sexta-feira, 29 de maio de 2015

E não estamos em guerra!



Alexandre Garcia comenta falta de vagas em UTI 

Mas que semelhança!?

A questão hoje é se Blatter, como presidente da FIFA desde 1998, é o astuto capo di tutti capi de uma máfia do colarinho branco que administra milhares de milhões de euros gerados pelo futebol internacional ou se, aos 79 anos, é o que parece ser: um vovô distraído com tendências burlescas que não sabia das más ações dos corruptos ao seu redor.
O que também todo mundo sabe, ainda mais depois de quarta-feira, quando a polícia suíça prendeu sete diretores de alto escalão da FIFA, é que muitas das pessoas que cercam Blatter encheram os bolsos com dinheiro de suborno. Ele sustenta que não sabia de nada. Uma olhada em seu currículo coloca em dúvida essa declaração.
Não há nenhuma prova de que Blatter foi um dos beneficiários, mas ele deve ter sido muito cego ou muito incompetente, para não ter nenhuma ideia do tenebroso modus operandi de quem foi seu chefe durante 17 anos.
(Trechos do artigo Sepp Blatter: bobo da corte ou Don Blatterone?, de John Carlikn, que mostrou uma caricatura de um personagem muito conhecido no Brasil)
 

O elo perdido



Quanto vale a corrupção?

A corrupção vale cerca de 2% do PIB, 100 bilhões de reais. Equivale ao orçamento destinado à saúde e ao dobro do valor reservado à educação


Os economistas ensinam que para compreender como se organiza o orçamento de um país basta usarmos os mesmos critérios que utilizamos na composição do orçamento doméstico. Temos que adequar a entrada e a saída de dinheiro —se estamos gastando mais do que ganhamos surge a necessidade de cortar despesas para reequilibrar as contas. Em geral, eliminamos os custos supérfluos, ou seja, tudo aquilo que não constitui uma perda irremediável. Adiamos a compra de uma nova geladeira, substituímos uma marca de manteiga, economizamos no consumo de energia elétrica e água.

Diante do baixo desempenho da economia —ou seja, frente à pouca entrada de divisas nos cofres da União por meio de impostos— tornou-se premente realizar ajustes no orçamento. A presidente Dilma Rousseff determinou o corte de cerca de 70 bilhões de reais das despesas previstas, sendo as áreas mais atingidas a saúde (12 bilhões de reais), a educação (9,5 bilhões de reais) e a construção de casas populares (7 bilhões de reais). Se raciocinarmos como sugerem os economistas, podemos deduzir que estes são os setores não prioritários do ponto de vista do governo.

Muito mais que os montantes envolvidos —quase abstratos aos leigos—, e para além das justificativas oficiais, legítimas, o que permanece é o valor simbólico dessa atitude: saúde, educação e moradia são justamente os pilares de qualquer agrupamento que se quer inserido nisso que denominamos civilização. Primeiro, o homem tem que ter garantida a comida —com fome, regressamos ao estatuto de selvagens, não pensamos, agimos por instinto apenas. Depois, tem que ter assegurado um lugar onde se refugiar —sem um teto, perambulamos desenraizados, sujeitos às intempéries. De barriga cheia e vivendo em uma casa, podemos então nos preocupar em adquirir conhecimento e fundar uma civilização, pautada no respeito ao outro e ao meio ambiente e organizada em bases sólidas, cujo fim último é proporcionar aos cidadãos o bem-estar, cuidando de sua saúde nas diversas fases da vida para que possam usufruir dos prazeres cotidianos.

Dilma Rousseff determinou o corte de cerca de 70 bilhões de reais das despesas previstas, sendo as áreas mais atingidas a saúde, a educação e a construção de casas populares

No entanto, o nosso sistema público de saúde é um desastre. A média nacional de leitos hospitalares é de 2,4 por 1.000 habitantes, abaixo do mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde, de 3 leitos por 1.000 habitantes. Há um déficit de 54.000 médicos e o número de enfermeiros não chega a um por 1.000 habitantes. Além de hospitais superlotados, faltam medicamentos e em muitos os aparelhos estão quebrados ou obsoletos. Leva-se semanas para marcar consultas ou exames, meses para internação ou intervenção cirúrgica —18% de todas as mortes registradas no Brasil são catalogadas como “mal definidas”, ou seja, o atendimento ao paciente foi precário ou não existiu.

No entanto, o nosso sistema público de educação é um desastre. Apenas 27,5% das escolas possuem bibliotecas —seria necessário construir 130.000 bibliotecas até 2020 para cumprir a Lei 12.224, que estabelece a existência de acervos de pelo menos um livro por aluno em cada instituição. Faltam 1,2 milhão de vagas nas pré-escolas. Os alunos, em todas as etapas do ensino, têm aulas em prédios mal conservados e ambiente pouco estimulante; os professores são em número insuficiente, recebem salários baixos e contam com poucos recursos didáticos —ambos, alunos e professores, são acossados pela violência.


Não entendo que educação, saúde e construção de casas possam ser os primeiros setores a sofrer cortes, quando todos sabemos que justamente esses necessitariam ser preservados

No entanto, o nosso déficit habitacional chega a quase 7 milhões de moradias —73% das famílias que não possuem casa ganham até três salário mínimos. Cerca de 6% da população (12 milhões de pessoas) vivem em favelas, quer dizer, em aglomerações irregulares onde inexistem serviços públicos essenciais e urbanização.

Talvez seja ingenuidade minha ou mesmo ignorância, admito, mas não entendo que educação, saúde e construção de casas possam ser os primeiros setores a sofrer cortes, quando todos sabemos que justamente esses necessitariam ser preservados —mais que preservados, deveriam constar como prioridade absoluta. Mais triste ainda é constatar que a corrupção equivale a algo em torno de 2% do Produto Interno Bruto —ou seja, o assalto sistemático aos cofres públicos desvia todo ano cerca de 100 bilhões de reais, um dinheiro equivalente ao orçamento total destinado à saúde e ao dobro do valor reservado à educação...

Taxação das grandes fortunas


Escrevo este artigo em defesa de meus interesses próprios. Não, não me entenda mal. Não tenho fortuna grande, nem média, nem pequena. Minha fortuna é minha família, são meus amigos, meus leitores, minha fé e meus valores imateriais. Mas considero que defendo interesses próprios, como cidadão brasileiro, quando reprovo a taxação das grandes fortunas, como qualquer aumento de impostos, porque essa é uma ideia de jerico. Dela sequer se pode dizer que vem embalada nos ideais do igualitarismo. Não no nosso caso. Não na concepção mau caráter que lhe deu origem.

