Durante o século passado, tivemos uns quantos psicopatas no poder, seja na sequência de revoluções violentas ou mesmo por via eleitoral, o que se tornou trágico para os povos. A má notícia é que nas últimas décadas eles regressaram aos palácios presidenciais e governamentais um pouco por todo o mundo, pelo que estamos outra vez a ser governados por eles.
Um psicopata é um indivíduo que sofre de um desequilíbrio patológico em matéria de controlo das emoções e impulsos. Apesar de se relacionar com multidões, frequentemente revela um comportamento antissocial e um défice de empatia.
O drama da democracia é que ela nos leva a acreditar na boa-fé de todos os políticos. Num sistema político democrático, os cidadãos são convidados a ouvir as propostas políticas dos candidatos, e a ter conhecimento das suas ideias para o país. Numa democracia madura é suposto ir um pouco mais além, isto é, ter ciência de como tais ideias e propostas serão implementadas, com que verbas e em que condições.
Mas, infelizmente, a vida política está hoje parasitada pelo imediato, por isso as pessoas não gastam muito tempo em ouvir o “como” porque se alimentam de esperança e o que importa é suscitá-la no eleitorado. Aquele que melhor o conseguir fazer é eleito, mesmo contra o candidato mais honesto e competente, que desenvolve laboriosamente o trabalho de casa, que estuda a fundo as suas propostas e as quantifica com seriedade.
Mas o que interessa é o sound bite, a mensagem simples mas eficaz, o slogan que não diz nada mas cai bem. Depois, quando se ganham eleições e se vai para o governo, há que disfarçar a falta de estudo e preparação através de expedientes, como culpar o governo anterior por todos os desaires ou proclamar aos quatro ventos que se receberam os cofres vazios.
Por outro lado, as pessoas só revelam realmente quem são quando conseguem alcançar o poder, seja ele de caráter político, militar, económico ou religioso. Alguém disse que se queremos conhecer de facto uma pessoa, experimentemos contrariá-la. Ou então passar-lhe poder para as mãos, como disse Abraham Lincoln: “Quase todos os homens são capazes de superar a adversidade, mas, se se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-se-lhe poder.”
É que o exercício do poder, de qualquer espécie de poder, exige um equilíbrio mental e emocional a toda a prova, caso contrário esse poder torna-se uma espécie de droga, cujo efeito altera toda a forma de pensar, sentir e agir. E segundo Edmund Burke: “Quanto maior o poder, mais perigoso é o abuso.”
Caso tal equilíbrio saudável não exista estamos perante um perigo real. Muitos ditadores e alguns dos maiores facínoras da história ascenderam ao poder pela via democrática, e depois foi o que se viu. Outros alcançaram o poder através dum golpe de estado ou duma revolução, mas contaram inicialmente com forte apoio popular, antes de descambarem por completo num rol interminável de crimes.
Ainda assim, muitos ainda continuam a ser vassalos de tais suseranos, mesmo contra todas as evidências, revelando estranhos mecanismos de fascínio, submissão e desapego à verdade dos factos. Por vezes é mais doloroso aceitar a dura realidade do engano em que se caiu do que continuar a ser embalado por uma doce ilusão.
quinta-feira, 16 de abril de 2026
O homem na Lua e a era da pós-verdade
Este texto é uma análise da curiosa onda negacionista ao novo grande feito da astronomia: o ser humano de volta à Lua (desta vez em redor dela). Mas iniciemos um pouco atrás na história. O poeta Luís de Camões (1524-80), quando escreveu sua grande epopeia – Os Lusíadas – mergulhado no turbilhão do século XVI, estava reagindo frontalmente às transformações que redesenhavam o Ocidente: as Grandes Navegações. Logo, não é à toa o tom pretencioso com que iniciou sua obra: “Cessem do sábio Grego e do Troiano/ As navegações grandes que fizeram;/ Cale-se de Alexandro e de Trajano/ A fama das vitórias que tiveram”. Em outras palavras, Camões evoca a memória dos maravilhosos feitos da Antiguidade Clássica (gregos e troianos), e mesmo a fama guerreira dos macedônios e romanos (Alexandro e Trajano), e lhes ordena “calarem a boca” para a mais emblemática e exclusiva façanha da humanidade: o desbravamento, além mar, de regiões do globo que a Europa desconhecia.
Quando Camões publicou sua epopeia em 1572, já datava em 70 anos a viagem de Vasco da Gama às Índias através dos contornos do continente africano (uma viagem mais extensa do que rodear a Terra pela Linha do Equador); Pedro Álvares Cabral já havia pisado nas futuras regiões brasileiras em 1500, e Fernão de Magalhães, em 1522, houvera provado de uma vez por todas a redondeza da Terra ao tê-la circundado a serviço da Espanha: o mundo era realmente redondo e plenamente conectável pelo mar.
Foi um século XVI bastante agitado. É claro que naquele tempo muitos apostavam na própria observação e não conseguiam entender a ideia de um mundo redondo; é realmente mais fácil vê-lo plano e concluir assim. Existia também espaço para um farto imaginário folclórico que visualizava o oceano como um lar de mistérios e monstruosidades. Seria realmente possível ir tão longe e se localizar num mar que parece engolir o próprio horizonte? Poderiam instrumentos de madeira e metal, como o astrolábio, realmente traduzir a vontade dos astros em rotas sobre águas nunca antes navegadas? Bem, acabamos por rememorar em linhas gerais esses acontecimentos históricos a fim de abrir uma janela para o que está a ocorrer em abril de 2026: acompanhamos, pela tela de nossos smartphones, a odisseia de quatro astronautas que circundam a Lua, um feito que (considerando o pouso de 1969 – Missão Apollo 11 da Nasa) faz as caravelas de Camões parecerem brinquedos de banheira. Eis a Missão Ártemis II.
Denominamos “progresso” essa percepção de estarmos refinando nossa leitura da realidade e sofisticando as técnicas com as quais submetemos a natureza às nossas vontades. É difícil não falarmos em termos de progresso quando anteriormente navegávamos por mar, e, agora, sondamos o silêncio do vácuo lunar. Porém, se cada época tem, por assim dizer, suas realizações, também tem seus limites; e, ao falarmos em termos de “conhecimento científico”, tais limites ganham formas institucionais (universidades, laboratórios, agências reguladoras etc.) e métodos que tentam garantir o que é ou não verdadeiro (científico). Em outras palavras, a ciência de cada época possui aquilo que Michel Foucault (1926-84) denominou de “regime de verdade”, que nada mais é que um conjunto de procedimentos que produz, regula e faz circular o conhecimento de determinada forma. Entendendo assim, o regime de verdade do século XVI tornava real a possibilidade da travessia dos mares por causa dos meios científicos disponíveis, tais como a bússola e o quadrante, que permitiam aos marinheiros lerem as estrelas para não se perderem no vazio, e as caravelas, equipadas com velas triangulares que desafiavam a direção dos ventos. Esses instrumentos não eram apenas ferramentas; constavam como validadores daquela realidade de “descobrimentos”. Para o regime de verdade da época, a prova de que a Terra era esférica e navegável não vinha de um debate de opiniões, mas do fato de que, ao seguir os cálculos matemáticos desses aparelhos, o navio efetivamente chegava ao destino (o que realmente ocorreu).
Avançamos para abril de 2026 e percebemos que o “regime de verdade” apenas mudou de escala, ou seja, o que antes era uma bússola e um mapa em papel grosseiro, hoje são algoritmos de propulsão e transmissões via satélite que nos permitem assistir a astronautas circundando a Lua. Porém, e eis aqui um ponto interessante, o alto índice de pessoas que simplesmente não acredita nas missões espaciais revela o quão fraco tem sido o discurso científico fora dos laboratórios. A ciência parece ser uma língua que muita gente simplesmente não sabe falar. É interessante o que estamos a assistir (apesar de negacionismo ser um fenômeno nada novo): uma era de pós-verdade em que o discurso científico é validado ou invalidado pela sociedade a partir de parâmetros bem distantes da Academia que o produziu.
Se, de acordo com o “regime de verdade” de Michel Foucault, entendido como o conjunto de procedimentos, instrumentos e saberes que validam o que é considerado verdadeiro, hoje dispomos de tecnologias cada vez mais capazes de registrar e transmitir esses acontecimentos até em tempo real, ainda assim não demorou para surgirem postagens falsas nas redes sociais, alegando que as imagens da missão foram gravadas em estúdio, com “fundo verde” e efeitos visuais. Curioso comportamento: mesmo diante de registros e transmissões em tempo real, nem todos acreditam no que veem. Prova disso é uma pesquisa do DataFolha, que mostra que 33% dos brasileiros não acreditam que humanos tenham ido à Lua. Para essa parcela da população, a Missão Artemis II seria, portanto, a primeira viagem espacial até o satélite.
Avançamos enormemente na forma de produzir e comprovar o conhecimento, mas hoje enfrentamos um novo desafio: dar mais peso aos fatos do que às crenças pessoais. Em 1976, Hannah Arendt, no ensaio Verdade e Política, apontava que a mentira nunca havia sido tão tolerada. Décadas depois, em 2016, Oxford elege “pós-verdade” como palavra do ano, indicando uma mudança mais profunda que, embora possa parecer semelhante à mentira, não é igual nem tão fácil de identificar.
Na pós-verdade, a distorção não se apresenta de forma clara, ela se mistura às emoções e permite que a crença pessoal se sobreponha ao fato, mesmo quando há evidências disponíveis. Mais sutil do que a mentira, como aponta Ralph Keyes (2018), em "A era da pós-verdade: desonestidade e enganação", surge uma espécie de terceira categoria com afirmações que não são nem totalmente verdadeiras nem completamente falsas, mas podem ser “verdade melhorada”, “neoverdade” ou “verdade light”. Já Matthew D’Ancona (2018) em A nova guerra contra os fatos em tempos de fake news, explica que o abalo da verdade está relacionado a um cenário de disputa política e intelectual onde a ciência passa a ser tratada com desconfiança ou desprezo.
As estratégias de promoção da pós-verdade são sutis. Não dizer exatamente a verdade, nem assumir uma mentira, é um dos recursos mais utilizados, assim como a contradição e a repetição, que mantêm a discussão em andamento. Por isso, Lee McIntyre (2018) explica que ela equivale a uma forma de supremacia ideológica, na qual seus praticantes tentam fazer com que alguém acredite em algo, haja ou não boas evidências para isso. Nesse contexto, não surpreende que, mesmo diante de provas ou de documentação científica baseada em métodos rigorosos, ainda haja quem questione a ida do homem à Lua, abrindo espaço para a criação de “fatos alternativos”. O problema, portanto, não está na falta de provas, mas na forma como elas são recebidas ou, na verdade, rejeitadas.
Quando Camões publicou sua epopeia em 1572, já datava em 70 anos a viagem de Vasco da Gama às Índias através dos contornos do continente africano (uma viagem mais extensa do que rodear a Terra pela Linha do Equador); Pedro Álvares Cabral já havia pisado nas futuras regiões brasileiras em 1500, e Fernão de Magalhães, em 1522, houvera provado de uma vez por todas a redondeza da Terra ao tê-la circundado a serviço da Espanha: o mundo era realmente redondo e plenamente conectável pelo mar.
Foi um século XVI bastante agitado. É claro que naquele tempo muitos apostavam na própria observação e não conseguiam entender a ideia de um mundo redondo; é realmente mais fácil vê-lo plano e concluir assim. Existia também espaço para um farto imaginário folclórico que visualizava o oceano como um lar de mistérios e monstruosidades. Seria realmente possível ir tão longe e se localizar num mar que parece engolir o próprio horizonte? Poderiam instrumentos de madeira e metal, como o astrolábio, realmente traduzir a vontade dos astros em rotas sobre águas nunca antes navegadas? Bem, acabamos por rememorar em linhas gerais esses acontecimentos históricos a fim de abrir uma janela para o que está a ocorrer em abril de 2026: acompanhamos, pela tela de nossos smartphones, a odisseia de quatro astronautas que circundam a Lua, um feito que (considerando o pouso de 1969 – Missão Apollo 11 da Nasa) faz as caravelas de Camões parecerem brinquedos de banheira. Eis a Missão Ártemis II.
Denominamos “progresso” essa percepção de estarmos refinando nossa leitura da realidade e sofisticando as técnicas com as quais submetemos a natureza às nossas vontades. É difícil não falarmos em termos de progresso quando anteriormente navegávamos por mar, e, agora, sondamos o silêncio do vácuo lunar. Porém, se cada época tem, por assim dizer, suas realizações, também tem seus limites; e, ao falarmos em termos de “conhecimento científico”, tais limites ganham formas institucionais (universidades, laboratórios, agências reguladoras etc.) e métodos que tentam garantir o que é ou não verdadeiro (científico). Em outras palavras, a ciência de cada época possui aquilo que Michel Foucault (1926-84) denominou de “regime de verdade”, que nada mais é que um conjunto de procedimentos que produz, regula e faz circular o conhecimento de determinada forma. Entendendo assim, o regime de verdade do século XVI tornava real a possibilidade da travessia dos mares por causa dos meios científicos disponíveis, tais como a bússola e o quadrante, que permitiam aos marinheiros lerem as estrelas para não se perderem no vazio, e as caravelas, equipadas com velas triangulares que desafiavam a direção dos ventos. Esses instrumentos não eram apenas ferramentas; constavam como validadores daquela realidade de “descobrimentos”. Para o regime de verdade da época, a prova de que a Terra era esférica e navegável não vinha de um debate de opiniões, mas do fato de que, ao seguir os cálculos matemáticos desses aparelhos, o navio efetivamente chegava ao destino (o que realmente ocorreu).
Avançamos para abril de 2026 e percebemos que o “regime de verdade” apenas mudou de escala, ou seja, o que antes era uma bússola e um mapa em papel grosseiro, hoje são algoritmos de propulsão e transmissões via satélite que nos permitem assistir a astronautas circundando a Lua. Porém, e eis aqui um ponto interessante, o alto índice de pessoas que simplesmente não acredita nas missões espaciais revela o quão fraco tem sido o discurso científico fora dos laboratórios. A ciência parece ser uma língua que muita gente simplesmente não sabe falar. É interessante o que estamos a assistir (apesar de negacionismo ser um fenômeno nada novo): uma era de pós-verdade em que o discurso científico é validado ou invalidado pela sociedade a partir de parâmetros bem distantes da Academia que o produziu.
Se, de acordo com o “regime de verdade” de Michel Foucault, entendido como o conjunto de procedimentos, instrumentos e saberes que validam o que é considerado verdadeiro, hoje dispomos de tecnologias cada vez mais capazes de registrar e transmitir esses acontecimentos até em tempo real, ainda assim não demorou para surgirem postagens falsas nas redes sociais, alegando que as imagens da missão foram gravadas em estúdio, com “fundo verde” e efeitos visuais. Curioso comportamento: mesmo diante de registros e transmissões em tempo real, nem todos acreditam no que veem. Prova disso é uma pesquisa do DataFolha, que mostra que 33% dos brasileiros não acreditam que humanos tenham ido à Lua. Para essa parcela da população, a Missão Artemis II seria, portanto, a primeira viagem espacial até o satélite.
Avançamos enormemente na forma de produzir e comprovar o conhecimento, mas hoje enfrentamos um novo desafio: dar mais peso aos fatos do que às crenças pessoais. Em 1976, Hannah Arendt, no ensaio Verdade e Política, apontava que a mentira nunca havia sido tão tolerada. Décadas depois, em 2016, Oxford elege “pós-verdade” como palavra do ano, indicando uma mudança mais profunda que, embora possa parecer semelhante à mentira, não é igual nem tão fácil de identificar.
