, vai ter Câmaras iguais ou piores.
Quem não quiser ver a própria imagem pela tevê, desligue o televisor e vá pescar. Mas não reclame se o país continuar indo ladeira abaixo por suas escolhas interesseiras de grupos sociais.
O desastre do tropicalismo de Lula
A corrupção é um problema histórico na política brasileira e o PT não mudou isso. E por mais que políticas sociais como a criação do Bolsa-Família tenham que ser elogiadas, a administração petista cometeu o erro fundamental de se focar apenas nos meandros da política e não investir com mais ênfase em reformas na saúde e na educação, por exemplo.Por isso é que a esquerda está perdendo o poder no Brasil. Esse impeachment, do jeito que está sendo feito, é bizarro, mas o PT deu a seus inimigos a chance de atacar. Sei que a esquerda está gritando que é golpe, mas o fato é que o suporte ao PT minguou e a elite brasileira conseguiu juntar forças para forçar uma manobra que não é ilegal
Tariq Ali, jornalista e escritor do Reino Unido,'Blairismo tropical' de Lula levou à derrocada do PT
Dilma, a farsante
Se a população ainda tinha dúvidas sobre a capacidade política e intelectual da Dilma para governar o país, começa a dissipá-las agora quando assiste perplexa as bobagens que ela diz nas entrevistas coletivas que concede à imprensa local e a estrangeira. Ao falar aos jornalistas brasileiros depois da admissibilidade do impeachment, a presidente parecia que estava navegando em outro mundo, uma extraterrestre flutuando em outro planeta. Passiva diante da situação, mostrava-se sonâmbula, mas aparentemente convencida de que brevemente voltará para casa para cuidar do netos. Quando tentava se esforçar para dizer uma frase mais inteligente, saia com asneira desse tipo “a sociedade humana”.
A conversa com os jornalistas estrangeiros então foi um desastre só. Fica difícil para os jornais de outros países decifrarem o que a presidente do Brasil quer dizer. Não existe, nos idiomas lá fora, tradução que chegue perto do que que ela fala. Disse, por exemplo, que não tem culpa da estagnação econômica, do caos administrativo e da corrupção generalizada. Culpa a China pela retração do mercado, acusando-a pela queda das commodities que frearam as exportações brasileiras. Não consegue concatenar um raciocínio lógico sobre nada, o que a impede de ser objetiva ou clara sobre qualquer assunto.
O Brasil de tantos talentos na área da cultura, da literatura e da ciência parece que de uma hora apagou-se. Tudo isso é decorrência de quase uma década e meia de descaso na educação e no desenvolvimento do país. A decadência começou com a ascensão da “República Sindical”. Um bando de pelegos viu-se de uma hora para outra administrando as principais empresas públicas e liderando o ensino do país com o aparelhamento do Estado. Chefiando-os um presidente despreparado que fazia apologia do analfabetismo. Muitas vezes enalteceu a sua própria ignorância: “Se eu cheguei, que não estudei, você também pode chegar ao maior cargo do país”, disse certa vez o senhor Luiz Inácio Lula da Silva, o representante, à época, de mais de 200 milhões de pessoas, para delírio de muitas delas, seus fãs.
A Dilma – que chegou a presidência falsificando o currículo acadêmico -, logo acostumou-se a ignorância e a promiscuidade dos seus companheiros petistas. Todos se lembram da sua frase cínica, antes da campanha, de que “podemos fazer o diabo quando é hora de eleição”. Ali ela já sinalizava que já tinha aderido aos predicados rasteiros dos bastidores contaminados da companheirada. Viu, no cercadinho do gabinete do chefe, quando era seu auxiliar, o tratamento que ele dava aos seus assessores, humilhando-os com impropérios. Por isso, assim que assumiu a presidência procurou também imitá-lo com a arrogância e a prepotência de quem nunca se preparou para um cargo como o de presidente da república.
Regozija-se de ser honesta, de nunca ter metido a mão na lama. Mentira. A maracutaia na Petrobrás começou quando ela presidiu o conselho da empresa. Autorizou que a estatal comprasse uma refinaria sucateada no Texas por quase l bilhão de dólares. Quando o escândalo surgiu, procurou se safar dizendo que foi iludida. Ora, como alguém assina um contrato bilionário sem pelo menos analisar com cuidado os seus termos? Na confissão, passou recibo de idiota, e demonstrou o despreparo para exercer qualquer cargo público.
Quer passar a imagem de coitada, enganada, ludibriada, quando se apresenta nas coletivas de imprensa. Não engana. Foi forjada dentro da cúpula petista. Assistiu, com assento privilegiado, as arrumações para reeleição de Lula e para as suas duas campanhas. Conhece, como ninguém, toda trapaça que o PT fez para esvaziar os cofres das empresas públicas e manter o seu projeto de se perpetuar no poder. Além disso, é conivente com o crime quando mantém ao seu lado o Edinho Silva, ministro, acusado de achacar empresários e de receber quase 8 milhões de reais para a campanha dela. Está cercada não de assessores, mas de futuros presidiários que começarão a ser enjaulados assim que o poder se esvair.
Então, doutora Dilma, diante desses fatos escabrosos e do seu envolvimento com os escândalos, não tente mais iludir a população. Mostre dignidade e deixe o cargo, antes que o povo a ponha na rua pela porta dos fundos do Palácio do Planalto.
A conversa com os jornalistas estrangeiros então foi um desastre só. Fica difícil para os jornais de outros países decifrarem o que a presidente do Brasil quer dizer. Não existe, nos idiomas lá fora, tradução que chegue perto do que que ela fala. Disse, por exemplo, que não tem culpa da estagnação econômica, do caos administrativo e da corrupção generalizada. Culpa a China pela retração do mercado, acusando-a pela queda das commodities que frearam as exportações brasileiras. Não consegue concatenar um raciocínio lógico sobre nada, o que a impede de ser objetiva ou clara sobre qualquer assunto.
O Brasil de tantos talentos na área da cultura, da literatura e da ciência parece que de uma hora apagou-se. Tudo isso é decorrência de quase uma década e meia de descaso na educação e no desenvolvimento do país. A decadência começou com a ascensão da “República Sindical”. Um bando de pelegos viu-se de uma hora para outra administrando as principais empresas públicas e liderando o ensino do país com o aparelhamento do Estado. Chefiando-os um presidente despreparado que fazia apologia do analfabetismo. Muitas vezes enalteceu a sua própria ignorância: “Se eu cheguei, que não estudei, você também pode chegar ao maior cargo do país”, disse certa vez o senhor Luiz Inácio Lula da Silva, o representante, à época, de mais de 200 milhões de pessoas, para delírio de muitas delas, seus fãs.
A Dilma – que chegou a presidência falsificando o currículo acadêmico -, logo acostumou-se a ignorância e a promiscuidade dos seus companheiros petistas. Todos se lembram da sua frase cínica, antes da campanha, de que “podemos fazer o diabo quando é hora de eleição”. Ali ela já sinalizava que já tinha aderido aos predicados rasteiros dos bastidores contaminados da companheirada. Viu, no cercadinho do gabinete do chefe, quando era seu auxiliar, o tratamento que ele dava aos seus assessores, humilhando-os com impropérios. Por isso, assim que assumiu a presidência procurou também imitá-lo com a arrogância e a prepotência de quem nunca se preparou para um cargo como o de presidente da república.
Regozija-se de ser honesta, de nunca ter metido a mão na lama. Mentira. A maracutaia na Petrobrás começou quando ela presidiu o conselho da empresa. Autorizou que a estatal comprasse uma refinaria sucateada no Texas por quase l bilhão de dólares. Quando o escândalo surgiu, procurou se safar dizendo que foi iludida. Ora, como alguém assina um contrato bilionário sem pelo menos analisar com cuidado os seus termos? Na confissão, passou recibo de idiota, e demonstrou o despreparo para exercer qualquer cargo público.
Quer passar a imagem de coitada, enganada, ludibriada, quando se apresenta nas coletivas de imprensa. Não engana. Foi forjada dentro da cúpula petista. Assistiu, com assento privilegiado, as arrumações para reeleição de Lula e para as suas duas campanhas. Conhece, como ninguém, toda trapaça que o PT fez para esvaziar os cofres das empresas públicas e manter o seu projeto de se perpetuar no poder. Além disso, é conivente com o crime quando mantém ao seu lado o Edinho Silva, ministro, acusado de achacar empresários e de receber quase 8 milhões de reais para a campanha dela. Está cercada não de assessores, mas de futuros presidiários que começarão a ser enjaulados assim que o poder se esvair.
Então, doutora Dilma, diante desses fatos escabrosos e do seu envolvimento com os escândalos, não tente mais iludir a população. Mostre dignidade e deixe o cargo, antes que o povo a ponha na rua pela porta dos fundos do Palácio do Planalto.
Lembrando que Renan e o PT têm contas a ajustar
Terá a presidente Dilma adquirido humildade, perdendo a empáfia e a presunção responsáveis por sua derrota na Câmara, domingo? Possível, a hipótese pode ser, mas verdadeira, dificilmente. A causa da queda parece longe de pedaladas e de decretos espúrios, pois assenta-se na postura antes absolutista de Madame, por cinco anos e pouco situando-se acima do bem e do mal, dona das vontades alheias e infensa a julgar-se como uma comum dos mortais.
Sua entrevista de segunda-feira não teve o dom das confissões espetaculares, mas bastou como peça de defesa, na medida em que ela abdicou da condição de Madre Superiora do Convento. Não deixou de acusar os adversários vitoriosos no primeiro round da batalha do impeachment, mas pelo menos anunciou a disposição de manter a luta, agora no Senado.
O mesmo sentimento de rejeição à sua postura autoritária registra-se entre os senadores, ainda que se torne difícil assistir na segunda votação 54 senadores entre 81 dispostos à sua degola definitiva. Há espaço para a resistência, mesmo difícil. Na beira do abismo, ainda lhe sobram forças para lutar pelo mandato.
O grave na tertúlia ainda em andamento é que o país continua em frangalhos, sem governo. Não há espaços no palácio do Planalto para se cuidar da recuperação nacional, pois enquanto Dilma luta para salvar a pele já chamuscada, Michel Temer contenta-se em planejar a volta por cima, que ainda lhe é vedada.