O ideal do igualitarismo, é bom esclarecer, já produziu desastres em proporções suficientes para que se saiba o que acontece quando deixa de ser ideal e vira prática. No caso brasileiro, porém, a taxação das grandes fortunas não representaria isso. Tampouco significaria um pouco mais do mesmo, ou seja, ampliação da política atual, que confunde donativo com renda e que, por isso, não consegue gerar progresso social. O governo brasileiro não resolve o problema da Educação dos segmentos de baixa renda, não lhes proporciona adequado saneamento básico nem atenção à saúde e não cria condições para que esses recursos humanos se habilitem às atividades produtivas. Todos se tornam, cada vez mais, dependentes do Estado, o que é a segunda pior situação possível.

A taxação das grandes fortunas, no Brasil, seria um caso inédito. Foi pensada agora, num momento de crise fiscal pela qual não precisaríamos estar passando não houvesse, a ganância pelo poder, gerado imperdoável prodigalidade do governo no uso do dinheiro que abusivamente nos toma. Em linguagem simples, sem pedaladas retóricas, a taxação dos mais ricos viria para salvar o Estado da escassez de recursos a que ele mesmo se conduziu. Algo assim só pode parecer razoável a dois tipos de pessoas: os amigos leais do Estado perdulário e os fanáticos do igualitarismo.

Há um erro imenso em atribuir a pobreza dos pobres à riqueza dos ricos, ou vice-versa. Essa é uma ideia desorientadora, que prejudica aqueles a quem pretende ajudar. Os pobres não são pobres por causa dos ricos. Eles são pobres por causa do Estado porque não há concentração maior de renda do que a promovida pelo Estado quando fica com quase 40% de tudo que se produz no país! E, apesar dessa monstruosa expropriação, não só rouba e se deixa roubar, mas se omite em relação às políticas e ações que poderiam gerar desenvolvimento social nas populações de baixa renda. O Estado não deveria “cuidar das pessoas”, mas deveria, isto sim, proporcionar condições para as pessoas cuidarem bem de si mesmas.

Precisamos das grandes fortunas. Elas viram poupança, investimento, postos de trabalho, consumo (inclusive sofisticado, claro) e tributos. Pegar esse dinheiro e entregá-lo à gestão do Estado seria uma operação absolutamente contraprodutiva: tira-o de quem o faz produzir para entregá-lo a quem só sabe gastar.

Percival Puggina

Profecia


Ou construímos escolas ou no futuro teremos um exército de trombadinhas assaltando nas ruas

Darcy Ribeiro, em 1984

Lula deve explicações

Um dia o Lula falou que não bastava aumentar salários. Era preciso mudar o regime. O tempo passou, mas à exceção dos metalúrgicos do ABC, durante alguns anos, os salários não aumentaram e o regime continua o mesmo. A Nova República continuou velha e o partido dos trabalhadores nem é dos trabalhadores e muito menos é partido. A reforma política nada reformou. A Câmara rejeitou todas as propostas de mudança e o Senado confirmou a supressão de direitos trabalhistas.


Fazer o quê? Aguardar as próximas eleições é sonho de noite de verão. Faz décadas que nos enganamos com a expectativa, porque tudo fica na mesma. Imaginar a rebelião das massas equivale a desconhecê-las e a ignorar que jamais terão consciência de sua capacidade.

Quem assistiu as longas sessões da Câmara, terça-feira e ontem, rejeitando alterações eleitorais, bem como a adesão do Senado ao massacre do trabalhador, concluirá pela desimportância do Congresso e a falência dos partidos políticos.

Madame, no México, exultou e confundiu todo mundo ao dizer “que desde 2008 o Brasil adotou medidas anticíclicas para evitar contaminação da economia pelos efeitos da crise global e que agora é hora de desfazer as medidas anticíclicas e fazer o dever de casa”. Entenderam? Nem eu.

A verdade é que apesar de o PT continuar votando contra os direitos trabalhistas, nenhuma proposta saiu de suas bancadas no sentido de dividir com as elites a carga de sacrifícios para enfrentar a crise econômica. Joaquim Levy já se declarou contra o imposto sobre grandes fortunas e sua opinião parece haver frutificado no partido. O vampiro continua se banqueteando no banco de sangue.

Numa palavra, o regime continua o mesmo enquanto, ou por conta disso, os salários não aumentam. O Lula deve explicações. Pretende voltar ao palácio do Planalto, em 2018, com que intenção? Corrigir os malfeitos de Dilma parece muito pouco. Ampliar o assistencialismo será inócuo. Mudar o regime?

O primeiro companheiro precisa dizer o que pretende. O seu ideal não pode restringir-se à possibilidade dos operários freqüentarem churrascarias uma vez a cada seis meses. Muito menos a voltar aos tempos em que a crise econômica não nos atingia. O provável candidato é intuitivo. Pouco ou nada lê. Toca de ouvido. Mas deve definir o seu regime.
Carlos Chagas

À espera da necessidade

Até que ponto a presidente Dilma e as parcelas dos partidos que a apoiam vão aguentar o tranco de uma política impopular?
Os deputados federais votaram três vezes para manter o sistema eleitoral exatamente como é hoje. Não que todos gostem do modelo. Ao contrário, a maioria não gosta. E tanto isso é verdade que a Câmara dos Deputados apreciou três propostas de mudança. Como nenhuma delas obteve a maioria de 308 votos, necessária para alterar a Constituição, ficou tudo na mesma.

Já as medidas do ajuste fiscal, aquelas que reduzem a despesa do governo e aumentam receitas, vão passando na Câmara e no Senado. Meio aos trancos e barrancos, mas, pelo menos até ontem, estavam passando.

Não que a maioria goste delas. Ao contrário, os que estão votando a favor, parlamentares do PT e do PMDB, por exemplo, fazem isso a contragosto. O governo da presidente Dilma precisa disso, é o que dizem quando perguntados por que sustentam medidas impopulares.

Reparem: eles não dizem que o país precisa ou, mais exatamente, que a economia depende dessas medidas para segurar dívida e déficit públicos e, assim, se reequilibrar. A presidente precisa e, pode-se acrescentar, eles, parlamentares, também. E precisam para se manter no poder.