Na pós-verdade, a distorção não se apresenta de forma clara, ela se mistura às emoções e permite que a crença pessoal se sobreponha ao fato, mesmo quando há evidências disponíveis. Mais sutil do que a mentira, como aponta Ralph Keyes (2018), em "A era da pós-verdade: desonestidade e enganação", surge uma espécie de terceira categoria com afirmações que não são nem totalmente verdadeiras nem completamente falsas, mas podem ser “verdade melhorada”, “neoverdade” ou “verdade light”. Já Matthew D’Ancona (2018) em A nova guerra contra os fatos em tempos de fake news, explica que o abalo da verdade está relacionado a um cenário de disputa política e intelectual onde a ciência passa a ser tratada com desconfiança ou desprezo.
As estratégias de promoção da pós-verdade são sutis. Não dizer exatamente a verdade, nem assumir uma mentira, é um dos recursos mais utilizados, assim como a contradição e a repetição, que mantêm a discussão em andamento. Por isso, Lee McIntyre (2018) explica que ela equivale a uma forma de supremacia ideológica, na qual seus praticantes tentam fazer com que alguém acredite em algo, haja ou não boas evidências para isso. Nesse contexto, não surpreende que, mesmo diante de provas ou de documentação científica baseada em métodos rigorosos, ainda haja quem questione a ida do homem à Lua, abrindo espaço para a criação de “fatos alternativos”. O problema, portanto, não está na falta de provas, mas na forma como elas são recebidas ou, na verdade, rejeitadas.
O que uma cidade sueca pode ensinar ao Brasil
Entre um prato e outro, a conversa enveredou – como tantas vezes acontece – para clima, cidades e essas soluções que parecem distantes, quase estrangeiras demais para a nossa realidade.
Foi quando ela me falou de Västerås.
Não é o tipo de cidade que costuma frequentar o nosso imaginário. Eu mesma nunca tinha ouvido falar. Não é Estocolmo, não é cenário de filme, não é destino turístico óbvio. Trata-se, na verdade, de uma cidade industrial. Daquelas que cresceram ao redor de fábricas, de infraestrutura pesada, de engenharia.
Västerås não nasceu verde. Não foi desenhada já com ciclovias perfeitas e energia limpa. Ela precisou se transformar para se adaptar à atual realidade. E, ao fazer isso, acabou se tornando uma espécie de laboratório silencioso da transição climática.
Patrícia descrevia com certa naturalidade algo que, para nós, ainda soa futurista: um sistema de aquecimento urbano que aproveita calor gerado por resíduos e por processos industriais para aquecer casas inteiras. O que sobra da indústria vira conforto dentro de casa. O que seria desperdício vira eficiência.
Isso tudo não é apenas uma solução técnica. É uma mudança de lógica.
Ali, energia, cidade e indústria conversam entre si.
Enquanto ela falava, pensei no Brasil, claro, e em como ainda tratamos esses sistemas como compartimentos isolados. Energia é energia. Cidade é cidade. Resíduo é problema. Raramente pensamos em como uma coisa pode resolver a outra.
Aí que está o “pulo do gato”.
A transição climática, quando acontece de verdade, não se dá apenas em grandes anúncios ou projetos grandiosos. Ela acontece nessas conexões menos visíveis. No encanamento que leva calor de um lugar para outro. Na decisão de reaproveitar o que antes era descartado. Na integração entre diversas partes desse todo.
Västerås também investiu pesado em eletrificação, em mobilidade urbana, em planejamento. Mas nada disso parece feito para impressionar. É quase o oposto: é feito para funcionar.
Imagine o que poderíamos fazer no Brasil, esse país que conta com uma vantagem estrutural de poucos: uma matriz elétrica majoritariamente renovável. No entanto, seguimos enfrentando desafios básicos de integração.
Produzimos energia limpa, mas perdemos eficiência na distribuição. Temos potencial em economia circular, mas ainda tratamos resíduos como fim de linha. Temos cidades vibrantes, mas pouco conectadas em termos de planejamento energético e climático.
No fim do almoço, ficou a sensação de que o modelo Västerås é difícil demais para ser copiado – são contextos muito diferentes.
Mas esta pequena cidade sueca funciona nos ensina que dá para transformar uma base industrial em algo mais eficiente, mais inteligente, mais alinhado com o clima. Tudo isso sem abrir mão do desenvolvimento.
As soluções mais interessantes, Västerås nos lembra, nem sempre são as mais visíveis.
Foi quando ela me falou de Västerås.
Não é o tipo de cidade que costuma frequentar o nosso imaginário. Eu mesma nunca tinha ouvido falar. Não é Estocolmo, não é cenário de filme, não é destino turístico óbvio. Trata-se, na verdade, de uma cidade industrial. Daquelas que cresceram ao redor de fábricas, de infraestrutura pesada, de engenharia.
Västerås não nasceu verde. Não foi desenhada já com ciclovias perfeitas e energia limpa. Ela precisou se transformar para se adaptar à atual realidade. E, ao fazer isso, acabou se tornando uma espécie de laboratório silencioso da transição climática.
Patrícia descrevia com certa naturalidade algo que, para nós, ainda soa futurista: um sistema de aquecimento urbano que aproveita calor gerado por resíduos e por processos industriais para aquecer casas inteiras. O que sobra da indústria vira conforto dentro de casa. O que seria desperdício vira eficiência.
Isso tudo não é apenas uma solução técnica. É uma mudança de lógica.
Ali, energia, cidade e indústria conversam entre si.
Enquanto ela falava, pensei no Brasil, claro, e em como ainda tratamos esses sistemas como compartimentos isolados. Energia é energia. Cidade é cidade. Resíduo é problema. Raramente pensamos em como uma coisa pode resolver a outra.
Aí que está o “pulo do gato”.
A transição climática, quando acontece de verdade, não se dá apenas em grandes anúncios ou projetos grandiosos. Ela acontece nessas conexões menos visíveis. No encanamento que leva calor de um lugar para outro. Na decisão de reaproveitar o que antes era descartado. Na integração entre diversas partes desse todo.
Västerås também investiu pesado em eletrificação, em mobilidade urbana, em planejamento. Mas nada disso parece feito para impressionar. É quase o oposto: é feito para funcionar.
Imagine o que poderíamos fazer no Brasil, esse país que conta com uma vantagem estrutural de poucos: uma matriz elétrica majoritariamente renovável. No entanto, seguimos enfrentando desafios básicos de integração.
Produzimos energia limpa, mas perdemos eficiência na distribuição. Temos potencial em economia circular, mas ainda tratamos resíduos como fim de linha. Temos cidades vibrantes, mas pouco conectadas em termos de planejamento energético e climático.
No fim do almoço, ficou a sensação de que o modelo Västerås é difícil demais para ser copiado – são contextos muito diferentes.
Mas esta pequena cidade sueca funciona nos ensina que dá para transformar uma base industrial em algo mais eficiente, mais inteligente, mais alinhado com o clima. Tudo isso sem abrir mão do desenvolvimento.
As soluções mais interessantes, Västerås nos lembra, nem sempre são as mais visíveis.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Homenagem a Alexei Sakarov
de cima do palanque
LÍDERES, o povo
Não é paisagem
Nem mansa geografia
Para a voragem
Do vosso olho.
POVO, POLVO
UM DIA.
O povo não é o rio
De mínimas águas
Sempre iguais.
Mais fundo, mais além
E por onde navegais
Uma nova canção
De um novo mundo.
E sem sorrir
Vos digo:
O povo não é
Esse pretenso ovo
Que fingis alisar,
Essa superfície
Que jamais castiga
Vossos dedos furtivos.
POVO. POLVO.
LÚCIDA VIGÍLIA.
UM DIA.
de cima da alta poltrona estofada
de cima da rampa
olhar de cima
de cima da rampa
olhar de cima
LÍDERES, o povo
Não é paisagem
Nem mansa geografia
Para a voragem
Do vosso olho.
POVO, POLVO
UM DIA.
O povo não é o rio
De mínimas águas
Sempre iguais.
Mais fundo, mais além
E por onde navegais
Uma nova canção
De um novo mundo.
E sem sorrir
Vos digo:
O povo não é
Esse pretenso ovo
Que fingis alisar,
Essa superfície
Que jamais castiga
Vossos dedos furtivos.
POVO. POLVO.
LÚCIDA VIGÍLIA.
UM DIA.
Hilda Hilst
Ideia perigosa
O Brasil não gosta de ideias que ameacem seu status quo social, especialmente a divisão da população entre um "andar de cima", formado pela elite rica, e um "andar de baixo", composto pelo povão. A única ideia ousada foi a abolição da escravatura sem indenização aos proprietários. Depois de 350 anos, cerca de 800 mil escravizados foram soltos, mas temia-se que a agricultura não funcionaria sem o trabalho escravo e que a elite perderia seus serviçais negros.
Ainda assim, foi uma ousadia contida: foram soltos, mas não foram libertados, porque não receberam o "mapa" para caminhar — um pedaço de terra e uma escola. Um século e meio depois, o temor continua: não se fez reforma agrária nem se implantou um sistema educacional de qualidade para os descendentes sociais dos escravizados. Os ousados abolicionistas que defenderam a libertação não ousaram incluir mais um artigo na Lei Áurea: "Fica implantado um Sistema Único Nacional Público de Educação em todo o território nacional, onde estudarão, nas mesmas escolas, os filhos de escravizados e os filhos de seus ex-escravocratas".
Desde então, o Brasil adiou até mesmo ideias moderadamente ousadas: o direito a férias remuneradas para trabalhadores, só foi outorgado em 1925; a primeira universidade, 1922; a criação de um Ministério da Educação, 1930; a instituição do salário mínimo, 1936; o décimo terceiro salário, 1962; o piso salarial para professores e a obrigatoriedade de vaga a partir dos quatro anos, em 2008; e vaga até o final do ensino médio, em 2009.
Eram ideias relativamente modestas e, ainda assim, temidas, que demoraram a ser adotadas. Por isso, quase na metade do século 21, nenhum partido — nem mesmo os que se dizem de esquerda — propõe a criação de um sistema nacional público único de educação básica, com a mesma qualidade, no qual estudem os filhos da elite e os filhos do povão, independentemente da renda e do endereço. A esquerda contemporânea defende, corretamente, políticas de cotas para ingresso no ensino superior, mas não avança na defesa de um sistema educacional capaz de torná-las desnecessárias. Tem o humanismo dos emancipacionistas, sem a perigosa ousadia dos abolicionistas. Teme os efeitos de uma ideia perigosa.
Perigosa para o resto do mundo, pois o Brasil se tornaria uma das cinco maiores economias globais ao mobilizar o potencial intelectual de seus 200 milhões de habitantes, com a produtividade decorrente de educação de alta qualidade. Em 1888, tiramos as algemas das mãos e, nos anos 1930, dos pés; falta tirar as algemas dos cérebros, o que não ocorre por falta de uma escola de qualidade máxima para todos. A democratização do uso dos pés em quadras de clubes futebolísticos nos fez uma potência futebolística; a inclusão de todos os cérebros bem formados nos fará uma potência científica, tecnológica e econômica. No século 21, o imperialismo inglês ganhou com a Abolição, o atual imperialismo global teme um Brasil educado.
Perigosa por romper o "condomínio educacional" que protege os filhos dos ricos da concorrência com os filhos dos pobres. No livro "Jogados ao mar", uma médica militante de esquerda demite a empregada porque ela reivindicava matricular seu filho na mesma escola do filho da patroa. Ao colocar todos na mesma escola, quebra-se a barreira que impede a ascensão social dos pobres pela educação, salvo raríssimas exceções. O exemplo do futebol assusta: depois da abertura das quadras aos brasileiros negros, quase nenhum filho de classe média ou alta chega à seleção, porque a bola é redonda para todos, e a maioria é de classe pobre.
Perigosa para os quase 6 mil dirigentes de sindicatos de professores, porque o sistema único teria um sindicato único, que seria parceiro da educação. Também seria perigosa para os políticos locais, que perderiam o poder sobre a construção de prédios e a nomeação de servidores nas escolas municipais.
Perigosa pela tentação de o governo federal centralizar a gestão, em vez de adotar uma federalização com autonomia, como dispõem as universidades e as escolas federais atuais.
No entanto, essa ideia perigosa representaria o grande salto do Brasil: completaria a abolição inacabada, elevaria a produtividade, aumentaria e distribuiria melhor a renda nacional conforme o talento e o esforço, dinamizaria a cultura, promoveria maior equidade social, pacificaria a sociedade, consolidaria a democracia e poderia transformar um país periférico em protagonista no cenário global — na economia, na ciência, na tecnologia, na cultura e na diplomacia.
Ainda assim, foi uma ousadia contida: foram soltos, mas não foram libertados, porque não receberam o "mapa" para caminhar — um pedaço de terra e uma escola. Um século e meio depois, o temor continua: não se fez reforma agrária nem se implantou um sistema educacional de qualidade para os descendentes sociais dos escravizados. Os ousados abolicionistas que defenderam a libertação não ousaram incluir mais um artigo na Lei Áurea: "Fica implantado um Sistema Único Nacional Público de Educação em todo o território nacional, onde estudarão, nas mesmas escolas, os filhos de escravizados e os filhos de seus ex-escravocratas".
Desde então, o Brasil adiou até mesmo ideias moderadamente ousadas: o direito a férias remuneradas para trabalhadores, só foi outorgado em 1925; a primeira universidade, 1922; a criação de um Ministério da Educação, 1930; a instituição do salário mínimo, 1936; o décimo terceiro salário, 1962; o piso salarial para professores e a obrigatoriedade de vaga a partir dos quatro anos, em 2008; e vaga até o final do ensino médio, em 2009.
Eram ideias relativamente modestas e, ainda assim, temidas, que demoraram a ser adotadas. Por isso, quase na metade do século 21, nenhum partido — nem mesmo os que se dizem de esquerda — propõe a criação de um sistema nacional público único de educação básica, com a mesma qualidade, no qual estudem os filhos da elite e os filhos do povão, independentemente da renda e do endereço. A esquerda contemporânea defende, corretamente, políticas de cotas para ingresso no ensino superior, mas não avança na defesa de um sistema educacional capaz de torná-las desnecessárias. Tem o humanismo dos emancipacionistas, sem a perigosa ousadia dos abolicionistas. Teme os efeitos de uma ideia perigosa.
Perigosa para o resto do mundo, pois o Brasil se tornaria uma das cinco maiores economias globais ao mobilizar o potencial intelectual de seus 200 milhões de habitantes, com a produtividade decorrente de educação de alta qualidade. Em 1888, tiramos as algemas das mãos e, nos anos 1930, dos pés; falta tirar as algemas dos cérebros, o que não ocorre por falta de uma escola de qualidade máxima para todos. A democratização do uso dos pés em quadras de clubes futebolísticos nos fez uma potência futebolística; a inclusão de todos os cérebros bem formados nos fará uma potência científica, tecnológica e econômica. No século 21, o imperialismo inglês ganhou com a Abolição, o atual imperialismo global teme um Brasil educado.
Perigosa por romper o "condomínio educacional" que protege os filhos dos ricos da concorrência com os filhos dos pobres. No livro "Jogados ao mar", uma médica militante de esquerda demite a empregada porque ela reivindicava matricular seu filho na mesma escola do filho da patroa. Ao colocar todos na mesma escola, quebra-se a barreira que impede a ascensão social dos pobres pela educação, salvo raríssimas exceções. O exemplo do futebol assusta: depois da abertura das quadras aos brasileiros negros, quase nenhum filho de classe média ou alta chega à seleção, porque a bola é redonda para todos, e a maioria é de classe pobre.
Perigosa para os quase 6 mil dirigentes de sindicatos de professores, porque o sistema único teria um sindicato único, que seria parceiro da educação. Também seria perigosa para os políticos locais, que perderiam o poder sobre a construção de prédios e a nomeação de servidores nas escolas municipais.
