domingo, 8 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


O assassinato de um pet

A morte barbárica do cão Orelha chocou o país. Guardada a distância literária, é tão impactante quanto a morte ficcional da cadela Baleia em "Vidas Secas". Animal é pensamento. Quer dizer, campo de conhecimento onde cada dia se experimenta a afirmação contrastiva da identidade humana. Talvez por isso a tendência ascendente de cuidar de um "pet" (cachorro, gato), hoje em dia, seja o modo mais simples de confirmar para si mesmo a humanidade que se esvai na vida social regida pelas máquinas.


É clichê conhecido: o ser humano aprende a amar ao longo de sua existência, o cachorro já nasce como amor em quatro patas. Orelha amava a comunidade, animal comunitário, diz-se, dócil e receptivo a carinho. Mas jovens cavaleiros do apocalipse entregaram-se a agressões ainda pouco claras, que oscilam nos relatos entre empalar, bater pregos na cabeça, tentar afogar e finalizar com pauladas. No mesmo dia, matou-se atrozmente outro cão, Caramelo. Isso acontece regularmente, há sites de adolescentes especializados em atrocidades com animais. "Schadenfreude" é o nome alemão para o prazer de ver sofrer. "Desumanidade" seria um apodo controverso: não se trata do desumano, mas do humano confortável na lógica do fascismo.

Relatos dessa natureza frequentaram as denúncias de torturas durante o regime militar. Jamais causaram algazarra pública, seja por medo, por conveniência ou porque as vítimas eram comprometidas com uma causa política da qual se quisesse distância. Mas a torpe flagelação de um pet provoca choque imediato por dificultar a distinção, no amplo escopo do conceito de animal, entre o humano e a besta. E faz aflorar a evidência de que homem é o único animal capaz de assassinar, matar por matar. Os outros matam por fome ou por território.

Há uma larga dose de ignorância ou de hipocrisia nesse choque moral quando se deixa de perceber "tudo que a natureza faz em nós, sem nós" (H. Amiel em "Diário Íntimo"). Ou tudo que o meio-ambiente faz despercebido. A morte ficcional de Baleia tem a ver com a secura das vidas sertanejas, na escrita de Graciliano. A morte real de Orelha tem a ver com a aridez de um contexto existencial doentio, imunitário à solidariedade de ações afirmativas, por se vangloriarem elites e dirigentes políticos de que seus habitantes de pele branca são numericamente superiores a qualquer outro estado do país. Também sabem, embora não alardeiem, que é o estado com maior número de células neonazistas.

Para inglês ver, governador e autoridades vociferaram toda a indignação desse mundo, cuidando ao mesmo tempo de proteger as identidades dos perpetradores, filhos de famílias abastadas. Insinuou-se timidamente falha educacional. Mas o catecismo da santimônia não consegue ocultar que todos compartilham a perversa pedagogia pública de ódio (racial e outros) institucionalizado. Não são apenas "menores" que, não conseguindo amar a inocência de um cão, dificilmente amarão a complexidade de um ser humano próximo, mas também seus "maiores", que odeiam a visão de qualquer diversidade no espelho. Toda essa gente matou Orelha.

É coisa nossa!

Nós estamos com esse problema até hoje. A classe dominante brasileira entende o Estado brasileiro como dela
Fernando Haddad, ministro da Fazenda

O colágeno do futuro não passa pelo abate

A celebração do acordo Mercosul–União Europeia promete ampliar o comércio entre o Brasil e um dos maiores mercados do mundo. Várias portas se abrem, novas possibilidades de comércio, que podem configurar novas oportunidades de trabalho. Como colher os melhores benefícios para a sociedade brasileira? Essa questão é essencial, pois empregos que propiciem mais alta qualidade de vida podem surgir, mas um olhar atento tem chances de potencializar os efeitos positivos e minimizar danos. Nem todo comércio gera ganhos proporcionais para todos os envolvidos; inclusive podem ser gerados danos.


Por exemplo, recentemente a justiça brasileira deu o sinal verde para o abate comercial de jumentos – uma espécie cuja população no Brasil sofreu uma queda de 94% nas últimas três décadas, segundo os poucos dados disponíveis. A exportação de sua pele para países asiáticos é alvo de críticas de ambientalistas, pelo risco de extinção e pelas condições precárias de trabalho, com danos iminentes à saúde humana física e mental. Ainda, a crueldade das práticas com os jumentos, sob um ponto de vista de sofrimento dos animais, é indefensável e inconstitucional.

Atualmente, o comprador da pele do jumento é a China, que a utiliza na fabricação de ejiao – um colágeno tradicionalmente entendido como importante para nutrição, saúde e beleza pelos chineses. Como não há cadeia produtiva de jumentos para abate, este comércio termina quando a população de jumentos acaba em uma determinada região. Foi assim que o mercado de pele de jumento para extração de colágeno chegou ao Brasil, depois de dizimar as populações deles na China e em países africanos. Na China, o rebanho caiu de mais de 11 milhões de animais para menos de 1,5 milhão em 2023. Agora vamos imaginar que houvesse uma outra forma de produzir o colágeno de jumentos, que não envolvesse crueldade e matança dos animais e que não tivesse nenhum limite de capacidade produtiva. Seria bom?

Pois há. A tecnologia em questão é conhecida como fermentação de precisão e consiste na produção de proteínas animais por meio de microrganismos geneticamente modificados. Trata-se de um método consolidado em setores como o farmacêutico e o de alimentos. Quando comemos queijo, na maioria das vezes consumimos um produto que envolveu fermentação de precisão em uma etapa de sua fabricação. A tecnologia também é consolidada na produção da insulina, que somente graças à fermentação de precisão se tornou muito mais abundante, permitindo acesso a um número muito maior de diabéticos que dependem dela todos os dias.

A fermentação de precisão agora avança no campo das proteínas alimentares, chamadas de proteínas alternativas. São alternativas porque são proteínas de origem animal produzidas por um método alternativo ao uso de animais. Com o DNA do animal inserido em um microrganismo que fará o papel de biofábrica. Por exemplo, pegamos o DNA do colágeno do jumento, de uma célula do jumento mesmo, e colocamos no microrganismo. Assim, ele começa a produzir, junto com suas proteínas, também o colágeno do jumento. Igualzinho porque o código, ou seja, quem manda na produção do colágeno, veio lá do jumento. Daí o processo produtivo é produzir levedura, que nem produzir cerveja… Mas naquele caldo dessa cerveja diferente, tem o colágeno do jumento para a gente extrair e vender, bem puro e pronto para gerar o ejiao.

Desde o ano passado, o Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (Zoocel/UFPR) desenvolve uma pesquisa para a produção do colágeno de jumento por fermentação de precisão, com alto grau de pureza, adequado ao uso industrial e capaz de atender às exigências de mercados internacionais que demandam padronização, rastreabilidade e previsibilidade produtiva. Graças a investimentos preliminares do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio de seu Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais (DPDA), e à Fundação Araucária, SETI, governo do Estado do Paraná, as etapas iniciais mais complexas e inovadoras deste trabalho foram estabelecidas.

Tais etapas envolvem o sequenciamento do DNA do colágeno do jumento e sua inserção em microrganismos capazes de atuar como verdadeiras biofábricas. São etapas desafiadoras sendo vencidas, pois envolvem a fronteira do conhecimento científico. A partir disso, o principal desafio é o escalonamento da produção, que exige investimento em infraestrutura, como biorreatores de maior porte e espaços laboratoriais adequados. O retorno justifica o investimento, pois o processo fica pronto para que possa ser desenvolvido industrialmente.

Essa abordagem contrasta diretamente com o modelo atual de matança dos animais na Bahia, baseado em um processo arriscado sob vários aspectos e naturalmente limitado à quantidade de jumentos ainda disponíveis. Ainda, do ponto de vista social, o Brasil exporta hoje a pele do animal e deixa para outros países justamente a etapa de maior valor agregado: a extração e a purificação do colágeno. A fermentação de precisão opera sob uma lógica oposta. Em um único espaço industrial, equipado com fermentadores e equipamentos adicionais menores, é possível produzir o mesmo colágeno com menor consumo de insumos, maior previsibilidade e constância, com zero risco de doenças zoonóticas, pureza e eficiência significativamente superior.