Não cessou por completo a euforia dos vitoriosos de domingo. Soldados de Eduardo Cunha aguardam que Renan Calheiros convoque a sua cavalaria. Os comandantes da Câmara e do Senado não serão propriamente impolutos e competentes guerreiros de alma pura, dado seu passado de ligações espúrias com a corrupção e mais ainda seu futuro, na alça de mira da Justiça. Mesmo assim, é em torno de Renan que evoluem as esperanças de Dilma.
O presidente do Senado detém o controle do processo agora tramitando em sua casa. Pode ser que ofereça prazos regimentais mais extensos, dando à presidente tempo para organizar sua defesa. Também pode ser que coordene um ataque tão veemente quanto exangues tropas do PT e adjacências. Ambos tem contas a ajustar.
Enquanto isso, vale repetir, o desemprego multiplica-se em massa; o custo de vida aumenta a passos largos; taxas, impostos e tarifas não deixam de crescer; os juros sobem, os salários diminuem; a economia falece e os bancos continuam indo muito bem, obrigado…
Dever cumprido!
Dois fatos históricos relevantes me chamaram a atenção do fim de semana pra cá. Primeiramente, os deputados autorizaram, por 25 votos a mais do que os dois terços exigidos pela Constituição, a abertura de processo de impeachment contra Dilma Rousseff pelo Senado. O outro foi a ausência de vândalos nas manifestações contra ou a favor do impedimento.
Muita gente critica nas redes sociais e nos meios de comunicação o teor dos votos pelo sim ou pelo não com muitos apelos a Deus, à família, aos amigos e aos eleitores mais próximos. Ontem, à noite, participei com meu antigo colega na Folha de S.Paulo nos anos 70 e professor de Ciências Sociais da USP José Álvaro Moisés da abertura do programa Todo Seu, apresentado por Ronnie Von na TV Gazeta, em cujos telejornais faço comentários políticos em dois dias por semana. Sou amigo do Pequeno Príncipe há muitos anos e fico muito lisonjeado pelo fato de ele ter parado para refletir sobre o assunto, que serviu de tema para o editorial com que tradicionalmente abre seu programa diário. Ontem, ele fez coro a esse clamor geral, que tem produzido até listas gaiatas, e lamentou o baixo nível de quase todos os votantes naquela sessão histórica. Com todo o respeito que meu anfitrião televisivo merece, discrepo, como dizia mestre Antônio Houaiss. Pois acho que o Congresso deve reproduzir sempre da forma mais fiel possível a vontade da cidadania, que representa. Infelizmente, tenho dúvidas quanto à natureza da representação no voto proporcional à brasileira, em que a matemática das bancadas não corresponde ao tamanho do eleitorado. Acho que uma das mais importantes, e mais difíceis, reformas políticas a serem adotadas é o direito de cada cidadão ter direito a um voto, nem mais nem menos, em igualdade de condições com outro em qualquer Estado da Federação. A Constituição liberal de 1946 já traía esse conceito elementar da democracia representativa. A ditadura militar o agravou com o horrendo Pacote de Abril de 1977. E a Constituição de 1988 tornou o voto ainda mais desigual em matéria de representação. Enquanto não se muda, a discrepância existente entre as bancadas de Unidades da Federação mais ou menos populosas sempre produzirá riscos de votações que não correspondam fielmente à vontade política da sociedade. Então, sempre que ocorre essa fidelidade, eu a comemoro efusivamente. E estes foram os casos dos dois processos de impeachment, o de Collor, em 1992, e o de Dilma agora. Neste os deputados ouviram o clamor das ruas e atenderam a ele.
Para tanto foi necessário que muitos deles fizessem ouvidos de mercador aos cantos da sereia dos governistas, que lhes davam dinheiro e cargos em troca de ausências. Foi uma sessão histórica também porque teve recorde de comparecimento de deputados. Parabéns, pois, a todos eles!
Não há por que lamentar ainda o teor afetivo dos discursos, pois referências a familiares, amigos e outras pessoas mais próximas podem representar um salutar convívio com as chamadas bases. Esse convívio pode ter tornado mais fiel a tradução na votação do desejo manifestado em proporção bastante próxima do que se tem visto nas ruas.
Lamento que o deputado Jair Bolsonaro tenha exaltado, ao proferir o voto, a atuação do notório oficial torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, da mesma forma que houve quem ali lembrasse inimigos da liberdade do outro lado, como Lamarca e Marighela. É reprovável a cusparada do deputado pelo Rio que votou em seguida, Jean Willys, gesto repulsivo e mal educado, não recomendável em ocasião nenhuma, particularmente numa reunião histórica como foi aquela. No entanto, não nego a nenhum dos dois o direito líquido e certo de votar como votaram. Bolsonaro representa legitimamente na Câmara o segmento do eleitorado nacional que aprova os métodos brutais da ditadura militar contra os adversários da esquerda armada. Embora Willys tenha ultrapassado os limites da civilidade ao cuspir na direção do adversário, atingindo, então, os eleitores que votam no oponente.
Lamento ainda mais a narrativa escolhida pela presidente da República de insultar quem votou sim na noite de domingo, afirmando que quem optou pelo impachment o fez por um motivo torpe: a vingança do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Essa é uma ofensa que a democracia brasileira não merece e deslustra ainda mais a biografia da chefe do pior governo da História do Brasil, desde que Tomé de Souza desembarcou na Bahia.
Em compensação a essa truculência egocêntrica, burra, arrogante e surrealista, aproveito sua leitura para comemorar muito efusivamente a ordem e a harmonia reinante nas manifestações das ruas durante e depois da votação – o que, aliás, já fiz em comentário sobre o acontecimento ontem no Estadão no Ar da Rádio Estadão. Não houve depredações nem desforço físico num dia cívico inesquecível de clima quente, seja do ponto de vista da meteorologia, seja do convívio social. Dia em que, aliás, vimos a História acontecer diante de nossos olhos e debaixo de nossos pés. A ausência de vandalismo na festa dos vitoriosos e na lamentação dos vencidos é um indício de que o povo brasileiro está aprendendo a conviver com o contraditório democrático, mantendo-o com zelo e afugentando para longe as ameaças de atar mais fogo à estúpida guerra entre oponentes e as promessas de guerra contra a legítima decisão que o Senado vier a tomar sobre o momentoso processo – qualquer que seja.
Muita gente critica nas redes sociais e nos meios de comunicação o teor dos votos pelo sim ou pelo não com muitos apelos a Deus, à família, aos amigos e aos eleitores mais próximos. Ontem, à noite, participei com meu antigo colega na Folha de S.Paulo nos anos 70 e professor de Ciências Sociais da USP José Álvaro Moisés da abertura do programa Todo Seu, apresentado por Ronnie Von na TV Gazeta, em cujos telejornais faço comentários políticos em dois dias por semana. Sou amigo do Pequeno Príncipe há muitos anos e fico muito lisonjeado pelo fato de ele ter parado para refletir sobre o assunto, que serviu de tema para o editorial com que tradicionalmente abre seu programa diário. Ontem, ele fez coro a esse clamor geral, que tem produzido até listas gaiatas, e lamentou o baixo nível de quase todos os votantes naquela sessão histórica. Com todo o respeito que meu anfitrião televisivo merece, discrepo, como dizia mestre Antônio Houaiss. Pois acho que o Congresso deve reproduzir sempre da forma mais fiel possível a vontade da cidadania, que representa. Infelizmente, tenho dúvidas quanto à natureza da representação no voto proporcional à brasileira, em que a matemática das bancadas não corresponde ao tamanho do eleitorado. Acho que uma das mais importantes, e mais difíceis, reformas políticas a serem adotadas é o direito de cada cidadão ter direito a um voto, nem mais nem menos, em igualdade de condições com outro em qualquer Estado da Federação. A Constituição liberal de 1946 já traía esse conceito elementar da democracia representativa. A ditadura militar o agravou com o horrendo Pacote de Abril de 1977. E a Constituição de 1988 tornou o voto ainda mais desigual em matéria de representação. Enquanto não se muda, a discrepância existente entre as bancadas de Unidades da Federação mais ou menos populosas sempre produzirá riscos de votações que não correspondam fielmente à vontade política da sociedade. Então, sempre que ocorre essa fidelidade, eu a comemoro efusivamente. E estes foram os casos dos dois processos de impeachment, o de Collor, em 1992, e o de Dilma agora. Neste os deputados ouviram o clamor das ruas e atenderam a ele.
Para tanto foi necessário que muitos deles fizessem ouvidos de mercador aos cantos da sereia dos governistas, que lhes davam dinheiro e cargos em troca de ausências. Foi uma sessão histórica também porque teve recorde de comparecimento de deputados. Parabéns, pois, a todos eles!
Não há por que lamentar ainda o teor afetivo dos discursos, pois referências a familiares, amigos e outras pessoas mais próximas podem representar um salutar convívio com as chamadas bases. Esse convívio pode ter tornado mais fiel a tradução na votação do desejo manifestado em proporção bastante próxima do que se tem visto nas ruas.
Lamento que o deputado Jair Bolsonaro tenha exaltado, ao proferir o voto, a atuação do notório oficial torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, da mesma forma que houve quem ali lembrasse inimigos da liberdade do outro lado, como Lamarca e Marighela. É reprovável a cusparada do deputado pelo Rio que votou em seguida, Jean Willys, gesto repulsivo e mal educado, não recomendável em ocasião nenhuma, particularmente numa reunião histórica como foi aquela. No entanto, não nego a nenhum dos dois o direito líquido e certo de votar como votaram. Bolsonaro representa legitimamente na Câmara o segmento do eleitorado nacional que aprova os métodos brutais da ditadura militar contra os adversários da esquerda armada. Embora Willys tenha ultrapassado os limites da civilidade ao cuspir na direção do adversário, atingindo, então, os eleitores que votam no oponente.
Em compensação a essa truculência egocêntrica, burra, arrogante e surrealista, aproveito sua leitura para comemorar muito efusivamente a ordem e a harmonia reinante nas manifestações das ruas durante e depois da votação – o que, aliás, já fiz em comentário sobre o acontecimento ontem no Estadão no Ar da Rádio Estadão. Não houve depredações nem desforço físico num dia cívico inesquecível de clima quente, seja do ponto de vista da meteorologia, seja do convívio social. Dia em que, aliás, vimos a História acontecer diante de nossos olhos e debaixo de nossos pés. A ausência de vandalismo na festa dos vitoriosos e na lamentação dos vencidos é um indício de que o povo brasileiro está aprendendo a conviver com o contraditório democrático, mantendo-o com zelo e afugentando para longe as ameaças de atar mais fogo à estúpida guerra entre oponentes e as promessas de guerra contra a legítima decisão que o Senado vier a tomar sobre o momentoso processo – qualquer que seja.