Perigosa pela tentação de o governo federal centralizar a gestão, em vez de adotar uma federalização com autonomia, como dispõem as universidades e as escolas federais atuais.
No entanto, essa ideia perigosa representaria o grande salto do Brasil: completaria a abolição inacabada, elevaria a produtividade, aumentaria e distribuiria melhor a renda nacional conforme o talento e o esforço, dinamizaria a cultura, promoveria maior equidade social, pacificaria a sociedade, consolidaria a democracia e poderia transformar um país periférico em protagonista no cenário global — na economia, na ciência, na tecnologia, na cultura e na diplomacia.
Parem!
Parem com a idolatria do ego e do dinheiro! Parem com as demonstrações de poder! Parem com a guerra!
Papa León XIV
Papa León XIV
Como ficar rico no Brasil?
São ideais de vida neste nosso mundo de desencantamento lunar e de bilionários que vivem a vida como um negócio. A variante brasileira, que amarra a burocracia do capital financeiro à esperteza malandra dos favores pessoais e do populismo salvacionista, subtrai o que os inventores do capitalismo chamam de “work” – ação, invenção e movimento – base desse modo de enriquecer.
Isso explica por que, no Brasil, o luxo vence a riqueza, pois, entre nós, trabalhar ainda é castigo. Significados rotineiros numa sociedade de base histórico-cultural, escravagista.
Nela, aspira-se ao luxo e à riqueza com pouco ou sem trabalho. Dizem que ficamos ricos trabalhando, mas ficamos podres de rico com a ajuda de amigos do peito com quem trocamos favores. É isso que o noticiário estampa, e nós fingimos surpresa e indignação...
O luxo coroa a riqueza. Ele se estampa no estilo de vida ostentatório, escorado pelo fausto das despesas excessivas e ilimitadas, como as de um banqueiro cujo programa incluía enriquecer com “amigos” com poderes supremos, numa sociedade na qual elos pessoais predominam sobre leis universais.
Pode haver riqueza sem luxo, mas não há luxo sem riqueza e, para comprovar esse elo, basta ler esses casos que chamamos de “corrupção”, observando que roubar por meio do governo é um estilo de governar.
O que chamamos de “política” é o campo aberto a esse ideal de enriquecer, pairando acima das pessoas comuns como você e eu, leitor... Como ficar rico? “Entrando na política”, na qual se pode transformar o ilegal no legal com canetadas e desengavetamentos.
No nosso caso, são raras as mitologias de pioneirismo financeiro, exceto nos episódios de assalto aos bens públicos.
Os “espertos” que cultivam laços com agentes estratégicos do Estado assaltam tranquilamente a sociedade. É fascinante observar o luxo em que vivem políticos eleitos em nome do povo pobre, que constitui o capital de suas vidas. Os privilégios e as leis privadas para certas categorias funcionais transformam governantes em donos do poder, como apontou Raymundo Faoro.
Tudo isso para ressaltar que o dono do Master mostrou que, para enricar, se deve mapear a elite e seduzi-la, seguindo uma lógica relacional de prestação de favores luxuosos. Pois eles obrigam a contraprestações que, independentemente de ideologia, pavimentam a estrutura da elite brasileira.
Vorcaro teve uma perfeita compreensão de que elos sociais particularistas neutralizam obrigações universalistas, liquidando as imparcialidades e isenções que formam a base do Estado Democrático de Direito. Ou, como viu Oliveira Viana, que amizades regadas a luxo e contratos milionários produzem coragem para tudo, menos para dizer não aos amigos; e eu diria, com a devida modéstia, a nós mesmos.
Isso explica por que, no Brasil, o luxo vence a riqueza, pois, entre nós, trabalhar ainda é castigo. Significados rotineiros numa sociedade de base histórico-cultural, escravagista.
Nela, aspira-se ao luxo e à riqueza com pouco ou sem trabalho. Dizem que ficamos ricos trabalhando, mas ficamos podres de rico com a ajuda de amigos do peito com quem trocamos favores. É isso que o noticiário estampa, e nós fingimos surpresa e indignação...
O luxo coroa a riqueza. Ele se estampa no estilo de vida ostentatório, escorado pelo fausto das despesas excessivas e ilimitadas, como as de um banqueiro cujo programa incluía enriquecer com “amigos” com poderes supremos, numa sociedade na qual elos pessoais predominam sobre leis universais.
Pode haver riqueza sem luxo, mas não há luxo sem riqueza e, para comprovar esse elo, basta ler esses casos que chamamos de “corrupção”, observando que roubar por meio do governo é um estilo de governar.
O que chamamos de “política” é o campo aberto a esse ideal de enriquecer, pairando acima das pessoas comuns como você e eu, leitor... Como ficar rico? “Entrando na política”, na qual se pode transformar o ilegal no legal com canetadas e desengavetamentos.
No nosso caso, são raras as mitologias de pioneirismo financeiro, exceto nos episódios de assalto aos bens públicos.
Os “espertos” que cultivam laços com agentes estratégicos do Estado assaltam tranquilamente a sociedade. É fascinante observar o luxo em que vivem políticos eleitos em nome do povo pobre, que constitui o capital de suas vidas. Os privilégios e as leis privadas para certas categorias funcionais transformam governantes em donos do poder, como apontou Raymundo Faoro.
Tudo isso para ressaltar que o dono do Master mostrou que, para enricar, se deve mapear a elite e seduzi-la, seguindo uma lógica relacional de prestação de favores luxuosos. Pois eles obrigam a contraprestações que, independentemente de ideologia, pavimentam a estrutura da elite brasileira.
Vorcaro teve uma perfeita compreensão de que elos sociais particularistas neutralizam obrigações universalistas, liquidando as imparcialidades e isenções que formam a base do Estado Democrático de Direito. Ou, como viu Oliveira Viana, que amizades regadas a luxo e contratos milionários produzem coragem para tudo, menos para dizer não aos amigos; e eu diria, com a devida modéstia, a nós mesmos.
O marketing não ganha eleição
Quem ganha a eleição é o candidato. A frase, que à primeira vista pode soar como uma simplificação, encerra uma verdade que a prática política insiste em confirmar: não há estratégia capaz de sustentar, por muito tempo, um projeto vazio de substância humana, política e simbólica. O marketing pode potencializar virtudes, corrigir imperfeições, organizar narrativas. Mas não cria, do nada, aquilo que o eleitor busca — benefícios, coerência e presença.
A profissionalização das campanhas eleitorais trouxe ganhos inegáveis. Hoje, nenhuma candidatura competitiva prescinde de planejamento, pesquisa qualitativa e quantitativa, definição de públicos, construção de mensagens e domínio das linguagens midiáticas. O marqueteiro tornou-se peça relevante nesse tabuleiro, atuando como um estrategista que organiza o discurso, ajusta o tom da comunicação, sugere agendas, calibra promessas e orienta o candidato diante dos humores da opinião pública.
Mas há um limite claro — e intransponível — para essa engenharia. O marketing não substitui a essência. Pode polir, mas não inventa caráter. Podemos iluminar trajetórias, mas não construir biografias. Pode até criar momentos de empatia, mas não sustenta emoções que não sejam óbvias. Em campanhas eleitorais, essa fronteira costuma aparecer de forma dramática quando candidatos encontrados “produzidos” revelam-se frágeis diante do improviso, da crítica ou do confronto.
O eleitor contemporâneo, mais informado e mais exposto a múltiplas fontes de informação, desenvolveu uma espécie de radar para detectar artificialidades. Discursos ensaiados demais, gestos coreografados, frases de efeito desconectadas da realidade — tudo isso tende a produzir um efeito reverso. Em vez de aproximar, afastar. Em vez de convencer, despertar desconfiança.
Uma analogia com produtos de consumo, tão utilizados no passado, mostra-se cada vez mais conveniente. Candidato não é sabonete. Não é um objeto inerte a ser embalado, perfumado e distribuído no mercado eleitoral. É um ser humano, com história, contradições, virtudes e falhas. E é justamente essa dimensão humana que estabelece o vínculo com o eleitor. A política, afinal, continua sendo, antes de tudo, uma relação de confiança.
Isso não significa minimizar o papel do marketing — ao contrário. Um bom profissional de comunicação política é aquele que compreende essa complexidade. Sua função não é fabricar um personagem, mas revelar, com inteligência e sensibilidade, o melhor do candidato. Cabe a ele identificar pontos fortes, atenuar fragilidades, organizar ideias e traduzi-las em linguagem acessível, sem deformar a essência do protagonista da campanha.
Esse profissional precisa atuar com visão sistêmica. O marketing eleitoral não se resume à propaganda de televisão ou às redes sociais. Envolve posicionamento estratégico, leitura de cenário, articulação entre discurso e prática, coerência entre promessa e trajetória. Exige domínio técnico, mas também percepção política. Não se trata apenas de comunicar, mas de compreender o ambiente em que se comunica.
Quando essa integração falha, surgem campanhas dissonantes. De um lado, uma comunicação sofisticada; de outro, um candidato incapaz de sustentar o que está aqui. O resultado é previsível: perda de compensação. Porque, no fim das contas, o eleitor não vota na peça publicitária — vota na pessoa.
As campanhas mais bem-sucedidas são aquelas em que o marketing e o candidato operam em sintonia. O discurso não é tão artificial porque nasce de convicções reais. A linguagem não é um disfarce, mas uma ponte. A estratégia não impõe um personagem, mas organiza uma identidade já existente.
Em tempos de hiperexposição digital, essa coerência tornou-se ainda mais decisiva. O candidato é apresentado o tempo todo — nas entrevistas, nos debates, nas redes sociais, nos encontros públicos. Qualquer descompasso entre o que diz e o que tende a ser rapidamente percebido e amplificado. Não há edição que resista à reprodução cotidiana da incoerência.
Por isso, slogans e chavões, isoladamente, perdem a força. Podem funcionar como síntese, como elemento de memorização, mas não substituir conteúdo. O eleitor quer mais do que frases prontas: busca sentido, direção, consistência. Quer considerar no candidato alguém capaz de compreender seus problemas e oferecer caminhos plausíveis.
A boa comunicação política, portanto, não é uma arte de maquiar a realidade, mas de organizá-la de forma inteligível e persuasiva. É um exercício de tradução — do pensamento em linguagem, da proposta em narrativa, da intenção em compromisso público. E, como toda tradução, depende da fidelidade ao original.
No fim, fica a lição essencial: o marketing pode ajudar a ganhar uma eleição, mas não ganha sozinho. Sem densidade humana, sem proteção e sem coerência, qualquer campanha — por mais sofisticada que seja — corre o risco de desmoronar diante do olhar atento do eleitor. Porque, na política, como na vida, não há estratégia que substitua a verdade de quem se apresenta.
A profissionalização das campanhas eleitorais trouxe ganhos inegáveis. Hoje, nenhuma candidatura competitiva prescinde de planejamento, pesquisa qualitativa e quantitativa, definição de públicos, construção de mensagens e domínio das linguagens midiáticas. O marqueteiro tornou-se peça relevante nesse tabuleiro, atuando como um estrategista que organiza o discurso, ajusta o tom da comunicação, sugere agendas, calibra promessas e orienta o candidato diante dos humores da opinião pública.
Mas há um limite claro — e intransponível — para essa engenharia. O marketing não substitui a essência. Pode polir, mas não inventa caráter. Podemos iluminar trajetórias, mas não construir biografias. Pode até criar momentos de empatia, mas não sustenta emoções que não sejam óbvias. Em campanhas eleitorais, essa fronteira costuma aparecer de forma dramática quando candidatos encontrados “produzidos” revelam-se frágeis diante do improviso, da crítica ou do confronto.
O eleitor contemporâneo, mais informado e mais exposto a múltiplas fontes de informação, desenvolveu uma espécie de radar para detectar artificialidades. Discursos ensaiados demais, gestos coreografados, frases de efeito desconectadas da realidade — tudo isso tende a produzir um efeito reverso. Em vez de aproximar, afastar. Em vez de convencer, despertar desconfiança.
Uma analogia com produtos de consumo, tão utilizados no passado, mostra-se cada vez mais conveniente. Candidato não é sabonete. Não é um objeto inerte a ser embalado, perfumado e distribuído no mercado eleitoral. É um ser humano, com história, contradições, virtudes e falhas. E é justamente essa dimensão humana que estabelece o vínculo com o eleitor. A política, afinal, continua sendo, antes de tudo, uma relação de confiança.
Isso não significa minimizar o papel do marketing — ao contrário. Um bom profissional de comunicação política é aquele que compreende essa complexidade. Sua função não é fabricar um personagem, mas revelar, com inteligência e sensibilidade, o melhor do candidato. Cabe a ele identificar pontos fortes, atenuar fragilidades, organizar ideias e traduzi-las em linguagem acessível, sem deformar a essência do protagonista da campanha.
Esse profissional precisa atuar com visão sistêmica. O marketing eleitoral não se resume à propaganda de televisão ou às redes sociais. Envolve posicionamento estratégico, leitura de cenário, articulação entre discurso e prática, coerência entre promessa e trajetória. Exige domínio técnico, mas também percepção política. Não se trata apenas de comunicar, mas de compreender o ambiente em que se comunica.
Quando essa integração falha, surgem campanhas dissonantes. De um lado, uma comunicação sofisticada; de outro, um candidato incapaz de sustentar o que está aqui. O resultado é previsível: perda de compensação. Porque, no fim das contas, o eleitor não vota na peça publicitária — vota na pessoa.
As campanhas mais bem-sucedidas são aquelas em que o marketing e o candidato operam em sintonia. O discurso não é tão artificial porque nasce de convicções reais. A linguagem não é um disfarce, mas uma ponte. A estratégia não impõe um personagem, mas organiza uma identidade já existente.
Em tempos de hiperexposição digital, essa coerência tornou-se ainda mais decisiva. O candidato é apresentado o tempo todo — nas entrevistas, nos debates, nas redes sociais, nos encontros públicos. Qualquer descompasso entre o que diz e o que tende a ser rapidamente percebido e amplificado. Não há edição que resista à reprodução cotidiana da incoerência.
Por isso, slogans e chavões, isoladamente, perdem a força. Podem funcionar como síntese, como elemento de memorização, mas não substituir conteúdo. O eleitor quer mais do que frases prontas: busca sentido, direção, consistência. Quer considerar no candidato alguém capaz de compreender seus problemas e oferecer caminhos plausíveis.
A boa comunicação política, portanto, não é uma arte de maquiar a realidade, mas de organizá-la de forma inteligível e persuasiva. É um exercício de tradução — do pensamento em linguagem, da proposta em narrativa, da intenção em compromisso público. E, como toda tradução, depende da fidelidade ao original.
No fim, fica a lição essencial: o marketing pode ajudar a ganhar uma eleição, mas não ganha sozinho. Sem densidade humana, sem proteção e sem coerência, qualquer campanha — por mais sofisticada que seja — corre o risco de desmoronar diante do olhar atento do eleitor. Porque, na política, como na vida, não há estratégia que substitua a verdade de quem se apresenta.
Façam todos as suas apostas na guerra
Bet não dá. Desconfio que no futuro todas essas celebridades, jogadores, comentaristas e narradores de futebol serão considerados cúmplices desse crime financeiro e sanitário, que lava bilhões de dinheiros e neurônios pelo planeta. Todavia, o que acontece no Trumpistão é de faltar palavra, melhor, não falta, é mais um traço de uma patologia chamada extrema-direita. Há inúmeras suspeitas de que funcionários do governo laranja, de todos os escalões, estão lucrando com apostas relacionadas às guerras.
