quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O fundão eleitoral, o carguinho do filho e a república do miserê

O procurador que chamou seu salário de R$ 24 mil de "miserê" poderia ser nomeado porta-voz de um grupo que está espalhado pela máquina pública. Sua desfaçatez representaria bem os partidos que tentaram engordar seus caixas em mais um ano de crise. Serviria também ao político que move montanhas para dar um cargo ao próprio filho.

Numa cultura de privilégios e cegueira deliberada, servidores, parlamentares, dirigentes partidários e o presidente da República tratam o Estado como patrimônio pessoal.

Um integrante do Ministério Público de Minas achou razoável fazer queixa de sua remuneração numa reunião do órgão. "Já estou baixando meu padrão de vida bruscamente, mas eu vou sobreviver", afirmou. Num lamento, ele disse que precisou reduzir seus gastos com cartão de crédito para R$ 8.000 por mês.


Certas autoridades costumam deixar de lado o pudor quando discutem seus interesses financeiros, mesmo quando as contas do governo estão na pindaíba. A manobra desastrada dos partidos para colocar até R$ 3,7 bilhões no fundo eleitoral e reduzir as regras de fiscalização desse dinheiro é uma face desse pouco-caso.

O país ainda não conseguiu elaborar uma maneira justa e responsável de financiar as campanhas depois que foram proibidas as doações empresariais. É inexplicável, porém, que o Congresso tenha trabalhado só para pegar mais recursos enquanto, na surdina, afrouxava as regras para a prestação de contas.

Mas a república do miserê não se manifesta só em busca de moedas no cofre. É a mesma força que impulsiona Jair Bolsonaro a colocar a Presidência a serviço do esforço para emplacar um filho na embaixada brasileira em Washington e a interferir em órgãos de investigação para proteger outro de seus rebentos.

Governantes que atuam em causa própria são uma tradição brasileira. Alguns podem tentar se esconder atrás da retórica da nova política e de reformas econômicas, mas dificilmente conseguirão disfarçar suas ambições particulares.

Bolso do Brasil


Bolsas e navios

As palavras chegam como guardas. É por meio delas que ficamos sabendo quando somos bem-vindos, corremos perigo ou somos inscientes. Como ensinou um filósofo, as palavras fazem coisas como juramentos, ofensas e promessas. Com elas travamos uma infinito combate contra a ignorância.



O governo tem persistido na estupidez de confundir certas manifestações do mundo universitário com a sua nobre dimensão intelectual. Estou farto de conhecer a precariedade brasileira relativa ao mundo da instrução, da vida acadêmica e, acima de tudo, da grandeza intelectual. Uma prova disso é piada abominável segundo a qual quem não sabe, ensina! E para tanto recebeu uma “bolsa de estudo”, cujo sentido ambíguo remete tanto ao combate à estupidez quanto às vergonhosas mochilas e quartos cheios de dinheiro roubado. “A bolsa ou a vida!” dizem bandidos, jamais um ministério que “cuida” da educação...

Há diferenças entre ensinar crianças e instruir adultos pesquisadores e intelectuais. Há motivos para considerar que quem ensina crianças tem mais importância relativa do que quem ensina adultos. Ensinar a quem experimenta a vida fora de casa e do relacionamento com seus genitores é um ato “primário”. Não deve haver apenas “primeiras letras” — o que deve haver é, sobretudo, uma “primeira cidadania”. É o exercício de um comportamento igualitário e respeitoso ao lado de laços sociais isentos dos afetos lenientes da família e da casa. O ensino elementar deve transformar filhinhos de famílias, nobres ou pobres, em “alunos”. No Brasil, há o costume de chamar esses primeiros educadores de “tios” quando, de fato, eles devem ensinar como passar de filhos a alunos. Uma pessoa associada a um conjunto não governado pelas hierarquias da casa, mas por normas que valem para todos.

A escola primária faculta uma primeira experiência aberta com a igualdade. O ensino secundário e o superior deveriam consolidar tal aprendizado ofertando “bolsas” a quem precisa. Em inglês, “bolsa” é scholarship e houve quem traduzisse a palavra como “navio de acadêmicos”. O que, mesmo promovendo risos, não é de todo um erro já que um “ scholar-ship ” é um meio de realização intelectual. Traduzir “bolsa” como dinheiro fácil e ideologizado, como são as polpudas verbas que os políticos inventam em causa própria, revela ignorância (ou má-fé). Bolsas de estudo são um investimento essencial num mundo com mais informação do que compreensão. Suprimir bolsas é contribuir para manter os nossos pomposos “burros doutores” e o uso do título acadêmico como privilégio.

Fui bolsista do Conselho Nacional de Pesquisas, da Comissão Fulbright, da Fundação Ford, da Universidade de Harvard, da Fundação Guggenheim e da Fundação Calouste Gulbenkian. Sem essas bolsas (ou navios), eu não teria saído de Niterói...

Foram as bolsas que me permitiram estudar numa Harvard que sempre colocou a excelência intelectual acima da tendência ao fechamento elitista. Meus pais e avós jamais saíram do Brasil para viver o “lá fora”, onde tudo seria melhor. Morreram sem saber que não há sociedades perfeitas e que em todas há um combate permanente entre interesses e normas.

Como um professor antigo, deprime-me testemunhar jovens sendo forçados a desistir de uma vida intelectual crítica e construtiva pela supressão de bolsas. Não pode haver melhor meio de assassinar vocações.

Fosse presidente, contingenciaria outras áreas; fosse milionário gratuitamente graduado numa federal e ex-bolsista, procuraria amigos igualmente milionários e faria um fundo destinado a suprir estudantes carentes. Criaríamos uma agência particular para compensar a burrice do governo. Enfim, faria alguma coisa, em vez de simplesmente falar e escrever, que é o recurso de que disponho...

A grande honra

Descende de Adão e Eva - tornou Aslam. - É honra suficientemente grande para que o mendigo mais miserável possa andar de cabeça erguida, e também vergonha suficientemente grande para fazer vergar os ombros do maior imperador da Terra. Dê-se assim por satisfeito
C. S. Lewis

É possível forçar Bolsonaro a proteger o meio ambiente?

Quadrilhas criminosas destroem a Floresta Amazônica cada vez mais rápido e assassinam ambientalistas, enquanto, na maioria dos casos, autoridades e Justiça ficam só olhando: esse cenário sombrio é o que revela o relatório Rainforest Mafias (Máfias da floresta tropical), divulgado nesta terça-feira  em São Paulo pela Human Rights Watch (HRW). Nos próximos dias, a ONG apresentará o documento aos grêmios de direitos humanos das Nações Unidas.

A política indígena Sonia Guajajara quer também abordar as infrações em encontros com representantes da União Europeia (UE) e diante do Parlamento Europeu: "Quero que as pessoas lá fora reconheçam que o Brasil está violando direitos humanos e ambientais."