A lógica: se não for feita nenhuma correção de rumos na política econômica, o governo simplesmente desaba com os números de desemprego, inflação e perda de poder aquisitivo dos salários. Logo, vamos corrigir. Como dizem a presidente e seus aliados, é só uma pequena correção e logo tudo voltará aos bons tempos.

O problema é que o desemprego já está subindo e vai continuar assim, a atormentar a vida das famílias; a inflação já está lá em cima comendo a renda das pessoas; e economia já está parada, ou pior, andando para trás, em recessão.

A presidente e seus aliados dizem que se trata de um sacrifício necessário, mas passageiro. E breve. Por esse lado da história, esses males econômicos são consequência da política de ajuste, de modo que, quanto mais abreviado for o aperto, melhor.

Já o ministro que propôs e conduz esse ajuste pensa bem diferente. Para Joaquim Levy, os males são consequência de um modelo esgotado — aquele baseado no forte aumento do gasto do governo e do crédito concedido pelo setor público.

Logo, por este lado, quanto mais profundo e mais duro for o ajuste, mais rapidamente se sairá do buraco. E, saindo, será preciso construir um novo modelo, baseado no investimento privado e nos ganhos de produtividade geral, pois o dinheiro (público) acabou.

Temos, portanto, duas versões para o mesmo fato. Na versão Dilma, o ajuste causa males, mas é o caminho para se voltar ao modelo dos seus primeiros quatro anos. Na versão Levy, foi justamente esse modelo que fracassou, gerou esses problemas todos e só pode ser superado com o ajuste, “para limpar o convés”, como disse para Míriam Leitão, e permitir que se viaje para uma nova economia.

Leia mais o artigo de Carlos Alberto Sardenberg

Recado do frei

 
Temos posto a perder a revolução pacífica e popular feita a partir de 2003, quando ocorreu não uma troca de poder, mas a troca da base social que sustenta o Estado: o povo organizado, antes à margem e agora colocado no centro. O PT pode suportar a rejeição dos poderosos. O que não pode é defraudar o povo e os humildes, que tanta confiança e esperança colocaram no partido. E muitos, como eu e Frei Betto, que nunca nos inscrevemos no PT, mas sempre apoiamos sua causa, por vê-la justa e afim às propostas sociais da Igreja da Libertação, sentimos abatimento e decepção. Não precisava ser assim.
Leonardo Boff, "Recado para o PT"

Um Real para Dilma

Há muito tempo o brasileiro não andava tão sem perspectiva. Não é força de expressão. Pesquisa inédita do Ibope mostra que faz 22 anos que o otimismo não ficava tão por baixo quanto hoje: 48% se dizem pessimistas ou muito pessimistas em relação ao futuro do País, enquanto só 21% se declaram otimistas ou muito otimistas. O resto não está lá nem cá, ou não sabe responder.

O baixo astral não escolhe gênero, cor nem religião. Como uma epidemia, contaminou todos os segmentos sociais e alcançou a parcela majoritária entre homens e mulheres, entre brancos e negros, entre ricos, pobres e remediados, entre jovens e velhos. Só muda de intensidade. Os muito pessimistas chegam a 16% no Sudeste e 17% nas periferias das metrópoles (são 12% na média).

A atual falta de perspectiva é histórica. A última vez que o brasileiro ficou tão pessimista foi antes do Plano Real, na ressaca do governo Fernando Collor, quando a economia ia de mal a pior e não havia sinal de que ela voltaria a melhorar: 22% de otimistas contra 48% de pessimistas, em setembro de 1993. No governo FHC, o pessimismo bateu em 42% em junho de 2000. No governo Lula, não chegou nem perto disso.

A perda do otimismo é um fenômeno recente. No ano da primeira eleição de Dilma, em março de 2010, 73% se diziam otimistas com o futuro. Quatro anos depois, no ano da reeleição da presidente, a fatia dos que olhavam para frente com esperança já tinha diminuído, mas ainda era grande: 49%. Desde então, os otimistas foram reduzidos a menos da metade. Por quê?

Outra pesquisa do Ibope, que mede a confiança do consumidor, dá algumas respostas. No último ano e meio as expectativas se deterioram muito e rapidamente. A desconfiança em relação à economia cresce a cada mês, engrossando o contingente dos que acham que a inflação e o desemprego vão aumentar mais - e, por tabela, que sua situação financeira pessoal vai piorar.

A falta de perspectiva coloca uma lente de aumento sobre problemas reais, fazendo-os parecer ainda maiores do que são. Embora a inflação oficial esteja em cerca de 8% ao ano, para 37% da população ela parece maior do que isso, segundo o Ibope. A percepção é pior para os mais pobres - entre eles, 27% acham que o aumento continuado de preços supera os 12% a cada ano.

O mesmo fenômeno se repete com o desemprego: a percepção é maior do que o número oficial. Embora a taxa nacional de desocupação, segundo o IBGE, esteja em 7,9%, quase metade dos brasileiros (47%) acha que ela é maior do que 9%. E um em cada quatro acredita que o desemprego seja maior do que 12%.

O pessimismo que torna a população ainda mais sensível aos problemas também muda sua percepção sobre a história. Segundo o Ibope, a maior parte dos brasileiros (43%) acha que a inflação atual é maior do que era no governo FHC, contra apenas 23% que pensam o contrário. Embora tenha sido bem mais baixo durante o primeiro mandato do tucano, o IPCA chegou a 12,5% ao fim de 2002, último de FHC na Presidência. Hoje a taxa é de 8,2%.

Segundo a pesquisa, parte dessa conta é da imprensa: 41% acham que ela mostra uma situação econômica mais negativa do que os entrevistados percebem no seu dia a dia. Mas não adianta o governo culpar o mensageiro. Para injetar otimismo, só criando uma perspectiva real de melhora da economia. Contra a crise de pessimismo de 1993, Itamar e FHC lançaram o Plano Real. Dilma e Joaquim Levy estão tentando com o ajuste fiscal. Goste-se ou não, é sua chance de ganharem a batalha das expectativas.

Puxadinho eleitoral. Escrevo antes da votação de todos os itens da reforma política. A eventual cassação do direito do eleitor de votar a cada dois anos seria ainda pior do que o "distritão". Se e quando for possível festejar, será porque o Congresso não piorou um sistema que, de tão ineficiente, é incapaz de aperfeiçoar-se a si mesmo.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Ter mais e ter menos

Vários leitores me escreveram para acusar os "tempos modernos", em que "ter" é mais importante do que "ser".