As 'latitudes' dos votos
Sempre escrevo meus artigos nos fins de semana. E com este não será diferente, apesar do furdunço político em Brasília no domingo. Assim faço porque o resultado do tal impeachment em nada mudará meus costumes. Uma possível troca de Dilma boca porca por Michel Temer, nas circunstâncias atuais, é o mesmo que trocar seis por meia dúzia, a não ser que a Justiça de Curitiba ponha a mão em Lula e sua cambada, inclusive Dilma, por motivos óbvios.
Minha única curiosidade é saber como ficará o “day after”, a troca de bocas... O Michel é um posudo, desses que falam olhando para as próprias mãos, mas sabe ler e escrever e é reconhecido professor de direito constitucional. Já Dilma, guerrilheira sem objetivo, aos 19 anos estava de metralhadora em punho, assaltando bancos para uma causa alienígena. A propósito do tema, até hoje não se sabe o que foi feito dos US$ 2,8 milhões roubados em assalto à casa do ex-governador de São Paulo Ademar de Barros.
O Brasil, há muito, vive embevecido por tudo o que é diferente. O surgimento no cenário político de um demagogo analfabeto como Lula foi algo diferente. E ele soube explorar esse tipo de diferença, baseado num “coitadismo” de ocasião que pegou o povo brasileiro desprevenido para esse tipo de messianismo.
O alheamento desses políticos que fazem ouvidos moucos para tudo aquilo que não lhes é favorável deu nisso que está aí. O Brasil está na miséria, gastou mais do que tinha no bolso e faz de conta que não sabe de nada. O termo “pedalada”, típico da verve brasileira, significa também, ou principalmente, “irresponsabilidade”, “assalto à mão armada”. Dilma administra o Brasil como fazia em seu tempo de assaltante de banco. E os seguidores fingem que não sabem de nada e afirmam que todo movimento contrário é golpe...
O tempo é implacável, chega para tudo e todos. De tanto falar em golpe, vão acabar achando o que procuram e, aí, como diria o Libório lá da Serra do Anastácio, “vão ver o que é bom pra tosse...”
Reproduzo as palavras ameaçadoras de José Sílvio dos Santos, empresário e presidente do PDT do Distrito Federal, dirigindo-se aos militantes: “Convoco a militância pró-Dilma que vá armada para matar no próximo domingo”. Nós vamos ficar batendo panelas... Acredite nisso, idiota.
E, para terminar, lembro a sessão do egrégio Supremo Tribunal Federal em que, num debate que mais parecia discussão sobre a redondeza das bolas, aquele colegiado deliberava por onde começar a declaração dos votos dos deputados, se pelo Norte ou pelo Sul, e o ministro Barroso, o mais comprido deles, manifestando seu entendimento sobre a questão, explicou que, para ficar acorde com a legislação pertinente, a votação deveria começar pelos Estados do Norte, observado o princípio da alternância dos Estados, bem como suas “latitudes perante as capitais”. E eu pensei com meus botões: “latitudes” ou “platitudes”...
Esses ministros modernos são detalhistas e chatos...
Minha única curiosidade é saber como ficará o “day after”, a troca de bocas... O Michel é um posudo, desses que falam olhando para as próprias mãos, mas sabe ler e escrever e é reconhecido professor de direito constitucional. Já Dilma, guerrilheira sem objetivo, aos 19 anos estava de metralhadora em punho, assaltando bancos para uma causa alienígena. A propósito do tema, até hoje não se sabe o que foi feito dos US$ 2,8 milhões roubados em assalto à casa do ex-governador de São Paulo Ademar de Barros.
O alheamento desses políticos que fazem ouvidos moucos para tudo aquilo que não lhes é favorável deu nisso que está aí. O Brasil está na miséria, gastou mais do que tinha no bolso e faz de conta que não sabe de nada. O termo “pedalada”, típico da verve brasileira, significa também, ou principalmente, “irresponsabilidade”, “assalto à mão armada”. Dilma administra o Brasil como fazia em seu tempo de assaltante de banco. E os seguidores fingem que não sabem de nada e afirmam que todo movimento contrário é golpe...
O tempo é implacável, chega para tudo e todos. De tanto falar em golpe, vão acabar achando o que procuram e, aí, como diria o Libório lá da Serra do Anastácio, “vão ver o que é bom pra tosse...”
Reproduzo as palavras ameaçadoras de José Sílvio dos Santos, empresário e presidente do PDT do Distrito Federal, dirigindo-se aos militantes: “Convoco a militância pró-Dilma que vá armada para matar no próximo domingo”. Nós vamos ficar batendo panelas... Acredite nisso, idiota.
E, para terminar, lembro a sessão do egrégio Supremo Tribunal Federal em que, num debate que mais parecia discussão sobre a redondeza das bolas, aquele colegiado deliberava por onde começar a declaração dos votos dos deputados, se pelo Norte ou pelo Sul, e o ministro Barroso, o mais comprido deles, manifestando seu entendimento sobre a questão, explicou que, para ficar acorde com a legislação pertinente, a votação deveria começar pelos Estados do Norte, observado o princípio da alternância dos Estados, bem como suas “latitudes perante as capitais”. E eu pensei com meus botões: “latitudes” ou “platitudes”...
Esses ministros modernos são detalhistas e chatos...
terça-feira, 19 de abril de 2016
Foi ruim? Pode piorar
Quem se chocou com as cenas da votação na Câmara, pode ter certeza de que só viu as cenas mais suaves. Governo e Congresso são prisioneiros de uma crise de legitimidade
Ganharam os historiadores. Terminaram a semana com fartura de material sobre o anacronismo dos métodos de se fazer política no Brasil. Quem se chocou com a votação da Câmara, pode guardar a certeza de que só assistiu às cenas mais suaves.
São duas as razões para as sucessivas evocações a Deus, na votação que deflagrou a destituição do governo Dilma. Primeiro, Ele nunca reclama. Segundo, todos sabem que é o único sem qualquer culpa nessa história.
A retórica chula, às vezes ressentida, predominante no microfone da Câmara, continha uma mensagem objetiva sobre o estado de decomposição das relações entre as forças políticas dominantes. Governo e Congresso estão enjaulados numa grave crise de legitimidade.
O Judiciário contribuiu, de forma decisiva, na última década. O Supremo Tribunal Federal estimulou quando abriu uma janela para o florescente negócio da criação de partidos. Eliminou a exigência de desempenho eleitoral mínimo (cláusula de barreira) e mudou a “propriedade” do mandato. Subtraiu-a do eleitor e entregou à burocracia partidária.
Já são 35 partidos com registro oficial. Na vida real, são pessoas jurídicas de direito privado, com acesso privilegiado aos cofres públicos. Têm garantido o usufruto de propaganda no rádio e na televisão, sustentada por isenções fiscais. E, também, a garantia de uma fatia do orçamento federal, via Fundo Partidário, estimada em R$ 900 milhões neste ano.
Os governos Lula e Dilma metabolizaram essa fragmentação no delírio da montagem da “maior base parlamentar do Ocidente”, como definia José Dirceu. Ampliaram para quatro dezenas os ministérios e aumentaram para 23 mil os cargos-chave na administração utilizáveis segundo a conveniência política, além da partilha do comando das empresas estatais. Deu no mensalão e nos inquéritos sobre corrupção na Petrobras e outras empresas estatais.
Quem ficou chocado com as cenas do início do impeachment, talvez se apavorasse com o mercado livre que antecedeu a votação em Brasília.
Lula, principal negociador das salvaguardas ao mandato de Dilma, descreveu como uma “Bolsa de Valores”. Deputados comentavam as “cotações” do relativismo ético: R$ 1 milhão por ausência, R$ 2 milhões pelo voto no plenário.
O pacote incluía adicionais em cargos, créditos e mimos diversos para prefeitos e governadores aliados — da desapropriação de terras à doação de áreas cultiváveis na floresta amazônica, parte em terras indígenas.
No caos, o PT de Lula e Dilma passou a disputar espaço com novos aliados, como o Partido Trabalhista Nacional. Chapadinha, deputado pelo PTN, levou uma diretoria do Incra no Pará. Os petistas locais souberam da negociação e promoveram uma greve no Incra de Santarém.
No sábado, véspera da votação, imprimiu-se uma edição extra do Diário Oficial. Ficaram visíveis 63 nomeações emergenciais para 22 órgãos federais. Dilma perdeu por 72%.
É com essa lógica anacrônica que os generais de Dilma preparam a batalha final no Senado. O governo acha que tem 22 votos. Precisa garantir mais seis e somar 28 para evitar o “Tchau, querida!” dos senadores.
Deus, é claro, não tem nada com isso.
José Casado
Ganharam os historiadores. Terminaram a semana com fartura de material sobre o anacronismo dos métodos de se fazer política no Brasil. Quem se chocou com a votação da Câmara, pode guardar a certeza de que só assistiu às cenas mais suaves.
São duas as razões para as sucessivas evocações a Deus, na votação que deflagrou a destituição do governo Dilma. Primeiro, Ele nunca reclama. Segundo, todos sabem que é o único sem qualquer culpa nessa história.
A retórica chula, às vezes ressentida, predominante no microfone da Câmara, continha uma mensagem objetiva sobre o estado de decomposição das relações entre as forças políticas dominantes. Governo e Congresso estão enjaulados numa grave crise de legitimidade.
O Judiciário contribuiu, de forma decisiva, na última década. O Supremo Tribunal Federal estimulou quando abriu uma janela para o florescente negócio da criação de partidos. Eliminou a exigência de desempenho eleitoral mínimo (cláusula de barreira) e mudou a “propriedade” do mandato. Subtraiu-a do eleitor e entregou à burocracia partidária.