Plataformas como Polymarket e Kalshi permitem apostar em eventos reais: eleições, decisões econômicas e na guerra. Uma matéria da Associated Press, publicada no dia 9 de abril, mostrou que ao menos 50 contas recém-criadas no Polymarket fizeram apostas em um cessar-fogo entre os EUA e o Irã nas horas, e até mesmo minutos, que antecederam o anúncio do cessar-fogo feito pelo presidente Donald Trump na noite de terça-feira.
Em janeiro, um usuário anônimo do Polymarket obteve um lucro de 400 mil dólares ao apostar que o líder venezuelano Nicolás Maduro seria destituído do cargo, horas antes de Maduro ser capturado. Nas horas que antecederam o início da guerra com o Irã, outra conta lucrou cerca de 550 mil dólares em uma série de negociações, apostando efetivamente que os EUA atacariam o Irã e que o aiatolá Ali Khamenei seria destituído do cargo.
Trata-se da conversão da guerra em ativo financeiro. Esses plataformas funcionam como bolsas de probabilidade. Nelas, usuários compram e vendem contratos baseados em eventos futuros.. Em tese, seriam instrumentos de previsão agregada. Na prática, tornam-se espaços onde a informação e, evidentemente, a informação privilegiada, pode ser convertida diretamente em lucro. E claro, tudo isso funciona sem regulação, como os liberais amam amar.
Assim, a fronteira entre especulação financeira e vazamento de inteligência se dissolve e desaba na negociação direta de eventos geopolíticos. Ok, vivemos um massacrante processo de financeirização, em que o lucro se desloca da produção. Mas o que os mercados de apostas em guerra introduzem é um passo adicional rumo ao abismo.
Virou história da carochinha (quanto tempo não usava essa palavra) os lucros dos aliados de Trump, que ganharam bilhões ao comprar dólares antes do presidente dos EUA anunciar seus ensandecidos tarifaços. Compraram na baixa e venderam na alta. Informação privilegiada é isso.
Só que nesse cenário, a instabilidade geopolítica virou recurso econômico. Quanto maior a incerteza, maior o potencial de lucro. Mortes, deslocamentos e destruição, que antes eram decisões restritas a generais e presidentes, passam a ser variáveis de um cálculo financeiro. Quem sabe, e nesse sabe quase reside uma certeza, grandes volumes de apostas poderão amplificar narrativas e até pressionar decisões políticas. E a gente achando que os drones eram uma revolução bélica.
Plataformas como Polymarket e Kalshi permitem apostar em eventos reais: eleições, decisões econômicas e na guerra. Uma matéria da Associated Press, publicada no dia 9 de abril, mostrou que ao menos 50 contas recém-criadas no Polymarket fizeram apostas em um cessar-fogo entre os EUA e o Irã nas horas, e até mesmo minutos, que antecederam o anúncio do cessar-fogo feito pelo presidente Donald Trump na noite de terça-feira.
Em janeiro, um usuário anônimo do Polymarket obteve um lucro de 400 mil dólares ao apostar que o líder venezuelano Nicolás Maduro seria destituído do cargo, horas antes de Maduro ser capturado. Nas horas que antecederam o início da guerra com o Irã, outra conta lucrou cerca de 550 mil dólares em uma série de negociações, apostando efetivamente que os EUA atacariam o Irã e que o aiatolá Ali Khamenei seria destituído do cargo.
Trata-se da conversão da guerra em ativo financeiro. Esses plataformas funcionam como bolsas de probabilidade. Nelas, usuários compram e vendem contratos baseados em eventos futuros.. Em tese, seriam instrumentos de previsão agregada. Na prática, tornam-se espaços onde a informação e, evidentemente, a informação privilegiada, pode ser convertida diretamente em lucro. E claro, tudo isso funciona sem regulação, como os liberais amam amar.
Assim, a fronteira entre especulação financeira e vazamento de inteligência se dissolve e desaba na negociação direta de eventos geopolíticos. Ok, vivemos um massacrante processo de financeirização, em que o lucro se desloca da produção. Mas o que os mercados de apostas em guerra introduzem é um passo adicional rumo ao abismo.
Virou história da carochinha (quanto tempo não usava essa palavra) os lucros dos aliados de Trump, que ganharam bilhões ao comprar dólares antes do presidente dos EUA anunciar seus ensandecidos tarifaços. Compraram na baixa e venderam na alta. Informação privilegiada é isso.
Só que nesse cenário, a instabilidade geopolítica virou recurso econômico. Quanto maior a incerteza, maior o potencial de lucro. Mortes, deslocamentos e destruição, que antes eram decisões restritas a generais e presidentes, passam a ser variáveis de um cálculo financeiro. Quem sabe, e nesse sabe quase reside uma certeza, grandes volumes de apostas poderão amplificar narrativas e até pressionar decisões políticas. E a gente achando que os drones eram uma revolução bélica.
Conflito na Faixa de Gaza: nem guerra nem paz
Há vários meses, esforços de mediação internacional estão em andamento para alcançar um cessar-fogo estável entre o Hamas e Israel. Recentemente, no domingo, 12 de abril, uma delegação do Hamas viajou ao Cairo. Lá, estava previsto um encontro com mediadores egípcios para discutir os próximos passos. O foco está nas questões pendentes da primeira fase do cessar-fogo, acordada há mais de seis meses, e na possibilidade de se alcançar uma segunda fase, e principalmente uma fase final.
O Hamas, grupo militante islâmico classificado como organização terrorista pela Alemanha, União Europeia, Estados Unidos e outros países, desencadeou a devastadora guerra na Faixa de Gaza com seu ataque a Israel em 7 de outubro de 2023. Um frágil cessar-fogo está em vigor desde 10 de outubro de 2025, mas é constantemente minado por ataques isolados.
No entanto, segundo especialistas, o resultado da trégua até agora é desanimador. As negociações políticas estagnaram e, com elas, as perspectivas de uma estabilização duradoura. Seis meses depois, essa "promessa permanece em grande parte não cumprida", como afirma, por exemplo, uma análise do Conselho Norueguês para Refugiados.
Os esforços de mediação e resolução, atualmente ofuscados pelas repercussões do conflito Irã-Contras, têm apresentado poucos avanços há algum tempo. Por exemplo, o trabalho da Comissão de Paz, iniciativa do presidente dos EUA, Donald Trump, tem se mostrado amplamente ineficaz até o momento: embora tenha começado com grandes ambições políticas — em competição com a ONU —, teve pouco impacto até agora. Apesar da criação de estruturas institucionais e da promessa de bilhões em recursos, segundo relatórios de agências, grande parte desse financiamento chega com atraso ou simplesmente não chega.
Peter Lintl, especialista em Israel e no Oriente Médio do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP) em Berlim, descreve a situação com a mesma cautela: "No momento, tudo parece estar girando em círculos", afirma. As questões cruciais — o desarmamento do Hamas, a futura administração de Gaza e a retirada das tropas israelenses — permanecem sem solução há meses. Ao mesmo tempo, há uma falta de mecanismos eficazes para implementar quaisquer acordos potenciais, caso venham a ser alcançados, explica Lintl à DW.
Simon Wolfgang Fuchs, islamólogo da Universidade Hebraica de Jerusalém, compartilha dessa visão: as negociações não estão progredindo e os prazos têm sido repetidamente perdidos, segundo sua observação. De modo geral, a impressão de um impasse diplomático está se consolidando. A dinâmica é caracterizada mais por desconfiança do que por reaproximação, explicou Fuchs em entrevista à DW.
Não se trata apenas de detalhes, mas de questões fundamentais, bem como da sequência de etapas, que está relacionada aos pontos mais difíceis de resolver: por exemplo, permanece uma controvérsia entre as partes em conflito sobre se o Hamas deve ser desarmado primeiro ou se deve haver uma retirada militar por parte de Israel primeiro.
“Observadores internacionais independentes monitorarão o processo de desmilitarização na Faixa de Gaza”, declarou o embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Mike Waltz, no início deste ano. Embora esses planos demonstrem que, em parte, existem ideias bastante concretas para uma transição, tal proposta exige que ambos os lados façam concessões fundamentais, e é precisamente isso que tem faltado até agora.
"Para Israel, é claro: primeiro o desarmamento, depois a retirada. Para o Hamas, é exatamente o oposto", explica Fuchs. Ambos os lados, portanto, mantêm posições que, por ora, são praticamente irreconciliáveis, acrescenta ele.
As consequências recaem principalmente sobre a população civil. A situação humanitária na Faixa de Gaza permanece precária e, em muitos lugares, até piorou. A falta de suprimentos, o aumento dos preços e a infraestrutura danificada definem o cotidiano. O especialista em Oriente Médio, Fuchs, descreve essa situação como uma "espiral descendente". Mesmo onde chegam os suprimentos de ajuda, a insegurança permanece alta. "As experiências de escassez anteriores, e especialmente a fome de 2025, continuam a ter repercussões e reforçam a sensação de ameaça constante", afirma Fuchs.
Ao mesmo tempo, é difícil avaliar o clima político na Faixa de Gaza a partir de fora. Relatos indicam que qualquer crítica ao Hamas dentro de seus territórios continua sendo reprimida, em alguns casos brutalmente, afirma Peter Lintl. Isso complica ainda mais uma avaliação confiável. Enquanto isso, os palestinos permanecem preocupados com o deslocamento permanente provocado por Israel.
Não parece que haverá qualquer progresso em breve.
Peter Lintl afirma não acreditar que um avanço seja provável a curto prazo. Segundo ele, os custos políticos são muito altos para ambos os lados neste momento.
Em todo caso, muitos analistas internacionais concordam que o cessar-fogo, em certa medida, alivia o cotidiano das pessoas, apesar das inúmeras mortes, da fuga, do deslocamento e da destruição. O problema é que ele só funciona até certo ponto, e uma solução política viável permanece indefinida. Por ora, a Faixa de Gaza parece presa em um estado que não é nem guerra nem paz. E isso está longe de ser certo, já que, em princípio, uma nova escalada permanece possível a qualquer momento.
O Hamas, grupo militante islâmico classificado como organização terrorista pela Alemanha, União Europeia, Estados Unidos e outros países, desencadeou a devastadora guerra na Faixa de Gaza com seu ataque a Israel em 7 de outubro de 2023. Um frágil cessar-fogo está em vigor desde 10 de outubro de 2025, mas é constantemente minado por ataques isolados.
No entanto, segundo especialistas, o resultado da trégua até agora é desanimador. As negociações políticas estagnaram e, com elas, as perspectivas de uma estabilização duradoura. Seis meses depois, essa "promessa permanece em grande parte não cumprida", como afirma, por exemplo, uma análise do Conselho Norueguês para Refugiados.
Os esforços de mediação e resolução, atualmente ofuscados pelas repercussões do conflito Irã-Contras, têm apresentado poucos avanços há algum tempo. Por exemplo, o trabalho da Comissão de Paz, iniciativa do presidente dos EUA, Donald Trump, tem se mostrado amplamente ineficaz até o momento: embora tenha começado com grandes ambições políticas — em competição com a ONU —, teve pouco impacto até agora. Apesar da criação de estruturas institucionais e da promessa de bilhões em recursos, segundo relatórios de agências, grande parte desse financiamento chega com atraso ou simplesmente não chega.
Peter Lintl, especialista em Israel e no Oriente Médio do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP) em Berlim, descreve a situação com a mesma cautela: "No momento, tudo parece estar girando em círculos", afirma. As questões cruciais — o desarmamento do Hamas, a futura administração de Gaza e a retirada das tropas israelenses — permanecem sem solução há meses. Ao mesmo tempo, há uma falta de mecanismos eficazes para implementar quaisquer acordos potenciais, caso venham a ser alcançados, explica Lintl à DW.
Simon Wolfgang Fuchs, islamólogo da Universidade Hebraica de Jerusalém, compartilha dessa visão: as negociações não estão progredindo e os prazos têm sido repetidamente perdidos, segundo sua observação. De modo geral, a impressão de um impasse diplomático está se consolidando. A dinâmica é caracterizada mais por desconfiança do que por reaproximação, explicou Fuchs em entrevista à DW.
Não se trata apenas de detalhes, mas de questões fundamentais, bem como da sequência de etapas, que está relacionada aos pontos mais difíceis de resolver: por exemplo, permanece uma controvérsia entre as partes em conflito sobre se o Hamas deve ser desarmado primeiro ou se deve haver uma retirada militar por parte de Israel primeiro.
“Observadores internacionais independentes monitorarão o processo de desmilitarização na Faixa de Gaza”, declarou o embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Mike Waltz, no início deste ano. Embora esses planos demonstrem que, em parte, existem ideias bastante concretas para uma transição, tal proposta exige que ambos os lados façam concessões fundamentais, e é precisamente isso que tem faltado até agora.
"Para Israel, é claro: primeiro o desarmamento, depois a retirada. Para o Hamas, é exatamente o oposto", explica Fuchs. Ambos os lados, portanto, mantêm posições que, por ora, são praticamente irreconciliáveis, acrescenta ele.
As consequências recaem principalmente sobre a população civil. A situação humanitária na Faixa de Gaza permanece precária e, em muitos lugares, até piorou. A falta de suprimentos, o aumento dos preços e a infraestrutura danificada definem o cotidiano. O especialista em Oriente Médio, Fuchs, descreve essa situação como uma "espiral descendente". Mesmo onde chegam os suprimentos de ajuda, a insegurança permanece alta. "As experiências de escassez anteriores, e especialmente a fome de 2025, continuam a ter repercussões e reforçam a sensação de ameaça constante", afirma Fuchs.
Ao mesmo tempo, é difícil avaliar o clima político na Faixa de Gaza a partir de fora. Relatos indicam que qualquer crítica ao Hamas dentro de seus territórios continua sendo reprimida, em alguns casos brutalmente, afirma Peter Lintl. Isso complica ainda mais uma avaliação confiável. Enquanto isso, os palestinos permanecem preocupados com o deslocamento permanente provocado por Israel.
Não parece que haverá qualquer progresso em breve.
Peter Lintl afirma não acreditar que um avanço seja provável a curto prazo. Segundo ele, os custos políticos são muito altos para ambos os lados neste momento.
Em todo caso, muitos analistas internacionais concordam que o cessar-fogo, em certa medida, alivia o cotidiano das pessoas, apesar das inúmeras mortes, da fuga, do deslocamento e da destruição. O problema é que ele só funciona até certo ponto, e uma solução política viável permanece indefinida. Por ora, a Faixa de Gaza parece presa em um estado que não é nem guerra nem paz. E isso está longe de ser certo, já que, em princípio, uma nova escalada permanece possível a qualquer momento.
terça-feira, 14 de abril de 2026
O fator Estados Unidos terá impacto na eleição brasileira
Nestes anos democráticos, política externa nunca foi um grande tema eleitoral. Mas agora isso mudará. Será preciso uma definição diante do governo Trump: como se relacionar com os Estados Unidos neste período tão conturbado?
Já tivemos a experiência de um tarifaço, que veio sem aviso prévio algum. De repente, acordamos com as maiores tarifas do mundo — nós, que tínhamos déficit no comércio entre os dois países.
Trump venceu dizendo America first. Venceu com uma grande sede de petróleo, que o levou a sequestrar Maduro e iniciar uma guerra contra o Irã.
É difícil projetar uma política diante de um homem que nega a importância dos outros, que despreza outros idiomas e que acorda, em certos dias, disposto a acabar com uma civilização que data de milênios antes de Cristo.
Sua relação com aliados históricos é difícil. Deixou a Europa um pouco só na defesa da Ucrânia, atacada por Putin. Obrigou o continente a gastar mais dinheiro com armas. No momento em que se voltou contra o Irã, pediu a ajuda dos europeus. Em seguida, disse: não precisamos do óleo que passa pelo Estreito de Ormuz; os europeus que resolvam o problema do fechamento.