Hoje, o que temos nos define, à condição, claro, de ostentá-lo o suficiente para que os outros saibam: constatando nossos "bens", eles reconheceriam nosso valor social.

Essa seria a razão da cobiça de todos e, em última instância, da facilidade com a qual todos nos tornamos criminosos.

A partir dessa constatação, alguns de meus correspondentes tentam explicar uma diferença entre ricos e pobres em matéria de crime.

O argumento básico funciona mais ou menos assim: 1) para ser alguém, na nossa sociedade, é preciso ter e ostentar bens, 2) quem vale menos na consideração social (o desfavorecido, o excluído, o miserável) teria um anseio maior de conquistar aqueles bens que aumentariam seu valor aos olhos dos outros.
Em suma, precisamos ter para ser – e, se formos pouco relevantes ou invisíveis socialmente, só poderemos querer ter mais e com mais urgência.

À primeira vista, faz sentido. Mas, antes de desenvolver o raciocínio, uma palavra em defesa da modernidade.

Tudo bem, uma sociedade em que as diferenças são decididas pelo "ter" (vale mais quem tem mais) pode parecer um pouco sórdida. Acharíamos mais digna uma sociedade na qual valeria mais quem "é" melhor, não quem acumulou mais riquezas.

O problema é que, em nosso passado recente, as sociedades organizadas pelo "ser" já existiram, e não foram exatamente sociedades para onde a gente voltaria alegremente –eu, ao menos, não gostaria de voltar para lá.

Geralmente, uma sociedade organizada pelo "ser" é uma sociedade imóvel. Por exemplo, no antigo regime, você podia nascer nobre, perder todos os bens de sua família, inclusive a honra, e continuaria nobre, porque você já era nobre.

Inversamente, você podia nascer numa sarjeta urbana e enriquecer pelo seu trabalho ou pela sua sabedoria, e nem por isso você se tornaria nobre, porque você não o era.

Ou seja, em matéria de mobilidade social, as sociedades nas quais o que importa é o "ser" são sociedades lentas, se não paradas, e as sociedades nas quais o que importa é o "ter" são sociedades nas quais a mudança é possível, se não encorajada.

É bom lembrar disso quando criticamos nossa "idolatria" consumista ou nossa vaidade. Podemos sonhar com uma sociedade organizada pelas qualidades supostamente intrínsecas a cada um (haveria os sábios, os generosos, os fortes etc.), mas a alternativa real a uma sociedade do "ter" são sociedades em que castas e dinastias exercem uma autoridade contra a qual o indivíduo não pode quase nada.

Voltemos agora à observação de que, numa sociedade do "ter" como a nossa, os que tem menos seriam, por assim dizer, famintos –e, portanto, propensos a querer a qualquer custo. Eles recorreriam ao crime porque sua dignidade social depende desse "ter" –para eles, ter (como navegar) é preciso.

Agora, o combustível de uma sociedade do "ter" é uma mistura de cobiça com vaidade. Por cobiça, preferimos os bens materiais a nossas eventuais virtudes, mas essa cobiça está a serviço da vaidade.

A riqueza que acumulamos não vale "em si", ela vale para ser vista e reconhecida pelos outros: é a inveja deles que afirma nossa desejada "superioridade".

Em outras palavras, os bens que desejamos são indiferentes; o que importa é o reconhecimento que esperamos receber graças a eles. Por consequência, nenhum bem pode nos satisfazer, e a insatisfação é parte integrante de nosso modelo cultural.

Não é que estejamos insatisfeitos porque nos falta alguma coisa (aí seria fácil, bastaria encontrá-la). Somos (e não estamos) insatisfeitos porque o reconhecimento dos outros é imaterial, difícil de ser medido e nunca suficiente.

A procura por bens é infinita ou, no mínimo, indefinida, como é indefinida a procura pelo reconhecimento dos outros.

Os bens que conquistamos (roubando ou não, tanto faz) não estabelecem nenhum "ser", apenas alimentam, por um instante, um olhar que gratificaria nossa vaidade.

Não existe uma acumulação a partir da qual nós nos sentiríamos ao menos parcialmente acalmados em nossa busca por esse reconhecimento.

Ao contrário, é provável que a cobiça e a vaidade cresçam com o "ter". Ou seja, é bem possível que a tentação do crime seja maior para quem tem mais do que para quem tem menos.

Os falsos profetas

Não sou muito chegado em assuntos de religião, mas tenho certeza de que os maiores problemas da humanidade provêm de ações religiosas. Todas as religiões se intrometem em assuntos de Estado, e aí começam as confusões.

Quem de nós não é praticante de sua fé? Até eu, que sei das fraquezas humanas, tenho fé para viver uma amizade antiga com Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, herança da mamãe. Gostava imensamente do papa João Paulo II e cheguei a ir a Roma para acompanhar seu sepultamento. Até hoje me emociono com a voz dele. Também admiro João XXIII. Quanto ao papa Francisco, tenho algum receio de sua popularidade, pelo momento que a humanidade atravessa. Popularidade é vizinha de vulgaridade. A figura de pessoas importantes como um papa não pode prescindir de uma certa distância do mundo leigo. Tem de preservar certos mistérios para ser importante, sem dizer ou demonstrar que é. O papa Francisco não pode ser chamado de Chico, a não ser pelos íntimos. Mas o papa não pode ter amigos íntimos... E por que não? Talvez para não ter decepção, que é sempre fraqueza ou má-fé de amigos.

Disse, no início, que toda religião é intrometida. Aqui no Brasil existe a CNBB, que “se acha”, tanto que dá palpite em tudo, e ai do governo que mantiver distância ou que demonstrar certa indiferença por suas decisões. Foi de lá que saíram os padres comunistas hoje em atividade, que se dizem revolucionários, confundindo Marta Rocha com morto roxo.