Já são 35 partidos com registro oficial. Na vida real, são pessoas jurídicas de direito privado, com acesso privilegiado aos cofres públicos. Têm garantido o usufruto de propaganda no rádio e na televisão, sustentada por isenções fiscais. E, também, a garantia de uma fatia do orçamento federal, via Fundo Partidário, estimada em R$ 900 milhões neste ano.
Os governos Lula e Dilma metabolizaram essa fragmentação no delírio da montagem da “maior base parlamentar do Ocidente”, como definia José Dirceu. Ampliaram para quatro dezenas os ministérios e aumentaram para 23 mil os cargos-chave na administração utilizáveis segundo a conveniência política, além da partilha do comando das empresas estatais. Deu no mensalão e nos inquéritos sobre corrupção na Petrobras e outras empresas estatais.
Quem ficou chocado com as cenas do início do impeachment, talvez se apavorasse com o mercado livre que antecedeu a votação em Brasília.
Lula, principal negociador das salvaguardas ao mandato de Dilma, descreveu como uma “Bolsa de Valores”. Deputados comentavam as “cotações” do relativismo ético: R$ 1 milhão por ausência, R$ 2 milhões pelo voto no plenário.
O pacote incluía adicionais em cargos, créditos e mimos diversos para prefeitos e governadores aliados — da desapropriação de terras à doação de áreas cultiváveis na floresta amazônica, parte em terras indígenas.
No caos, o PT de Lula e Dilma passou a disputar espaço com novos aliados, como o Partido Trabalhista Nacional. Chapadinha, deputado pelo PTN, levou uma diretoria do Incra no Pará. Os petistas locais souberam da negociação e promoveram uma greve no Incra de Santarém.
No sábado, véspera da votação, imprimiu-se uma edição extra do Diário Oficial. Ficaram visíveis 63 nomeações emergenciais para 22 órgãos federais. Dilma perdeu por 72%.
É com essa lógica anacrônica que os generais de Dilma preparam a batalha final no Senado. O governo acha que tem 22 votos. Precisa garantir mais seis e somar 28 para evitar o “Tchau, querida!” dos senadores.
Deus, é claro, não tem nada com isso.
José Casado
Destituída pelo país que já não mais suporta farsas que só comovem imbecis e cúmplices
Os sonhos da presidente Dilma estão sendo torturados, ela disse na coletiva a que se concedeu para a encenação da estratégia do dia. Os nossos também, mas isso não a comove; prefere tentar comover a plateia trocando o figurino da arrogância pelo de certo quebrantamento. Nada como uma boa sova democrática de 367 votos pela admissibilidade do impeachment, não é mesmo?
Do céu com luzes suaves e cores acesas, a manhã descia fazendo o mar cintilar sob um sol ainda gentil, com a brisa ainda fresca, praia ainda deserta num cantinho especial do litoral norte de São Paulo. Lindo e também perfeito: nada disso precisa de mim para acontecer e posso dormir até tarde embalada pela paz da minha irrelevância. Esta só foi suspensa enquanto minha filha era pequena e eu tinha de levantar cedo para que ela tomasse sol nos horários recomendados quando íamos à praia.
Na tática da presidente em assumir certo abatimento, há vestígios de inteligência; além dos efeitos positivos de se abandonar a arrogância, pois é mais inteligente, menos desgastante e útil assumir o que sentimos, somos e pensamos. Isso, claro, na feliz hipótese de conseguirmos identificar os sintomas todos; então, nos tornamos verdadeiros e, por isso, mais leves. Dilma estava verdadeiramente abatida e, tão verdadeira estava que pôs tudo a serviço do embuste, deformando em manipulação a potência transformadora do sofrimento.
Repetiu a acusação de golpe e, já que não toma as providências legais a que tal eventualidade a obriga segundo a Constituição, comete mais um crime de responsabilidade; atacou o vice-presidente cassando as prerrogativas constitucionais dele; declarou-se indignada porque punida por condutas semelhantes às dos antecessores inocentes que ficaram impunes, num modo atravessado de admitir o crime que alega inexistente; e, claro, relembrou a tortura que sofreu quando era terrorista sem reconhecer que terroristas e torturadores, abjetos sempre, equivalem-se moralmente porque agem sob a convicção sórdida de que os fins justificam os meios.
Mas a maternidade me modificou ou completou o meu destino de alguém que se comove mais facilmente do que antes com injustiças, o sofrimento alheio e tal. E ficou para sempre à flor da pele exposto o nervo da indignação, num modo de não me deixar entorpecer pelo excesso de mazelas daqui e do mundo. Entre elas, a existência de farsantes que, governantes ou não, valem-se do bem alheio para fazer o mal. Existem a indignação resignada, a transformadora ou inspiradora. E a de Dilma que, transferida do imaginário vigarista para legitimar um embuste real, indignação já não é, mas arrogância – ainda que medicada por alguma inteligência – num eterno retorno.
Comovido, um jornalista fez talvez a pergunta mais imbecil nesses tempos de dura concorrência: se a ditadura foi um período melhor do que a democracia. Ele sequer desconfia que poder formular a pergunta implausível é a resposta, pois regimes totalitários não se deixam questionar, sonho a que aspiraram a presidente e o regime petista. Eis o sonho de Dilma Rousseff que está sendo torturado, o de ser inquestionável. É também por essa razão que ela será destituída pelo país que já não mais suporta farsas que só comovem os imbecis e os cúmplices.
Do céu com luzes suaves e cores acesas, a manhã descia fazendo o mar cintilar sob um sol ainda gentil, com a brisa ainda fresca, praia ainda deserta num cantinho especial do litoral norte de São Paulo. Lindo e também perfeito: nada disso precisa de mim para acontecer e posso dormir até tarde embalada pela paz da minha irrelevância. Esta só foi suspensa enquanto minha filha era pequena e eu tinha de levantar cedo para que ela tomasse sol nos horários recomendados quando íamos à praia.
Na tática da presidente em assumir certo abatimento, há vestígios de inteligência; além dos efeitos positivos de se abandonar a arrogância, pois é mais inteligente, menos desgastante e útil assumir o que sentimos, somos e pensamos. Isso, claro, na feliz hipótese de conseguirmos identificar os sintomas todos; então, nos tornamos verdadeiros e, por isso, mais leves. Dilma estava verdadeiramente abatida e, tão verdadeira estava que pôs tudo a serviço do embuste, deformando em manipulação a potência transformadora do sofrimento.
Repetiu a acusação de golpe e, já que não toma as providências legais a que tal eventualidade a obriga segundo a Constituição, comete mais um crime de responsabilidade; atacou o vice-presidente cassando as prerrogativas constitucionais dele; declarou-se indignada porque punida por condutas semelhantes às dos antecessores inocentes que ficaram impunes, num modo atravessado de admitir o crime que alega inexistente; e, claro, relembrou a tortura que sofreu quando era terrorista sem reconhecer que terroristas e torturadores, abjetos sempre, equivalem-se moralmente porque agem sob a convicção sórdida de que os fins justificam os meios.
Mas a maternidade me modificou ou completou o meu destino de alguém que se comove mais facilmente do que antes com injustiças, o sofrimento alheio e tal. E ficou para sempre à flor da pele exposto o nervo da indignação, num modo de não me deixar entorpecer pelo excesso de mazelas daqui e do mundo. Entre elas, a existência de farsantes que, governantes ou não, valem-se do bem alheio para fazer o mal. Existem a indignação resignada, a transformadora ou inspiradora. E a de Dilma que, transferida do imaginário vigarista para legitimar um embuste real, indignação já não é, mas arrogância – ainda que medicada por alguma inteligência – num eterno retorno.
Comovido, um jornalista fez talvez a pergunta mais imbecil nesses tempos de dura concorrência: se a ditadura foi um período melhor do que a democracia. Ele sequer desconfia que poder formular a pergunta implausível é a resposta, pois regimes totalitários não se deixam questionar, sonho a que aspiraram a presidente e o regime petista. Eis o sonho de Dilma Rousseff que está sendo torturado, o de ser inquestionável. É também por essa razão que ela será destituída pelo país que já não mais suporta farsas que só comovem os imbecis e os cúmplices.
Quando o PT perdeu o caminho de casa?
Talvez em 1997, quando Lula chamou de “asneiras” as denúncias de que havia roubalheiras em contratos de firmas de consultoria com prefeituras petistas. Desde então, Lula e o comissariado fizeram uma opção preferencial pelo acobertamento e pela cumplicidade em todos os episódios em que a moralidade foi ofendida. Foi assim com as propinas que provocaram a morte do prefeito Celso Daniel. Assim foi no “mensalão” e assim o PT comporta-se diante da Lava-Jato.
Há um mantra em circulação: a honorabilidade pessoal de Dilma Rousseff está acima de qualquer suspeita. É verdade, mas pode-se aplicar o mesmo raciocínio ao general Emílio Médici (1969-1974). Ele foi um homem pessoalmente honrado. A ruína de sua biografia veio do campo da moral política. Médici nunca encostou a mão em ninguém, mas durante seu governo milhares de brasileiros foram torturados, e mais de uma centena foram assassinados.

Para felicidade do Brasil, os crimes dos governantes mudaram de eixo e, durante o consulado petista, o demônio foi para o meio do redemoinho da corrupção e das suas alianças com larápios que hoje votaram pela deposição da presidente. Dilma era ministra de Minas e Energia quando um empresário narrou-lhe malfeitorias praticadas pela Petrobras. Ela respondeu: “Não posso me preocupar com pequenas ilegalidades”. Com o tempo, deixou de se preocupar com as grandes. Ela, Lula e o PT ficaram neutros contra a Operação Lava-Jato. Esse foi um dos principais fatores de erosão da credibilidade dos companheiros. (O apoio de Temer à faxina do juiz Moro é coisa a ser conferida. Por enquanto, ele continua a ser um velho aliado de Eduardo Cunha).
O resultado de ontem é uma derrota de Dilma, do PT e daquilo que se chama de esquerda. Como sair dessa? Nos anos 1970 do século passado, como Dilma, o uruguaio José (Pepe) Mujica estava na cadeia. Em 2010 Pepe elegeu-se presidente. Continuou vivendo na modesta chácara das cercanias de Montevidéo, dirigindo seu velho fusca e brincando com Manuela, sua cachorra de três patas. Basta olhar para seu exemplo.