Ela fala ainda em crime de ecocídio (destruição em larga escala do meio ambiente), reconhecido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) como crime contra a humanidade. "Quem pratica esses crimes precisa ser penalizado", afirma.

A pressão sobre o governo brasileiro deve vir também dos mercados, frisa Guajajara: "E as empresas precisam ser responsabilizadas, quem está comprando e quem está produzindo."


Segundo Carlos Rittl, do think tank Observatório do Clima, a política ambiental do Brasil não é compatível com seus esforços de abertura econômica: "Para um país que está tentando se abrir e abrir mercados, atrair parceiros e investimentos, o governo está agora fazendo o contrário, mostrando que não é um parceiro confiável. É péssimo para a imagem do Brasil e das empresas brasileiras."

Rittl está convencido de que o presidente Jair Bolsonaro acabará cedendo à pressão internacional: "A pressão vinda através dos mercados vai trazer lições muito duras para o governo brasileiro, de que não é possível matar e desmatar e produzir em cima de sangue, de florestas destruídas, e achar que alguém vai comprar."

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva reagiu ao relatório do HRW com "um misto de tristeza e indignação". Em seu mandato, os padrões e controles ambientais foram elevados, reduzindo o desmatamento em 80%, e "agora, em oito meses, o trabalho que foi feito em décadas está sendo totalmente destruído". "O governo faz isso em dois níveis: num discurso que estimula a ilegalidade e numa série de atos que dão às pessoas o sentimento da impunidade. É a primeira vez que se tem um discurso oficial contrário às políticas de preservação."

Marina vê poucas chances de se alcançar algo através da pressão internacional. "Infelizmente esse governo não aceita nem a pressão interna nem a externa; o presidente tem visão negacionista, visão de início do século 20, de que os recursos naturais podem ser destruídos impunemente."

Por sua vez, o ex-ministro do Meio Ambiente e embaixador do Brasil em Washington Rubens Ricupero aposta muito na pressão vinda do exterior: "A pressão é fundamental, sem a pressão nada vai mudar. E mesmo que o governo tenha uma reação negativa e diga que não vai levar em conta essa pressão, a experiência brasileira desde a época militar mostra que a pressão é eficaz."

É de se esperar que o governo interprete isso como ingerência em assuntos internos e um atentado à soberania brasileira: "Os governos não gostam da pressão e se defendem sempre com esse argumento falso da soberania. Mas quanto mais pressão, maior é a esperança de que se possa mudar alguma coisa. E se houver consequências econômicas, melhor ainda, porque elas fazem com que os interesses das grandes organizações econômicas, como os exportadores, se movimentem."

O constante noticiário negativo sobre a destruição ambiental no Brasil prejudica a imagem do país, confirma o cientista político Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas: "O Brasil é no momento o pária global, tem dificuldade em defender a própria imagem. E no exterior isso causa perplexidade, pois foi justamente a reação de Bolsonaro aos incêndios florestais que desencadeou esse debate global."

O presidente reagiu com sarcasmo e ironia às declarações da chanceler federal alemã, Angela Merkel, e do presidente francês, Emmanuel Macron, de que estavam preocupados com a Floresta Amazônica. Além disso, corresponsabilizou as organizações não governamentais pelos incêndios florestais e rejeitou ajuda internacional como sendo parte de uma conspiração contra o país.

"Bolsonaro se colocou deliberadamente como vilão na questão climática global. Isso ele calculou mal, ao reagir à crítica externa da mesma forma que à interna, ou seja, com provocação e escárnio", analisa Stuenkel. Em consequência, o presidente corre o risco de se tornar anátema para os governos estrangeiros, fato que coloca em perigo a influência política global do Brasil: "É possível que agora Bolsonaro mude seu discurso. Mas é muito improvável que a política climática brasileira vá mudar."

Nas últimas semanas, as primeiras empresas anunciaram boicotes contra o país, pois não querem ser associadas a ele, prossegue o cientista político. "E isso pode se alastrar." Quanto a uma ameaça ao acordo de livre-comércio entre a UE e o Mercosul, "a questão é até que ponto a sociedade civil alemã vai se mobilizar contra".

Contudo, uma não ratificação pela Alemanha não significa que o país mudará sua política. "No caso do Brasil, a pressão internacional pode também ser utilizada pelo governo para ainda reforçar seu argumento nacionalista, de que se trata de um complô contra o Brasil", diz Stuenkel.

Internamente, isso poderá até ter efeitos positivos para o presidente. Já em sua época de deputado, ele parecia sentir-se muito bem no papel do pária discriminado. "Não acredito que Bolsonaro se perturbaria se houvesse ainda mais boicotes de produtos. Isso o fortaleceria em sua narrativa, de que existe uma conspiração comunista contra o Brasil. Portanto é preciso tomar cuidado com a forma de reagir a essa política anticlima brasileira."
Deutsche Welle

Nosso lado fascista

"Então, vamos lá", diz minha neta Bia, 9 anos, quando começa a contar uma história.

A história, nesse caso, não é promissora. Pois então vamos lá. Pesquisas recentes de opinião mostraram que o Presidente Jair Bolsonaro vem perdendo terreno. A noticia não é nova, Fontes diferentes apresentaram resultados parecidos. Do inicio do ano para cá, o capitão perdeu mais da metade do apoio popular. Em fevereiro, 19% da população achavam o governo ruim ou péssimo. Hoje, são quase 40%.

Os brasileiros estão acordando? Antes tarde do que nunca? Até alguns famosos já se arrependeram. Políticos e outros. Por irrestrita conveniência.

E o que isso quer dizer para os bolsonaristas convictos? Absolutamente, nada. Acredite. Hoje, nove meses depois de irremediáveis atrasos na educação, meio-ambiente, saúde, tecnologia, a economia que não avança, censura descarada e a série sem fim de asneiras e ataques, há ainda quase 30 por cento de patrícios que acham o governo bom ou ótimo.

Levantamentos sérios, feitos por gente séria.

Não são fracos os que o cultuam, na tradução da força física, não do caráter. Ativos nas redes sociais, fabricam notícias falsas em tal velocidade que perdem apenas pros Estados Unidos. A maioria dos bolsonaristas convictos é violenta, gosta de armas, odeia gays, despreza os negros, tem horror à independência das mulheres, e acha que floresta boa é floresta que dá lugar a madereiros ou plantadores de soja.

Há os que amam Bolsonaro para odiar o PT. Defendem o mito para condenar Lula. Nem Ciro, e seu discurso de sinais trocados, faria diferença para esse gueto. Só o Capitão representa o antagonismo vital para sua sobrevivência politica. Casos perdidos. Como o PT não morreu, o antipetismo está mais vivo que nunca.

O lado fascista ainda é latente. Não há ilusão. O mito resiste para quem enxerga saída para o Brasil pela veia autoritária, devastadora, ultra conservadora e ditatorial. Quase 30% do eleitorado é muita gente. Não garante reeleição. Endossa alianças.