Com os países do Golfo, Trump se mostrou mais problemático. Eles investiram bilhões de dólares em segurança, contavam com os Estados Unidos para protegê-los, e Trump levou a guerra e, com ela, uma grande insegurança sobre a produção de petróleo e a própria dessalinização da água.
Todos esses fatores o tornam um aliado pouco confiável. A desconfiança fica colossal quando se leem os bastidores de sua decisão. Netanyahu fez uma preleção sobre matar o aiatolá Khamenei, bombardear o Irã e despertar uma revolta popular que resultaria na troca de regime. Trump apenas disse:
— Sounds good.
Ele não consultou seus estrategistas, não submeteu a ideia ao Congresso, simplesmente foi à guerra.
Diante de tudo isso, fica claro que uma oposição direta a Trump não é uma saída sensata. Cooperar em alguns itens, como segurança pública, e distanciar-se de apoio a guerras que empobrecem o mundo parecem alguns elementos dessa política.
Uma diretriz de alinhamento acrítico não corresponde à sofisticação da política externa brasileira e pode ser extremamente perigosa no longo prazo. Independentemente de apoiar ou não o regime teocrático do Irã, a decisão de declarar guerra não pode ser tão grotesca quanto a tomada por Trump. Não era possível reproduzir a Venezuela.
O Irã se prepara há 40 anos para uma guerra; logo, não seria derrotado nos primeiros dias. O Estreito de Ormuz poderia ser fechado, com prejuízos para todo o planeta. A infraestrutura produtiva dos países do Golfo poderia ser atingida.
Uma adesão incondicional à política de Trump só pode ser classificada como cegueira ideológica, uma suposição de que os Estados Unidos estão sempre certos, mesmo num período e num governo tão excepcionais — especialmente de Donald Trump, que combina arrogância com uma visão limitada da situação mundial.
Já tivemos a experiência de um tarifaço, que veio sem aviso prévio algum. De repente, acordamos com as maiores tarifas do mundo — nós, que tínhamos déficit no comércio entre os dois países.
Trump venceu dizendo America first. Venceu com uma grande sede de petróleo, que o levou a sequestrar Maduro e iniciar uma guerra contra o Irã.
É difícil projetar uma política diante de um homem que nega a importância dos outros, que despreza outros idiomas e que acorda, em certos dias, disposto a acabar com uma civilização que data de milênios antes de Cristo.
Sua relação com aliados históricos é difícil. Deixou a Europa um pouco só na defesa da Ucrânia, atacada por Putin. Obrigou o continente a gastar mais dinheiro com armas. No momento em que se voltou contra o Irã, pediu a ajuda dos europeus. Em seguida, disse: não precisamos do óleo que passa pelo Estreito de Ormuz; os europeus que resolvam o problema do fechamento.
Com os países do Golfo, Trump se mostrou mais problemático. Eles investiram bilhões de dólares em segurança, contavam com os Estados Unidos para protegê-los, e Trump levou a guerra e, com ela, uma grande insegurança sobre a produção de petróleo e a própria dessalinização da água.
Todos esses fatores o tornam um aliado pouco confiável. A desconfiança fica colossal quando se leem os bastidores de sua decisão. Netanyahu fez uma preleção sobre matar o aiatolá Khamenei, bombardear o Irã e despertar uma revolta popular que resultaria na troca de regime. Trump apenas disse:
— Sounds good.
Ele não consultou seus estrategistas, não submeteu a ideia ao Congresso, simplesmente foi à guerra.
Diante de tudo isso, fica claro que uma oposição direta a Trump não é uma saída sensata. Cooperar em alguns itens, como segurança pública, e distanciar-se de apoio a guerras que empobrecem o mundo parecem alguns elementos dessa política.
Uma diretriz de alinhamento acrítico não corresponde à sofisticação da política externa brasileira e pode ser extremamente perigosa no longo prazo. Independentemente de apoiar ou não o regime teocrático do Irã, a decisão de declarar guerra não pode ser tão grotesca quanto a tomada por Trump. Não era possível reproduzir a Venezuela.
O Irã se prepara há 40 anos para uma guerra; logo, não seria derrotado nos primeiros dias. O Estreito de Ormuz poderia ser fechado, com prejuízos para todo o planeta. A infraestrutura produtiva dos países do Golfo poderia ser atingida.
Uma adesão incondicional à política de Trump só pode ser classificada como cegueira ideológica, uma suposição de que os Estados Unidos estão sempre certos, mesmo num período e num governo tão excepcionais — especialmente de Donald Trump, que combina arrogância com uma visão limitada da situação mundial.
Humanos no Espaço: Exploradores ou mercadores da última fronteira?
“É um pensamento amargo, mas temos de o enfrentar. Os planetas poderão um dia ser conquistados, mas as estrelas não são para o homem.” O autor dessas palavras é Arthur C. Clarke, um dos mais importantes escritores de ficção científica do séc. XX, e surgem na sua obra O Fim da Infância. As suas histórias sobre exploração espacial e contacto com civilizações alienígenas inspiraram leitores em todo o mundo, atingindo o equilíbrio perfeito entre o deslumbramento e o pensamento crítico. Se estivesse vivo, o autor teria provavelmente acompanhado com entusiasmo a viagem de Artemis II, a primeira missão tripulada à Lua em mais de 50 anos, em que os tripulantes se tornaram os humanos que viajaram mais longe da Terra. Afinal o Espaço ainda é a última fronteira, despertando em nós uma alegria pura de criança sempre que tentamos desbravar rotas em busca de mais conhecimento cósmico.
Graças a Artemis II, o Homem irá regressar à Lua, até ao final da atual década, com o objetivo de construir estações lunares capazes de concretizar o sonho de ir mais além, rumo a Marte. É uma tarefa hercúlea para a Humanidade, e as palavras de Clarke continuam a fazer tanto sentido hoje como então: podemos um dia possuir outros planetas, mas existimos num universo com milhões de estrelas a anos-luz de distância, o que significa que, por mais que possamos sonhar com novas tecnologias, há barreiras interestelares intransponíveis.
A ficção científica nunca parou de nos confrontar com as grandes questões cósmicas. Curiosamente, um dos maiores sucessos cinematográficos do ano é baseado numa obra de ficção científica de Andy Weir e centra-se numa viagem espacial perante a iminente extinção do nosso planeta e da existência humana. O Projeto Hail Mary não contém uma visão desoladora e angustiante perante a vastidão solitária do Universo, como tantas vezes associamos à ficção científica. Lançados na vastidão do cosmos, os humanos sobrevivem através da capacidade de comunicar e da amizade, ajudando a preencher a solidão entre as estrelas. E que falta faz essa visão otimista e esperançosa do ser humano neste admirável planeta velho.
Por maior que seja a nossa excitação por voltar a caminhar na Lua, estas novas missões não escondem uma tensão competitiva, em particular entre a China e os EUA
Ao acompanharmos a missão Artemis II, um projeto de cooperação global entre vários países, até que ponto será otimista a nossa expansão humana no Universo, à semelhança do filme Projeto Hail Mary? Por maior que seja a nossa excitação por voltar a caminhar na Lua, estas novas missões não escondem uma tensão competitiva, em particular entre a China e os EUA. A China irá tentar alcançar o mesmo objetivo até 2030. Ambos os países irão explorar os recursos naturais da Lua e irão aproveitar-se das inúmeras zonas cinzentas em tratados internacionais, que não são claros sobre exploração económica ou a utilização de recursos. No fundo, será uma corrida entre algumas das nações mais poderosas para firmar uma hegemonia económica à escala interplanetária. Mais do que exploradores, serão space merchants, em que empresas se aliam a governos, ou mesmo tomam o lugar de governos, em busca de negócios lucrativos. A frase de Clarke acaba por ser virada do avesso. O que acontece quando conquistamos outros planetas, mas acabamos por levar o capitalismo e a tendência para a colonização à boleia? Aqueles que chegarem primeiro e construírem as primeiras bases terão a última palavra sobre como definir os próximos passos da exploração espacial, numa jogada a longo prazo.
Talvez nunca consigamos alcançar as estrelas, como sugeria Clarke, mas isso pode não ser o nosso maior limite. O verdadeiro teste será libertarmo-nos de uma visão mercantil que pode manchar e subverter as mais belas aspirações humanas. Se a História da Humanidade serve de guia, então a exploração do Espaço dificilmente será imune às mesmas forças que moldaram o nosso passado. E, nesse caso, não estaremos já a cumprir o destino antecipado pelos space merchants, imaginados por Frederik Pohl e Cyril M. Kornbluth na década de 50? Se a ficção científica nos ensinou alguma coisa, é que este futuro nunca foi imprevisível, e ignorar o aviso pode sair-nos caro demais.
Graças a Artemis II, o Homem irá regressar à Lua, até ao final da atual década, com o objetivo de construir estações lunares capazes de concretizar o sonho de ir mais além, rumo a Marte. É uma tarefa hercúlea para a Humanidade, e as palavras de Clarke continuam a fazer tanto sentido hoje como então: podemos um dia possuir outros planetas, mas existimos num universo com milhões de estrelas a anos-luz de distância, o que significa que, por mais que possamos sonhar com novas tecnologias, há barreiras interestelares intransponíveis.
A ficção científica nunca parou de nos confrontar com as grandes questões cósmicas. Curiosamente, um dos maiores sucessos cinematográficos do ano é baseado numa obra de ficção científica de Andy Weir e centra-se numa viagem espacial perante a iminente extinção do nosso planeta e da existência humana. O Projeto Hail Mary não contém uma visão desoladora e angustiante perante a vastidão solitária do Universo, como tantas vezes associamos à ficção científica. Lançados na vastidão do cosmos, os humanos sobrevivem através da capacidade de comunicar e da amizade, ajudando a preencher a solidão entre as estrelas. E que falta faz essa visão otimista e esperançosa do ser humano neste admirável planeta velho.
Por maior que seja a nossa excitação por voltar a caminhar na Lua, estas novas missões não escondem uma tensão competitiva, em particular entre a China e os EUA
Ao acompanharmos a missão Artemis II, um projeto de cooperação global entre vários países, até que ponto será otimista a nossa expansão humana no Universo, à semelhança do filme Projeto Hail Mary? Por maior que seja a nossa excitação por voltar a caminhar na Lua, estas novas missões não escondem uma tensão competitiva, em particular entre a China e os EUA. A China irá tentar alcançar o mesmo objetivo até 2030. Ambos os países irão explorar os recursos naturais da Lua e irão aproveitar-se das inúmeras zonas cinzentas em tratados internacionais, que não são claros sobre exploração económica ou a utilização de recursos. No fundo, será uma corrida entre algumas das nações mais poderosas para firmar uma hegemonia económica à escala interplanetária. Mais do que exploradores, serão space merchants, em que empresas se aliam a governos, ou mesmo tomam o lugar de governos, em busca de negócios lucrativos. A frase de Clarke acaba por ser virada do avesso. O que acontece quando conquistamos outros planetas, mas acabamos por levar o capitalismo e a tendência para a colonização à boleia? Aqueles que chegarem primeiro e construírem as primeiras bases terão a última palavra sobre como definir os próximos passos da exploração espacial, numa jogada a longo prazo.
Talvez nunca consigamos alcançar as estrelas, como sugeria Clarke, mas isso pode não ser o nosso maior limite. O verdadeiro teste será libertarmo-nos de uma visão mercantil que pode manchar e subverter as mais belas aspirações humanas. Se a História da Humanidade serve de guia, então a exploração do Espaço dificilmente será imune às mesmas forças que moldaram o nosso passado. E, nesse caso, não estaremos já a cumprir o destino antecipado pelos space merchants, imaginados por Frederik Pohl e Cyril M. Kornbluth na década de 50? Se a ficção científica nos ensinou alguma coisa, é que este futuro nunca foi imprevisível, e ignorar o aviso pode sair-nos caro demais.
O poder das palavras: a responsabilidade do discurso dos líderes
Nos últimos tempos, tornou-se recorrente ouvir líderes proferirem declarações de grande carga simbólica e emocional, como a afirmação de que “uma civilização inteira morrerá hoje”, de Donald Trump. Este tipo de enunciado, amplificado por múltiplos canais de comunicação, ilustra o alcance e a rapidez com que a palavra se transforma em instrumento de influência global. Mais do que simples retórica, trata-se de uma manifestação clara do poder — e do risco — associado ao discurso político.
As palavras nunca são neutras. Em particular, quando proferidas por líderes, carregam autoridade, moldam perceções e podem desencadear consequências concretas. A História demonstra que o discurso político tem a capacidade tanto de mobilizar sociedades para o progresso como de as conduzir ao conflito.
Um exemplo paradigmático é o de Winston Churchill, cujo discurso durante a Segunda Guerra Mundial desempenhou um papel crucial na resistência britânica. Expressões como “we shall fight on the beaches” não apenas transmitiam determinação, como reforçavam a coesão nacional num momento de extrema adversidade. Neste caso, a palavra foi instrumento de resiliência e mobilização coletiva.
Em contraste, o uso da linguagem como ferramenta de manipulação e incitamento teve consequências devastadoras em vários momentos da História. O discurso de Adolf Hitler, durante a ascensão do regime nazi, demonstra como a retórica pode ser utilizada para disseminar ideologias extremistas, desumanizar grupos inteiros e legitimar políticas de exclusão e violência. A banalização de certas narrativas abriu caminho a uma das maiores tragédias da humanidade.
Mais recentemente, observa-se um fenómeno de intensificação e aceleração do impacto das palavras, impulsionado pelas redes sociais e pelos meios digitais. Declarações que outrora ficariam circunscritas a determinados contextos são hoje difundidas em segundos, alcançando audiências globais e gerando reações imediatas. Líderes contemporâneos recorrem, com frequência, a uma linguagem mais polarizadora, consciente do seu potencial mobilizador — mas também, muitas vezes, negligenciando os seus efeitos corrosivos no tecido social.
A retórica inflamada, baseada em ameaças, simplificações ou generalizações, contribui para a erosão da confiança nas instituições e para a fragmentação das sociedades. Ao normalizar discursos de confronto, abre-se espaço à radicalização e à intolerância. Por outro lado, a ausência de rigor e responsabilidade no uso da palavra enfraquece o debate público, substituindo a argumentação fundamentada por slogans e emoções.
Importa, por isso, reafirmar a responsabilidade acrescida dos líderes no uso do discurso. A palavra, quando utilizada com ponderação, pode promover diálogo, inspirar confiança e orientar sociedades em momentos de incerteza. Pode também ser um instrumento essencial para a construção de consensos e para a defesa de valores democráticos.
Num contexto global marcado por desafios complexos — desde conflitos geopolíticos a crises económicas e sociais —, a qualidade do discurso político assume um papel determinante. Não se trata apenas do conteúdo das decisões, mas também da forma como estas são comunicadas. A clareza, a verdade e o respeito devem constituir pilares fundamentais da comunicação de qualquer liderança.
Em última análise, o poder das palavras reside na sua capacidade de moldar realidades. Cabe aos líderes reconhecer esse poder e utilizá-lo com responsabilidade, conscientes de que cada declaração pode contribuir para aproximar ou afastar, construir ou destruir.
Inês Pina
As palavras nunca são neutras. Em particular, quando proferidas por líderes, carregam autoridade, moldam perceções e podem desencadear consequências concretas. A História demonstra que o discurso político tem a capacidade tanto de mobilizar sociedades para o progresso como de as conduzir ao conflito.
Um exemplo paradigmático é o de Winston Churchill, cujo discurso durante a Segunda Guerra Mundial desempenhou um papel crucial na resistência britânica. Expressões como “we shall fight on the beaches” não apenas transmitiam determinação, como reforçavam a coesão nacional num momento de extrema adversidade. Neste caso, a palavra foi instrumento de resiliência e mobilização coletiva.