Eli Gaspari
Há um mantra em circulação: a honorabilidade pessoal de Dilma Rousseff está acima de qualquer suspeita. É verdade, mas pode-se aplicar o mesmo raciocínio ao general Emílio Médici (1969-1974). Ele foi um homem pessoalmente honrado. A ruína de sua biografia veio do campo da moral política. Médici nunca encostou a mão em ninguém, mas durante seu governo milhares de brasileiros foram torturados, e mais de uma centena foram assassinados.
Para felicidade do Brasil, os crimes dos governantes mudaram de eixo e, durante o consulado petista, o demônio foi para o meio do redemoinho da corrupção e das suas alianças com larápios que hoje votaram pela deposição da presidente. Dilma era ministra de Minas e Energia quando um empresário narrou-lhe malfeitorias praticadas pela Petrobras. Ela respondeu: “Não posso me preocupar com pequenas ilegalidades”. Com o tempo, deixou de se preocupar com as grandes. Ela, Lula e o PT ficaram neutros contra a Operação Lava-Jato. Esse foi um dos principais fatores de erosão da credibilidade dos companheiros. (O apoio de Temer à faxina do juiz Moro é coisa a ser conferida. Por enquanto, ele continua a ser um velho aliado de Eduardo Cunha).
O resultado de ontem é uma derrota de Dilma, do PT e daquilo que se chama de esquerda. Como sair dessa? Nos anos 1970 do século passado, como Dilma, o uruguaio José (Pepe) Mujica estava na cadeia. Em 2010 Pepe elegeu-se presidente. Continuou vivendo na modesta chácara das cercanias de Montevidéo, dirigindo seu velho fusca e brincando com Manuela, sua cachorra de três patas. Basta olhar para seu exemplo.
Eli Gaspari
Juscelino, há 56 anos, definiu que governo algum pode perder as ruas
Exatamente esta foi a frase de Juscelino Kubitschek, numa entrevista a jornalistas na TV-Rio, que não existe mais, em novembro de 60, período final de seu governo, ao responder pergunta de Wilson Figueiredo, do Jornal o Brasil. Eu participava como repórter do Correio da Manhã. A TV-Rio ficava no Posto Seis, Copacabana, onde hoje está o Hotel Sofitel. A entrevista foi a propósito de um livro do embaixador Donatelo Grieco, filho do escritor Agripino Grieco, que se tornou, a meu ver, o maior pesquisador dos anos dourados de janeiro de 56 a janeiro de 61.
Donatelo Grieco comparou meticulosamente o que era o Brasil antes de Juscelino e o que passou a ser depois. JK, por exemplo, assumiu com uma produção de petróleo de 5 mil barris/dia. Entregou a faixa a Jânio Quadros com 100 mil. Na época, o consumo nacional era de 300 mil barris diários. E por aí vai.
JK criava Furnas e Três Marias, implantava a indústria automobilística. Duplicava a produção de energia elétrica, sem a qual a industrialização seria impossível. Mas estas são outras questões paralelas.
O fato essencial, comparando-se a expressão de ontem com a realidade de hoje, é que a presidente Dilma Rousseff perdeu as ruas e nada, absolutamente nada, faz para recuperá-las. Não conseguiu elaborar sequer um projeto de governo, não foi ao encontro das praças e das ruas, nem procurou abraçar a população em torno de uma ideia. Com isso, cortou sua comunicação com a opinião pública.
Quando precisou dela, não teve condições de lhe passar o entusiasmo contido nas grandes multidões. Por uma razão muito simples: as multidões petistas dividiram-se entre ela e Luiz Inácio da Silva. Por uma ironia do destino, seu maior eleitor, tornou-se seu maior problema.
Sim. Porque foi a partir do instante em que ela o nomeou para chefe da Casa Civil que se desencadeou uma nova tempestade: a tempestade chamada impeachment.
O Supremo bloqueou a investidura, depois de Lula ter tomado posse no Palácio do Planalto, ao som do Hino Nacional, jamais tocado para preceder a posse de um ministro de Estado
Para a presidente Dilma, Lula foi o início e, ao mesmo tempo, o fim. Claro. Porque, como todos já sentiram, ela não retornará ao governo. A votação que terminou à noite de domingo foi seu Waterloo político. Não haverá nova batalha. Ela perdeu o confronto original e também a guerra.
Onde estava o povo? As ruas eram ocupadas majoritariamente pelos que se emocionavam pelo seu afastamento. Emoção da mesma intensidade não se registra entre aqueles que falavam pela sua permanência no Planalto. E, no fundo, é o entusiasmo que aquece corações e mentes.
Para mim, observador dos políticos ao longo de seis décadas, tornou-se eterna a imagem iluminada por JK naquela noite, no prédio que, além da TV-Rio, abrigava o Cassino Atlântico, do jornalista Paulo Bitencourt, também diretor proprietário do Correio da Manhã. A imagem é simples e direta. Clara como um copo d’água, como devem ser as interpretações.
Sem apoio do povo, mesmo de forma indireta, não há poder que resista às tempestades que desabam no caminho dos governos e governantes. Dilma Rousseff não considerou este aspecto fundamental. E também essencial. Tão essencial quanto o ar que se respira.
O povo precisa de um projeto que lhe forneça pelo menos esperança.
Donatelo Grieco comparou meticulosamente o que era o Brasil antes de Juscelino e o que passou a ser depois. JK, por exemplo, assumiu com uma produção de petróleo de 5 mil barris/dia. Entregou a faixa a Jânio Quadros com 100 mil. Na época, o consumo nacional era de 300 mil barris diários. E por aí vai.
O fato essencial, comparando-se a expressão de ontem com a realidade de hoje, é que a presidente Dilma Rousseff perdeu as ruas e nada, absolutamente nada, faz para recuperá-las. Não conseguiu elaborar sequer um projeto de governo, não foi ao encontro das praças e das ruas, nem procurou abraçar a população em torno de uma ideia. Com isso, cortou sua comunicação com a opinião pública.
Quando precisou dela, não teve condições de lhe passar o entusiasmo contido nas grandes multidões. Por uma razão muito simples: as multidões petistas dividiram-se entre ela e Luiz Inácio da Silva. Por uma ironia do destino, seu maior eleitor, tornou-se seu maior problema.
Sim. Porque foi a partir do instante em que ela o nomeou para chefe da Casa Civil que se desencadeou uma nova tempestade: a tempestade chamada impeachment.
O Supremo bloqueou a investidura, depois de Lula ter tomado posse no Palácio do Planalto, ao som do Hino Nacional, jamais tocado para preceder a posse de um ministro de Estado
Para a presidente Dilma, Lula foi o início e, ao mesmo tempo, o fim. Claro. Porque, como todos já sentiram, ela não retornará ao governo. A votação que terminou à noite de domingo foi seu Waterloo político. Não haverá nova batalha. Ela perdeu o confronto original e também a guerra.
Onde estava o povo? As ruas eram ocupadas majoritariamente pelos que se emocionavam pelo seu afastamento. Emoção da mesma intensidade não se registra entre aqueles que falavam pela sua permanência no Planalto. E, no fundo, é o entusiasmo que aquece corações e mentes.
Para mim, observador dos políticos ao longo de seis décadas, tornou-se eterna a imagem iluminada por JK naquela noite, no prédio que, além da TV-Rio, abrigava o Cassino Atlântico, do jornalista Paulo Bitencourt, também diretor proprietário do Correio da Manhã. A imagem é simples e direta. Clara como um copo d’água, como devem ser as interpretações.
Sem apoio do povo, mesmo de forma indireta, não há poder que resista às tempestades que desabam no caminho dos governos e governantes. Dilma Rousseff não considerou este aspecto fundamental. E também essencial. Tão essencial quanto o ar que se respira.
O povo precisa de um projeto que lhe forneça pelo menos esperança.
É preciso começar já
72% a 27%. Impressionante a precisão! Seja qual tenha sido a sua impressão com aquelas longas horas diante do espelho, domingo, uma coisa é indiscutível: a Câmara representa, sim, a realidade nacional. A Nação, através dela, falou e disse e só não a ouviu quem optou por fazer-se de surdo. Se o governo tivesse conseguido subornar a sua minoria qualificada de 172 votos, como Lula anunciou oficialmente que estava tentando fazer, teria “acatado a decisão soberana da Câmara dos Deputados” e enfiado Dilma Rousseff goela abaixo dos 2/3 do Brasil que não suportam nem ouvir o nome dela para encerrar de uma vez para sempre a questão do impeachment. Como não conseguiu, “é golpe”. Será “golpe” sempre, a menos que vença o único golpe que os “surdos” querem ouvir.
É alto o preço que se tem de pagar para não destruir instituições. Essa gente não merece a paciência com que o Brasil a tem tratado. Numa coisa, entretanto, tem razão. Não foi “uma vingança”, foram 367 vinganças, fora a de Hélio Bicudo assinando a denúncia de crime de responsabilidade de Dilma Rousseff por todos os outros petistas honestos que foram tombando ao longo do caminho, contra esse PT que sobrou e vive sozinho no Olimpo atirando seus raios sobre a multidão dos idiotas. José Eduardo Cardozo é a mais recente encarnação desse delírio. Como esmurra fatos à vontade sem que ninguém lhe atire perguntas que o tragam de volta à Terra, insiste naquela Dilma sem pecados “nem apego a cargos” com que as(os) passionárias(os) jurássicas(os) do golpe sem aspas “anulam”, a cada frase, junto com a mais patológica das arrogâncias, 72% do eleitorado pesquisado, 72% do Congresso Nacional, o rito estabelecido pelo STF, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Constituição da República, a falência da Petrobrás e das outras “brases”, a aliança medida com os empreiteiros ladrões e seus doleiros, a verdade da matemática e mais todo o resto da realidade sobre a qual o sol arrebenta de brilhar.
Num sistema em que segue sendo necessário eleger-se, político trata daquilo que sabe que lhe renderá manchetes. Vide José Eduardo Cardozo e a recorrência do seu novo figurino de advogado de seriado de TV. É por isso que, nas democracias saudáveis, é a imprensa amplificando as queixas e os pleitos difusos do eleitorado quem pauta o discurso dos políticos. O fato de a imprensa brasileira pós-regime militar se ter acostumado a deixar-se pautar por eles, mesmo depois – muito depois! – que os políticos deixaram de ser a expressão da resistência de um eleitorado impedido de eleger para se transformar na de uma casta que se outorga privilégios e cassou aos eleitores o direito de deselegê-la, é um elemento essencial da presente desgraça. Acentua essa distorção o isolamento geográfico e social da Brasília que vive do e para o Estado onde não entram as crises que grassam aqui fora, cujo sintoma mais alarmante é a alienação da realidade nacional sintetizada no grito do “Não nos representa!” que pôs em marcha o processo ora em curso.