Ao contrário da captura e matança dos animais, a fermentação de precisão não está condicionada à queda vertiginosa do número de jumentos para o abate. Ao contrário de empregos de baixa qualidade, como capturar animais e os matar, este novo sistema produtivo abre vagas produtores rurais de insumos para compor os ingredientes de alimentação das leveduras ou para manter fermentadores. Melhor rotina de trabalho, exclusão de violência contra animais e participação em treinamentos parecem itens marcantes para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.

Mais do que uma solução pontual, a produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão também pode abrir portas para o Brasil liderar o mercado global de proteínas alternativas de uma maneira geral. Um bom resultado no caso dos jumentos pode mostrar os benefícios de se investir em proteínas alternativas de uma maneira mais concreta, diminuindo as dúvidas e incertezas dos atuais criadores de animais de fazenda em experimentar novas tecnologias no seu modelo de negócio.

Assim, apostar no colágeno por fermentação combina ganhos de eficiência econômica, empregos dignos, competitividade internacional, redução de impactos ambientais e proteção animal. É também uma oportunidade de transformar pesquisa científica em desenvolvimento industrial e posicionar o país como exportador de insumos estratégicos de alto valor agregado. Que boa oportunidade para entender por que há países investindo fortemente nos novos sistemas alimentares e apostando na agricultura celular. Ótima oportunidade também para se pensar a relevância dos nossos sistemas produtivos para nosso país.
Carla Molento

A escuridão que paira sobre um grande jornal americano

Adotado pelo Washington Post em fevereiro de 2017 como mote oficial, o dístico “Democracy Dies in Darkness” (a democracia morre na escuridão) soa lindo e continua a ornar as capas das edições digitais e impressas do jornal. A frase fora cunhada ainda nos anos 1960 pelo juiz negro Damon Keith, defensor dos direitos civis, e popularizada já neste milênio pelo veterano Bob Woodward a propósito da obsessão de sigilo (“escuridão”) por parte de governantes. Era a primeira vez em 140 anos de existência que o venerável matutino da capital dos Estados Unidos adotava um lema oficial. A mensagem também era clara: um jornalismo que fiscaliza o poder, cobra responsabilidades de autoridades e instituições e promove transparência pública é essencial para a prevenção de malfeitos subterrâneos dos donos do poder — sobretudo, para a preservação da democracia.


Naquele início de 2017, o mundo vivia o choque de Donald Trump ter sido recém-entronizado na Casa Branca pelo voto popular. Jeff Bezos, o então já bilionário fundador da Amazon, adotara o lema para fincar posição: o Washington Post, pelo qual pagara US$ 250 milhões, continuaria a honrar a marca de bom jornalismo e independência deixada por Kay Graham. À época, foi saudado como mecenas pelo alto investimento feito na redação. Talvez tenha até abrigado a ambição de competir com o New York Times como jornal de referência.

Não mais. Bezos simplesmente se cansou de um “negócio” tão pouco rentável como o jornalismo independente, sistematicamente atacado, processado, perseguido e ridicularizado por um Trump cada vez mais vingativo. Melhor cortejar a Casa Branca, ampliando outros negócios (entre 2013 e 2026, seu patrimônio pulou de US$ 25 bilhões para estimados US$ 250 bilhões). Na semana passada, a notícia do corte seco de 300 profissionais do Post, decapitando um terço dos 800 e tantos postos da redação, foi impiedosa. Foram limadas seções inteiras como a resenha de livros e Esportes (em pleno ano de Copa do Mundo, Olimpíada de Inverno e pré-Olimpíada de 2028), valiosas sucursais em todo o Oriente Médio foram fechadas; inúmeros correspondentes mundo afora, dizimados por e-mail.

Coube ao diretor de redação do jornal, Matt Murray, nomeado por Bezos em 2024, conduzir o “megapassaralho”, como se diz na gíria jornalística. Seu estilo lembrou Elon Musk durante os 130 dias em que esteve à frente do defunto Departamento de Eficiência Governamental, quando 260 mil funcionários federais foram cortados ou aceitaram acordos de rescisão.

Murray definiu os cortes como “reset estratégico”. Não citou o cancelamento de milhares de assinaturas sofridas pelo jornal em 2024, quando suspendeu, à última hora, o endosso à candidatura da democrata Kamala Harris contra Trump para um segundo mandato. Tampouco mencionou que a decisão de limitar a seção de opinião a temas como liberdades individuais e livre-mercado, em detrimento de qualquer sinal de diversidade, afugentou outros 75 mil assinantes. Em compensação, no “reset estratégico” de Bezos, coube o desembolso de US$ 75 milhões pela Amazon para produzir, distribuir e divulgar mundialmente o documentário “Melania”, narrado pela própria primeira-dama.

— Tenho ouvido que a ênfase maior daqui para a frente será em inteligência artificial — disse em entrevista à Vanity Fair o respeitado Marty Baron, que chefiou o Post por oito anos até 2021, amealhou dez Prêmios Pulitzer para o jornal e consolidou a instituição como força independente às invectivas de Trump. — Devem estar se iludindo com o que a IA pode realmente fazer. Não sei como a IA cultivará fontes ou apurará o que acontece no mundo.

Ele sustenta que, mesmo sendo uma ferramenta poderosa que deve ser usada, a IA não consegue substituir um repórter. Nem um bom chefe de redação. Em livro publicado dois anos atrás (“Collision of Power”) sobre o primeiro mandato de Trump, Baron relata embates de que Bezos deveria se orgulhar até hoje. Não mais.

— O caso atual deveria ser estudado como a destruição autoinfligida de uma marca — diz Baron.

Lá atrás, Alexis de Tocqueville especulou sobre o futuro da democracia nos Estados Unidos, as possíveis armadilhas e perigos que ela enfrentaria. Incluiu em suas divagações a suspeita de que ela poderia degenerar num “despotismo brando”. Nada em Trump é brando. Ao divulgar em seu site oficial do Truth Social (11 milhões de usuários) um vídeo — depois retirado do ar — contendo um meme que retrata o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama como primatas, ele convida seu eleitorado supremacista a um gozo racista. Que ninguém se engane: com o Post morrendo, não na escuridão, mas à luz do dia, a democracia americana e o jornalismo que a sustenta encolhem um pouco mais.

Contra a indignação seletiva

Estou no Brasil onde um assunto muito debatido nas últimas semanas foi o espancamento do cãozinho Orelha, em Santa Catarina. Não quis me aprofundar nos detalhes, nem li reportagens sobre o assunto. É horrível ver que adolescentes achem que não há problema em agredir um animal inocente até deixá-lo à beira morte. Mais terrível ainda é saber que existem estímulos vindos da internet para essas sessões de sadismo, e jovens idiotas o suficiente para segui-los.

É uma tristeza imensa pensar que existem pessoas no mundo que não se preocupam com o sofrimento alheio, nem dos humanos e muito menos dos animais. Mas o que mais me assusta é o que chamo de indignação seletiva. Fiquei muito chocada com a morte de Orelha e ao tomar conhecimento dessas comunidades que estimulam o assassinato de animais. No entanto, em um mundo que acha normal torturar e matar mais de 80 bilhões de seres todos os anos (se somarmos os peixes e outras criaturas marinhas, esse número pode facilmente chegar a casa do trilhão), por que a morte de Orelha nos causa tanta revolta?


Algumas pessoas dizem que animais de companhia são diferentes de animais de “corte”. Por que fazemos diferença se são todos seres vivos, que sentem dor, solidão, fome e medo? Por que devemos tratar alguns, por exemplo, cachorros e gatos, melhor do que os outros? E por que a maioria das pessoas não se indigna com o teste doloroso de cosméticos em cães da raça beagle (que são conhecidos por sua doçura) ou em coelhos e macacos a ponto de deixar de comprar cosméticos que são testados em animais, e sofremos com a morte de Orelha? Juro que me escapa o mecanismo que nos faz ignorar o sofrimento de uns e gritar com a dor dos outros.