Na ribanceira eleitoral, muitos passaram a reprovar o estilo xucro do Presidente da República. Não prestaram atenção na campanha. Ele já era xucro, brega e vulgar. Ele sempre foi xucro, brega e vulgar. Mas, OK. Em fevereiro, quando o mito ainda era mito, 28,2% torciam o nariz para seu desempenho pessoal. Hoje, são 53,7% os incomodados.

Pois bem, o linguajar bronco e chulo não contaminou os 30% que o apoiam. É de assustar o que dizem seguidores. Pobres e ricos, héteros e gays. Mais ricos do que pobres, mais héteros que gays. Uma mesa num restaurante acessível apenas à fina flor do Leblon reunia dia desses uma histérica (e bem sucedida) advogada, jornalistas e economistas. Ela defendeu com tanto ardor a perversa e controversa política econômica e social de Bolsonaro, que fez calar até quem um dia votou nele.

Cenas comuns. Em ambientes onde se sentem seguros, bolsonaristas não baixaram o tom. Excitam-se ao menor sinal de oposição. Turma, seita, bando, associação, panela, panelinha, esbravejam como nunca. Para alegria da família Bolsonaro, persistem. No mundico da política, definitivamente, como diz o colunista José Simão, da Folha de S. Paulo, "quem diz que gay é escandaloso, nunca viu um hétero defendendo Bolsonaro". Prestem atenção.

Gente fora do mapa


Congresso renovado tem cara de pão dormido

Celebrava-se no início do ano, a posse do Congresso mais renovado das últimas três décadas. Durou pouco a animação. Os parlamentares parecem empenhados em revogar o direito do brasileiro ao otimismo. Isso ficou evidente com a tramitação da proposta que reformula regras eleitorais e partidárias, permitindo a políticos e partidos gastarem verba pública como se fosse dinheiro grátis e tornando praticamente impossível a punição de delinquentes eleitorais. O Parlamento novo era pão dormido.

Dos 513 deputados eleitos no ano passado, 244 sentaram nas poltronas do plenário da Câmara pela primeira vez nesta legislatura. Um índice de renovação de 48%. A proposta indecente passou na Câmara por 263 votos a 144. Faltou lembrar na hora de contabilizar a taxa de renovação do Legislativo que mais da metade dos "novos" deputados eram ex-senadores, ex-governadores, ex-prefeitos, ex-deputados estaduais, ex-secretários de Estado. Quer dizer: políticos tradicionais.


O projeto do escárnio foi ao Senado. Ali, estavam em jogo nas eleições do ano passado 54 das 81 cadeiras. Elegeram-se 46 novatos. Taxa de renovação de 85%. Um pedaço do "novo" também veio acoplado ao prefixo "ex". Apesar de toda a repercussão negativa, a maioria dos senadores se equipava para aprovar o projeto indecoroso recebido da Câmara. Foi preciso que o noticiário gritasse e as redes sociais berrassem para que se produzisse nesta terça-feira algo parecido com uma meia-volta.

Continua sobre a mesa um debate esquisito sobre a definição do valor do fundo eleitoral que bancará a eleição municipal do ano que vem. Há quem queira elevar o gasto de R$ 1,7 bilhão para R$ 3,7 bilhões. Convém continuar gritando. No limite, o eleitor terá de cobrar dos parlamentares a aprovação de uma nova Constituição, na versão simplificada que foi sugerida pelo historiador Capistrano de Abreu, morto em 1927. Teria apenas dois artigos: Artigo 1º: Todo brasileiro deve ter vergonha na cara. Artigo 2º: Revogam-se as disposições em contrário.

Escatológico

Se eu for presidente eu saio da ONU, não serve pra nada esta instituição. (O Conselho de Direitos Humanos) É uma reunião de comunistas, de gente que não tem qualquer compromisso com a América do Sul, pelo menos
Jair Bolsonaro então candidato do PSL, em 18 de agosto de 2018

O que diz o vento

Para o Brasil chegar afinal ao Primeiro Mundo, só falta vulcão. Uns abalozinhos já tem havido por aí, e cada vez mais frequentes. Agora passa por Itu esse vendaval, com tantas vítimas e tantos prejuízos a lastimar. Alguns jornais não tiveram dúvida: ciclone. Ou tornado, quem sabe. Deve ser coisa do El Niño, um fenômeno que vem pelo mar lá do Pacífico, bate nos Andes, provoca o degelo e uma sequela de cataclismos que passam pelo Brasil.


Não sei o que é pior, se furacão ou vulcão. Pior mesmo, porque conheço, é tremor de terra. Estava em Lisboa com o Vinicius de Moraes quando aconteceu o terremoto de 1968. Palavra que achei que era contra mim pessoalmente. Veio até com dois "tt". Assim: "t" e "rremOtto". Quando estive no Japão com o Cláudio Mello e Souza fomos perseguidos por um tufão. Mas japonês dá jeito em tudo. O voo atrasou e voltamos a Tóquio numa boa.

Shelley que me desculpe, mas vento me dá nos nervos. Desarruma a gente por dentro. Mas em matéria de vento, poeta tem imunidades. Manuel Bandeira associou à canção do vento a canção da sua vida. O vento varria as luzes, as músicas, os aromas. E a sua vida ficava cada vez mais cheia de aromas, de estrelas, de cânticos. O contrário do ventinho ladrão. Sabe como é que se chama vento? Com três assobios. Ou soprando num búzio. Também funciona se você invocar São Lourenço, que é o dono do vento.

Fúria dos elementos, símbolo da instabilidade, o vento é ao mesmo tempo sopro de vida. Uma aragem acompanha sempre os anjos. E foi o vento que fez descer sobre os apóstolos as línguas de fogo do Espírito Santo. Destruidor e salvador, com o vento renasce a vida, diz a "Ode to the West Wind", de Shelley. No inverno só um poeta romântico entrevê o anúncio da primavera. Divindade para os gregos, o vento inquieta porque sacode a apatia e a estagnação.

Com esse poder de levar embora, suponhamos que uma lufada varresse o Brasil, como na canção do Manuel Bandeira. Que é que esse vento benfazejo devia levar embora? Todo mundo sabe o mundo de males que nos oprime nesta hora. Deviam ser varridos para sempre. Se vento leva e traz, se vento é mudança, não custa acreditar que, passada a tempestade, vem a bonança. E com ela, o sopro renovador – garante o poeta. A casa destelhada, a destruição já começou. Vem aí a reconstrução.

A estéril e mórbida impaciência do clã Bolsonaro

Às vezes, o Presidente Bolsonaro e seus filhos me lembram uma síndrome que um psiquiatra descobriu em uma criança. O pequeno não suportava esperar que um botão de rosa abrisse naturalmente suas pétalas para mostrar toda a sua beleza. De raiva, destruía o botão com suas mãos antes de dar-lhe tempo para abrir. Imagino que um dia se curaria daquela loucura, pois do contrário acabaria por destruir a si mesmo como despedaçava a rosa a qual não dava tempo de nascer.