A produtividade do trabalho no Brasil parou de crescer faz anos; o sistema educacional foi aparelhado e destruído e há pelo menos três o País anda para trás. Vínhamos numa trajetória de arrumação do Estado, valorização da regra e políticas sociais focadas nos mais pobres, mas tudo isso se inverteu. Apenas com juros subsidiados pelo Tesouro Nacional para os amigos do BNDES o governo torrou R$ 323 bilhões, equivalentes a 13 anos do Bolsa Família; as contas nacionais passaram a ser falsificadas e a mentira transformou-se em “razão de Estado”. Tudo o que conquistamos nos anos 90 já está perdido, mas a crise mal começou. Os problemas acumulados são gigantescos, a marcha à ré será dramática, partindo de um patamar já muito baixo, e não será uma simples troca de governo que resolverá tudo isso, mesmo que se supusesse toda a disposição para atacar os problemas do “Brasil real”, a que esse PT que só chora por si jura hoje, como jurou sempre, ódio eterno.
Com o quesito “luta pelo poder” suficientemente encaminhado, e a próxima tentativa rondando perigosamente as margens do mesmo pântano da“governabilidade” por linhas podres que acaba de tragar a obra de toda uma geração de brasileiros, a imprensa poderia dar uma contribuição muito maior ao País se passasse a trabalhar mais para informar Brasília sobre o que se passa no Brasil do que o contrário. Obrigar os políticos a tomar conhecimento da profundidade da crise do País real; cotejar seus números com as amenidades e os números da vida na Ilha da Fantasia onde os salários nunca se extinguem, os aumentos se dão por decurso de prazo, há “auxílios” para tudo e para todos isentos de Imposto de Renda, as aposentadorias partem multiplicadas por 33 é obrigar o País a encarar esses fatos, primeiro, medi-los, em seguida, e fazer escolhas reais e conscientes, finalmente, sem as quais jamais sairemos do brejo. O ponto a que chegamos e o encolhimento do espaço para gorduras mórbidas num mundo implacável com a ineficiência impõe providências que respeitem a matemática e, para chegar a elas, é preciso, primeiro, deixar que a luz do sol incida sobre a camada mais grossa da mentira que cerca a realidade do Brasil do Terceiro Milênio que segue embrulhado num discurso de falsificação da realidade que já era velho no último século do Segundo.
Um governo para o Brasil real só poderá estruturar-se em torno de uma proposta para os problemas reais do Brasil.
Previdência, inchaço do funcionalismo politicamente apadrinhado, subsídios, estrutura tributária, a armadilha trabalhista, as vinculações das contas nacionais, as regras que fazem o ambiente de negócios e, sobretudo, a velocidade com que tudo isso evoluiu para pior nos últimos anos são, ao mesmo tempo, os ingredientes da bomba que produz um déficit recorrente de R$ 150 bilhões e crescendo R$ 30 bilhões por ano sobre a qual estamos sentados, e os indicadores dos caminhos reais para desarmá-la.
É alto o preço que se tem de pagar para não destruir instituições. Essa gente não merece a paciência com que o Brasil a tem tratado. Numa coisa, entretanto, tem razão. Não foi “uma vingança”, foram 367 vinganças, fora a de Hélio Bicudo assinando a denúncia de crime de responsabilidade de Dilma Rousseff por todos os outros petistas honestos que foram tombando ao longo do caminho, contra esse PT que sobrou e vive sozinho no Olimpo atirando seus raios sobre a multidão dos idiotas. José Eduardo Cardozo é a mais recente encarnação desse delírio. Como esmurra fatos à vontade sem que ninguém lhe atire perguntas que o tragam de volta à Terra, insiste naquela Dilma sem pecados “nem apego a cargos” com que as(os) passionárias(os) jurássicas(os) do golpe sem aspas “anulam”, a cada frase, junto com a mais patológica das arrogâncias, 72% do eleitorado pesquisado, 72% do Congresso Nacional, o rito estabelecido pelo STF, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Constituição da República, a falência da Petrobrás e das outras “brases”, a aliança medida com os empreiteiros ladrões e seus doleiros, a verdade da matemática e mais todo o resto da realidade sobre a qual o sol arrebenta de brilhar.
Num sistema em que segue sendo necessário eleger-se, político trata daquilo que sabe que lhe renderá manchetes. Vide José Eduardo Cardozo e a recorrência do seu novo figurino de advogado de seriado de TV. É por isso que, nas democracias saudáveis, é a imprensa amplificando as queixas e os pleitos difusos do eleitorado quem pauta o discurso dos políticos. O fato de a imprensa brasileira pós-regime militar se ter acostumado a deixar-se pautar por eles, mesmo depois – muito depois! – que os políticos deixaram de ser a expressão da resistência de um eleitorado impedido de eleger para se transformar na de uma casta que se outorga privilégios e cassou aos eleitores o direito de deselegê-la, é um elemento essencial da presente desgraça. Acentua essa distorção o isolamento geográfico e social da Brasília que vive do e para o Estado onde não entram as crises que grassam aqui fora, cujo sintoma mais alarmante é a alienação da realidade nacional sintetizada no grito do “Não nos representa!” que pôs em marcha o processo ora em curso.
A produtividade do trabalho no Brasil parou de crescer faz anos; o sistema educacional foi aparelhado e destruído e há pelo menos três o País anda para trás. Vínhamos numa trajetória de arrumação do Estado, valorização da regra e políticas sociais focadas nos mais pobres, mas tudo isso se inverteu. Apenas com juros subsidiados pelo Tesouro Nacional para os amigos do BNDES o governo torrou R$ 323 bilhões, equivalentes a 13 anos do Bolsa Família; as contas nacionais passaram a ser falsificadas e a mentira transformou-se em “razão de Estado”. Tudo o que conquistamos nos anos 90 já está perdido, mas a crise mal começou. Os problemas acumulados são gigantescos, a marcha à ré será dramática, partindo de um patamar já muito baixo, e não será uma simples troca de governo que resolverá tudo isso, mesmo que se supusesse toda a disposição para atacar os problemas do “Brasil real”, a que esse PT que só chora por si jura hoje, como jurou sempre, ódio eterno.
Com o quesito “luta pelo poder” suficientemente encaminhado, e a próxima tentativa rondando perigosamente as margens do mesmo pântano da“governabilidade” por linhas podres que acaba de tragar a obra de toda uma geração de brasileiros, a imprensa poderia dar uma contribuição muito maior ao País se passasse a trabalhar mais para informar Brasília sobre o que se passa no Brasil do que o contrário. Obrigar os políticos a tomar conhecimento da profundidade da crise do País real; cotejar seus números com as amenidades e os números da vida na Ilha da Fantasia onde os salários nunca se extinguem, os aumentos se dão por decurso de prazo, há “auxílios” para tudo e para todos isentos de Imposto de Renda, as aposentadorias partem multiplicadas por 33 é obrigar o País a encarar esses fatos, primeiro, medi-los, em seguida, e fazer escolhas reais e conscientes, finalmente, sem as quais jamais sairemos do brejo. O ponto a que chegamos e o encolhimento do espaço para gorduras mórbidas num mundo implacável com a ineficiência impõe providências que respeitem a matemática e, para chegar a elas, é preciso, primeiro, deixar que a luz do sol incida sobre a camada mais grossa da mentira que cerca a realidade do Brasil do Terceiro Milênio que segue embrulhado num discurso de falsificação da realidade que já era velho no último século do Segundo.
Um governo para o Brasil real só poderá estruturar-se em torno de uma proposta para os problemas reais do Brasil.
Previdência, inchaço do funcionalismo politicamente apadrinhado, subsídios, estrutura tributária, a armadilha trabalhista, as vinculações das contas nacionais, as regras que fazem o ambiente de negócios e, sobretudo, a velocidade com que tudo isso evoluiu para pior nos últimos anos são, ao mesmo tempo, os ingredientes da bomba que produz um déficit recorrente de R$ 150 bilhões e crescendo R$ 30 bilhões por ano sobre a qual estamos sentados, e os indicadores dos caminhos reais para desarmá-la.
O valor da política e a política sem valor
O momento histórico por que passa nosso país, com o prosseguimento do processo de impeachment da presidente da República, aprovado por 367 dos 513 deputados que compõem a Câmara Federal, com certeza indica algo muito maior que o simples afastamento da pessoa ocupante do mais alto cargo executivo.
Ao assistir às manifestações dos deputados na tarde de domingo é possível extrair muito pouco do que o Brasil quer ouvir. Infelizmente, esse é o verdadeiro retrato da política em nosso país. Os líderes têm pouco a dizer, falta sensibilidade para interpretar o anseio da nação, não há engajamento com a vontade emanada do povo.
Não há pauta por um Estado melhor; ninguém protesta a favor dos meios de produção e distribuição de riquezas através do trabalho digno, alcançado por uma educação de qualidade. Não se vê nem um partido sequer protestar por um planejamento integrado e uma unicidade de esforços. Serão esses objetivos muito distantes? Essa é a interpretação do mercado internacional, que mesmo após a votação do processo de impedimento reluta em trazer seus dólares para o Brasil.
É preciso muito mais que um simples processo de impeachment para que tenhamos um Brasil melhor – aliás, há um grande risco de esse procedimento cair em verdadeiro descrédito internacional, pois se aguardam mudanças drásticas para oferecer crescimento ordenado à nação, mas que custarão impopularidade àqueles que subiram ao púlpito para declararem um sim com o simples objetivo de agradar suas bases.
Muitos estão a comemorar e outros tantos estão a chorar nessa data, mas sem saber propriamente o porquê disso tudo. A população se encontra movida por paixões plantadas, por uma dualidade sem compromisso, sem pauta e irresponsável.
Com certeza é preciso haver consequências para irresponsabilidades dos nossos governantes – consequências políticas e criminais, aliadas à necessária expropriação de todo e qualquer dinheiro desviado da finalidade pública aos bolsos de particulares, sem o que perpetrará aos criminosos o estimulante sentimento de que valeu a pena.