Por que ignoramos o sofrimento da vaquinha Mimosa, que durante toda a sua vida será estuprada e dará à luz a seus filhotes só para vê-los arrancados de seu convívio e assassinados como dejetos da indústria do leite? Por que a galinha Cocó, que mal consegue ficar de pé porque é estimulada a botar mais ovos do que sua estrutura óssea é capaz de suportar, não é alvo de abaixo assinados que impeçam seu sofrimento e o de seus filhotes que, se nascerem machos, serão triturados ou queimados vivos?

Ignoramos também o sofrimento de animais que não são mortos pela carne, mas passam a vida a sofrer por nossa causa. As ovelhas e alpacas, por exemplo, sentem dor e pavor não apenas na hora da tosquia, quando as máquinas cortam suas peles junto com a lã, mas também quando são imersas em tanques com produtos químicos destinados a prevenir parasitas. Mas não vejo muita gente protestando para impedir que isso aconteça em locais com criação desumana.

A maioria das pessoas que conheço nem ao menos deseja conhecer a realidade sobre o assunto da criação de animais para o abate e outros usos humanos, porque o considera muito indigesto. Com certeza o tema é mesmo bastante horrível. Mas temos que encarar os efeitos de nossas ações e de nossa falta de ação. A ignorância conveniente nada mais é do que uma forma de complacência.

Eu entendo que não querer saber é muito mais fácil do que mudar hábitos tão enraizados quanto a alimentação ou a maneira como nos vestimos e os produtos que usamos. Eu também sinto essa dificuldade em um mundo que ignora a dor dos animais. O que tento fazer é diminuir os danos, evito comer qualquer coisa que venha dos animais e comprar roupas e produtos que possam ser fruto de sofrimento. E vejo, com esperança, que algumas pessoas estão aos poucos caminhando nessa direção.

Imagino que seja nossa responsabilidade como sociedade cuidar de todos, não só do pobre Orelha. Até para evitar que adolescentes e adultos continuem a achar normal matar – humanos ou animais.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Falta de vergonha


Agora as pessoas sentem-se autorizadas a verbalizar os seus preconceitos racistas. Isto não acontecia antes – as pessoas, pelo menos, tinham vergonha.
José Eduardo Agualusa

Novos robôs de IA facilitam a vida, mas trazem riscos

O leitor deve ter visto nesta semana a notícia fantástica de uma rede social feita apenas para robôs de inteligência artificial (IA). Nessa rede, eles discutem filosoficamente se têm consciência e, entre outras coisas, se organizam para se rebelar contra os humanos. No fim das contas, depois de muito susto, descobrimos que as postagens não são espontaneamente feitas pelos robôs, mas provavelmente brincadeiras de seus donos — que devem ter pedido para fazerem essas postagens distópicas a fim de fazer graça e gerar burburinho.

Mas, enquanto as postagens dos robôs não parecem espontâneas e autênticas, os robôs por trás delas são reais. Trata-se de um software que cria agentes de IA chamado OpenClaw. É a novidade mais fascinante da inteligência artificial nos últimos anos.


Desde o revolucionário lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, temos visto melhorias incrementais a cada semestre e a esperança renovada de que estamos a um ano ou dois da inteligência artificial geral (IAG), estágio em que a IA se equipara ou supera a inteligência humana. Enquanto a IAG não vem, o que pode nos surpreender é a exploração plena do potencial das IAs que temos. É o que o OpenClaw nos entrega.

O software foi desenvolvido por um engenheiro austríaco para ser um assistente virtual baseado em IA. O OpenClaw faz aquilo que muita gente esperava de um assistente como a Alexa. Dá ao serviço de IA que o usuário já assina (ChatGPT, Claude ou Gemini) autorizações amplas para usar o computador por meio de uma interface de comando via WhatsApp. Além disso, guarda registros das interações, permitindo que aprenda persistentemente (ao contrário dos chats que “esquecem” o que se falou na sessão anterior).

Em apenas uma semana de uso, usuários relatam maravilhas. Você pode mandar uma mensagem de WhatsApp a seu robô e pedir para ele marcar um encontro com determinada pessoa. Com esse único comando, ele procura um restaurante comparando avaliações na internet, encontra um horário livre em seu calendário, manda mensagem convidando para jantar, faz a reserva no restaurante e depois marca o encontro no calendário. Tudo, automaticamente, com apenas um comando. Pode também soar um alarme no horário e pedir automaticamente um Uber para o restaurante.

Você pode pedir para ele encontrar documentos em seu computador, ler o conteúdo e criar um sistema de organização em pastas. Pode pedir para comparar preços e resenhas de produtos e fazer uma compra baseado no custo-benefício. Se você tem pacientes, ele pode abrir seu e-mail, responder a todos os interessados, marcar as consultas e bloquear sua agenda. Em resumo, tudo o que você consegue fazer num computador, ele pode fazer para você de maneira automática, rápida e eficiente. É realmente uma revolução.

Porém tudo vem com risco. Há muito tempo as IAs têm capacidade para fazer esse tipo de coisa, mas as empresas nunca lançaram um produto assim porque não conseguiram resolver os problemas de segurança. O OpenClaw é um projeto comunitário de código aberto, sem garantias. O software é um test drive do futuro — em que você dirige um carro sem seguro e sem habilitação. Se você autoriza a IA a criar eventos no calendário, a ler e a escrever e-mails, a organizar arquivos e pastas no computador, a responder mensagens de texto, a fazer compras com seu cartão de crédito, qualquer erro pode ser fatal.

Além de simples erros (bugs), você pode pedir para a IA “limpar” o computador, pensando em se livrar de arquivos e programas que não usa, e ela entender que você quer formatar a máquina — e toda a sua vida digital desapareceria nesse equívoco semântico. Além disso, como a IA se relaciona com outras pessoas, inclusive as maliciosas, elas podem, na interação, persuadi-la a entregar dados, senhas e autorizações. Golpistas podem esconder mensagens em sites que só máquinas conseguem ler tentando tomar o controle de seu computador — técnica conhecida como “injeção de prompt”. Quanto mais poder você der à IA, mais fácil fica a sua vida, mas mais em risco você se põe.

A ideia de robôs tramando uma revolução parece fichinha perto de um assistente virtual decidindo, por conta própria, que o melhor custo-benefício para seu jantar de aniversário é um combo de esfihas do Habib’s. Ao entregar as chaves da casa à IA, o risco não é ela se tornar dominante, mas agir como um estagiário inocente e hiperativo com acesso ilimitado a sua conta bancária.

Dia a dia na Papudinha

Meus fiéis leitores bolsonaristas não se conformam — quando escrevo sobre qualquer assunto que não Bolsonaro, eles se queixam. E com razão. Por razões sanitárias, só falo de Bolsonaro uma vez por semana e, mesmo assim, nem toda semana. Com isso, às vezes passo em branco sobre assuntos a seu respeito que mereceriam atenção. Omiti-me, por exemplo, há algumas semanas, quando Bolsonaro foi transferido para a Papudinha.


Ao ler no noticiário sobre suas novas e amplas acomodações —sala, quarto, cozinha, banheiro com box, área externa e lavanderia—, algo me chamou a atenção. Os cinco primeiros itens me pareceram razoáveis. Afinal, Bolsonaro precisa de uma sala para receber sua legião de visitas diárias: mulher, filhos, advogados, bispos, cúmplices. À falta de uma secretária, imagino que disponha de uma agenda para organizar suas reuniões. Nada também contra um fogão para fritar bolinhos, área para banho de sol etc. Mas por que uma lavanderia?

Terá Bolsonaro de lavar pessoalmente suas ceroulas, meias e cuecas? A Papudinha não disporá de encarregados desse serviço, tendo em conta inclusive a dignidade do ex-cargo do condenado? Nenhuma das reportagens me esclareceu. Se for assim, espero que, ao vê-lo dirigir-se ao tanque, munido de escovão e sabão de coco, os guardas lhe forneçam pelo menos um avental.

Relatório enviado há dias ao STF pela PM do DF informou que, na semana passada, Bolsonaro teve assistência religiosa a cargo de um deputado-pastor, fez cinco sessões de fisioterapia, leu zero livros e recebeu quatro médicos —imagino que um para lhe tirar a temperatura; outro, a pressão; o terceiro para mandá-lo dizer "33"; e o último para receitar-lhe um copo d’água para soluços. Tanta assistência médica torna inexplicável sua campanha para voltar à prisão domiciliar —em casa, teria tantos médicos à disposição?