Se alguma coisa um dia diferenciará o lulismo e o dilmismo do recém-nascido “bolsonarismo”, é que esse nasceu contra a natureza, sem respeitar o tempo de gestação. O bolsonarismo, além disso, não só é constituído de um líder, como sobre ele recai a força e a fraqueza de todo um clã familiar.

Hoje o Brasil e sua forma de Governo se parecem mais com uma dinastia imperial e uma família real, do que com uma democracia representativa. Não existe somente um presidente que organiza e cuida da nação, e sim um grupo familiar aguerrido, em cujas mãos se movimenta, querendo ou não, ainda que sabemos que quer, o ex-capitão do Exército, Jair Bolsonaro.

Às vezes chega a parecer que os que tomam as últimas decisões são seus descendentes, seus três filhos: Carlos, o vereador, Eduardo, o deputado federal, e Flávio, o senador. E é possível que também, ainda que em silêncio, sua própria esposa, Michelle, mesmo sendo notório que Bolsonaro não acredita muito na inteligência e competência das mulheres. Já defendeu que devem ganhar menos do que os homens.

Estamos, por isso, diante de uma maneira atípica de governar que mal começou seu percurso, e já se revela atropelando, impaciente, intolerante, de disse e não disse, de volta atrás de afirmações graves. Tudo isso é duplamente perigoso porque acaba sendo paralisante. Bolsonaro e a forma de governo que seu clã tenta impor, convencidos como estão e como verbalizou em público há pouco Carlos, o filho mais arrojado do clã, é que “a transformação que o Brasil quer não acontecerá por vias democráticas”. Por quais então?

A afirmação, a mais grave publicada até hoje desde os tempos da ditadura militar, foi longamente examinada, julgada e condenada pelas forças democráticas do país. É preciso, entretanto, insistir nisso, porque o Brasil, de acordo com os analistas nacionais e internacionais, está vivendo um de seus momentos mais incertos política e economicamente em décadas. Sua ainda frágil democracia pode se desfazer, atropelada pelos cavalos da pressa.


É uma época em que se quer negar a própria essência do brasileiro, que não é cultor da pressa, do atropelo, e sim do ritmo lento da natureza que o envolve e forjou sua identidade. Chamei o bolsonarismo que está nascendo e já assusta fora de suas fronteiras de estéril porque nunca a impaciência foi mestra da construção de um povo. O bolsonarismo que se tenta impor a esse país, que possui problemas graves que nunca foram totalmente resolvidos, não é um laboratório de reconstrução social, espiritual e cultural de um povo em que os marginalizados, que sempre foram a maioria, deveriam ter pressa em sair de seu inferno.

E, triste paradoxo, é justamente a impaciência dos que chegaram hoje ao poder, a que pode exasperar ainda mais profundamente a dor atávica dos excluídos do banquete dos privilegiados que se transformaram em donos do país. E nomeei de mórbida essa impaciência bolsonariana, porque de acordo com o dicionário se trata de algo “que se sente atraído obsessivamente pelo desagradável, o cruel, o proibido e exibe uma obsessão doentia pela morte”.

E isso porque a pressa e a impaciência atropelam qualquer possibilidade de devolver riqueza e dignidade aos que dessas coisas foram excluídos à força. Se o Brasil não precisava de algo, herança do lulismo e do dilmismo com suas luzes e suas sombras, é o galope de um cavalo desgovernado que destrói tudo o que encontra em seu caminho.

O bolsonarismo e seu clã um dia serão vistos como a experiência mais desastrosa que o Brasil poderia ter quando o mundo inteiro ameaça destruir as conquistas de civilização e liberdades que com tanta dor e às vezes sangue foram conquistadas.

Essa impaciência estéril de Bolsonaro é tão grande e perigosa que ainda não sabemos a que veio além de seu programa de discriminar os diferentes e colocar em julgamento os valores democráticos. E o presidente já está praticamente empenhado de corpo e alma em disputar as eleições de 2022, contradizendo suas promessas de campanha de que acabaria com a reeleição em um país no qual sempre os mesmos parecem governar.

O que parece identificar o bolsonarismo do militar reformado é a pressa em ver, em expressão sua nos Estados Unidos, recém-eleito, em “desconstruir” o país mais do que ajudar a melhorá-lo com a ajuda de todos. Parece interessar-se mais pelos escombros que vai criando em seu afã demolidor dos princípios do respeito às diferenças de pensamento, de credo e de maneira de viver, do que melhorar o já construído e devolver a justiça negada aos que nunca puderam se sentar à mesa dos satisfeitos.

A impaciência de Bolsonaro, seu desejo de querer criar um país à imagem de sua pressa e de sua paciência iconoclasta, parece um reflexo do simbolismo das armas que ele tanto ama e cuja imagem delas disparando sempre foi o sinal trágico dos gestos de suas mãos.

Sim, as armas têm pressa, são impacientes. Quanto mais rápidas e certeiras melhor, porque sua missão é matar, destruir, mais do que salvar. Rápidas, como gosta o governador do Rio, Wilson Witzel, quando diz que o policial deve disparar “na cabecinha”. E essa pressa da pólvora parece ter contagiado o atual Presidente desse império que é o Brasil, berço de milhares de experiências de vida e de superação mais do que de morte. De morte já bastam os índices anuais de 60.000 homicídios, as mulheres mortas e estupradas todos os dias pelos homens. Os brasileiros querem hoje que alguém lhes fale mais de vida do que de morte, de esperança do que de intemperanças.

Toda experiência política engendrada no caldo de cultura da impaciência e da destruição, é contra a natureza que só se descompõe quando é sobrecarregada pela pressa. Tudo o que nasce em nosso planeta leva a marca da paciência, da reflexão, do saber esperar e escutar as leis que o regem desde o início do Universo.

O exemplo de que o melhor que nasce no mundo precisa respeitar o tempo de gestação é a vida. A nossa e a de toda a natureza. Tudo precisa de um tempo para crescer e amadurecer. O ser humano poderia ser concebido e nascer imediatamente. Não é assim. O feto vai sendo gestado em silêncio e na espera. E assim é tudo, nascemos chorando, como ainda sentindo o peso do inacabado.

Essa reflexão me fez lembrar de uma de minhas experiências mais difíceis como jornalista e entrevistador na Itália. Foi com o à época famoso diretor e criador de um estilo novo de cinema, Federico Fellini, autor de obras imortais como Roma e A Doce Vida. O gênio era tímido como um adolescente. E não gostava de ser entrevistado. Chegava a dizer que ele “não existia”, que havia sido criado pelos jornalistas. Uma manhã, entretanto, acabou combinando comigo uma entrevista “rápida”, me disse.