Em contraste, o uso da linguagem como ferramenta de manipulação e incitamento teve consequências devastadoras em vários momentos da História. O discurso de Adolf Hitler, durante a ascensão do regime nazi, demonstra como a retórica pode ser utilizada para disseminar ideologias extremistas, desumanizar grupos inteiros e legitimar políticas de exclusão e violência. A banalização de certas narrativas abriu caminho a uma das maiores tragédias da humanidade.
Mais recentemente, observa-se um fenómeno de intensificação e aceleração do impacto das palavras, impulsionado pelas redes sociais e pelos meios digitais. Declarações que outrora ficariam circunscritas a determinados contextos são hoje difundidas em segundos, alcançando audiências globais e gerando reações imediatas. Líderes contemporâneos recorrem, com frequência, a uma linguagem mais polarizadora, consciente do seu potencial mobilizador — mas também, muitas vezes, negligenciando os seus efeitos corrosivos no tecido social.
A retórica inflamada, baseada em ameaças, simplificações ou generalizações, contribui para a erosão da confiança nas instituições e para a fragmentação das sociedades. Ao normalizar discursos de confronto, abre-se espaço à radicalização e à intolerância. Por outro lado, a ausência de rigor e responsabilidade no uso da palavra enfraquece o debate público, substituindo a argumentação fundamentada por slogans e emoções.
Importa, por isso, reafirmar a responsabilidade acrescida dos líderes no uso do discurso. A palavra, quando utilizada com ponderação, pode promover diálogo, inspirar confiança e orientar sociedades em momentos de incerteza. Pode também ser um instrumento essencial para a construção de consensos e para a defesa de valores democráticos.
Num contexto global marcado por desafios complexos — desde conflitos geopolíticos a crises económicas e sociais —, a qualidade do discurso político assume um papel determinante. Não se trata apenas do conteúdo das decisões, mas também da forma como estas são comunicadas. A clareza, a verdade e o respeito devem constituir pilares fundamentais da comunicação de qualquer liderança.
Em última análise, o poder das palavras reside na sua capacidade de moldar realidades. Cabe aos líderes reconhecer esse poder e utilizá-lo com responsabilidade, conscientes de que cada declaração pode contribuir para aproximar ou afastar, construir ou destruir.
Inês Pina
Missão civilizadora e a pedagogia do desconforto
Em uma sala de aula de Relações Internacionais, um vídeo passado como crítica à missão civilizadora produziu um desconforto inesperado. O incômodo revelou algo maior: as imagens não apenas mostram o mundo; elas organizam hierarquias sobre como olhamos e entendemos quem pode aparecer e quem pode ser salvo.
Existem imagens que pretendem denunciar hierarquias de poder, mas que, ao circular, podem também reativá-las. Em sala de aula, essa contradição aparece com nitidez: uma imagem pensada como crítica pode ser recebida como a repetição da violência que denuncia.
Mesmo quando a intenção é a crítica e a problematização do conhecimento, a imagem impacta antes mesmo de ser decodificada teoricamente. Esse processo pode ativar imediatamente experiencias acumuladas de representação desigual, paternalismo, exotificação. Muitas vezes, materiais críticos produzem exatamente esse atrito porque expõem estruturas que estão operando.
A missão civilizadora constituiu um dos discursos fundamentais mais persistentes da construção do mundo moderno. Desde o século XIX, a expansão imperial europeia foi legitimada por uma linguagem, segundo a qual alguns povos teriam superioridade moral, política e racional, que lhes concederia o direito – e o dever – de conduzir outros povos, atrasados, ao progresso, modernidade e civilização. Essa gramática não operava apenas como justificativa ideológica da ocupação territorial ou da exploração econômica; ela organizava profundamente a própria maneira de compreender quem poderia governar, quem detinha capacidade política legítima e quem aparecia como sujeito incompleto e inferior no cenário global. A colonialidade, nesse sentido, não se limita ao domínio formal dos impérios, mas estruturou classificações duradouras sobre humanidade, racionalidade e autoridade. Ainda que o léxico colonial tenha perdido legitimidade ao longo do século XX, especialmente após a universalização formal da soberania estatal e os processos de decolonização, suas estruturas não desapareceram. Elas foram rearticuladas em novas linguagens, mais compatíveis com a moralidade política contemporânea, particularmente nos campos do humanitarismo, da cooperação internacional, das políticas de desenvolvimento e da filantropia global.
Hoje, dificilmente se enuncia de forma aberta a ideia de civilizar povos considerados inferiores. Entretanto, a lógica segundo a qual alguns atores internacionais aparecem como portadores legítimos de solução, enquanto outros são representados prioritariamente por sua vulnerabilidade, continua operando de forma sofisticada. O discurso humanitário contemporâneo constitui uma das expressões mais evidentes dessa transformação. A linguagem não se organiza em torno da superioridade civilizacional explícita, mas em torno da urgência moral, da responsabilidade internacional, do dever de ajudar. . Campanhas humanitárias, programas de desenvolvimento e narrativas filantrópicas frequentemente mobilizam imagens de sofrimento extremo: crianças subnutridas, corpos deslocados, populações em situação de desastre, territórios marcados por ruína e carência. Essas imagens produzem forte mobilização emocional e cumprem função política decisiva: sensibilizam públicos, legitimam transferências de recursos, organizam consensos e justificam intervenções. No entanto, também produzem uma distribuição desigual de lugares morais e políticos, em que determinados sujeitos aparecem como aqueles que agem, protegem, financiam, decidem e salvam, enquanto outros aparecem como destinatários da ação, corpos sobre os quais recai o gesto internacional de cuidado.
É nesse ponto que a noção de colonialidade do olhar se torna particularmente fecunda para pensar as Relações Internacionais contemporâneas. A colonialidade não se reproduz apenas em instituições, normas e discursos; ela também organiza formas de ver. O olhar sobre o internacional não é neutro. Ele é historicamente constituído por regimes visuais que atribuem inteligibilidade desigual aos sujeitos, aos territórios e às experiências políticas. Certos corpos aparecem recorrentemente associados à vulnerabilidade, à infância, à insuficiência ou à necessidade de tutela; outros aparecem vinculados à competência, à proteção, ao conhecimento técnico ou à capacidade de intervenção. Antes mesmo que uma política seja formulada conceitualmente, a imagem já distribui posições de poder. Em inúmeras campanhas internacionais, por exemplo, corpos negros africanos continuam sendo visualmente associados à fome, ao abandono, à dependência e à espera, enquanto corpos brancos aparecem como portadores da ação moral, do cuidado e da solução. Essa repetição não é trivial. Ela sedimenta uma gramática visual na qual a desigualdade internacional se naturaliza afetivamente.Crédito:
A colonialidade do olhar permite compreender, portanto, que os regimes visuais sobre o internacional participam ativamente da produção de hierarquias globais. Não se trata apenas de representação; trata-se de um regime político de visibilidade. Certos espaços do mundo continuam sendo apresentados prioritariamente como lugares de crise permanente, de escassez estrutural ou de incapacidade institucional, enquanto outros aparecem como centros legítimos de expertise, racionalidade e resposta. O continente africano, em particular, frequentemente é capturado por esse regime visual do internacional por meio de imagens que reiteram carência, urgência e vulnerabilidade, mesmo quando suas realidades políticas, econômicas e sociais são muito mais complexas e heterogêneas. Essa repetição histórica produz efeitos duradouros: consolida imaginários globais, organiza expectativas políticas e afeta inclusive a forma como sujeitos oriundos desses contextos percebem sua própria inserção em debates internacionais.
A questão torna-se ainda mais complexa quando a própria crítica à colonialidade utiliza imagens produzidas dentro dessa tradição visual. Muitas vezes, para denunciar a persistência de hierarquias coloniais, recorre-se precisamente a imagens que condensam a gramática que se deseja criticar: a mulher branca acolhendo uma criança negra, o corpo africano apresentado como destinatário de cuidado, o gesto humanitário dramatizado em chave moral. Surge então um paradoxo analítico e pedagógico importante: a crítica depende da imagem cuja violência simbólica procura desestabilizar. Isso significa que a recepção crítica nunca está plenamente controlada. Uma imagem pode ser intelectualmente transparente para alguns observadores como denúncia de uma lógica civilizatória persistente, mas emocionalmente dolorosa para outros, especialmente quando ativa experiências e memórias históricas de inferiorização, exotificação ou tutela. O ponto é que o elemento crítico não neutraliza automaticamente a força histórica da imagem. Ao contrário, por vezes revela como essa força continua viva.
Esse ponto é fundamental porque mostra que a colonialidade do olhar não é apenas um problema externo ao debate acadêmico; ela também atravessa o próprio ato pedagógico. Quando uma imagem crítica produz desconforto, isso não necessariamente indica fracasso analítico, mas revela precisamente a permanência das estruturas que estão sendo discutidas. A sala de aula torna-se, então, espaço onde a teoria se manifesta de forma performativa: a colonialidade não está apenas no objeto de estudo, mas emerge na própria recepção do objeto e nas relações de poder da sala de aula. Isso exige do professor, e da professora, uma mediação particularmente cuidadosa, capaz de explicitar que o objetivo não é reafirmar a hierarquia visual, mas desnaturalizá-la. A dificuldade reside em que imagens carregam historicidades que antecedem sua explicação. O olhar reage antes da teoria.
A passagem da missão civilizatória para o humanitarismo, da tutela colonial para a cooperação técnica, ou da superioridade imperial para a autoridade estatística, não significa superação da colonialidade, mas sua mutação histórica. As hierarquias persistem porque continuam distribuindo legitimidades de fala, capacidades de ação e lugares de enunciação. A colonialidade do olhar ajuda precisamente a compreender esse nível mais profundo em que a política internacional opera: aquele em que imagens, afetos, técnicas e moralidades se entrelaçam para produzir um mundo onde certos sujeitos ainda aparecem como naturalmente autorizados a definir problemas, enquanto outros continuam excessivamente visíveis apenas como problema a ser resolvido.
Por isso, enfrentar essa colonialidade no ensino não significa apenas incluir novos autores ou ampliar referências geográficas, mas interrogar os próprios mecanismos pelos quais certos conhecimentos foram historicamente convertidos em norma disciplinar. Trata-se de deslocar a pedagogia de uma simples transmissão de cânones para uma prática crítica de reabertura do campo visual do conhecimento, capaz de tornar visíveis outras experiências de mundo, outras linguagens políticas e outras formas de elaboração conceitual do internacional. Nesse movimento, o ato pedagógico deixa de ser apenas reprodução e torna-se também intervenção sobre os modos de ver que sustentam as hierarquias globais.
Existem imagens que pretendem denunciar hierarquias de poder, mas que, ao circular, podem também reativá-las. Em sala de aula, essa contradição aparece com nitidez: uma imagem pensada como crítica pode ser recebida como a repetição da violência que denuncia.
Mesmo quando a intenção é a crítica e a problematização do conhecimento, a imagem impacta antes mesmo de ser decodificada teoricamente. Esse processo pode ativar imediatamente experiencias acumuladas de representação desigual, paternalismo, exotificação. Muitas vezes, materiais críticos produzem exatamente esse atrito porque expõem estruturas que estão operando.
A missão civilizadora constituiu um dos discursos fundamentais mais persistentes da construção do mundo moderno. Desde o século XIX, a expansão imperial europeia foi legitimada por uma linguagem, segundo a qual alguns povos teriam superioridade moral, política e racional, que lhes concederia o direito – e o dever – de conduzir outros povos, atrasados, ao progresso, modernidade e civilização. Essa gramática não operava apenas como justificativa ideológica da ocupação territorial ou da exploração econômica; ela organizava profundamente a própria maneira de compreender quem poderia governar, quem detinha capacidade política legítima e quem aparecia como sujeito incompleto e inferior no cenário global. A colonialidade, nesse sentido, não se limita ao domínio formal dos impérios, mas estruturou classificações duradouras sobre humanidade, racionalidade e autoridade. Ainda que o léxico colonial tenha perdido legitimidade ao longo do século XX, especialmente após a universalização formal da soberania estatal e os processos de decolonização, suas estruturas não desapareceram. Elas foram rearticuladas em novas linguagens, mais compatíveis com a moralidade política contemporânea, particularmente nos campos do humanitarismo, da cooperação internacional, das políticas de desenvolvimento e da filantropia global.
Hoje, dificilmente se enuncia de forma aberta a ideia de civilizar povos considerados inferiores. Entretanto, a lógica segundo a qual alguns atores internacionais aparecem como portadores legítimos de solução, enquanto outros são representados prioritariamente por sua vulnerabilidade, continua operando de forma sofisticada. O discurso humanitário contemporâneo constitui uma das expressões mais evidentes dessa transformação. A linguagem não se organiza em torno da superioridade civilizacional explícita, mas em torno da urgência moral, da responsabilidade internacional, do dever de ajudar. . Campanhas humanitárias, programas de desenvolvimento e narrativas filantrópicas frequentemente mobilizam imagens de sofrimento extremo: crianças subnutridas, corpos deslocados, populações em situação de desastre, territórios marcados por ruína e carência. Essas imagens produzem forte mobilização emocional e cumprem função política decisiva: sensibilizam públicos, legitimam transferências de recursos, organizam consensos e justificam intervenções. No entanto, também produzem uma distribuição desigual de lugares morais e políticos, em que determinados sujeitos aparecem como aqueles que agem, protegem, financiam, decidem e salvam, enquanto outros aparecem como destinatários da ação, corpos sobre os quais recai o gesto internacional de cuidado.
É nesse ponto que a noção de colonialidade do olhar se torna particularmente fecunda para pensar as Relações Internacionais contemporâneas. A colonialidade não se reproduz apenas em instituições, normas e discursos; ela também organiza formas de ver. O olhar sobre o internacional não é neutro. Ele é historicamente constituído por regimes visuais que atribuem inteligibilidade desigual aos sujeitos, aos territórios e às experiências políticas. Certos corpos aparecem recorrentemente associados à vulnerabilidade, à infância, à insuficiência ou à necessidade de tutela; outros aparecem vinculados à competência, à proteção, ao conhecimento técnico ou à capacidade de intervenção. Antes mesmo que uma política seja formulada conceitualmente, a imagem já distribui posições de poder. Em inúmeras campanhas internacionais, por exemplo, corpos negros africanos continuam sendo visualmente associados à fome, ao abandono, à dependência e à espera, enquanto corpos brancos aparecem como portadores da ação moral, do cuidado e da solução. Essa repetição não é trivial. Ela sedimenta uma gramática visual na qual a desigualdade internacional se naturaliza afetivamente.Crédito:
A colonialidade do olhar permite compreender, portanto, que os regimes visuais sobre o internacional participam ativamente da produção de hierarquias globais. Não se trata apenas de representação; trata-se de um regime político de visibilidade. Certos espaços do mundo continuam sendo apresentados prioritariamente como lugares de crise permanente, de escassez estrutural ou de incapacidade institucional, enquanto outros aparecem como centros legítimos de expertise, racionalidade e resposta. O continente africano, em particular, frequentemente é capturado por esse regime visual do internacional por meio de imagens que reiteram carência, urgência e vulnerabilidade, mesmo quando suas realidades políticas, econômicas e sociais são muito mais complexas e heterogêneas. Essa repetição histórica produz efeitos duradouros: consolida imaginários globais, organiza expectativas políticas e afeta inclusive a forma como sujeitos oriundos desses contextos percebem sua própria inserção em debates internacionais.