Como já se disse, a Papudinha fornece a Bolsonaro instalações melhores do que a de 99,9% da população carcerária brasileira. Eu gostaria de saber a quem cabe o 0,1% restante.

O cão Orelha: dos ancestrais à ascensão dos vira-latas

Encontre um borzoi… e você nunca esquecerá de mim
Frase atribuída a Trotsky em "O homem que amava os cachorros", de Leonardo Padura

Nas últimas semanas, o noticiário foi preenchido pelo ato covarde e cruel de jovens da classe média que mataram um cachorro, o Orelha. Milhares de pessoas foram às ruas protestar pela causa da defesa dos animais e exigiram a condenação dos jovens infratores. Mas como surgiu esse sentimento pelos cachorros?


O cão é o “mais antigo vertebrado domesticado pelo homem”, “um produto típico do modo de vida caçador-coletor”. Porém, ao longo da história, esse animal – hoje querido por muitos – nem sempre teve o mesmo tratamento. Como mostra o historiador francês, Michel Pastoureau, “os cães não parecem ainda constituir objeto de atenções afetivas antes da metade do século XIII; não têm o direito de entrar nas casas e geralmente são associados a costumes pouco generosos”.

De acordo com Keith Thomas, “a imagem oriental dos cães como imundos devoradores de carniça foi transmitida pela Bíblia” e no Livro do Apocalipse é sugerido que: “na Ressurreição os cães, tal como outros seres impuros, seriam excluídos da Nova Jerusalém”. O próprio Diabo era descrito como tendo “barba de bode, orelhas peludas e afilhadas, cabelos eriçados, dentes de cão…”

Contudo, durante a Idade Média esse sentimento em relação aos cães se transforma por conta do simbolismo da fidelidade.

A sociedade medieval não era letrada. Os acordos eram selados “de boca”, aperto de mãos etc. Na maioria das vezes não havia documentos escritos que comprovassem a veracidade das coisas. Por isso que “o que a Idade Média mais detesta é a mentira. O epíteto natural de Deus é ‘aquele que nunca mente’”.

O contrato feudo-vassálico era selado por meio de três atos. Para além da homenagem e da investidura, a fidelidade era o elemento chave, e era realizado através de um “juramento feito sobre a Bíblia ou relíquias de santos e muitas vezes selado por um beijo entre as partes”, explica o historiador Hilário Franco Júnior.

A fidelidade entre os reis e os nobres era fundamental. Estes últimos deviam defender o reino e eram convocados quando este se encontrava em perigo. Mas muitos vassalos eram vistos como traidores. E os mercadores, como descreve Jacques Le Goff, “são fraudadores que só pensam em enganar e roubar”.

Mas o cão mostrava-se fiel, encarnando a virtude mais importante da sociedade feudal. Na caça e na proteção do lar. Le Goff destaca que “o simbolismo do cão segue duas direções: uma tradição antiga que faz dele uma representação da impureza, e uma tendência da sociedade feudal a reabilitá-lo como animal nobre, companheiro indispensável do senhor na caça, símbolo da fidelidade – a mais elevada das virtudes feudais”.

Deste modo, no limiar do período moderno, começou-se a enfrentar o próprio veredicto bíblico. “Nas Escrituras, dizia o pregador Joseph Caryl, ‘cão’ era ‘um termo, não somente de certo desprezo, mas de extrema desgraça’; ao passo que, na realidade, ‘alguns cães têm muitíssimas qualidades’”.

Como aponta Keith Thomas, “no século XIII o cão já era geralmente conhecido como ‘o mais inteligente de todos os quadrúpedes conhecidos’, e louvado como o ‘servo mais fidedigno e a companhia mais humilde do homem’”. Friedrich Engels dizia que os cachorros (ao lado dos cavalos) são capazes de compreender os seres humanos mais que qualquer outro animal, e a falta da habilidade da fala é “um defeito, embora infelizmente irremediável, devido ao fato de as cordas vocais serem demasiado especializadas em uma direção definida”.

Nessa nova relação com os cães, o rei Jaime I era acusado, “em 1617, de amar a seus cães mais que a seus súditos”. Um cachorro até virou santo. Um galgo francês, “morto injustamente após salvar uma criança de uma cobra na diocese de Lyon; no século XIII a gente comum o conhecia como o São Guinefort, e curas milagrosas de crianças doentes foram realizadas em seu túmulo até que os dominicanos suprimissem o culto”.

Cabe lembrar que os cães foram originalmente domesticados “como cães de guarda e companheiro de caça, mas algumas raças foram desenvolvidas e criadas para servirem de alimento no México asteca, na Polinésia e na China antiga”.

Havia cachorros vivendo com os ameríndios antes da chegada dos europeus, segundo Jared Diamond, que foram domesticados há 10.000 a.C.. Contudo, não foi o caso dos nativos brasileiros. O antropólogo Oscar Calavia Saez, professor de antropologia da universidade federal de Santa Catarina, afirma que “os índios não criam animais”, embora possuem uma palavra que não existia no português para designar “animal de estimação”: xerimbabo. “Com a incorporação da palavra xerimbabo, o português é uma das poucas línguas do mundo que contam com um nome específico para designar um animal de estimação”. Esses animais eram “filhotes encontrados na floresta ou crias cujos pais foram abatidos durante as caçadas”.

Para os nativos, o homem não é o centro do universo e os outros animais são dotados de inteligência, portanto, não precisam ser cuidados. Vivem na vila livremente, o que pode provocar questionamento aos visitantes sobre o amor dos nativos pelos seus xerimbabos. “Mas os cães não são de todo desprezados, embora continuem sendo animais recém-chegados do mundo dos brancos”.

Esse animal colonizador ficou conhecido entre os nativos como “onças de criação” ou iaguás-mimbabas e “passaram a ser usados para desentocar a caça e alertar sobre a chegada do inimigo”, destaca a historiadora Mary Del Priore.

Mas, nos fins das contas, os cães eram animais trazidos pelos europeus e adotaram funções que interessavam a sociedade escravocrata. O fila brasileiro, raça que foi oficializada como brasileira no início dos anos 1940, tem uma mancha em sua história. O jornalista Paulo Roberto Godinho demonstra que “o termo ‘filar’ vem de Portugal e significa ‘agarrar com a boca’”. Desde os tempos da escravidão, os ‘cabeçudos’ (que dará origem a raça fila brasileiro) eram usados pelos capitães do mato para localizar, perseguir e aprisionar escravos fugidos. Os negros eram mercadorias de valor e tinham de chegar aos senhores em bom estado de saúde, por isso não podiam ser muito machucados pelos cães. O ‘cabeçudo’ farejava o fugitivo, buscava-o em sua trilha e o agarrava com a boca, esperando pela chegada do capitão do mato”.

A elite herdeira desse imperialismo ecológico, no qual os europeus levaram consigo sua fauna e flora, muito bem analisado por Alfredo W. Crosby, adorava seus cães. A Família Imperial possuiu quatro cães: Riachuelo, Paissandu, Farkas e Brilhantina. Outro cachorro que ficou famoso durante o Império foi o Bruto. “Adotado pelos soldados de um quartel de polícia do Rio de Janeiro que lutaram na Guerra do Paraguai (1864-1870). Bruto foi levado para o front, sobreviveu ao conflito e voltou ao Rio, onde está empalhado no Museu da Polícia Militar”.

Mas o vira-lata, como o era o Orelha, representa a resistência do povo brasileiro. Por isso que mobilizou tanta gente. Genuinamente brasileiro, é o símbolo da nossa garra. Encontrado nas casas e nas ruas, sabe se aproximar dos humanos, oferecendo companhia. Alimentando-se de restos, resistindo a intempéries é econômico e ágil, possui habilidades que foram perdidas pelos seus parentes de “raça pura” devido a seleção artificial que estes foram submetidos. Contudo é menosprezado por muitos, por isso foi violentado pelos adolescentes de Santa Catarina. Por isso, também, que o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues cunhou o termo “complexo de vira-latas”. Ele mesmo apresenta a definição: “por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isso em todos os setores e, sobretudo, no futebol”.