Já me desmontou na primeira pergunta. Eu queria saber como ele tinha as ideias dos títulos de seus filmes. Ele, para sentir-se mais seguro, sempre usava um cachecol de lã, fosse inverno ou verão e com um chapéu de feltro. E durante a entrevista tinha diante de seus olhos folhas de papel em branco nas quais, para se distrair e não olhar o entrevistador, rabiscava. Fellini me contaria depois que seu primeiro amor havia sido desenhar quadrinhos.

Minha pergunta lhe pareceu boba. Demorou a responder. Após alguns segundos de reflexão me disse que não há milagres nas coisas que fazemos. Que tudo tem seu tempo e seu ritmo. Eu começo, afirmou, a trabalhar em um filme, as ideias vão surgindo, vou transformando-as em imagens e como acontece no milagre de um parto, o título vai se formando em minha mente, crescendo até que nasça sozinho.

É a diferença entre a pressa da impaciência mórbida e a sabedoria lenta da natureza, que não atropela, que sabe esperar até estar madura. Foi uma experiência que nunca esqueci e que hoje, com minha vivência, me confirma que tudo o que é filho da pressa inútil e dos atropelos e violências é infecundo e mortal.

Sou crítico ao bolsonarismo como já o fui com alguns outros ismos dos quais sofri pessoalmente e que costumam ser fruto mais do populismo e da pressa estéril do que da sabedoria que sabe usar mais a paciência do que o atropelo das armas.

Se o Brasil, como dizem, precisa ressuscitar de sua letargia e dos atropelos sofridos no passado, isso só será possível, mais do que destruindo, começando por respeitar o já conquistado, às vezes, com tanta dor e tantos tropeços. Sem pressas estéreis e mórbidas. E sem atalhos mortais.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

As bombas subsidiadas do Brasil na guerra saudita

Drones bombardearam uma refinaria da Arábia Saudita no sábado. Perderam-se 5% do suprimento mundial de petróleo. Não é pouca coisa. Essa ruptura no abastecimento de 5,7 milhões de barris por dia é mais do que o dobro daquilo que o Brasil consome em óleo a cada 24 horas.

Os brasileiros começarão a sentir no bolso os efeitos desse conflito entre Arábia Saudita, Irã e Iêmen. Preços da gasolina, diesel e gás ainda podem subir muito, se demorar a recuperar a produção e se os sauditas não eliminarem as dúvidas sobre defesa de uma infraestrutura vital ao abastecimento mundial de energia.

O impacto no Brasil tende a crescer no ritmo da imprevidência governamental. Depois de 34 semanas gastando energia em negar a ciência, impor censura, reprimir a sexualidade de alguns e armar todos, o governo Bolsonaro ainda não sabe se cria um fundo para estabilização de preços dos derivados de petróleo. Também, não resolveu o impasse sobre preços do diesel — embora seja recente a memória do caos num país onde 60% das cargas fluem por rodovias.

É ilusão achar que o Brasil está a 11 mil quilômetros dessa guerra. Os brasileiros contribuem do próprio bolso com a matança no Iêmen.

Civis mortos no Iêmen com subsídio dos brasileiros
Desde o governo Dilma Rousseff, a sociedade paga, via incentivos fiscais, para uma empresa, a Avibras, fornecer aos sauditas sistemas de grande alcance (200 km) com munição de fragmentação— projéteis que se abrem no ar e descarregam bombas que, se não explodem, ficam enterradas como minas ativas.

Bombas brasileiras de fragmentação têm sido usadas contra civis no Iêmen, relatam ONGs integrantes da Cluster Munition Coalition.

Elas simbolizam uma proeza do lobby da indústria bélica, que uniu Dilma, Temer e Bolsonaro na concessão de incentivos e na rejeição a acordos para banir esse armamento.

Metade das vendas Avibras vai para os sauditas. São US$ 60 milhões por ano. Em outubro, Bolsonaro deve visitar em Riad o ditador “MbS” (o nome completo tem 18 palavras), reputado como dos mais sanguinários do Oriente Médio. Na bagagem levará a nova versão do sistema da Avibras, o Astros 2020.

Não há mais espaço para amadores

A redução de despesas está proibida pelo STF. O mesmo STF que abriu o ano obrigando o país a gastar mais 16,32% com o funcionalismo com quem já gastava tudo. É inconstitucional impor decência aos meritíssimos que tomam R$ 727 mil ao favelão nacional para reformar piscinas e churrascarias climatizadas de suas mansões ou que se queixam do “miserê” de R$ 24 mil por mês fora mordomias e “auxílios” valendo três ou quatro vezes isso. E o país está tão arrombado que só fica sabendo desses escrachos quando os próprios escrachados se denunciam. Senão passa batido. Ninguém cobra. Ninguém investiga. Ninguém denuncia.

Já o aumento de impostos “está proibido pelo Bolsonaro”. A recriação da CPMF também. Ela tinha mesmo cara de desespero. Nada a ver com liberalismo ou Escola de Chicago. Mas é o único expediente capaz de jogar dinheiro a tempo no caixa de um governo que “já não tem nem para pagar rancho de soldado” (embora tenha pra pagar cavalo de salto de general). Fora daí cai-se numa reforma tributária real que implica desfazer um nó cego por metro pisando os calos de prefeitos, governadores e mamadores de tetas em geral. Falam nela ha 130 anos mas ninguém conseguiu nem começar…

O Brasil está atolado na ilusão de que poderá fazer as reformas todas de que necessita para deixar de ser um país tão indecentemente arcaico e injusto antes de aderir à democracia.

Não vai!


A ordem politica vigente é que determina em favor de quem são feitas reformas. Enquanto o povo continuar sendo a Geni da pseudo-democracia brasileira em cujo lombo todo mundo pode montar como e quando quiser impunemente; enquanto permanecer essa condição de invulnerabilidade absoluta dos governantes e funcionários públicos desde o momento em que o eleitor, que só participa do lance final, chancela com seu voto obrigatório as tramoias lá deles para ver quem terá o direito à primeira mordida na massa dos explorados pelos próximos quatro anos, não sairemos desse ramerrão dos remendos feitas para manter o doente vivo e explorável por mais tempo e não para curá-lo. E se alguém conseguir algum avanço na marra ou na manha, não demora nada — é juiz na cara de pau, é deputado montado em jabuti, é presidente com filho torto — tudo se desmancha e a bandidaiada volta rindo pra rua.

Administrativa, tributária, econômica, penal, da segurança pública, nenhuma reforma será feita para resolver os problemas do povo antes que façamos uma reforma política que ponha o povo no poder, armado para decidir a qualquer momento quem permanece ou não com mandato, quem mantem ou não o cargo público, quais as leis que ele se dispõe a seguir e que funcionários da justiça estão ou não empenhados em faze-las cumprir.