Faz-se necessária, nesse momento, uma profunda avaliação da política e do papel do Estado, não apenas por aqueles que ocupam os seus mantados outorgados pelo povo, mas necessariamente pelas famílias brasileiras, por todos aqueles que, independentemente de lado, estiveram nas ruas. É indispensável o amadurecimento da população quanto ao sentimento do que representam a política e as ações humanas para uma vida em sociedade.
Nesses últimos anos, o que se vê na condução dos poderes é um Legislativo que, no afã de produzir leis, a cada dia mais usurpa a liberdade e o poder de livre arbítrio do cidadão; um Poder Executivo sem capacidade cognitiva de dar atenção aos problemas fundamentais que necessita prover; e um Poder Judiciário pessoalizado, sem condições sistemáticas de enfrentar o objetivo da paz social com a grandeza merecida e os vultosos recursos a ele destinados.
Assim como as famílias fazem muito bem, os três poderes devem se conscientizar de que reclamar de falta de dinheiro raras vezes resolve os problemas; devem assimilar que o Estado não produz riqueza alguma sem uma iniciativa privada forte e segura, que a nação deve oportunizar negócios e circular riquezas para que esse enorme condomínio que é o Brasil consiga progredir com grandes feitos para toda a população.
Uma única batalha não garante o êxito na guerra; por isso, é necessário alavancar todo esse sentimento que brotou no seio da nação para ações efetivas, de combate firme aos desmandos na seara pública, de discussão cotidiana da política nas famílias e, principalmente, na quebra de paradigma de que política é para corruptos – do contrário, os teremos para o resto de nossas vidas.
Rômulo Augusto Araújo Bronzel
Ao assistir às manifestações dos deputados na tarde de domingo é possível extrair muito pouco do que o Brasil quer ouvir. Infelizmente, esse é o verdadeiro retrato da política em nosso país. Os líderes têm pouco a dizer, falta sensibilidade para interpretar o anseio da nação, não há engajamento com a vontade emanada do povo.
O sentimento que se perpetra há anos em nosso país é o da “mais-valia” para com o Estado, no qual os políticos de todas as esferas investem seu precioso tempo em favor de valiosos benefícios a si próprios e aos seus financiadores, condição essa que ficou muito bem caracterizada na votação de domingo.
Não há pauta por um Estado melhor; ninguém protesta a favor dos meios de produção e distribuição de riquezas através do trabalho digno, alcançado por uma educação de qualidade. Não se vê nem um partido sequer protestar por um planejamento integrado e uma unicidade de esforços. Serão esses objetivos muito distantes? Essa é a interpretação do mercado internacional, que mesmo após a votação do processo de impedimento reluta em trazer seus dólares para o Brasil.
É preciso muito mais que um simples processo de impeachment para que tenhamos um Brasil melhor – aliás, há um grande risco de esse procedimento cair em verdadeiro descrédito internacional, pois se aguardam mudanças drásticas para oferecer crescimento ordenado à nação, mas que custarão impopularidade àqueles que subiram ao púlpito para declararem um sim com o simples objetivo de agradar suas bases.
Muitos estão a comemorar e outros tantos estão a chorar nessa data, mas sem saber propriamente o porquê disso tudo. A população se encontra movida por paixões plantadas, por uma dualidade sem compromisso, sem pauta e irresponsável.
Com certeza é preciso haver consequências para irresponsabilidades dos nossos governantes – consequências políticas e criminais, aliadas à necessária expropriação de todo e qualquer dinheiro desviado da finalidade pública aos bolsos de particulares, sem o que perpetrará aos criminosos o estimulante sentimento de que valeu a pena.
Faz-se necessária, nesse momento, uma profunda avaliação da política e do papel do Estado, não apenas por aqueles que ocupam os seus mantados outorgados pelo povo, mas necessariamente pelas famílias brasileiras, por todos aqueles que, independentemente de lado, estiveram nas ruas. É indispensável o amadurecimento da população quanto ao sentimento do que representam a política e as ações humanas para uma vida em sociedade.
Nesses últimos anos, o que se vê na condução dos poderes é um Legislativo que, no afã de produzir leis, a cada dia mais usurpa a liberdade e o poder de livre arbítrio do cidadão; um Poder Executivo sem capacidade cognitiva de dar atenção aos problemas fundamentais que necessita prover; e um Poder Judiciário pessoalizado, sem condições sistemáticas de enfrentar o objetivo da paz social com a grandeza merecida e os vultosos recursos a ele destinados.
Assim como as famílias fazem muito bem, os três poderes devem se conscientizar de que reclamar de falta de dinheiro raras vezes resolve os problemas; devem assimilar que o Estado não produz riqueza alguma sem uma iniciativa privada forte e segura, que a nação deve oportunizar negócios e circular riquezas para que esse enorme condomínio que é o Brasil consiga progredir com grandes feitos para toda a população.
Uma única batalha não garante o êxito na guerra; por isso, é necessário alavancar todo esse sentimento que brotou no seio da nação para ações efetivas, de combate firme aos desmandos na seara pública, de discussão cotidiana da política nas famílias e, principalmente, na quebra de paradigma de que política é para corruptos – do contrário, os teremos para o resto de nossas vidas.
Rômulo Augusto Araújo Bronzel
O PT roxo xinga o descosido Cunha
Assisti de ponta a ponta a sessão da Câmara dos Deputados que deliberou sobre a admissibilidade do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Foi uma experiência emocionante e muito instrutiva. Nos telões armados no Parque Moinhos de Vento (Parcão) em Porto Alegre, em uníssono com a multidão, vibrei a cada Sim e vaiei a cada Não. Devo ter calculado quase uma centena de regras de três tentando antecipar um sempre cambiante resultado final.
Muito instrutiva a observação dos votantes, em especial a turma do Não. Marcharam para o cadafalso político uniformemente ensaiados. Repetiam os mesmos mantras que se revelaram inúteis ao longo dos últimos 15 meses! Levaram suas frases feitas até o alçapão da derrota. Traziam nos olhos um postiço furor cívico. Entre elas, o paradoxal estribilho sem verso "Impeachment é golpe" - uma contradição em termos porque o ato não pode ser as duas coisas: ou é impeachment ou é golpe. Ao final, temos que o povo, o TCU, boa parte da mídia, o STF, o Hélio Bicudo (quem diria?) e mais de 2/3 da Câmara são, todos, "golpistas". E se somam ao "golpista" magistrado Sérgio Moro, aos também "golpistas" promotores que atuam na Operação Lava Jato (outra conspiração) "golpista" e à notoriamente "golpista" Polícia Federal. Por quê? Porque diante do terremoto moral, econômico, fiscal e social que acometeu o governo e o pais, isso é tudo que o PT tem a dizer à nação. No meu modo de ver, em vista das proporções que tomou, o governo da República é o maior e mais danoso golpe impetrado num país democrático desde que Hitler chegou ao poder na Alemanha.
Um segundo mantra se repetiu ao longo da sessão. Refiro-me aos desaforos, em tom crescente, dirigidos a Eduardo Cunha. Entre os adjetivos de uma escala que começava com "patife" e chegava até "gangster", restaram poucos não utilizados pelos que pretenderam ser originais.
Não me surpreenderam os ataques ao presidente, que muito provavelmente os merecesse. O que me espantou foi constatar que partiam de bancadas empenhadas, ao último fio de voz, à última lufada de ar dos pulmões, na defesa de uma organização criminosa inteira. Organização que se apossou do poder central da República e ali praticou (no pouco que já se sabe com prova provada) o maior saque de que se tem notícia na história universal. Diante dela, Cunha entra na lista como mero trombadinha. Mas para o PT, enquanto Cunha é um bandido cuja presença na sessão deslegitima a deliberação do último domingo, o partido, com quanto pesa contra si, é um insubstituível modelo de virtudes, apto a dar lições de dignidade ao mundo.
Percival Puggina
Um segundo mantra se repetiu ao longo da sessão. Refiro-me aos desaforos, em tom crescente, dirigidos a Eduardo Cunha. Entre os adjetivos de uma escala que começava com "patife" e chegava até "gangster", restaram poucos não utilizados pelos que pretenderam ser originais.
Não me surpreenderam os ataques ao presidente, que muito provavelmente os merecesse. O que me espantou foi constatar que partiam de bancadas empenhadas, ao último fio de voz, à última lufada de ar dos pulmões, na defesa de uma organização criminosa inteira. Organização que se apossou do poder central da República e ali praticou (no pouco que já se sabe com prova provada) o maior saque de que se tem notícia na história universal. Diante dela, Cunha entra na lista como mero trombadinha. Mas para o PT, enquanto Cunha é um bandido cuja presença na sessão deslegitima a deliberação do último domingo, o partido, com quanto pesa contra si, é um insubstituível modelo de virtudes, apto a dar lições de dignidade ao mundo.
Percival Puggina
Dia D de Dilma
Estou aqui no meu cantinho do Alvorada falando sozinha – agora dei para isso –, mas falo, sim, registrando nesse gravador a história de minha missão neste país, onde tentei combater sem trégua os perigos maiores que nos ameaçam. Um, dois, gravando, esse gravador é uma merda que o Mercadante deixou aqui, mas tudo bem... Declaro de peito aberto o que penso da vida e o que fiz para proteger meu Brasil brasileiro. Querem me “impichar”, dar um golpe. Será que conseguiram? Eu vos falo do passado, pois são sete horas da manhã de domingo, depois de uma noite insone. Quando me ouvirem, vocês já saberão se eu fui banida ou não.
Começo dizendo que minha consciência está em paz. Minha máxima sempre foi: os fins justificam os meios. Sim. Muita gente metida a ética acha isso até um crime, mas eu não. Meus fins uniram o país. Sim, uni vocês até mesmo contra mim, porque confundiram minha sutileza ideológica com incompetência, acharam que eu errava, sem saber que meu acerto era no futuro. Nunca errei.
Meus queridos, o Brasil estava perdido entre muitas ideologias metidas a “moderninhas” social democracia, liberalismo, mas eu restaurei o essencial: a luta contra o imperialismo norte-americano, contra a desnacionalização de nossas riquezas, contra a sociedade de empresários reacionários, contra o lucro, colocando o Estado no topo, no centro de tudo, pois de lá emana a verdade para essa sociedade de ingênuos e ignorantes. Meus fins sempre justificaram os meios, sim, e não me arrependo de nada.