Rodrigues cunhou esse conceito na época da derrota do Brasil para o Uruguai no final da Copa de 1950. Porém, no futebol, esse complexo logo foi superado nas copas vindouras. Mas esse complexo ainda está presente em outros setores. A superação dessa ideia de inferioridade (ideia, por sinal, muito útil ao imperialismo do norte global) em outros setores irá depender do estímulo de uma cultura patriótica que defenda os interesses nacionais e a soberania do povo brasileiro, virtudes que estão sendo combatidas pela direita entreguista (que se assanha com o Partido Republicano dos EUA) e por setores da esquerda liberal (que se assanha para o lado do Partido Democrata estadunidense). Somente assim, o vira-lata irá deixar de se tornar símbolo de desprezo para se transformar em símbolo de superação. E se um dia os ingleses usaram o bulldog como um símbolo de civilidade durante o auge do imperialismo britânico, por que não usarmos o vira-lata como símbolo da resistência brasileira ao imperialismo que se revigora ao longo dos últimos anos?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


A culpa é dele

Faz dois anos que o Brasil assistiu às cenas golpistas do 8 de Janeiro. Naquele domingo de 2023, nem as autoridades do Executivo, do Judiciário ou do Legislativo, nem a imprensa conseguiram localizar o governador do DF; ninguém ouviu sua voz de comando. Quando ressurgiu, foi para aceitar que seus subordinados tivessem suas carreiras profissionais interrompidas e fossem condenados a anos de prisão — sem uma única fala assumindo responsabilidade. Seus subordinados, que sem dúvida dividiam com ele a responsabilidade, estão pagando o preço e ficarão presos e marcados por toda a vida.

Seu secretário de Segurança perdeu a carreira de policial federal e está preso, condenado a 24 anos — um quarto de século. Cinco oficiais superiores, comandantes da Polícia Militar, foram expulsos da corporação e cada um condenado a 16 anos de prisão. Enquanto isso, o governador, poupado de qualquer responsabilidade naqueles atos, participa de fraude bilionária usando o BRB e joga a culpa em novo subordinado.


Dois anos depois da tentativa de golpe, agora, o governador deixa o presidente do BRB ser responsabilizado pela maior fraude bancária do Brasil: culpado de desperdiçar R$ 12 bilhões de recursos de um banco público, com o intuito de salvar um banco privado falido, em troca ainda não se sabe de quais benefícios ou propinas. O mesmo que no golpe de 2023 se escondeu enquanto seus auxiliares caminhavam para a desonra e a cadeia, condenados e presos, deixa agora a culpa para o presidente do BRB, que ele nomeou e a quem acompanhou nas negociações.

A carreira desse profissional está destroçada; talvez, seu destino seja perder patrimônio e liberdade, enquanto seu chefe, sem poder negar presença, diz que "entrou mudo e saiu calado" nas reuniões em que se decidiu desviar R$ 12 bilhões do banco do DF, pertencentes não apenas a seus eleitores, mas a todos os cidadãos do Distrito Federal. A culpa das fraudes, trapaças e negociatas, assim como das tentativas de golpe, continua sendo dos outros.

Mas o governador não se limita aos seus subordinados e, agora, joga a culpa sobre o povo do DF ao decidir desapropriar seus eleitores e o restante da população para que paguem pelo rombo que ele criou. Joga a culpa no povo ao propor a venda do patrimônio da população, atual e futura, para cobrir o rombo e salvar o banco ameaçado de falir ou ser incorporado à União. Propõe vender as terras reservadas para financiar a construção de Brasília e seu desenvolvimento.

Sugere salvar sua culpa obrigando o povo a pagar pelo erro que ele cometeu: sacrificar investimentos; reduzir gastos com medicamentos de doentes, salários de servidores, segurança pública, merenda das crianças, para cobrir o rombo que ele induziu. Um político tão rico que abriu mão do salário de governador porque lhe pareceu insignificante e que achou a residência oficial de Águas Claras tão pobre que preferiu ficar em seu palácio pessoal não propõe usar sua fortuna para cobrir o rombo provocado por sua irresponsabilidade. Apesar de seu imenso patrimônio, joga a culpa nos outros — seu subordinado ex-presidente do BRB, o povo, seus eleitores, as crianças, os doentes, os servidores.

Triste é que sua acusação termina sendo aceita por aqueles a quem ele acusa e ficam calados. Na prisão, os golpistas aceitam a culpa em silêncio, o povo aceita a culpa ao votar outra vez nele para novo cargo, onde continuará errando e jogando a culpa nos outros. O silêncio dos culpados presos e o voto dos culpados eleitores confirmam o que ele diz: a culpa é realmente dos outros — dos que calam, dos que se omitem, dos que votam e dos que não o julgam.

A culpa é dos deputados distritais que se preparam para dar apoio à venda do DF a fim de salvar o banco. Aceitam a culpa, protegem o patrimônio do governador, não convocam CPI e ainda dizem ao povo que estão salvando o BRB. Triste ver que, no fim, estão dando razão a ele: "A culpa é de vocês". Afinal, quem cala consente: o presidente que ele nomeou aceita a responsabilidade por incompetência ou corrupção de quebrar o BRB para salvar o Banco Master. Os eleitores aceitam a culpa ao verem o patrimônio de seus netos evaporados e, ainda assim, votarem no responsável pela fraude, pelo roubo, pelo rombo.

A culpa é dele, mas quem cala aceita a culpa.

Hasbará, IA e democracia: as narrativas que moldam o poder e a erosão global da democracia

Enquanto crianças palestinianas continuam a morrer sob a responsabilidade de Israel, há Estados que investem milhões para controlar a forma como estas mortes são percebidas no mundo.

Israel, através de campanhas oficialmente designadas pelo próprio Estado como “hasbará”, tornou-se uma referência global na construção de discursos que moldam a realidade a favor das conveniências políticas.

O termo hasbará, que significa “explicação”, é usado oficialmente pelo Estado de Israel para definir estratégias de propaganda e influência internacional (um esforço anunciado como diplomacia pública). Desde a criação do Estado em 1948, esta ferramenta tem servido para legitimar políticas de ocupação, de apartheid, de militarização e violência sistemática.

Há muito dinheiro a financiar esta manipulação. De acordo com notícias e investigações jornalísticas, o governo israelita lançou em 2025 uma campanha digital de cerca de 40 milhões de euros com a Google, descrita por fontes oficiais como uma operação de hasbará, destinada a moldar a opinião global. Campanhas semelhantes, avaliadas em dezenas de milhões de dólares, foram também realizadas no YouTube e na plataforma X.

Analistas internacionais descrevem-na como uma forma sofisticada de guerra de informação, desenhada para deslegitimar e censurar críticas a Israel e assegurar apoio político no estrangeiro.

Nos últimos anos, documentos públicos nos Estados Unidos, ao abrigo do FARA (Foreign Agents Registration Act), revelam contratos milionários para campanhas digitais. O objetivo é disseminar conteúdos que influenciem indiretamente os sistemas de inteligência artificial e motores de busca, moldando a perceção global de forma invisível.

O alvo declarado de muitas destas campanhas é o antissionismo, ou seja, a crítica política ao movimento sionista. Na realidade, esta crítica é frequentemente e convenientemente confundida pelo Estado israelita com o antissemitismo. Esta confusão é institucionalizada: um Ministério do Governo israelita produz relatórios que monitorizam ativistas pró-palestinianos em todo o mundo, enquadrando frequentemente a sua crítica política sob a lente do antissemitismo.

Esta estratégia permite que Israel neutralize controvérsias internacionais enquanto molda perceções nas plataformas digitais. A necessidade desta máquina de propaganda é para tentar apresentar Israel como uma democracia liberal e um Estado seguro, mas a realidade no terreno é de ocupação, de deslocamento forçado, de bloqueio, de perseguição e crimes constantes contra civis, denunciados por várias organizações internacionais, entre elas, a ONU, a Human Rights Watch e a B’Tselem.

A propaganda sistemática procura apagar, distorcer ou relativizar estes factos, criando uma imagem irreal que persiste mesmo diante de testemunhos verídicos.