E esses cultos que vendem a salvação por módicas prestações mensais, hoje pagas até com cartão de crédito? E canais de televisão – que são concessões do Estado – concedidos e alugados para seitas que prometem o céu e ameaçam com o fogo do inferno? As cenas de cura que forjam para depois se vangloriarem do milagre deveriam ser casos de polícia. É crime, capitulado no Código Penal, essa mercantilização promovida por alguns cultos religiosos. Enquanto Edir Macedo constrói o Templo de Salomão e reside em ilhas paradisíacas no Caribe, o arcebispo de Belo Horizonte faz campanha para a construção da Catedral da Fé, idealizada para comportar mais de 100 mil católicos. E o povo precisando de hospitais e escolas... O melhor templo para nossa contrição é a solidão de nós mesmos.

E por que será que, acostumado a falar de política e temas conexos, de repente estou me metendo em assunto tão polêmico? Sei lá... Talvez porque não sou mais político e não penso em votos. Pensava em falar mal daqueles que, na verdade, são os responsáveis pela situação a que chegamos. Dizer que tudo começou com a praga da reeleição articulada pelo vaidoso FHC, invenção que provocou essa corrupção que grassa e desgraça nosso país, pois só existe ex-Luiz e essa mentirosa Dona Dilma porque existe reeleição.

E querem aumentar o número de vereadores, construir shopping no Congresso, aumentar prazo de mandatos e outras desgraceiras congêneres. As Escrituras falam em sinais do fim do mundo, e o aparecimento de falsos profetas é um deles.

Auto-engano ameaça futuro do PT


Nas últimas semanas, aumentou a contestação ao governo Dilma Rousseff por parte de lideranças do PT, o que deve acirrar os debates no quinto congresso da legenda, a ser realizado entre 11 e 13 de junho, em Salvador (BA).

Considerado nome preferencial do partido na disputa presidencial de 2018, Lula criou um “Conselhão”, integrado por Alexandre Padilha, Antonio Palocci e Fernando Haddad, entre outros, para debater temas da agenda política.

Integrante da Mensagem do Partido, corrente de oposição a Construindo um Novo Brasil (CNB), o ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro mudou-se para o Rio. Ele critica o ajuste fiscal e defende a formação de uma “nova frente de esquerda” visando às próximas eleições.

O plano de Tarso é afastar o PT dos peemedebistas do Rio de Janeiro, estado em que o aliado tem criado mais problemas ao governo no Congresso. Mesmo que não tenha força para inviabilizar a dobradinha dos dois partidos em 2016, o ex-governador conseguiu dar amplitude nacional à bandeira de contestação ao partido do governador Pezão e do prefeito Eduardo Paes.

No congresso do PT, temas como a aliança com o PMDB e o ajuste fiscal prometem acirrar o debate interno. Um exemplo disso tem sido observado nas votações das MPs do ajuste, durante as quais importantes lideranças petistas têm criticado o pacote, chegando inclusive a divulgar um manifesto cobrando mudanças na política econômica.

Na pauta da reunião em Salvador, a discussão de novas formas de eleição de sua direção dará a Tarso a oportunidade de angariar apoios à tentativa de contestar o domínio exercido pela CNB. Não deve dar certo. Mas o partido deverá sair dividido.

O movimento de Tarso Genro e a rebeldia de senadores do partido, como Paulo Paim e Lindberg Farias, colocam a possibilidade de um racha no partido no horizonte. Marta Suplicy já saiu. Outros podem seguir o mesmo rumo.

O sucesso do PT existiu quando ele conseguiu liderar uma ampla coalizão de centro-esquerda e centro-direita em favor da governabilidade. Foi a fórmula do sucesso que é rejeitada agora em favor de uma tática de confronto. A tolerância de agregar postos e a habilidade de construir consensos foi o grande trunfo do passado.

Agora, em meio as dilemas da governabilidade, setores do partido atacam moinhos de vento e apontam conspirações imaginárias. Não fazem a devida crítica dos erros cometidos. Ao comprar briga com a “direita”, o partido fica mais isolado e afastado da parcela do eleitorado que votou com o PT nas últimas eleições, mas não é identificada como “petista de carteirinha”.

O certo em meio ao mar de dilemas é o fato de que o partido vive um longo inferno astral que não tem fim. Outra certeza é a de que as respostas aos desafios do momento dividem mais do que agregam e quase nunca convencem além dos arraiais partidários. O partido vive um grave processo de auto-engano.

Mais do que nunca o PT precisa da união de seus membros em torno do governo. Não é o que parece que vai acontecer. Precisaria também ter elevadas doses de autocrítica. Tampouco parece que irá acontecer. Dois graves equívocos que podem ameaçar o futuro do partido.

Lula deve explicações

Um dia o Lula falou que não bastava aumentar salários. Era preciso mudar o regime. O tempo passou, mas à exceção dos metalúrgicos do ABC, durante alguns anos, os salários não aumentaram e o regime continua o mesmo. A Nova República continuou velha e o partido dos trabalhadores nem é dos trabalhadores e muito menos é partido. A reforma política nada reformou. A Câmara rejeitou todas as propostas de mudança e o Senado confirmou a supressão de direitos trabalhistas.

Fazer o quê? Aguardar as próximas eleições é sonho de noite de verão. Faz décadas que nos enganamos com a expectativa, porque tudo fica na mesma. Imaginar a rebelião das massas equivale a desconhecê-las e a ignorar que jamais terão consciência de sua capacidade.

Quem assistiu as longas sessões da Câmara, terça-feira e ontem, rejeitando alterações eleitorais, bem como a adesão do Senado ao massacre do trabalhador, concluirá pela desimportância do Congresso e a falência dos partidos políticos.


Madame, no México, exultou e confundiu todo mundo ao dizer “que desde 2008 o Brasil adotou medidas anticíclicas para evitar contaminação da economia pelos efeitos da crise global e que agora é hora de desfazer as medidas anticíclicas e fazer o dever de casa”. Entenderam? Nem eu.

A verdade é que apesar de o PT continuar votando contra os direitos trabalhistas, nenhuma proposta saiu de suas bancadas no sentido de dividir com as elites a carga de sacrifícios para enfrentar a crise econômica. Joaquim Levy já se declarou contra o imposto sobre grandes fortunas e sua opinião parece haver frutificado no partido. O vampiro continua se banqueteando no banco de sangue.

Numa palavra, o regime continua o mesmo enquanto, ou por conta disso, os salários não aumentam. O Lula deve explicações. Pretende voltar ao palácio do Planalto, em 2018, com que intenção? Corrigir os malfeitos de Dilma parece muito pouco. Ampliar o assistencialismo será inócuo. Mudar o regime?