É a mesma lógica do desarmamento. É de um óbvio ululante que é impossível desarmar 100% das pessoas e, muito menos ainda, desarmar a bandidagem com uma simples canetada. Nos “países desarmados” no tapetão, como o Brasil que o foi contra a ordem expressa do seu povo que disse “NÃO” ao desarmamento no referendo de 23 de outubro de 2005 por maioria de 63,94%, só serão desarmados de fato os cidadãos obedientes à lei que passarão a viver totalmente à mercê da bandidagem armada. É esse o fato que os 60 e tantos mil cadáveres de brasileiros assassinados clamam ano após ano aos céus. Mas se todo mundo estivesse ou pudesse estar armado a bandidagem é que passaria a ter de se cuidar antes de abordar alguém com más intenções. Não precisa sair dando tiro. É como a bomba atômica. Basta todo mundo saber que você tem para que comecem a te respeitar.

Na política é a mesmíssima coisa. Se o eleitor permanecesse “armado” antes e depois de cada eleição, apto a “atirar” a qualquer momento para retomar mandatos, demitir relapsos e corruptos, recusar leis de araque e mandar as suas próprias aos legislativos, os políticos e funcionários públicos é que teriam de pensar 10 vezes antes de agir movidos por interesses escusos.

É um raciocínio límpido, claro e translúcido como a própria luz do sol. E, para além da sua lógica manifesta, existe o fato de que todo o mundo que funciona funciona assim. É o argumento irrefutável do resultado. Menos para o “Brasil com voz”. Lá todo mundo faz questão de não ver.

O brasileiro foi levado desde lá de trás a acreditar que uma boa educação formal é o pre-requisito para a instalação de um sistema democrático e que, sendo este um país deseducado, democracia não é para ele. A verdade histórica é o contrário. A democracia é que é o pré-requisito para se conseguir forçar os políticos a entregar uma boa educação que, por sua vez, é o pressuposto de uma economia próspera e competitiva. Pode ter havido meia dúzia de suíços alfabetizados em 1290 quando inventaram a Confederação lá deles. E os americanos de 1789, assim como os de hoje, não se pareciam nada, como média, com James Madison, Alexander Hamilton e John Jay. A sorte é fundamental para que, na “hora H”, em vez da nata do Iluminismo, não lhe caia uma corte corrupta sobre a cabeça como nos aconteceu em 1808. Mas na Era da Informação a sorte pesa bem menos. Hoje pode-se saber e pode-se copiar o que dá certo como tem feito todo mundo que passou a dar certo.

O que não ha mais mesmo é espaço para amadores. Os inimigos da democracia são profissionais. Será preciso percorrer o caminho inteiro como eles vêm fazendo desde sempre. Apurar e sintetizar metódica e profissionalmente as ideias e informações fundamentais, mapear cientificamente o labirinto legislativo e a tranqueira institucional que se vai atravessar, estruturar redes nacionais como as que se ensaiou a partir de 2013 para semear sistematicamente a boa nova, concentrar absolutamente o foco e partir para o ataque sabendo exatamente por onde começar (distrital puro com recall mais despartidarização só das eleições municipais, por exemplo) porque a barreira é velhíssima e enorme e só poderá sofrer o furo que acabará por derrubá-la se todos os tiros se concentrarem exatamente no mesmo ponto.

Pensamento do Dia


História mal contada

O Brasil empregou muito dinheiro em busca de ossadas. De 1.047, localizou apenas duas. Gastou 500.000 dólares. Dinheiro que poderia ter ido para saúde e educação. Talvez essas pesquisas de DNA pudessem ter sido estruturadas na nossa Polícia Federal e o custo seria bem menor
Marco Vinícius Carvalho, presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos do governo Jair Bolsonaro
*O material de banco de dados com amostras de sangue de familiares foram enviados para Holanda e Bósnia, países com tecnologia apropriada

Pacto sinistro entre os três Poderes é a desmoralização da democracia

Se ainda estivesse na ativa, o genial diretor Alfred Hitchcock certamente pensaria em processar as autoridades e políticos brasileiros, por terem bolado um pacto ainda mais sinistro do que o filmado por ele. No entanto, por incrível que pareça, no Brasil ainda há quem duvide da existência desse pacto entre os três poderes, embora todos os sinais da existência sejam mais do que claros. O Congresso, por exemplo, está fazendo a parte dele nesse complô contra a Lava Jato e a favor da “descriminalização” da política, pois já aprovou a Lei do Abuso de Autoridade, emparedou o Pacote Anticrime do ministro Sérgio Moro e está ressuscitando o Caixa Dois e outras excrescências legislativas.

Correndo na mesma raia, o Supremo entope a Justiça Eleitoral de processos criminais, sabendo que tudo vai prescrever; retira o poder de fiscalização do antigo Coaf, da Receita Federal e do Banco do Brasil; e promove a blindagem de importantes investigados tipo Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e muitos outros que se emaranharam no pente fino das declarações de renda e patrimônio.

E o presidente Jair Bolsonaro também colabora, ao fazer cara de paisagem, fingindo que não sabe de nada, dizendo que a blindagem do filho Flávio e de Queiroz significa apenas amplo direito de defesa e alegando que o corte das verbas da Polícia Federal foi mera coincidência.


Se não existisse o entendimento sinistro entre os Três Poderes, que é uma situação inimaginável em regime democrático, o presidente do Supremo, Dias Toffoli, já se apressaria a colocar em julgamento a decisão que tomou solitariamente, em pleno recesso do Judiciário em julho, quando não somente mandou suspender o inquérito de Flávio Bolsonaro e Fabricio Queiroz, como também resolveu estender o ato a todos os investigados pela Receita, incluindo ele próprio, o amigo Gilmar Mendes e as veneradas esposas.

A prioridade a esse julgamento da blindagem geral seria obrigatória em qualquer país democrático. No Brasil do Pacto Sinistro, porém, vai ficar para as calendas, como se dizia antigamente. A prioridade de Toffoli é justamente ao contrário – quer julgar primeiro os recursos para cancelar as condenações da Lava Jato, soltar o ex-presidente Lula da Silva, junto com os outros políticos e empresários que cumprem pena, anular os inquéritos em curso e evitar a prisão de corruptos que ainda estão temporariamente fora da cadeia, como Michel Temer, Aécio Neves, Moreira Franco, Eliseu Padilha, Romero Jucá e muitos outros mais.

Este conluio entre os Três Poderes é uma novidade em país democrático, fruto do lobby mais bem estruturado que já se montou no Brasil, e não falta dinheiro para comprar consciências, inclusive na imprensa escrita, falada e televisada, como se dizia antigamente. Mas os militares que infestam o governo nada vêem e também fazem cara de paisagem, satisfeitos com a situação política, que lhes garante duplicidade de salários, altas mordomias, a sensação de poder e… o cartão corporativo, é claro.