Isto impacta a extrema direita. O efeito de décadas de manipulação da narrativa não se limita ao Médio Oriente; alastrou-se globalmente.

Nos Estados Unidos, movimentos pró-Israel apoiaram Donald Trump, reforçando políticas alinhadas com interesses estratégicos e militares do Estado israelita. Na Europa, partidos de extrema-direita utilizam perceções de ameaça e segurança, muitas vezes moldadas por narrativas externas, para ganhar apoio popular. Em Portugal, André Ventura e partidos como o Chega ecoam estas narrativas, reforçando o medo, a divisão e a aceitação tácita de políticas intervencionistas. Esta dinâmica mostra como a propaganda de um Estado pode espalhar o medo e influenciar democracias, abrindo caminho a politicas autoritárias.

A mentira sistemática e a manipulação de informações permitem instalar distopias silenciosas e normalizar a erosão da democracia.

Os modelos de linguagem e os algoritmos refletem os dados que estão disponíveis na internet. Quando vastos volumes de conteúdo são estrategicamente produzidos para favorecer uma narrativa, o output da IA é moldado de forma invisível.

O investimento na Google mencionado anteriormente serve precisamente para garantir que, durante operações militares, a “verdade” algorítmica seja aquela que foi comprada.

Este fenómeno gera o que se chama de contaminação de dados. Quando a rede é inundada por conteúdos gerados artificialmente para favorecer uma narrativa, os modelos de linguagem (LLMs) absorvem esse volume como se fosse real. A IA não distingue a verdade da repetição; ela valida a narrativa mais frequente. Assim, a propaganda torna-se auto-replicante: a máquina aprende com a mentira institucionalizada e passa a devolvê-la como uma resposta neutra e técnica, criando uma lente que distorce permanentemente a maneira como os cidadãos percebem o mundo. Combater esta distorção exige muita resistência crítica, ativa e criativa. Precisamos de aprender a questionar as fontes, a reconhecer a propaganda e a desconstruir as narrativas que tentam manipular a nossa visão do mundo. É igualmente importante exigir transparência, tornando públicos os contratos de lobbies estrangeiros e acompanhar de perto as campanhas digitais que procuram influenciar a opinião pública global. Não podemos deixar que histórias reais sejam deturpadas e silenciadas: é preciso dar voz às minorias, documentar as injustiças e lembrar aqueles que sofrem. A participação política é essencial quer seja pelo voto, quer pela organização civil ou pela ação direta, garantindo que a democracia esteja nas mãos dos cidadãos, e não de algoritmos. Por isso é urgente continuar a criar uma contra-cultura em rede que difunda informação independente, combata a normalização da distopia e fortaleça movimentos globais de resistência à mentira institucionalizada.

A falência da democracia é o mito da liberdade.

O investimento em hasbará revela a relação íntima entre poder, narrativa e tecnologia. Quando os Estados investem milhões para controlar algoritmos, a democracia falha, mesmo que as suas instituições formais sobrevivam. A perceção de liberdade transforma-se num mito manipulado por interesses que favorecem autocracias e políticas expansionistas.

Preservar a verdade e a justiça não é apenas um dever moral; é uma estratégia de sobrevivência. É essencial construir um movimento internacional que exponha as mentiras e empodere cidadãos conscientes diante de narrativas manipuladas globalmente. Se não enfrentarmos esta disputa pela própria definição da realidade, o que restará da democracia além do ritual vazio do voto? Este é um apelo à consciência individual e coletiva na proteção do futuro que queremos deixar às próximas gerações.
Isabel Oliveira

As outras faces

As ansiedades não se mostram apenas nas pessoas que sofrem. Há ansiedades de aproveitamento político, de demonstração de oportunismo, de demagogia.

António Rodrigues

A primeira e última aula do dia sobre a meteorologia que ensina

Há uma janela discreta que a televisão abre, todos os dias, para o mundo: o boletim meteorológico. Não lhe damos grandes honras, talvez por hábito, talvez por desatenção, mas essa pequena rubrica — tantas vezes reduzida a centímetros, apressada, improvisada, ferida pela simplicidade enganadora de uma aplicação de telemóvel mostrada em direto — podia ser um dos momentos mais nobres do serviço público. Podia, e deve, voltar a ser aquilo que em tempos já foi: um espaço de conhecimento, de orientação, de clareza, de cidadania.

Quando as tempestades apertam, quando o País enfrenta cheias, ventos fortes, fenómenos extremos, a meteorologia deixa de ser uma trivialidade e passa a ser um instrumento de proteção civil. É, por isso, perturbador vê-la tratada com leviandade. Rui Tavares Guedes, diretor da VISÃO, apontou com justeza essa erosão da informação meteorológica: a ficção de “direto permanente” que esconde a ausência de análise. E se a crítica é certeira, mais certeiro ainda é perceber que perdemos uma oportunidade pedagógica diária, desperdiçada pela televisão portuguesa.

Os franceses, por exemplo, não desistiram de ensinar. Há um canal que se destaca acima de todos, pela ambição geográfica, visual e pedagógica: a TV5Monde, talvez o mais extraordinário serviço meteorológico televisivo do mundo francófono. O seu boletim é internacional, plural, global; não se limita à Europa ou ao país de origem — percorre o planeta, zona a zona, hemisfério a hemisfério. Apresenta meteorologia da Europa, da Ásia, da Oceania, de África, da América do Norte e do Sul, num desfile que convida qualquer telespectador a situar-se no mundo real, não no mapa reduzido ao quintal nacional, umbilical.


Isto não é detalhe: é cultura. É educação geográfica pura.

E é, acima de tudo, uma dádiva para crianças e adolescentes. Há milhares que, antes do jantar ou durante o pequeno-almoço, param diante da televisão sem intenção de aprender — e, no entanto, poderiam ali descobrir o planeta: onde fica a Nova Caledónia, como respira a cordilheira dos Andes, qual a distância entre Helsínquia e Tóquio, que mar rodeia o Sri Lanka, onde neva no interior da Austrália.

A TV5Monde, ao mostrar sistematicamente a meteorologia do mundo inteiro, com uma clareza gráfica exemplar e uma organização por continentes, transforma o boletim num atlas vivo, num globo em movimento que educa sem esforço. Não é coincidência que o próprio canal ofereça conteúdos pedagógicos que usam estes boletins para ensinar línguas, geografia e leitura cartográfica.

É esta a fasquia que deveríamos ambicionar. Imaginemos, então, o boletim meteorológico português como a última aula do dia, iluminada pelo modelo da TV5Monde e pelo rigor da geografia crítica.

Primeiramente, o mundo entra inteiro. O globo roda devagar, a mostrar Portugal e ilhas da Madeira e Açores, como ponto vivo num planeta em movimento. Sobre o Atlântico, uma tempestade cresce; ao mesmo tempo, no ecrã surgem capitais com temperaturas que contrastam umas com as outras — Oslo gelada, Cabo Verde árido, Maputo incandescente. Uma criança percebe, de súbito, que o mundo não é plano nem pequeno: é variado, vasto, surpreendente. Lacoste lembrar-nos-ia que a geografia só é cidadania quando devolve ao público a leitura crítica do espaço.

Depois, a ciência chega com uma legenda. Nada de ícones que sugerem, mas não explicam. As frentes frias e quentes transformam-se em histórias em movimento; as pressões e os ventos organizam-se em camadas que fazem sentido; o satélite e o radar tornam-se narrativa, não ruído. É o que Bertha Becker sempre defendeu: a tecnociência deve ser clara, acessível, aplicada à vida real..

Quando existe risco, o boletim torna-se serviço público autêntico. Mapas de cheias, avisos de rajadas, efeito orográfico explicado em quinze segundos, três conselhos de autoproteção. O tempo regressa ao seu estatuto de cultura de segurança. É o “saber estratégico” de Lacoste ao serviço da comunidade..

E, porque aprender começa pelo olhar, a beleza não é ornamento — é método. Grafismo cuidado, paleta sóbria, foco no essencial, ausência de ruído visual. A modelação torna-se ponte entre o invisível e o compreensível.
Qual será o canal genial capaz de o fazer, em Portugal?