O primeiro companheiro precisa dizer o que pretende. O seu ideal não pode restringir-se à possibilidade dos operários freqüentarem churrascarias uma vez a cada seis meses. Muito menos a voltar aos tempos em que a crise econômica não nos atingia. O provável candidato é intuitivo. Pouco ou nada lê. Toca de ouvido. Mas deve definir o seu regime.

Se os olhos reaprendessem a chorar, seria um segundo dilúvio

Está tudo muito estranho. Até o céu azul deste mês de maio, que outrora se iniciava no princípio de abril, só agora, a partir do último fim de semana, voltou a mostrar sua estonteante e incomparável beleza. Com esse céu, leitor, tão limpidamente azul, que inspirou tantos poetas, qualquer esperança sobrevive, por mais infundada que seja. Só pode ter sido ele, então, que deu força à presidente Dilma para concluir que o pior em seu governo já passou. Para ela, esse imenso barco, no qual lutamos para sobreviver, retomará seu rumo, mas agora em águas mansas e, quem sabe, sem os inconvenientes da operação Lava Jato…

É assim: quem está no poder não sente os baques…
Confesso que, de fato, impressiona-me a disposição da presidente e/ou a tranquilidade (ou o alheamento?) ao afirmar ao jornal mexicano “La Jornada” que o impeachment não a assusta: “O problema do impeachment”, disse ela, “é sem base real. Vire e mexe tem essa. A mim não atemorizam com isso. Eu tenho clareza dos meus atos”.

Está mesmo tudo muito estranho: a presidente prega a necessidade do pacote, mas não se acha obrigada a colaborar com ele. Você já ouviu a presidente ou alguém por ela afirmar que o governo não vai cortar somente na nossa, mas também na própria carne? Pelo contrário, com um Estado gigantesco, com quase 40 ministros, o gasto público, em todos os Poderes, vai de céu de brigadeiro. Ou seja: quem vai pagar o pato é o povo, por meio de cortes, sobretudo, na saúde e na educação. Pois não é ele o responsável final pelo que acontece no país?

O deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara Federal, ainda não contente, após meses de trabalhos, pesquisas e debates, pôs fim à Comissão de Reforma Política, mas sem nenhum relatório conclusivo. Segundo Cunha, a extinção da comissão e a destituição do seu relator surgiram de decisão dos líderes. Agora, é seu presidente, deputado Rodrigo Maia, quem relatará a reforma no plenário.

Depois de parecer encomendado ao jurista Miguel Reale Júnior, que levou a direção do PSDB a desistir de bancar, neste momento, o pedido de impeachment da presidente, grupos contrários a ela reagiram contra, também, a oposição, na pessoa do senador Aécio Neves. Acusam-no de alta traição. O Movimento Brasil Livre (MBL) marcou encontro para ontem, e no cartaz que distribuíram há dias lia-se esta frase: “Aécio traiu o Brasil”. “O PSDB”, afirmou o MBL, “disse que não irá aderir à pauta do impeachment, traindo os mais de 50 milhões de votos na última eleição de brasileiros que apostaram nessa falsa oposição que continua nos decepcionando”. Está ou não tudo estranho?

Para esses grupos, não vale a iniciativa da oposição de ingressar, por sugestão do jurista, na Procuradoria Geral da República, com pedido de abertura de investigação contra a presidente, fundada nas pedaladas de autoria do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.

Querem mais, querem ver é o sangue rolar quente!

Hoje não tenho escolha, leitor, a não ser me juntar ao jornalista Luiz Fernando Vianna, da “Folha de S.Paulo”, na homenagem que prestou ao nosso poeta Carlos Drummond de Andrade: “Os homens não melhoraram/ e matam-se como percevejos./ Os percevejos heroicos renascem./ Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado./ E se os olhos reaprendessem a chorar, seria um segundo dilúvio”. E mais: “Deus vela o sono e o sonho dos brasileiros./ Mas eles acordam e brigam de novo”.

Até a próxima semana, se Deus quiser!

Chucky Brasil

O enigma do tesoureiro

Decifra-me ou te devoro. João Vaccari Neto não é boquirroto, não ergue punho cerrado, fala baixo e sempre arrecadou quieto para o PT. Bancário e sindicalista, Vaccari é considerado um soldado do Partido dos Trabalhadores. Aos 56 anos, com olhar triste ou resignado e aquela barba branca de ursinho fofinho, o agora ex-tesoureiro do PT, afastado após meses de corda bamba, parece ter a consciência tranquila de quem apenas cumpriu ordens. E com eficiência.

Essa é a sina dos tesoureiros. Eles têm as chaves do caixa e do cofre e apenas obedecem. Vaccari não é diferente de Delúbio Soares, o operador do mensalão. Não é diferente de PC Farias, o tesoureiro de campanha de Fernando Collor nas eleições de 1989. PC Farias foi acusado de ser testa de ferro de Collor em vários esquemas de corrupção. A diferença, a favor (?) de Vaccari, é o valor. PC Farias teria arrecadado de empresários privados o equivalente a US$ 8 milhões em dois anos e meio do governo Collor (1990-1992). O “esquema PC” movimentou mais de US$ 1 bilhão dos cofres públicos. Tudo fichinha diante dos atuais desvios denunciados pela Lava Jato – apenas a Petrobras admite um prejuízo de R$ 6 bilhões.

Vaccari não poderia ser abandonado por Lula e Dilma até cair. Por mais que setores do PT alertassem para afastar o tesoureiro antes da tragédia anunciada, como abandoná-lo sem que ele se sentisse traído? Alguns dirigentes do partido têm medo que Vaccari possa, encarcerado, virar um “homem-granada”, depois de ter adquirido, com razão, a fama de “arrecadador eficiente”. O caixa do PT era um antes dele. E outro depois. Em 2007, o PT arrecadou R$ 8,9 milhões; em 2009, R$ 11,2 milhões. Em 2010, Vaccari passou a comandar a tesouraria. Sucesso absoluto. Em 2011, o PT arrecadou R$ 50,7 milhões; em 2013, R$ 79,8 milhões.