Essa porra de gravador está gravando? Vamos ver: “... porra de gravador está gravando”, sim. Declaro aqui também que acho o Brasil tão frágil ideologicamente que tem de ser dirigido por um grande Estado, sim. Só um Estado provedor pode proteger o povo nas lutas sociais que ele nem sabe que está travando, mas eu sei, porque nós somos da “elite de esquerda”. Não, “elite” não, fica feio. Pronto, apaguei.
Eu tenho orgulho de ter usado o Estado e seu tesouro acumulado para distribuir riquezas para o consumo tão ansiado pelos pobres diabos, sim, mesmo que os cofres públicos tenham ficado vazios para investir. Populismo? Eu chamo de catequese, conquista de adeptos para o grande futuro que virá! Disseram que eu quebrei o Estado para isso, mas e daí? Fiz isso, sim, porque o fim justifica esse meio; o fim era garantir apoio para as próximas eleições do nosso PT, pois era fundamental que ficássemos para sempre no poder desse país alienado e reacionário, até a chegada do futuro socialista.
Eu já vejo nosso futuro. Nossas massas cantarão unidas com desejos uniformes, com uma felicidade preestabelecida, com desejos programados, assim como a Coreia do Norte (de uma forma “light”, claro); se bem que nossos irmãos coreanos, às vezes, exageram um pouco... Aquele presidente parece um porquinho mas, está na “linha justa”, porque é temido pelos norte-americanos, nosso inimigo principal.
Na luta contra os ianques sempre falávamos da importância da democracia. Mas tenho de confessar uma coisa: para nós, “democracia” sempre foi uma estratégia para tomada do poder.... Falávamos “temos de pedir democracia burguesa para depois fazer o centralismo democrático de que tanto usou nosso grande irmão Stalin”. Democracia é o cacete... O povo não sabe se governar. Um minuto de silêncio para tomar um rivotril.
Alo, alô, voltando a gravar... Bem, vamos lá, me criticaram muito pela política de aliança com canalhas. Sim, por que não? Eu odiava ver suas carinhas pedindo verbinhas, puxando meu saco, mas me aliei a eles, sim, uns filhos da puta necessários, para aprovar coisas naquele ninho de cobras que votam minha saída. Vocês acham que eu gostava daquele hipopótamo do PDT que me beijou a mão, vocês acham que eu gostava de ver o brilho eterno daquele cabelo pintado do Lobão, do traidor Temer, em quem sempre vi a inveja debaixo de sua cara de mordomo de filme de terror?
Eu fiz tudo certo. Distribuí cargos sem fim, verbas infindas para seus currais... Fiz isso porque sei que é preciso praticar o mal para atingir o bem. Será que o Maquiavel disse isso?
Eu sabia de tudo, eu sabia que a compra da refinaria de Pasadena ia ser um rombo pavoroso, mas como conseguir dinheiro para minha reeleição sem tutu, sem propinas? Propinas de esquerda, é claro. Não mandei comprar aquela refinaria lata velha, mas fiz vista grossa sim, quando aquele caolhinho Cerveró me entregou uma página solta com uma piscadinha do olho bom.
Bom, gravando mais... Quero dizer, tudo para o futuro. Tenho orgulho de tudo que fiz...
Eu menti, sim... Menti na campanha, dizendo que não ia ter comida no prato do povo, menti nos bilhões que arranquei dos bancos para esconder o déficit público, eu menti, sim, sobre as pedaladas. Uma mentira repetida vira verdade pelo bem de meu povo.
Olha aqui, meu querido, volta com essa bandeja, joga esse café de merda fora e faz outro que eu possa engolir, porra, essa massa atrasada não sabe nem fazer um café? Vai logo, cacete!
Continuando: essa porra desse neoliberalismo funciona muito na prática. Por isso, sempre lutei para impedir que sejamos um país todo “coxinha”, todo organizado, com o povo trabalhando feliz para o capitalismo. É muito difícil desenvolver esse país de merda. Por isso, temos de destruir o capitalismo por dentro, já que não dá mais pé uma revolução russa. Mesmo uma avacalhação é melhor, mais revolucionária – seria uma espécie de “esculhambação criativa”, ha-ha-ha...
É isso aí... São sete horas da manhã de domingo... Aqui fica minha mensagem. Se eu for impichada, o Lula vai adorar, porque será o “mártir” da direita, e eu é que me fodo como fracassada... E um escroto; vai fazer sua campanha em cima de minha desgraça... Que vou fazer se banida? Tricô? Para onde vou?
E, se eu não for banida, o Lula se muda para o Planalto para preparar sua candidatura em 2018.
E eu vou ter de obedecer. Vou ter de recontratar a besta do Mantega, gastar mais ainda para o povão pensar que tudo melhorou (nem que seja por uns meses), até o Lula ser eleito e eu jogada para escanteio.
Quando vocês ouvirem isso, eu terei sido escorraçada ou mantida? Que será que me aconteceu?
Começo dizendo que minha consciência está em paz. Minha máxima sempre foi: os fins justificam os meios. Sim. Muita gente metida a ética acha isso até um crime, mas eu não. Meus fins uniram o país. Sim, uni vocês até mesmo contra mim, porque confundiram minha sutileza ideológica com incompetência, acharam que eu errava, sem saber que meu acerto era no futuro. Nunca errei.
Essa porra de gravador está gravando? Vamos ver: “... porra de gravador está gravando”, sim. Declaro aqui também que acho o Brasil tão frágil ideologicamente que tem de ser dirigido por um grande Estado, sim. Só um Estado provedor pode proteger o povo nas lutas sociais que ele nem sabe que está travando, mas eu sei, porque nós somos da “elite de esquerda”. Não, “elite” não, fica feio. Pronto, apaguei.
Eu tenho orgulho de ter usado o Estado e seu tesouro acumulado para distribuir riquezas para o consumo tão ansiado pelos pobres diabos, sim, mesmo que os cofres públicos tenham ficado vazios para investir. Populismo? Eu chamo de catequese, conquista de adeptos para o grande futuro que virá! Disseram que eu quebrei o Estado para isso, mas e daí? Fiz isso, sim, porque o fim justifica esse meio; o fim era garantir apoio para as próximas eleições do nosso PT, pois era fundamental que ficássemos para sempre no poder desse país alienado e reacionário, até a chegada do futuro socialista.
Eu já vejo nosso futuro. Nossas massas cantarão unidas com desejos uniformes, com uma felicidade preestabelecida, com desejos programados, assim como a Coreia do Norte (de uma forma “light”, claro); se bem que nossos irmãos coreanos, às vezes, exageram um pouco... Aquele presidente parece um porquinho mas, está na “linha justa”, porque é temido pelos norte-americanos, nosso inimigo principal.
Na luta contra os ianques sempre falávamos da importância da democracia. Mas tenho de confessar uma coisa: para nós, “democracia” sempre foi uma estratégia para tomada do poder.... Falávamos “temos de pedir democracia burguesa para depois fazer o centralismo democrático de que tanto usou nosso grande irmão Stalin”. Democracia é o cacete... O povo não sabe se governar. Um minuto de silêncio para tomar um rivotril.
Alo, alô, voltando a gravar... Bem, vamos lá, me criticaram muito pela política de aliança com canalhas. Sim, por que não? Eu odiava ver suas carinhas pedindo verbinhas, puxando meu saco, mas me aliei a eles, sim, uns filhos da puta necessários, para aprovar coisas naquele ninho de cobras que votam minha saída. Vocês acham que eu gostava daquele hipopótamo do PDT que me beijou a mão, vocês acham que eu gostava de ver o brilho eterno daquele cabelo pintado do Lobão, do traidor Temer, em quem sempre vi a inveja debaixo de sua cara de mordomo de filme de terror?
Eu fiz tudo certo. Distribuí cargos sem fim, verbas infindas para seus currais... Fiz isso porque sei que é preciso praticar o mal para atingir o bem. Será que o Maquiavel disse isso?
Eu sabia de tudo, eu sabia que a compra da refinaria de Pasadena ia ser um rombo pavoroso, mas como conseguir dinheiro para minha reeleição sem tutu, sem propinas? Propinas de esquerda, é claro. Não mandei comprar aquela refinaria lata velha, mas fiz vista grossa sim, quando aquele caolhinho Cerveró me entregou uma página solta com uma piscadinha do olho bom.
Bom, gravando mais... Quero dizer, tudo para o futuro. Tenho orgulho de tudo que fiz...
Eu menti, sim... Menti na campanha, dizendo que não ia ter comida no prato do povo, menti nos bilhões que arranquei dos bancos para esconder o déficit público, eu menti, sim, sobre as pedaladas. Uma mentira repetida vira verdade pelo bem de meu povo.
Olha aqui, meu querido, volta com essa bandeja, joga esse café de merda fora e faz outro que eu possa engolir, porra, essa massa atrasada não sabe nem fazer um café? Vai logo, cacete!
Continuando: essa porra desse neoliberalismo funciona muito na prática. Por isso, sempre lutei para impedir que sejamos um país todo “coxinha”, todo organizado, com o povo trabalhando feliz para o capitalismo. É muito difícil desenvolver esse país de merda. Por isso, temos de destruir o capitalismo por dentro, já que não dá mais pé uma revolução russa. Mesmo uma avacalhação é melhor, mais revolucionária – seria uma espécie de “esculhambação criativa”, ha-ha-ha...
É isso aí... São sete horas da manhã de domingo... Aqui fica minha mensagem. Se eu for impichada, o Lula vai adorar, porque será o “mártir” da direita, e eu é que me fodo como fracassada... E um escroto; vai fazer sua campanha em cima de minha desgraça... Que vou fazer se banida? Tricô? Para onde vou?
E, se eu não for banida, o Lula se muda para o Planalto para preparar sua candidatura em 2018.
E eu vou ter de obedecer. Vou ter de recontratar a besta do Mantega, gastar mais ainda para o povão pensar que tudo melhorou (nem que seja por uns meses), até o Lula ser eleito e eu jogada para escanteio.
Quando vocês ouvirem isso, eu terei sido escorraçada ou mantida? Que será que me aconteceu?
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