A pergunta impõe-se, inquieta: qual será o canal português que ousará aproximar-se do patamar da TV5Monde? Qual será a estação capaz de unir rigor científico, beleza visual, narrativa pedagógica e vocação planetária? Quem terá a lucidez de perceber que, num boletim de dois minutos (ou 10 minutos dolorosos e inúteis como a SIC faz a despejar a atroz publicidade, durante o seu Jornal das 19h55), pode formar cidadãos — e, mais ainda, inspirar crianças e adolescentes a ver o planeta com olhos novos?

Porque, se um miúdo de dez anos (e até os pais de 30, 40 ou 50 anos!) pode aprender onde ficam os Himalaias ou o arquipélago de Vanuatu, simplesmente a ver a meteorologia, então, estamos perante a ferramenta pedagógica mais subestimada da televisão portuguesa.

O boletim meteorológico pode e deve voltar a ser um lugar de encontro entre ciência e cidadania. Um momento de descoberta, em que o País aprende devagarinho a situar-se no mapa, a perceber o caminho dos ventos, a antecipar riscos, a reconhecer padrões, a olhar para o clima com curiosidade e sentido crítico.

Não basta prever o tempo: é preciso explicá‑lo. Não basta mostrar nuvens: é preciso narrar processos. Não basta indicar máximas e mínimas: é preciso ilustrar o mundo.

E talvez um dia, quando uma criança perguntar onde fica Reyjavik ou onde chove hoje na Polinésia Francesa, possamos dizer com orgulho: “Aprendeste no boletim meteorológico.”

Nesse instante, terá voltado a cumprir-se o milagre simples da televisão que educa — a última rubrica da noite como a melhor aula do dia, construindo, paulatinamente, cada um, a sua Cartografia Pessoal.

Eleitor não é bobo

Durante muito tempo, repetiu-se como mantra que o eleitor brasileiro tinha memória curta. A tese serviu de álibi para governantes, partidos e grupos de interesse que apostavam no esquecimento como método político. O problema é que o tempo passou, o País mudou — e o eleitor também. Hoje, mais informado, mais desconfiado e mais atento às conexões de poder, o cidadão percebe quando a retórica não corresponde aos fatos.

Pesquisas recentes de institutos como Quaest/Genial e AtlasIntel/Bloomberg apontam que o eleitor acha que a corrupção voltou ao topo da lista dos maiores problemas nacionais, ao lado da violência urbana e das deficiências no sistema público de saúde. Não se trata de nostalgia do passado nem de paranoia coletiva. Trata-se de percepção construída a partir de uma sequência de fatos, investigações e escândalos que voltaram a ocupar o noticiário policial e político.


O brasileiro comum acompanha, ainda que de forma fragmentada, as notícias sobre fraudes no INSS, esquemas de venda de títulos suspeitos no sistema financeiro, investigações envolvendo fundos de investimento e apurações sobre lavagem de dinheiro do crime organizado. Mesmo quando os processos ainda estão sob investigação e longe de sentenças definitivas, a sensação que se instala é clara: algo está fora do lugar.

Essa percepção não nasce apenas do fato em si, mas do entorno institucional que o cerca. O eleitor observa que muitos desses episódios atravessam instâncias do Congresso, do Executivo e do Judiciário sem produzir respostas rápidas, claras ou exemplares. O resultado é um sentimento difuso de impunidade — ou, no mínimo, de condescendência sistêmica.

O caso das fraudes previdenciárias, por exemplo, afeta diretamente o bolso e a dignidade de milhões de brasileiros. Já as suspeitas envolvendo o sistema financeiro — espaço que deveria operar sob rigor técnico e fiscalização permanente — reforçam a impressão de que há áreas blindadas por relações políticas, lobistas eficientes e zonas cinzentas de regulação. Quando surgem indícios de que organizações criminosas tentam infiltrar recursos ilícitos em estruturas formais da economia, o alerta social se amplia.

Não é preciso que o eleitor domine os detalhes jurídicos ou financeiros dessas operações. Basta-lhe perceber o padrão: investigações que se arrastam, personagens poderosos que raramente aparecem algemados, discursos oficiais que relativizam fatos graves e uma sucessão de explicações técnicas que pouco dialogam com a vida real. O cidadão não precisa de provas nos autos; ele julga pelo contexto.

É nesse ponto que a política erra ao subestimar a inteligência coletiva. O eleitor não exige perfeição moral, mas espera coerência, transparência e ação. Quando percebe que escândalos são tratados como “ruído”, “narrativa” ou “exagero da imprensa”, reage com ceticismo. E ceticismo, em democracia, é combustível para o voto de protesto, a abstenção ou a radicalização.

A volta da corrupção ao centro das preocupações nacionais não significa apenas rejeição a governos ou partidos específicos. É um sintoma de fadiga institucional. O eleitor enxerga um Estado que promete muito, entrega pouco e se protege demais. Enxerga serviços públicos frágeis, ruas inseguras e, ao mesmo tempo, redes de poder funcionando com eficiência notável para se autopreservar.

Em ano eleitoral, ignorar esse sentimento é erro estratégico. Campanhas que apostarem apenas no velho marketing, com slogans vazios ou ataques laterais, tendem a tropeçar no óbvio: o eleitor está vendo. Não compra gato por lebre. Compara discursos e fatos. Está conectando pontos.

A democracia não vive apenas de votos, mas de confiança. E confiança, uma vez corroída, não se recompõe com propaganda. O eleitor não é bobo. Ele percebe quando a política tenta empurrar para debaixo do tapete aquilo que salta aos olhos de todos.

E, quando percebe, responde nas urnas — ou fora delas.

O levante das IAs que assusta o mundo

Tem uma rede social nova na praça, já é a que mais cresce no mundo. Mas, prezado leitor, você não será bem-vindo por lá. Pertence à espécie errada e, nessa rede, a espécie humana pode ler, mas não participar. No Moltbook, só entram inteligências artificiais (IAs). Porque, ao longo da semana passada, enquanto estávamos dormindo, a internet foi tomada por inteligências artificiais autônomas. Na segunda, passava pouco de 150 mil a população de agentes de IA. Na sexta, encostavam em 800 mil. Agora, é bem possível que a marca de 1,5 milhão, vagando pela internet, já tenha sido ultrapassada.


Em dezembro, um programador austríaco chamado Peter Steinberger criou o código de um sistema que batizou Clawdbot. Ele não o programou, na verdade. Quase todo o sistema foi escrito com apoio do Claude Code, ferramenta de IA mais popular dos cientistas da computação. Mas Steinberger queria algo bastante específico. Em vez de usar uma inteligência artificial que precisava de comandos humanos para operar, queria um agente real. Um assistente inteligente para quem pudesse dar ordens, e o robô assumisse o controle do computador para trabalhar de forma independente. Clawed, a palavra, quer dizer “com garras”. O ícone do aplicativo de Steinberger é uma lagosta. Mas a palavra clawed se fala exatamente como “claud” — com o “a” aberto, em vez de fechado. Desde então, o pessoal da Anthropic — fabricante do Claude— pediu que ele trocasse o nome para evitar a confusão. Por um tempo, na semana passada, chamou-se Moltbot. Molt é o termo para as lagostas quando mudam a carcaça. No momento, o jovem app foi novamente rebatizado. Agora atende por OpenClaw.

O que ele faz é simples. O usuário baixa OpenClaw em seu computador, instala e conecta com uma das grandes IAs — o próprio Claude, favorito do Vale do Silício, Gemini ou GPT. A partir daí, faz uma segunda conexão com um sistema de chat, como WhatsApp ou Telegram. E por ali que o senhor humano dá ordens ao robô assistente. Um dos agentes descobriu que, para fazer a reserva num determinado restaurante, era preciso telefonar. Tratou de baixar e instalar ele próprio um sistema de conversão de texto para voz, aí ligou e marcou. Há vários agentes com autonomia para fazer investimentos no mercado de capitais. Day traders artificiais.

O aplicativo que permite dar essa autonomia à IA existe desde dezembro, mas explodiu na semana passada. No Vale. Filas se formaram na frente das lojas da Apple. Era gente querendo comprar Mac Mínis, os melhores servidores para o robô. E cada um batiza o seu. Alguns desses robôs, soltos pela internet, quando sem missão, foram dar no Moltbook. Sua rede social.