Em outubro, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, deve colocar em pauta julgamentos do interesse dos criminosos, como os recursos que visam a anular as condenações do ex-juiz Sérgio Moro, questionam a constitucionalidade das prisões após condenação em segunda instância e discutem a validade da decisão da Segunda Turma que cancelou a sentença imposta por Moro a Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil, aquele que “patrocinava “ a carreira artística da amante e alugava jatinho para lua-de-mel em Buenos Aires, tudo pago com dinheiro do Banco do Brasil, é claro.

A fábrica de inimigo de Bolsonaro

Temos aqui um post-padrão de Jair Carlos Bolsonaro – e que é a expressão sintética de alguns pilares fundamentais da mentalidade bolsonarista. Vamos, pois, examinar – destrinchar – a publicação. Creia, leitor: há uma longa história – ideias, portanto – a alicerçar a coisa.
“Enquanto lutamos entre nós o inimigo se fortalece.” Esta é uma construção típica do bolsonarismo, obra da forja artificial de crises e inimigos – a fábrica de teorias conspirativas – que alimenta a estrutura miliciana digital de apoio ao fenômeno reacionário do bolsonarismo. Está contida naquela pregação maior – sem a qual Jair Bolsonaro não seria presidente – que investe na tensão constante, na ameaça permanente (o inimigo sempre à espreita), que radicalizou a polarização a ponto mesmo de estabelecer um “nós contra eles” total, presente em todas as brechas e arestas do convívio social. Um nova etapa no processo de esgarçamento do tecido social que materializa a depressão política profunda em que vamos metidos.

Segundo a fé bolsonarista, haveria uma luta maior, contra aqueles – concentrados no establishment, Congresso, STF e imprensa neste balaio – que operam para impedir que a revolução purificadora cavalgada por Bolsonaro prospere. Por isso, o presidente pede – já falou a respeito com todas as letras – unidade; que seus apoiadores lhe deem um voto de confiança (eterno). Que não pelejem entre si. Que não – nem sequer timidamente – o critiquem (ou serão traidores, caçados pelos milicianos digitais). Refere-se, por exemplo, à indicação do novo procurador-geral da República, que estremeceu o chão do bolsonarismo, aquele que é em boa parte assentado sobre o fetiche do combate à corrupção como o maior problema do Brasil. Enquanto se perde tempo com desconfianças internas, atenção!, o inimigo se fortalece – eis o alarme disparado pelo bolsonarismo.


“Não temos como agradar a todos, vasculham minha vida e de minha família desde 1988, quando me elegi vereador.” Outro recorte de abordagem recorrente no discurso bolsonarista. Bolsonaro pode se comunicar com muitos, a depender das circunstâncias, como ocorreu na eleição de 2018, em que – dada a força do antilulopetismo – alcançou milhões e preencheu o campo do centro político; mas fala (no sentido de se dirigir) para poucos, investindo na polarização, ciente de que ocupa posição privilegiada: sentado na cadeira de presidente, senhor do peso da caneta do Executivo, sabe que uma base fiel de 15%, talvez 20%, do eleitorado é baita ponto de partida para sustentá-lo como candidato muito competitivo – por que não favorito? – a 2022.

Pesquisas eleitorais que indicam queda de popularidade, a rigor, pouco lhe importam. Bolsonaro não tem – e sabe que não tem – o perfil de candidato vencedor em primeiro turno. Não é um agregador. Ele precisa da cisão – de ganchos que deem materialidade aos extremos. Precisa de Lula vivo, de Lula ativo, de Lula solto. Precisa de gatilhos que emprestem verossimilhança à radicalização. Na disputa presidencial argentina, por exemplo, quem realmente acredita que ele torce por Macri, se será a vitória do kirchenerismo a lhe dar a narrativa alarmante dos riscos de retrocesso à esquerda na América do Sul?

Não se trata, pois, de não ter como agradar a todos. Mas de não querer – deliberadamente – fazê-lo. Ele chegou até aqui – com sucesso – dividindo, rachando. Não agradar a todos significa agradar aos seus. Bolsonaro precisa cultivar seu nicho eleitoral tanto quanto multiplicar inimigos e ameaças. É uma engrenagem que se retroalimenta. Nada mais óbvio do que lubrificar esse motor com a vitimização de perseguido – pobre vida vasculhada – há trinta anos.

“Nossa inimiga: parte da GRANDE IMPRENSA. Ela não nos deixará em paz. Se acreditarmos nela será o fim de todos.” Manifestação exemplar de ordem unida – de convocação. Não interessa se em modalidade infantil. Não interessa. É o presidente da República quem chama, quem aponta. Não é pouca coisa. O uso do “nossa”, abrindo o parágrafo, faz a diferença. O inimigo não é apenas de Bolsonaro ou da corte governante, mas também dos que estão com ele nas ruas, dos seus fiéis. É investimento tribal; uma aposta em acolher – um canto que mui fácil e especialmente atrai os ressentidos, a própria carne do bolsonarismo.

Vê-se, neste manifesto, o presidente – em desabrido exercício paternalista – exortar aos seus como se disciplinasse os filhotes. Trata-se de evidente movimento limitador de existências individuais. O presidente fala ao gado; manada já longamente testada. Basta tocar o berrante. Indicar o norte. Funcionou na campanha, e a campanha nunca acabou – o bolsonarismo, sabe-se, consiste em campanha infinita. Está dado. O inimigo é este – e acabou. É guerra. Não há tempo para pensar. Que se avance. Não haverá paz.

Claro que a grande imprensa seria a inimiga. Qual a novidade? Sempre foi – assim como será toda a instituição, de natureza autônoma, que não se submeter ao controle do líder carismático. Isso serve, por exemplo, para a Polícia Federal.

Imprensa equivale a fazer circular informação livremente. Desqualificar a imprensa equivale a desacreditar a informação – um empreendimento bolsonarista tocado pessoalmente pelo presidente: este segundo o qual quem crê no jornalismo decreta o próprio fim e dos demais; de todos. E isto vindo de um presidente que tem a pretensão de se noticiar diretamente, sem intermediários. Isto vindo de um presidente que desinforma como método; que – é preciso dizer – mente como estratégia.
Carlos Andreazza

Sob o signo de Jano

O mito romano de Jano (do latim Janus ou Ianus) era representado com duas cabeças, simbolizando os términos e os começos, o passado e o futuro, o dualismo relativo de todas as coisas. No seu templo, as portas principais ficavam abertas em tempos de guerra e eram fechadas durante a paz. Era o deus tutelar de todos os começos, patrono de todos os finais. O principal monumento em sua glória se encontra em Roma, no Museu do Vaticano: o busto Ianus Geminus. Não à toa, Jano acabou escolhido para representar o primeiro mês do ano do calendário romano (janeiro, do latim januarius), pelo imperador Numa Pompílio (715-672 a.C.).

