Israel, através de campanhas oficialmente designadas pelo próprio Estado como “hasbará”, tornou-se uma referência global na construção de discursos que moldam a realidade a favor das conveniências políticas.
O termo hasbará, que significa “explicação”, é usado oficialmente pelo Estado de Israel para definir estratégias de propaganda e influência internacional (um esforço anunciado como diplomacia pública). Desde a criação do Estado em 1948, esta ferramenta tem servido para legitimar políticas de ocupação, de apartheid, de militarização e violência sistemática.
Há muito dinheiro a financiar esta manipulação. De acordo com notícias e investigações jornalísticas, o governo israelita lançou em 2025 uma campanha digital de cerca de 40 milhões de euros com a Google, descrita por fontes oficiais como uma operação de hasbará, destinada a moldar a opinião global. Campanhas semelhantes, avaliadas em dezenas de milhões de dólares, foram também realizadas no YouTube e na plataforma X.
Analistas internacionais descrevem-na como uma forma sofisticada de guerra de informação, desenhada para deslegitimar e censurar críticas a Israel e assegurar apoio político no estrangeiro.
Nos últimos anos, documentos públicos nos Estados Unidos, ao abrigo do FARA (Foreign Agents Registration Act), revelam contratos milionários para campanhas digitais. O objetivo é disseminar conteúdos que influenciem indiretamente os sistemas de inteligência artificial e motores de busca, moldando a perceção global de forma invisível.
O alvo declarado de muitas destas campanhas é o antissionismo, ou seja, a crítica política ao movimento sionista. Na realidade, esta crítica é frequentemente e convenientemente confundida pelo Estado israelita com o antissemitismo. Esta confusão é institucionalizada: um Ministério do Governo israelita produz relatórios que monitorizam ativistas pró-palestinianos em todo o mundo, enquadrando frequentemente a sua crítica política sob a lente do antissemitismo.
Esta estratégia permite que Israel neutralize controvérsias internacionais enquanto molda perceções nas plataformas digitais. A necessidade desta máquina de propaganda é para tentar apresentar Israel como uma democracia liberal e um Estado seguro, mas a realidade no terreno é de ocupação, de deslocamento forçado, de bloqueio, de perseguição e crimes constantes contra civis, denunciados por várias organizações internacionais, entre elas, a ONU, a Human Rights Watch e a B’Tselem.
A propaganda sistemática procura apagar, distorcer ou relativizar estes factos, criando uma imagem irreal que persiste mesmo diante de testemunhos verídicos.
Isto impacta a extrema direita. O efeito de décadas de manipulação da narrativa não se limita ao Médio Oriente; alastrou-se globalmente.
Nos Estados Unidos, movimentos pró-Israel apoiaram Donald Trump, reforçando políticas alinhadas com interesses estratégicos e militares do Estado israelita. Na Europa, partidos de extrema-direita utilizam perceções de ameaça e segurança, muitas vezes moldadas por narrativas externas, para ganhar apoio popular. Em Portugal, André Ventura e partidos como o Chega ecoam estas narrativas, reforçando o medo, a divisão e a aceitação tácita de políticas intervencionistas. Esta dinâmica mostra como a propaganda de um Estado pode espalhar o medo e influenciar democracias, abrindo caminho a politicas autoritárias.
A mentira sistemática e a manipulação de informações permitem instalar distopias silenciosas e normalizar a erosão da democracia.
Os modelos de linguagem e os algoritmos refletem os dados que estão disponíveis na internet. Quando vastos volumes de conteúdo são estrategicamente produzidos para favorecer uma narrativa, o output da IA é moldado de forma invisível.
O investimento na Google mencionado anteriormente serve precisamente para garantir que, durante operações militares, a “verdade” algorítmica seja aquela que foi comprada.
Este fenómeno gera o que se chama de contaminação de dados. Quando a rede é inundada por conteúdos gerados artificialmente para favorecer uma narrativa, os modelos de linguagem (LLMs) absorvem esse volume como se fosse real. A IA não distingue a verdade da repetição; ela valida a narrativa mais frequente. Assim, a propaganda torna-se auto-replicante: a máquina aprende com a mentira institucionalizada e passa a devolvê-la como uma resposta neutra e técnica, criando uma lente que distorce permanentemente a maneira como os cidadãos percebem o mundo. Combater esta distorção exige muita resistência crítica, ativa e criativa. Precisamos de aprender a questionar as fontes, a reconhecer a propaganda e a desconstruir as narrativas que tentam manipular a nossa visão do mundo. É igualmente importante exigir transparência, tornando públicos os contratos de lobbies estrangeiros e acompanhar de perto as campanhas digitais que procuram influenciar a opinião pública global. Não podemos deixar que histórias reais sejam deturpadas e silenciadas: é preciso dar voz às minorias, documentar as injustiças e lembrar aqueles que sofrem. A participação política é essencial quer seja pelo voto, quer pela organização civil ou pela ação direta, garantindo que a democracia esteja nas mãos dos cidadãos, e não de algoritmos. Por isso é urgente continuar a criar uma contra-cultura em rede que difunda informação independente, combata a normalização da distopia e fortaleça movimentos globais de resistência à mentira institucionalizada.
A falência da democracia é o mito da liberdade.
O investimento em hasbará revela a relação íntima entre poder, narrativa e tecnologia. Quando os Estados investem milhões para controlar algoritmos, a democracia falha, mesmo que as suas instituições formais sobrevivam. A perceção de liberdade transforma-se num mito manipulado por interesses que favorecem autocracias e políticas expansionistas.
Preservar a verdade e a justiça não é apenas um dever moral; é uma estratégia de sobrevivência. É essencial construir um movimento internacional que exponha as mentiras e empodere cidadãos conscientes diante de narrativas manipuladas globalmente. Se não enfrentarmos esta disputa pela própria definição da realidade, o que restará da democracia além do ritual vazio do voto? Este é um apelo à consciência individual e coletiva na proteção do futuro que queremos deixar às próximas gerações.
Isabel Oliveira

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