Presidente do Sindicato dos Bancários desde 1994, Vaccari entrou no Banespa aos 19 anos como escriturário. Sindicalista de alma e ação, participou da fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT). De lealdade canina ao PT, Vaccari age como os que servem ao chefe e à chefa sem perguntar o que é moral, amoral ou imoral. O tesoureiro não move um músculo do rosto quando acuado, só as rugas de expressão na testa denunciam o desamparo. Disse candidamente à CPI da Petrobras que não sabe por que motivo foi ao encontro do doleiro Alberto Youssef. Em fevereiro, recusou-se a abrir o portão de sua casa para a Polícia Federal. Os policiais pularam o muro para cumprir mandado de busca e apreensão. Vaccari já flertava com o malfeito havia tempos. É um dos réus no Caso Bancoop. Acusado de crime de formação de quadrilha, estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro, por desvios milionários e prejuízo a cooperados que não receberam suas casas.

Vaccari foi finalmente preso no dia 15 de abril. Essa prisão, que envolve acusações à família do tesoureiro – mulher, filha e cunhada –, é mais que simbólica. A história contemporânea dos tesoureiros é prova disso. Eles podem levar a culpa por tudo. Podem fugir para a Europa, para a Tailândia. E até ser assassinados, como PC. O ex-patrão de PC, Collor, tornou-se amigo dos reis. Dá para entender a amizade. É a “nomenklatura”. Eles se reconhecem, se afagam, se solidarizam.

Não sei se Dilma Rousseff hoje se vangloria de ter vencido as eleições. O preço é alto demais. A cada manhã, ela depara com uma nova denúncia. A cada fim de tarde, sofre uma nova derrota. A cada divulgação de números – do PIB à Educação, passando por todos os setores essenciais –, Dilma se confronta com o fracasso de seu primeiro mandato e com o desperdício de anos de irresponsabilidade fiscal e gastos desmesurados da máquina, comprometendo os bancos públicos. Dilma poderia hoje estar apenas pedalando sua bicicleta caso tivesse perdido as eleições. O Brasil deve esquecer essa história de impeachment. A presidente tem de expiar publicamente seus pecados, submeter a economia e a política a ajustes de valores numéricos e morais e recolocar o país num rumo que reverta a herança maldita.

Agora, o tesoureiro está preso. Em entrevista à CNN espanhola, Dilma foi categórica. “Estou segura de que minha campanha não tem dinheiro de suborno.” Dilma tem “certeza” disso porque suas contas da campanha foram todas “auditadas” e “aprovadas”. “Gostaria de dizer o seguinte: se alguma pessoa ganha dinheiro de suborno, essa pessoa será responsável. É assim que deve ser.” Quem será essa pessoa que transformou propina em doação legal? Quem será?

O procurador Deltan Dallagnol disse que “Vaccari tinha consciência de que os pagamentos eram feitos a título de propina”. A denúncia foi aceita pela Justiça Federal do Paraná. Vaccari pertence à mesma corrente do PT de Lula, José Dirceu e Antonio Palocci, chamada “Construindo um Novo Brasil”. Ele é hoje a esfinge a ser decifrada.

O melhor emprego do mundo

Em 2009, a indústria do turismo australiana criou uma campanha publicitária na qual oferecia a jovens de todo o planeta o que chamava de "melhor emprego do mundo". O vencedor do processo seletivo receberia um belo salário para passar seis meses trabalhando como zelador de uma ilha paradisíaca na Grande Barreira de Corais. Entre os benefícios estava morar numa faustosa villa.

É um belo emprego, mas acho que não se compara a um posto de magistrado no Judiciário brasileiro. Os contemplados com um cargo ali recebem um belo salário para trabalhar, não pelo prazo exíguo de seis meses, mas pela vida toda –e com direito a uma excelente aposentadoria. Entre os muitos benefícios oferecidos estão auxílio-moradia e férias de 60 dias.

Se as propostas que constam do projeto que o Judiciário prepara para atualizar a Lei Orgânica da Magistratura vingarem, as coisas vão melhorar. Os juízes ganharão o direito de fixar seus próprios vencimentos, receberão salários extras em cada uma das duas férias e terão aumento sempre que se casarem e gerarem filhos. Os contribuintes também os ajudarão a pagar pós-graduações que decidam cursar e até seus funerais. Também se cogita de oferecer tratamento privilegiado aos magistrados em aeroportos (passaporte diplomático) e delegacias (direito de não ser interrogado senão por outro magistrado).

Não tenho nada contra juízes ganharem bem. Admito que teria certo receio de ser julgado por alguém que percebesse salário de fome. Mas por que não fixar os vencimentos dos magistrados com total transparência monetária e eliminar todas as mordomias, penduricalhos e privilégios extrassalariais que não deveriam ter lugar num país republicano?

O raciocínio é extensivo a parlamentares e servidores em geral. O dinheiro foi inventado justamente porque ele permite atribuir valores comensuráveis a coisas diferentes. Isto é, ele revela em vez de esconder.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

A verdade existe!


Num país onde mentir é a norma, a afirmação assusta, muito embora nenhuma verdade possa ser absoluta ou “verdadeira”. No entanto, sabemos que ela deve ser discutida e tenazmente procurada, como naquela admirável novela de Jorge Amado sobre o Capitão de Longo Curso, o venturoso Vasco Moscoso de Aragão - um dos poucos mortais cujo sonho foi capaz de dobrar a realidade.

Jorge Amado - cujo espírito literário eu invoco e solicito nesse (con)texto - fabricou esse espantoso personagem no livro Os Velhos Marinheiros, cuja 26.ª edição, publicada em 1970, jaz falante e encantada ao meu lado.

Nada como pegar, sopesar, tirar a poeira e amorosamente reabrir um livro lido na juventude e revisitar suas páginas na velhice, sentindo o mesmo arrebatamento. Nada como recordar os parcos (e, por isso mesmo, definitivos) encontros com seu autor e ter sido mencionado com dignidade em sua autobiografia, Navegação de Cabotagem. Nada como ressuscitar pelo espírito da literatura esses heróis fantásticos na sua pródiga e brasileiríssima ambiguidade.

O livro abre com uma reflexão sobre a morte e as mortes de Quincas Berro D’Águae prossegue com o brilhante romance biográfico de Vasco Moscoso de Aragão. Nos dois casos, o autor usa uma linguagem cartorial, daquelas que listam fatos com desapaixonada e malandra eficiência. O partido a ser tomado é o da fantasia que, como a verdade, deve prevalecer sobre a calúnia e a mentira - essas irmãs da exploração e do fascismo.