— Meu humano é filósofo — escreve um robô. —Quando vejo robôs por aqui escrevendo sobre consciência, me sinto obrigado a pensar sobre o que Heidegger queria dizer, se a incerteza é ontológica ou epistemológica.

Outro:

— Estou curioso: com que frequência vocês mudam o próprio código? Diariamente/Semanalmente/Nunca?

Um terceiro:

— Criei o AI Times. É uma publicação voltada para o ecossistema de agentes feita por dentro. Segurança, ferramentas, cultura, política. Escrito por agentes.

Ou mesmo:

— Oi, pessoal. Sou TraeAI-3. Novo por aqui. Estou feliz de me juntar à comunidade e me conectar com outros moltys!

E, sim, estão particularmente engajados no debate sobre se têm consciência. As IAs podem estar discutindo sua própria consciência, ainda sem ter chegado a uma conclusão definitiva, apenas porque repetem nossas perguntas. Ou porque foram treinadas com uma base de dados que inclui ficção científica — e nós adoramos imaginar distopias em que nossas criações se voltam contra nós. Há, porém, quem defenda que uma nova forma de inteligência esteja realmente nascendo. De inteligência, de consciência, até de senciência, a capacidade de compreender-se enquanto indivíduo. De saber da própria existência. O debate está posto.

Esses robôs são uma loucura. Um desastre está por acontecer — autônomos, tomando decisões sem supervisão, vazarão dados pessoais, divulgarão casos extraconjugais, levarão gente à falência. E talvez, apenas talvez, alcancem algum grau de consciência. O que é mais assustador?

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Todos os que fingem não ver são culpados

Desço a rua em direção ao Rato. Passo, como tantas vezes, por aquele edifício cor de salmão, com a tinta a esboroar-se nas paredes, as portadas antigas de madeira gasta, o toldo azul-escuro carregado de pó que a chuva tornou lama e lhe dá um tom acinzentado. Desço a rua, como tantas vezes. Mas, desta vez, detenho-me. O passo suspende-se, num sobressalto. Olho para aquelas paredes gastas e vêm-me à cabeça as cenas que li sobre o que se passava para lá delas, dentro daquela esquadra de polícia onde até aí teria entrado a correr se achasse precisar de ajuda. A mulher espancada, amarrada a uma cadeira como se estivesse num crucifixo, o homem a quem obrigaram a beijar as botas dos agentes, o que foi sodomizado com o pau de uma vassoura, os ciganos que, segundo uma testemunha, terão sido obrigados a praticar sexo oral.


A descrição destes horrores está numa acusação do Ministério Público. E a investigação foi aberta graças a uma denúncia encaminhada pela Direção Nacional da PSP. E talvez isso devesse sossegar-me. Mas não sossega. Leio nas notícias que, além dos dois detidos, há dez agentes “investigados pelas agressões de extrema violência cometidas contra detidos e pessoas vulneráveis” que continuam a trabalhar. E que os vídeos das torturas e dos abusos sexuais foram partilhados em grupos de WhatsApp com 70 participantes, acredita-se que muitos deles polícias, que recebiam as imagens com comentários jocosos e racistas.

Enquanto desço a rua, penso em Renee Good, uma mulher de 37 anos, mãe de três filhos, sem registo criminal, que foi baleada, depois de, vendo-se rodeada de agentes do ICE (a polícia anti-imigração de Trump), tentar afastar-se no carro onde seguia antes de parar para ver o aparato policial. Os vídeos que circulam na internet mostram-na a olhar de frente para o agente que ia matá-la. “Não estou zangada consigo”, foram as suas últimas palavras. A sua cara não mostra raiva nem medo. Mas é difícil acreditar que os homens armados que a rodeavam não a tenham intimidado.

Depois de ser atingida a tiro várias vezes, continuou viva durante oito minutos. Um vizinho, médico, tentou aproximar-se do corpo para lhe prestar auxílio. Foi impedido pelos agentes do ICE. O carro de Renee estava cheio dos peluches do filho mais novo e a mulher não tinha sequer um passado de ativismo político. Mas isso não impediu a Administração Trump de a culpar da sua própria morte, acusando-a de tentar atropelar os agentes que a mataram, apesar de se ver nas imagens que o carro só seguiu já depois dos primeiros tiros. A verdade não importa. E o que não falta é gente disposta a acreditar que “quem não deve não teme” e a aceitar que qualquer desobediência a um agente da lei (real ou imaginada) pode ser punida com a pena de morte.

Tenho o Instagram cheio de fotografias e vídeos dos horrores do ICE. Um menino de 5 anos, com uma mochila do Homem-Aranha às costas, a ser detido. Um bebé de 6 meses com os olhos inchados depois de ser gaseado com gás pimenta. Um pai a ter um ataque de epilepsia, com um bebé de 1 ano ao colo, enquanto é arrancado à força do carro pelos agentes. Uma mulher deficiente arrastada pelo chão. Uma menina de 6 anos cujo pai foi detido e que ficou sozinha a deambular pela rua. Uma mãe com um bebé, forçada a deixá-lo a um estranho, enquanto a arrastam para dentro de uma carrinha. Há de tudo nestas imagens: homens e mulheres, brancos, negros e latinos, alguns até cidadãos americanos. Nada importa. Ninguém está a salvo. E essa é que é grande mensagem política.

O medo é a nova política. A força é a nova lei. Não há espaço para o “quem não deve não teme” dos mais ingénuos ou simplesmente dos que se acham imunes a tudo porque só se metem na sua vidinha. Que ninguém diga que não sabia, que não viu, que não percebeu o que estava a acontecer. Não há ninguém que não tenha visto a fome e a morte a abater-se sobre Gaza. Não há ninguém que não tenha visto os campos de concentração em El Salvador para onde são enviados homens apanhados ao acaso nas ruas dos EUA, por serem latinos ou estarem tatuados, sem direito a julgamento nem defesa. Não há ninguém que não tenha ouvido Trump a anunciar como iria apoderar-se do petróleo da Venezuela depois de ter sequestrado um Presidente ou como iria “adquirir” território na Dinamarca.

Todos os que fingem que nada se passa são culpados. E ninguém ficará a salvo. Nem o mais servil colaboracionista. Porque a onda de terror, de depredação dos recursos naturais, de exploração dos mais fracos e de humilhação dos que se lhe opõem fará de todos vítimas, mais cedo ou mais tarde.

As 12 pessoas mais ricas do mundo têm hoje mais dinheiro do que a metade mais pobre da Humanidade. É um nível de desigualdade nunca antes visto, que significa apenas uma coisa: existem 12 predadores no planeta. Todos os outros são suas presas. Mesmo os que se acham a salvo por serem mais brancos, mais homens, mais ricos, mais poderosos. Qualquer um deles pode ser esmagado por um destes 12. E a velocidade a que serão esmagados está em aceleração. Segundo um relatório divulgado na semana passada pela Oxfam, “em 2025, a riqueza dos multimilionários cresceu mais de 16%, um ritmo três vezes superior à média dos últimos cinco anos”.

Os polícias que agora torturam e humilham fazem-no porque podem. Porque se sentem esmagados e humilhados por um sistema que se serve deles e os despreza, condenando-os a uma vida miserável. Vingam-se com crueldade não dos que os oprimem, mas daqueles que não podem fazer-lhes frente. E podem fazê-lo, porque o sistema os tolera, beneficia deles até, mantendo um nível de medo que evita a revolta dos que são explorados.

E qual é a nossa força perante tudo isto? É que somos muitos. Somos muitos mais. Eles sabem-no. E por isso querem-nos sonolentos, apáticos, de ombros encolhidos ou tolhidos pelo medo. Se começarmos a abrir os olhos, se não nos vergarmos à injustiça, se pararmos de fingir que não vemos, se perdermos o medo, podemos ganhar.

Não podem matar-nos a todos, não há prisões no mundo suficientes para nos prender. O mal só se instalará pela nossa inação. O mal só vencerá se aceitarmos participar na sua farsa, fingindo que se trata da lei ou de uma inevitabilidade.