A questão torna-se ainda mais complexa quando a própria crítica à colonialidade utiliza imagens produzidas dentro dessa tradição visual. Muitas vezes, para denunciar a persistência de hierarquias coloniais, recorre-se precisamente a imagens que condensam a gramática que se deseja criticar: a mulher branca acolhendo uma criança negra, o corpo africano apresentado como destinatário de cuidado, o gesto humanitário dramatizado em chave moral. Surge então um paradoxo analítico e pedagógico importante: a crítica depende da imagem cuja violência simbólica procura desestabilizar. Isso significa que a recepção crítica nunca está plenamente controlada. Uma imagem pode ser intelectualmente transparente para alguns observadores como denúncia de uma lógica civilizatória persistente, mas emocionalmente dolorosa para outros, especialmente quando ativa experiências e memórias históricas de inferiorização, exotificação ou tutela. O ponto é que o elemento crítico não neutraliza automaticamente a força histórica da imagem. Ao contrário, por vezes revela como essa força continua viva.
Esse ponto é fundamental porque mostra que a colonialidade do olhar não é apenas um problema externo ao debate acadêmico; ela também atravessa o próprio ato pedagógico. Quando uma imagem crítica produz desconforto, isso não necessariamente indica fracasso analítico, mas revela precisamente a permanência das estruturas que estão sendo discutidas. A sala de aula torna-se, então, espaço onde a teoria se manifesta de forma performativa: a colonialidade não está apenas no objeto de estudo, mas emerge na própria recepção do objeto e nas relações de poder da sala de aula. Isso exige do professor, e da professora, uma mediação particularmente cuidadosa, capaz de explicitar que o objetivo não é reafirmar a hierarquia visual, mas desnaturalizá-la. A dificuldade reside em que imagens carregam historicidades que antecedem sua explicação. O olhar reage antes da teoria.
A passagem da missão civilizatória para o humanitarismo, da tutela colonial para a cooperação técnica, ou da superioridade imperial para a autoridade estatística, não significa superação da colonialidade, mas sua mutação histórica. As hierarquias persistem porque continuam distribuindo legitimidades de fala, capacidades de ação e lugares de enunciação. A colonialidade do olhar ajuda precisamente a compreender esse nível mais profundo em que a política internacional opera: aquele em que imagens, afetos, técnicas e moralidades se entrelaçam para produzir um mundo onde certos sujeitos ainda aparecem como naturalmente autorizados a definir problemas, enquanto outros continuam excessivamente visíveis apenas como problema a ser resolvido.
Por isso, enfrentar essa colonialidade no ensino não significa apenas incluir novos autores ou ampliar referências geográficas, mas interrogar os próprios mecanismos pelos quais certos conhecimentos foram historicamente convertidos em norma disciplinar. Trata-se de deslocar a pedagogia de uma simples transmissão de cânones para uma prática crítica de reabertura do campo visual do conhecimento, capaz de tornar visíveis outras experiências de mundo, outras linguagens políticas e outras formas de elaboração conceitual do internacional. Nesse movimento, o ato pedagógico deixa de ser apenas reprodução e torna-se também intervenção sobre os modos de ver que sustentam as hierarquias globais.
Manual do barraco: o plenário virou ringue
No meu Brasil brasileiro havia quem achasse que o Congresso Nacional ainda mantinha algum resquício de compostura. Na recente cena envolvendo o deputado Lindbergh Farias, o deputado Alfredo Gaspar além da senadora Soraya Thronicke, resolveram atualizar o diagnóstico: estamos na fase do “vale-tudo político com plateia pagante”.
O episódio foi digno de uma briga do Maguila. Foi aula prática de como transformar um simples debate político em espetáculo de confronto — com direito a acusações pesadas, dedo em riste e, segundo relatos, até uma espécie de “coach de briga” nos bastidores da cena. Sobrou poeira branca para todos os paletós e ouvidos. Chegamos até aos gritos de prostíbulos e bares: Por-raaaaaaaaa-da!
Sim, cidadãos: não basta mais discutir. Agora temos direção de cena.
A troca de acusações entre Lindbergh e Gaspar não surgiu do nada. Ela persegue um padrão cada vez mais comum: tensão acumulada, provocações estudadas, ambiente polarizado e ação calculada para gerar impacto na nação fortemente dividida.
É aí que entra o elemento interessante da história: a atuação da elegante senadora Soraya Thronicke. A Érica Hilton lamentou a ausência e não se perdoa pelo erro.
A parlamentar não foi só uma participante direta do embate físico ou verbal principal, mas alguém que, segundo interpretações políticas correntes, atua estimulando e orientando o enfrentamento. Traduzindo para quem prefere linguagem simples: menos bombeira, mais estrategista de incêndio. Uma treinadora ou manager política. E por quê?
Porque, na política moderna — essa que aprendeu mais com redes sociais do que com livros de teoria — visibilidade é dólar, moeda forte. E conflito, meu caro leitor, é o combustível mais barato que existe.
Hoje, muitos parlamentares não estão mais falando apenas para os colegas no plenário. Estão falando para cortes de vídeo, para viralização, para engajamento digital e uso em vários momentos da nossa paupérrima vida política. É tudo para o show!
Um discurso técnico sobre reforma tributária dá 3 mil visualizações.
Uma briga com troca de acusações graves, bate na casa dos milhões. É duro, mas é real. Dentro desse cenário, estimular o embate (dar corda) não é erro, é estratégia. A briga de hoje, sairá nos programas políticos de outubro e com outra purpurinada roupagem.
A senadora Soraya, nesse contexto, aparece como uma espécie de articuladora de narrativa. Ao incentivar o confronto, ajuda a construir um palco onde aliados ganham protagonismo e adversários são expostos.
É política? É. Mas é também marketing. Vai colar? Esperemos.
Agora vem a parte que pouca gente conecta: esse tipo de comportamento não fica restrito ao vídeo viral. Ele afeta a percepção institucional do país.
Vamos recorrer aos velhos mestres. O enorme e genial Carlos Lacerda, excelente faixa-preta de jiu-jitsu, já alertava que estabilidade institucional é um dos pilares da confiança econômica. Quando o ambiente político parece um ringue, a mensagem que se passa é simples: há ruído demais e previsibilidade de menos. E dinheiro, como sabemos, juntamente com empregos, não gostam de barulho.
Roberto Campos completaria: investidores olham para esse tipo de cena e pensam: “Se nem os representantes conseguem dialogar sem se acusar de crimes, como confiar nas regras do jogo?” Resultado: cautela, fuga de capital, desemprego, crescimento mais lento. Os dois lados fazendo marketing e criando o caos. Interessa a alguém?
O desiludido eleitor assiste, boquiaberto, — muitas vezes sem perceber que aquele “entretenimento político” tem impacto direto no preço do supermercado.
Outro ponto importante: a política brasileira apertou o botão do modo de campanha contínua. Não existe mais “tempo de governar” e “tempo de disputar”. Tudo virou palanque para o consumo pelo celular. Nesse ambiente, o conflito não é exceção. É ferramenta.
Lindbergh e Gaspar, cada um à sua maneira, representam polos que se alimentam desse enfrentamento. E quando há incentivo externo — seja explícito ou implícito — o resultado é previsível: escalada. E escalada, em política, raramente termina em diálogo. Termina em mais conflito.
O brasileirinho, desorientado, fica perplexo, no meio do ringue e depara-se com a pergunta que o incomoda, há tempos: qual o meu papel de eleitor nisso tudo? Porque há uma corresponsabilidade silenciosa.
Quando o público recompensa o espetáculo — compartilhando, comentando, escolhendo seus “Galinhos Campeões” — ele reforça o modelo. É como a audiência de um programa de briga: quanto mais gente assiste, mais episódios são produzidos. E aí chegamos ao ponto crítico: a substituição do debate pela performance.
Não importa mais quem tem o melhor argumento. Importa quem rende o melhor corte de vídeo.
Enquanto o mundo discute produtividade, inovação e crescimento, nós discutimos quem chamou quem de quê. É quase uma especialização nacional. É o país do grito alto e resultado baixo.
O episódio entre Lindbergh, Gaspar e Soraya não é isolado. É um sintoma. Sintoma de um sistema que troca, sistematicamente, argumento por acusação, diálogo por performance e política por espetáculo. E enquanto isso continuar funcionando — eleitoralmente e digitalmente — continuará acontecendo.
No fim, fica a imagem que resume tudo: O plenário virou Coliseu. Os parlamentares, gladiadores. E o cansado eleitor virando leão.
Só há um detalhe incômodo: é a plateia de eleitores desanimados que paga o ingresso e ainda financia o espetáculo.
O episódio foi digno de uma briga do Maguila. Foi aula prática de como transformar um simples debate político em espetáculo de confronto — com direito a acusações pesadas, dedo em riste e, segundo relatos, até uma espécie de “coach de briga” nos bastidores da cena. Sobrou poeira branca para todos os paletós e ouvidos. Chegamos até aos gritos de prostíbulos e bares: Por-raaaaaaaaa-da!
Sim, cidadãos: não basta mais discutir. Agora temos direção de cena.
A troca de acusações entre Lindbergh e Gaspar não surgiu do nada. Ela persegue um padrão cada vez mais comum: tensão acumulada, provocações estudadas, ambiente polarizado e ação calculada para gerar impacto na nação fortemente dividida.
É aí que entra o elemento interessante da história: a atuação da elegante senadora Soraya Thronicke. A Érica Hilton lamentou a ausência e não se perdoa pelo erro.
A parlamentar não foi só uma participante direta do embate físico ou verbal principal, mas alguém que, segundo interpretações políticas correntes, atua estimulando e orientando o enfrentamento. Traduzindo para quem prefere linguagem simples: menos bombeira, mais estrategista de incêndio. Uma treinadora ou manager política. E por quê?
Porque, na política moderna — essa que aprendeu mais com redes sociais do que com livros de teoria — visibilidade é dólar, moeda forte. E conflito, meu caro leitor, é o combustível mais barato que existe.
Hoje, muitos parlamentares não estão mais falando apenas para os colegas no plenário. Estão falando para cortes de vídeo, para viralização, para engajamento digital e uso em vários momentos da nossa paupérrima vida política. É tudo para o show!
Um discurso técnico sobre reforma tributária dá 3 mil visualizações.
Uma briga com troca de acusações graves, bate na casa dos milhões. É duro, mas é real. Dentro desse cenário, estimular o embate (dar corda) não é erro, é estratégia. A briga de hoje, sairá nos programas políticos de outubro e com outra purpurinada roupagem.
A senadora Soraya, nesse contexto, aparece como uma espécie de articuladora de narrativa. Ao incentivar o confronto, ajuda a construir um palco onde aliados ganham protagonismo e adversários são expostos.
É política? É. Mas é também marketing. Vai colar? Esperemos.
Agora vem a parte que pouca gente conecta: esse tipo de comportamento não fica restrito ao vídeo viral. Ele afeta a percepção institucional do país.
Vamos recorrer aos velhos mestres. O enorme e genial Carlos Lacerda, excelente faixa-preta de jiu-jitsu, já alertava que estabilidade institucional é um dos pilares da confiança econômica. Quando o ambiente político parece um ringue, a mensagem que se passa é simples: há ruído demais e previsibilidade de menos. E dinheiro, como sabemos, juntamente com empregos, não gostam de barulho.
Roberto Campos completaria: investidores olham para esse tipo de cena e pensam: “Se nem os representantes conseguem dialogar sem se acusar de crimes, como confiar nas regras do jogo?” Resultado: cautela, fuga de capital, desemprego, crescimento mais lento. Os dois lados fazendo marketing e criando o caos. Interessa a alguém?
O desiludido eleitor assiste, boquiaberto, — muitas vezes sem perceber que aquele “entretenimento político” tem impacto direto no preço do supermercado.
Outro ponto importante: a política brasileira apertou o botão do modo de campanha contínua. Não existe mais “tempo de governar” e “tempo de disputar”. Tudo virou palanque para o consumo pelo celular. Nesse ambiente, o conflito não é exceção. É ferramenta.
Lindbergh e Gaspar, cada um à sua maneira, representam polos que se alimentam desse enfrentamento. E quando há incentivo externo — seja explícito ou implícito — o resultado é previsível: escalada. E escalada, em política, raramente termina em diálogo. Termina em mais conflito.
O brasileirinho, desorientado, fica perplexo, no meio do ringue e depara-se com a pergunta que o incomoda, há tempos: qual o meu papel de eleitor nisso tudo? Porque há uma corresponsabilidade silenciosa.
Quando o público recompensa o espetáculo — compartilhando, comentando, escolhendo seus “Galinhos Campeões” — ele reforça o modelo. É como a audiência de um programa de briga: quanto mais gente assiste, mais episódios são produzidos. E aí chegamos ao ponto crítico: a substituição do debate pela performance.
Não importa mais quem tem o melhor argumento. Importa quem rende o melhor corte de vídeo.
Enquanto o mundo discute produtividade, inovação e crescimento, nós discutimos quem chamou quem de quê. É quase uma especialização nacional. É o país do grito alto e resultado baixo.
O episódio entre Lindbergh, Gaspar e Soraya não é isolado. É um sintoma. Sintoma de um sistema que troca, sistematicamente, argumento por acusação, diálogo por performance e política por espetáculo. E enquanto isso continuar funcionando — eleitoralmente e digitalmente — continuará acontecendo.
No fim, fica a imagem que resume tudo: O plenário virou Coliseu. Os parlamentares, gladiadores. E o cansado eleitor virando leão.
Só há um detalhe incômodo: é a plateia de eleitores desanimados que paga o ingresso e ainda financia o espetáculo.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
Uma nação perigosa?
"Faltam quase 200 semanas: é assustador", Estadão, 13/4/25, A4), foi o título de artigo que publiquei neste espaço, há exatamente um ano, a propósito das primeiras 12 semanas do governo Trump. Já era possível então antever um futuro incerto e perigoso, para os EUA e para o mundo. O panorama é agora ainda mais assustador.
Nação perigosa (Dangerous Nation) é o título do livro publicado há exatos 20 anos por Robert Kagan. A obra mostra que desde a independência, os norte-americanos aumentaram seu poder e influência por meio da expansão comercial e territorial, do combate à influência no continente norte-americano de franceses, espanhóis, russos e mesmo de britânicos, da alienação dos native americans. Em detalhado reexame desse processo histórico, Kagan mostra como os EUA, desde seus primórdios como nação, foram vistos pelo resto do mundo não apenas como uma fonte inspiradora de mudança política, cultural e social, mas também como uma nação ambiciosa, por vezes perigosa.
A vigorosa expressão – perigosa nação – assume neste segundo mandato de Donald Trump significado novo e trágico, marcado pelo que George Kennan chamou de orgulho do tamanho desmedido (hubris of inordinate size): a inclinação de países de grande porte a buscar sonhos de poder, glória e ambições desmedidas. Tais sonhos podem ser benevolentes em intenção. Mas, como notou Kennan décadas atrás, a crença de um país de que pode fazer bem a outra nação intervindo em seus assuntos internos costuma ser, desde o princípio, ilusão. Alimentar tais sonhos tende a ser um exemplo da proverbial estrada para o inferno, aquela que é pavimentada de boas intenções.
Em entrevista recente à editora-chefe da revista The Economist, Steve Bannon, importante estrategista do movimento Make America Great Again (Maga) e um dos líderes da International Conservative Conference, insistiu que Donald Trump seria reeleito em 2028. Já em 2019, Adam Przeworski, em seu livro Crises of Democracy, apresentara o que chamou de “roteiro de pesadelo” para que isso aconteça. Vale lembrá-lo.
Primeiro, o Congresso aprova uma lei proibindo a publicação de “escritos falsos, escandalosos e maliciosos contra o governo dos EUA, o Congresso ou o presidente, com a intenção de transformá-los em objeto de desprezo e descrédito”. São condenados a até 20 anos de prisão aqueles que usem “linguagem desleal, profana, difamatória ou ofensiva contra o governo, sua bandeira ou suas Forças Armadas, ou que levem outras pessoas a verem com desprezo o governo americano ou suas instituições.”