Sua representação de caras opostas, uma olha para frente e outra olha para trás, pode ser entendida como se examinasse as questões por todos os seus aspectos. O filósofo e sociólogo alemão Jüngen Habermas, um dos expoentes da famosa Escola de Frankfurt e da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, em novembro de 1984, numa palestra no parlamento espanhol, invocou a imagem de Jano para falar sobre o caráter inacabado da modernidade. Habermas dedicou a vida ao estudo da democracia, especialmente por meio de suas teorias do agir comunicativo, da política deliberativa e da esfera pública.

Àquela época, estudava a crise do Estado de bem-estar social e o esgotamento das energias utópicas, tema que abordou no seu discurso, intitulado a Nova obscuridade, cujas notas estão reunidas numa coletânea de textos publicada com o mesmo nome no Brasil, pela Editora Unesp (2011). Passaram-se quase 35 anos, desde então, suas previsões se consolidaram em muitos aspectos. De fato, houve uma mudança de paradigma da sociedade do trabalho para a sociedade da comunicação. Essa mudança explica muito do que está acontecendo hoje no Brasil, principalmente na política.


Nas utopias da ordem, entre as quais estão o velho “socialismo real” comunista e o Estado de bem-estar social-democrata, as dimensões de felicidade e da emancipação se confluíam com aquelas da intensificação do poder e da produção de riqueza social. Segundo Habermas, os projetos de forma de vida racionais entravam em uma simbiose ilusória com a dominação racional da natureza e com a mobilização das energias sociais: “A razão instrumental desencadeada em forças produtivas e a razão funcionalista desdobrando-se em capacidades de organização e planejamento deveriam abrir caminho para a vida humana digna, igualitária e ao mesmo tempo libertária”. Essa foi a grande ilusão da sociedade do trabalho.

A esquerda brasileira sempre pautou a atuação na centralidade do trabalho. De certa forma, a eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a chegada do PT ao poder, erroneamente, simbolizaram o coroamento dessa concepção, mas ela já estava ultrapassada pela sociedade da comunicação e a economia do conhecimento. Além disso, o transformismo e a degeneração no poder deixaram de lado essas utopias. A esquerda que não se corrompeu dispõe de ferramentas teóricas para fazer esse diagnóstico, mas não consegue, porque é prisioneira de velhos dogmas em relação à antiga sociedade industrial e ao valor do trabalho na geração de riquezas.

Não foi à toa que se viu surpreendida nas últimas eleições pelo surgimento de novos atores políticos, com ideias diametralmente opostas, alguns dos quais até obscurantistas e reacionários, mas que souberam ocupar o vácuo político criado pela ultrapassagem da sociedade do trabalho e suas formas de representação (sindicatos, partidos operários etc.) e operar no âmbito da nova sociedade da comunicação, numa disputa que se assemelha muito à guerra entre os taxistas e os motoristas do Uber (perdão pela simplória comparação). A eleição do presidente Jair Bolsonaro não deixa de ser, no plano da disputa pelo poder, um fenômeno associado a essas mudanças.

A despedida dos conteúdos utópicos da sociedade do trabalho, porém, não fecha a dimensão utópica da consciência histórica e da confrontação política, mas exige uma mudança de eixo: a centralidade está na defesa da democracia. Nesse aspecto, é sempre bom lembrar a crítica de Hannah Arendt às ideias centradas no trabalho, porque levaram e ainda levam a soluções autoritárias para a sociedade. Segundo ela, a condição humana está relacionada a três atividades fundamentais que caracterizam a vida: “labor” (o processo biológico do corpo humano), “trabalho” (a criação de objetos e transformação da natureza) e “ação” (a única atividade que independe da medição da matéria e se correlaciona com a condição humana da pluralidade). O que determina a condição humana é o agir e pensar politicamente, daí a importância vital do espaço público e das liberdades.

Eis uma chave para olhar o passado e o futuro, como Jano. É preciso defender uma sociedade na qual a comunicação cotidiana e o discurso da vontade possibilitem uma vida melhor e mais segura, num ambiente de plena liberdade, no qual todos possam dar sua efetiva contribuição. O “lugar de fala” não basta como conteúdo utópico da sociedade da comunicação. É por meio da ação que os homens são capazes de demonstrar quem são.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Santa Ceia do Brasil


Notas falsas

Vivemos um tempo de versões e contraversões – ou seriam contravenções? – na nobre arte da política. Melhor dizendo, na pobre arte da política… Ao mesmo tempo cremos e duvidamos de tudo; simultaneamente duvidamos e cremos em nada. Só pode ser um truque para dissimular o que, se explícito, ruborizaria cafetões e faria bispos perderem a fé. A verdade se tornou um conceito complexo, como ficará difícil de notar a seguir, em novas notas falsas:

Urna – misteriosa e sublime esposa de Átila, o rei dos Urnos. Diz-se que da Urna saem verdades cruéis e consequências imprevisíveis. Houve um tempo em que uma das mais baixas ofensas era chamar alguém de Filho da Urna. Sem que o temível Átila ouvisse, é claro.

Voto – espécie de jogo de azar no qual a banca ganha sempre. Quando praticado em escrutínios transparentes, costumam ser sonoros, ganhando o nome de Voz e Voto. Ouço por aí ser o que temos.


Voto secreto – o mesmo jogo. Porém, quando praticado no Parlamento, ganha consequências “in”: indecentes, incríveis, inclementes, inomináveis.

Voto universal – igual, e com as mesmas características dos bingos de paróquia: todo mundo pode jogar, seja homem, mulher, novo, velho, alto, baixo, doutor, analfabeto. A banca segue ganhando – isso não muda nunca.

Prefeito – aglutinação de pré e feito. Isto é, nada de novo, mais do mesmo. Pessoa escolhida ao prometer mudanças e, depois, seguirá movida a repetir fórmulas. Também pode ser chamado de Alcaide, que vem do árabe (o juiz), sem perder o significado da alcunha, que vem do árabe (a… depreenda você).

Vereador – aglutinação de ver-e-a-dor. Ou seja, uma pessoa para fiscalizar os atos do prefeito e garantir que doa no bolso do cidadão. “Cumpli” sua missão no espaço urbano através da cumpli-cidade.

Deputado – não iremos aqui decupar a palavra para não ferir leitores mais pudicos. Digamos que sejam pessoas escolhidas para enganar (deturpados), constranger (debochados), fazer m… (defecados), entre outras coisas.

Sufrágio – espécie de VAR no jogo do Voto cuja incumbência é garantir que a banca ganhe sempre. Conta aquilo (e com aquilo) que o povo depositou.

Horário Eleitoral Gratuito – programação de mídia com uma relação interessantíssima de custo e benefício: custa para uns, beneficia outros.

Brasília – Disneylândia tupiniquim com seus palácios, sua corte, seus personagens bizarros, seus enredos fantásticos. Cada uma das atrações existe para provocar ora terror, ora deslumbramento, ora fantasia. No fundo, todo mundo sabe que lá tudo é de mentira.