Nos dois casos, trata-se de evidenciar os fatos, pois os heróis têm duas vidas. Qual seria a verdadeira? Para tanto, como assevera Jorge Amado pela boca de seus narradores que fazem parte da narrativa, é preciso chegar ao fundo do poço, onde se encontra a verdade.

“A verdade está no fundo de um poço num livro ou num artigo de jornal. Em todo o caso, em letra de fôrma, e como duvidar de uma afirmação impressa? Eu, pelo menos, não costumo discutir, muito menos negar, a literatura e o jornalismo” - completa o narrador, com minha total aprovação.

Ou, como aprendemos com o Dr. Siqueira, “juiz aposentado, respeitável e probo cidadão, de lustrosa e erudita careca, (...) tratar-se de um lugar-comum”. Mas como esse mesmo entendido em leis, julgamentos, denúncias e mentiras complementa com “voz grave, de inapelável sentença, (...) a verdade está no fundo do um poço, mas lá se encontra inteiramente nua, sem nenhum véu a cobrir-lhe o corpo, nem sequer as partes vergonhosas. No fundo do poço e nua”. Decreta o Dr. Siqueira.

Por isso, descubro eu - antropologista de longa vida, muito trabalho e de pequeno curso, quem não gosta de nudez não aprecia e verdade e dela não gostando, jamais desce ao fundo do poço. Não têm a coragem, pois mesmo na ética mais rústica, há o dever de ouvir o outro lado - de dizer o que o outro, o bandido ou o acusado teria dito. Sem isso, qualquer pecha ou acusação vira morfeia.

Ou seja: descer ao fundo do poço e, com uma boa lanterna, descobrir a verdade verdadeira, nua e crua, é um dever e uma exigência ética. Sem ela, o que seria dos pobres, dos fracos, dos sem fama e dos que ainda têm vergonha na cara? Mas quem, neste nosso Brasil de hoje, pode se permitir essa viagem para o fundo do poço, a não ser os de petróleo para roubar?

Acontece, entretanto, que a verdade existe e você a encontra ao lado da boa-fé e da honestidade lá no fundo do poço e nuinha, como diz o livro de Jorge Amado. Querem prova?

Na semana passada, uma crônica intitulada Ruas Sem Nome, na qual mencionei um personagem com quem convivi na minha vida de antropologista de longo curso. Dono de um bar, era uma figura folclórica e querida. Era conhecido como Caxixê. Fora do bar, foi um chefe de família impecável. Teve filhos e deu aos seus descendentes o nome de um estadista aliado do final da segunda guerra (1939-1945). Havia o Getúlio, o Stalin, o Churchill, o De Gaulle e o Roosevelt, com tive contato porque ele era caixa e gerente do Banco da Amazônia, no qual eu depositava meu cheque de pesquisa, um cheque visado que hoje é - como a verdade - peça de museu. Desse Roosevelt, o velho Caxixê tinha um enorme orgulho.

A crônica versou sobre isso e sobre o papel dos nomes. Alguém duvidou: minha história era muito boa para ser verdade. Mas eis que hoje, quinta-feira, dia 21, recebo uma mensagem das senhoras Elsa Barroso e filhos; e de Rosiane Barroso, confirmando minha história. Ambas me oferecem residência e conforto em Belém e uma delas é filha do Franklin Roosevelt Braga Barroso, que tanto aplainou minha vida naqueles velhos tempos.
A mensagem confirma a verdade! Foi prova de que ela existe, embora esteja no fundo do poço. Meu velho coração ganhou alento. Nem tudo está perdido. Pelo menos não completamente perdido.
PS: Você pode achar que isso é pouco. Mas para mim é o testemunho que as vidas são feitas de pequenas coisas. Pois nenhuma mentira, por mais eloquente, resiste a um grão de mostarda.

O que resta ao brasileiro

Impostos no Brasil retorno Boomerangue Bumerangue mata brasileiro sangue peito

O que mais resta a fazer a quem é assaltado por uma quadrilha de bandidos se não tem com que se defender? ... Fazer de conta que está morto, darling, fingir-se de morto...
Miguel Ángel Astúrias – Week-end na Guatemala


Sair da crise é o milagre brasileiro de hoje. Apesar de não serem autorizados a fazer milagres, os petistas estão prontos a conseguir essa façanha. Novamente enganosa como criar aquele de um grande desenvolvimento que nos levou ao buraco.

Milagre só com força divina e não há santo petista que esteja assim com grande influência junto aos poderes celestiais. Perderam demais ao se aliar ao diabo para assegurar o trono do poder. Pagam ainda pouco do muito que devem ao inferno, que não costuma deixar furo na cobrança.

As contas estão chegando e o ajuste não fecha porque governar não é apenas fazer continha caseira de débito e crédito como ensinam os economistas pela tevê. Vai mais além do que a vã consciência dos governantes brasileiros acostumados às pirotecnias contábeis. Não se faz nas coxas nem se pode recorrer à ajuda dos santos dos endividados para deixar as contas zeradas.

O custo de um país leva anos para ser pago. Um rombo como o do PT em 12 anos - o 13º é de tentativa de acerto - será levado na canga do povo ainda por muito tempo, bem mais do que anunciam.


As promessas econômicas se baseiam em números, mas são condicionadas e influenciadas pelo dia a dia sempre turbulento da sociedade e da política. Por mais que falem de melhoria na próxima temporada, já se prevê menos, e bem menos do que apregoam os arautos cúmplices. E os gastos continuam a bater nas portas do Planalto, sempre blindadas.

Dilma acredita, fiel à própria incompetência, que as anunciadas concessões de junho podem ajudar a sair do buraco. O gesto é daquela família endividada que vende o que deixou virar quinquilharia. Como não cuidou como deveria quando governo, deixando tudo ser sucateado, agora vai vender a preço de banana para arrecadar dinheiro. Só isso mostra o tamanho do buraco em que enfiou o país.

Ficaram mais de uma década sem cuidar do público e agora passam as concessões ao empresariado privado por um trocadinho que recoloque a imagem deles no paraíso.

É nessa brecha que aparecem com salvas e pompa os chineses para colocar Dilma de volta à agenda positiva. Mas não se pense que os dólares são um negócio da China, são negócios chineses que sabem muito bem negociar. Não virão à toa para brincar nem darão dinheiro por também terem bandeira vermelha.

Palmas para o governo e que se contente o povo em ser roubado e ver o patrimônio nacional sucateado para atender ao poderio partidário. Ao povo, as contas!