Depois, a Suprema Corte autoriza legislativos estaduais a preparar planos de redesenho dos distritos eleitorais. O Congresso aprova uma lei segundo a qual tornar públicos documentos oficiais sem a autorização de uma repartição governamental sujeita o autor a multas ou prisão. E ainda outra lei contra a fraude eleitoral, ordenando aos Estados que adotem regras relativas a documentos exigidos no registro para votar.
O presidente baixa uma ordem executiva decretando que “todas as pessoas que têm o privilégio de estar empregadas nos departamentos e repartições do governo devem ser confiáveis, fidedignas, de boa conduta e bom caráter” e precisam demonstrar “lealdade inabalável aos EUA”. Centenas de funcionários públicos são então exonerados. O número de juízes federais nomeados pelo governo pode chegar a uma centena em um mandato.
O Congresso aprova lei retirando a isenção de impostos de organizações não governamentais que “obstruam a implementação de leis e regulamentos em vigor”. E uma lei antiterrorismo, segundo a qual qualquer pessoa que “ameace a segurança nacional” está sujeita a prisão preventiva. Dois ministros da Suprema Corte são substituídos por ministros nomeados pelo governo.
O presidente é reeleito. Baixa uma série de ordens executivas sobre assuntos que até então eram da competência do Poder Legislativo. O Congresso continua mudo. A Suprema Corte continua muda. Cai o pano. O roteiro imaginário é (perversamente) engenhoso, porque inspirado em itens concretos da legislação dos EUA ao longo do tempo. Como afirmou Antonin Scalia, ex-ministro da Corte Suprema dos EUA: “Você se engana se pensa que não vai acontecer de novo. Porque (...) em tempos de guerra, as leis se calam”.
Os checks and balances, os pesos e contrapesos da democracia norte-americana, hão de impedir, ainda que a um custo inicial elevado, que esse cenário de horror se materialize. Afinal, pesquisas mostram que, em abril de 2026, a aprovação média do governo Trump era de 39% e a desaprovação de 57%. Nas eleições de novembro próximo, é possível que o Partido Democrata assuma a maioria da Câmara dos Deputados. Alguns estimam que o mesmo poderia ocorrer no Senado.
Os EUA vivem uma calcificada polarização, em muito semelhante à observada no Brasil: republicanos aprovaram unanimemente a administração Trump, democratas o rejeitaram quase que totalmente. Independentes, lá como aqui, serão os grupos decisivos. Como diria Rubem Fonseca, os próximos meses serão de “vastas emoções e pensamentos imperfeitos”, no mundo como no Brasil.
Nação perigosa (Dangerous Nation) é o título do livro publicado há exatos 20 anos por Robert Kagan. A obra mostra que desde a independência, os norte-americanos aumentaram seu poder e influência por meio da expansão comercial e territorial, do combate à influência no continente norte-americano de franceses, espanhóis, russos e mesmo de britânicos, da alienação dos native americans. Em detalhado reexame desse processo histórico, Kagan mostra como os EUA, desde seus primórdios como nação, foram vistos pelo resto do mundo não apenas como uma fonte inspiradora de mudança política, cultural e social, mas também como uma nação ambiciosa, por vezes perigosa.
A vigorosa expressão – perigosa nação – assume neste segundo mandato de Donald Trump significado novo e trágico, marcado pelo que George Kennan chamou de orgulho do tamanho desmedido (hubris of inordinate size): a inclinação de países de grande porte a buscar sonhos de poder, glória e ambições desmedidas. Tais sonhos podem ser benevolentes em intenção. Mas, como notou Kennan décadas atrás, a crença de um país de que pode fazer bem a outra nação intervindo em seus assuntos internos costuma ser, desde o princípio, ilusão. Alimentar tais sonhos tende a ser um exemplo da proverbial estrada para o inferno, aquela que é pavimentada de boas intenções.
Em entrevista recente à editora-chefe da revista The Economist, Steve Bannon, importante estrategista do movimento Make America Great Again (Maga) e um dos líderes da International Conservative Conference, insistiu que Donald Trump seria reeleito em 2028. Já em 2019, Adam Przeworski, em seu livro Crises of Democracy, apresentara o que chamou de “roteiro de pesadelo” para que isso aconteça. Vale lembrá-lo.
Primeiro, o Congresso aprova uma lei proibindo a publicação de “escritos falsos, escandalosos e maliciosos contra o governo dos EUA, o Congresso ou o presidente, com a intenção de transformá-los em objeto de desprezo e descrédito”. São condenados a até 20 anos de prisão aqueles que usem “linguagem desleal, profana, difamatória ou ofensiva contra o governo, sua bandeira ou suas Forças Armadas, ou que levem outras pessoas a verem com desprezo o governo americano ou suas instituições.”
Depois, a Suprema Corte autoriza legislativos estaduais a preparar planos de redesenho dos distritos eleitorais. O Congresso aprova uma lei segundo a qual tornar públicos documentos oficiais sem a autorização de uma repartição governamental sujeita o autor a multas ou prisão. E ainda outra lei contra a fraude eleitoral, ordenando aos Estados que adotem regras relativas a documentos exigidos no registro para votar.
O presidente baixa uma ordem executiva decretando que “todas as pessoas que têm o privilégio de estar empregadas nos departamentos e repartições do governo devem ser confiáveis, fidedignas, de boa conduta e bom caráter” e precisam demonstrar “lealdade inabalável aos EUA”. Centenas de funcionários públicos são então exonerados. O número de juízes federais nomeados pelo governo pode chegar a uma centena em um mandato.
O Congresso aprova lei retirando a isenção de impostos de organizações não governamentais que “obstruam a implementação de leis e regulamentos em vigor”. E uma lei antiterrorismo, segundo a qual qualquer pessoa que “ameace a segurança nacional” está sujeita a prisão preventiva. Dois ministros da Suprema Corte são substituídos por ministros nomeados pelo governo.
O presidente é reeleito. Baixa uma série de ordens executivas sobre assuntos que até então eram da competência do Poder Legislativo. O Congresso continua mudo. A Suprema Corte continua muda. Cai o pano. O roteiro imaginário é (perversamente) engenhoso, porque inspirado em itens concretos da legislação dos EUA ao longo do tempo. Como afirmou Antonin Scalia, ex-ministro da Corte Suprema dos EUA: “Você se engana se pensa que não vai acontecer de novo. Porque (...) em tempos de guerra, as leis se calam”.
Os checks and balances, os pesos e contrapesos da democracia norte-americana, hão de impedir, ainda que a um custo inicial elevado, que esse cenário de horror se materialize. Afinal, pesquisas mostram que, em abril de 2026, a aprovação média do governo Trump era de 39% e a desaprovação de 57%. Nas eleições de novembro próximo, é possível que o Partido Democrata assuma a maioria da Câmara dos Deputados. Alguns estimam que o mesmo poderia ocorrer no Senado.
Os EUA vivem uma calcificada polarização, em muito semelhante à observada no Brasil: republicanos aprovaram unanimemente a administração Trump, democratas o rejeitaram quase que totalmente. Independentes, lá como aqui, serão os grupos decisivos. Como diria Rubem Fonseca, os próximos meses serão de “vastas emoções e pensamentos imperfeitos”, no mundo como no Brasil.
Estamos mudos e isolados
Olhe pela janela, você verá como vai o mundo. Para onde correm as pessoas? O que querem? Não diferençamos mais o encadeamento das coisas que lhes daria um sentido supra-pessoal. A despeito do rumor geral, cada um está mudo e isolado em si mesmo. O encaixe dos valores do mundo e dos valores do eu já não funcionam convenientemente. Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado.
Franz Kafka, "Conversas com Kafka", de Gustav Janouch
Franz Kafka, "Conversas com Kafka", de Gustav Janouch
Narcisos loucos guiam cegos no planeta
‘É a desgraça destes tempos que os loucos guiem os cegos’, lamenta o Conde de Gloucester na trama shakespeariana “Rei Lear”. No enredo da peça, a frase resume a inversão moral e política que se descortina ao longo de cinco atos. Os incapazes ou corruptos passam a conduzir os já vulneráveis, e a autoridade deixa de estar ligada à lucidez. A imagem de “loucos” governando, “cegos” manipulados e a ordem moral definhando refere-se tanto ao reino da trama como ao próprio Lear, que só percebe a verdade depois de ter entregado o poder e perdido o discernimento.
O sentido da frase de Gloucester, além de político, é moral, por marcar um mundo em que a autoridade foi tragicamente separada da sabedoria. E é, sobretudo, imortal, por atravessar 420 anos de existência e conseguir retratar com acuidade nossos miseráveis tempos atuais.
O mundo está exausto de Donald Trump, e sobram poucos líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito Internacional. Não é preciso concordar com o tom combativo do economista Jeffrey Sachs, professor de políticas públicas na Universidade Columbia, para validar sua preocupação com a mente transtornada de dois governantes específicos que não dão paz à humanidade. Em artigo no site progressista Common Dreams, intitulado “Dois loucos brincando de Deus”, Sachs refere-se assim a Trump e Benjamin Netanyahu, seu parceiro de violência israelense:
— Quando líderes desequilibrados invocam a catástrofe divina como instrumento político, não apenas seus inimigos são consumidos. A menos que sejam detidos, todos nós seremos vítimas desses dois psicopatas. (...) Eles estão dominados por três patologias em cascata. A primeira é de personalidade: ambos são narcisistas malignos. A segunda é a arrogância do poder: homens que têm o poder de comandar a aniquilação nuclear e, por isso, não sentem qualquer contenção. A terceira, e mais perigosa de todas, é a ilusão religiosa: dois homens que acreditam, e são informados diariamente por aqueles a seu redor, que são messias fazendo a obra de Deus. Cada patologia agrava as outras, de modo que, juntas, colocam o mundo num perigo sem precedentes.
Para Sachs, narcisismo maligno é um termo clínico, não um insulto. Foi cunhado em 1964 pelo psicólogo social Erich Fromm, para descrever Adolf Hitler como “fusão de grandiosidade patológica, psicopatia, paranoia e personalidade antissocial numa única estrutura de caráter”. “O narcisista maligno não é apenas vaidoso. É estruturalmente incapaz de empatia genuína, constitucionalmente imune à culpa e movido por uma convicção paranoica de que inimigos o cercam e devem ser destruídos”, disse Fromm.
Nunca é demais lembrar também que Trump e Netanyahu têm a nuvem nuclear ao alcance da mão.
A Operação Fúria Épica contra o Irã entra em sua sexta semana, e ninguém — nem mesmo Trump — sabe no que desembocará o esquisito cessar-fogo de duas semanas, acordado mas não respeitado pelas partes. Israel, escanteado das gestões, continua a transformar o sul do Líbano em escombros como se não houvesse um amanhã. Problemão para um cessar-fogo cuja arquitetura política pode ter sido ambígua o suficiente para garantir o anúncio, mas não coerente o bastante para sobreviver ao contato com a realidade. Uma vez que as bombas caem em Beirute e que um lado afirma que a área estava coberta pelo acordo enquanto o outro diz que não, o problema deixa de ser um mal-entendido técnico. Torna-se uma falha estrutural na própria trégua.
Saltam aos olhos os entendimentos mutuamente excludentes sobre os termos do cessar-fogo. Teerã aparentava acreditar que seu plano de 10 pontos era tratado como base para a desescalada, mas Washington agora sugere um entendimento muito mais restrito dessa base: “Reabrir o Estreito de Ormuz enquanto os Estados Unidos suspendem os bombardeios diretos ao Irã”. É pouco, tanto que, até a noite de sexta-feira, Ormuz estava longe de ser reaberto à navegação statu quo ante. E continuava sendo zona perigosa, pois conseguiu engolir um drone militar de espionagem dos Estados Unidos que fazia bisbilhotagem. Nenhum Departamento de Defesa gosta de ver desaparecer no ar um equipamento de US$ 200 mil (mais de R$ 1 bilhão).
Neste mundo exausto de embriagados pelo poder e corruptos por natureza, faltam vozes como a de Cordélia, cuja lucidez foi ignorada pelo pai, o Rei Lear. Shakespeare, presente.
O sentido da frase de Gloucester, além de político, é moral, por marcar um mundo em que a autoridade foi tragicamente separada da sabedoria. E é, sobretudo, imortal, por atravessar 420 anos de existência e conseguir retratar com acuidade nossos miseráveis tempos atuais.
O mundo está exausto de Donald Trump, e sobram poucos líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito Internacional. Não é preciso concordar com o tom combativo do economista Jeffrey Sachs, professor de políticas públicas na Universidade Columbia, para validar sua preocupação com a mente transtornada de dois governantes específicos que não dão paz à humanidade. Em artigo no site progressista Common Dreams, intitulado “Dois loucos brincando de Deus”, Sachs refere-se assim a Trump e Benjamin Netanyahu, seu parceiro de violência israelense:
— Quando líderes desequilibrados invocam a catástrofe divina como instrumento político, não apenas seus inimigos são consumidos. A menos que sejam detidos, todos nós seremos vítimas desses dois psicopatas. (...) Eles estão dominados por três patologias em cascata. A primeira é de personalidade: ambos são narcisistas malignos. A segunda é a arrogância do poder: homens que têm o poder de comandar a aniquilação nuclear e, por isso, não sentem qualquer contenção. A terceira, e mais perigosa de todas, é a ilusão religiosa: dois homens que acreditam, e são informados diariamente por aqueles a seu redor, que são messias fazendo a obra de Deus. Cada patologia agrava as outras, de modo que, juntas, colocam o mundo num perigo sem precedentes.
Para Sachs, narcisismo maligno é um termo clínico, não um insulto. Foi cunhado em 1964 pelo psicólogo social Erich Fromm, para descrever Adolf Hitler como “fusão de grandiosidade patológica, psicopatia, paranoia e personalidade antissocial numa única estrutura de caráter”. “O narcisista maligno não é apenas vaidoso. É estruturalmente incapaz de empatia genuína, constitucionalmente imune à culpa e movido por uma convicção paranoica de que inimigos o cercam e devem ser destruídos”, disse Fromm.
Nunca é demais lembrar também que Trump e Netanyahu têm a nuvem nuclear ao alcance da mão.
A Operação Fúria Épica contra o Irã entra em sua sexta semana, e ninguém — nem mesmo Trump — sabe no que desembocará o esquisito cessar-fogo de duas semanas, acordado mas não respeitado pelas partes. Israel, escanteado das gestões, continua a transformar o sul do Líbano em escombros como se não houvesse um amanhã. Problemão para um cessar-fogo cuja arquitetura política pode ter sido ambígua o suficiente para garantir o anúncio, mas não coerente o bastante para sobreviver ao contato com a realidade. Uma vez que as bombas caem em Beirute e que um lado afirma que a área estava coberta pelo acordo enquanto o outro diz que não, o problema deixa de ser um mal-entendido técnico. Torna-se uma falha estrutural na própria trégua.
Saltam aos olhos os entendimentos mutuamente excludentes sobre os termos do cessar-fogo. Teerã aparentava acreditar que seu plano de 10 pontos era tratado como base para a desescalada, mas Washington agora sugere um entendimento muito mais restrito dessa base: “Reabrir o Estreito de Ormuz enquanto os Estados Unidos suspendem os bombardeios diretos ao Irã”. É pouco, tanto que, até a noite de sexta-feira, Ormuz estava longe de ser reaberto à navegação statu quo ante. E continuava sendo zona perigosa, pois conseguiu engolir um drone militar de espionagem dos Estados Unidos que fazia bisbilhotagem. Nenhum Departamento de Defesa gosta de ver desaparecer no ar um equipamento de US$ 200 mil (mais de R$ 1 bilhão).
Neste mundo exausto de embriagados pelo poder e corruptos por natureza, faltam vozes como a de Cordélia, cuja lucidez foi ignorada pelo pai, o Rei Lear. Shakespeare, presente.
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