quinta-feira, 16 de abril de 2026

O homem na Lua e a era da pós-verdade

Este texto é uma análise da curiosa onda negacionista ao novo grande feito da astronomia: o ser humano de volta à Lua (desta vez em redor dela). Mas iniciemos um pouco atrás na história. O poeta Luís de Camões (1524-80), quando escreveu sua grande epopeia – Os Lusíadas – mergulhado no turbilhão do século XVI, estava reagindo frontalmente às transformações que redesenhavam o Ocidente: as Grandes Navegações. Logo, não é à toa o tom pretencioso com que iniciou sua obra: “Cessem do sábio Grego e do Troiano/ As navegações grandes que fizeram;/ Cale-se de Alexandro e de Trajano/ A fama das vitórias que tiveram”. Em outras palavras, Camões evoca a memória dos maravilhosos feitos da Antiguidade Clássica (gregos e troianos), e mesmo a fama guerreira dos macedônios e romanos (Alexandro e Trajano), e lhes ordena “calarem a boca” para a mais emblemática e exclusiva façanha da humanidade: o desbravamento, além mar, de regiões do globo que a Europa desconhecia.

Quando Camões publicou sua epopeia em 1572, já datava em 70 anos a viagem de Vasco da Gama às Índias através dos contornos do continente africano (uma viagem mais extensa do que rodear a Terra pela Linha do Equador); Pedro Álvares Cabral já havia pisado nas futuras regiões brasileiras em 1500, e Fernão de Magalhães, em 1522, houvera provado de uma vez por todas a redondeza da Terra ao tê-la circundado a serviço da Espanha: o mundo era realmente redondo e plenamente conectável pelo mar.

Foi um século XVI bastante agitado. É claro que naquele tempo muitos apostavam na própria observação e não conseguiam entender a ideia de um mundo redondo; é realmente mais fácil vê-lo plano e concluir assim. Existia também espaço para um farto imaginário folclórico que visualizava o oceano como um lar de mistérios e monstruosidades. Seria realmente possível ir tão longe e se localizar num mar que parece engolir o próprio horizonte? Poderiam instrumentos de madeira e metal, como o astrolábio, realmente traduzir a vontade dos astros em rotas sobre águas nunca antes navegadas? Bem, acabamos por rememorar em linhas gerais esses acontecimentos históricos a fim de abrir uma janela para o que está a ocorrer em abril de 2026: acompanhamos, pela tela de nossos smartphones, a odisseia de quatro astronautas que circundam a Lua, um feito que (considerando o pouso de 1969 – Missão Apollo 11 da Nasa) faz as caravelas de Camões parecerem brinquedos de banheira. Eis a Missão Ártemis II.


Denominamos “progresso” essa percepção de estarmos refinando nossa leitura da realidade e sofisticando as técnicas com as quais submetemos a natureza às nossas vontades. É difícil não falarmos em termos de progresso quando anteriormente navegávamos por mar, e, agora, sondamos o silêncio do vácuo lunar. Porém, se cada época tem, por assim dizer, suas realizações, também tem seus limites; e, ao falarmos em termos de “conhecimento científico”, tais limites ganham formas institucionais (universidades, laboratórios, agências reguladoras etc.) e métodos que tentam garantir o que é ou não verdadeiro (científico). Em outras palavras, a ciência de cada época possui aquilo que Michel Foucault (1926-84) denominou de “regime de verdade”, que nada mais é que um conjunto de procedimentos que produz, regula e faz circular o conhecimento de determinada forma. Entendendo assim, o regime de verdade do século XVI tornava real a possibilidade da travessia dos mares por causa dos meios científicos disponíveis, tais como a bússola e o quadrante, que permitiam aos marinheiros lerem as estrelas para não se perderem no vazio, e as caravelas, equipadas com velas triangulares que desafiavam a direção dos ventos. Esses instrumentos não eram apenas ferramentas; constavam como validadores daquela realidade de “descobrimentos”. Para o regime de verdade da época, a prova de que a Terra era esférica e navegável não vinha de um debate de opiniões, mas do fato de que, ao seguir os cálculos matemáticos desses aparelhos, o navio efetivamente chegava ao destino (o que realmente ocorreu).

Avançamos para abril de 2026 e percebemos que o “regime de verdade” apenas mudou de escala, ou seja, o que antes era uma bússola e um mapa em papel grosseiro, hoje são algoritmos de propulsão e transmissões via satélite que nos permitem assistir a astronautas circundando a Lua. Porém, e eis aqui um ponto interessante, o alto índice de pessoas que simplesmente não acredita nas missões espaciais revela o quão fraco tem sido o discurso científico fora dos laboratórios. A ciência parece ser uma língua que muita gente simplesmente não sabe falar. É interessante o que estamos a assistir (apesar de negacionismo ser um fenômeno nada novo): uma era de pós-verdade em que o discurso científico é validado ou invalidado pela sociedade a partir de parâmetros bem distantes da Academia que o produziu.

Se, de acordo com o “regime de verdade” de Michel Foucault, entendido como o conjunto de procedimentos, instrumentos e saberes que validam o que é considerado verdadeiro, hoje dispomos de tecnologias cada vez mais capazes de registrar e transmitir esses acontecimentos até em tempo real, ainda assim não demorou para surgirem postagens falsas nas redes sociais, alegando que as imagens da missão foram gravadas em estúdio, com “fundo verde” e efeitos visuais. Curioso comportamento: mesmo diante de registros e transmissões em tempo real, nem todos acreditam no que veem. Prova disso é uma pesquisa do DataFolha, que mostra que 33% dos brasileiros não acreditam que humanos tenham ido à Lua. Para essa parcela da população, a Missão Artemis II seria, portanto, a primeira viagem espacial até o satélite.

Avançamos enormemente na forma de produzir e comprovar o conhecimento, mas hoje enfrentamos um novo desafio: dar mais peso aos fatos do que às crenças pessoais. Em 1976, Hannah Arendt, no ensaio Verdade e Política, apontava que a mentira nunca havia sido tão tolerada. Décadas depois, em 2016, Oxford elege “pós-verdade” como palavra do ano, indicando uma mudança mais profunda que, embora possa parecer semelhante à mentira, não é igual nem tão fácil de identificar.

Na pós-verdade, a distorção não se apresenta de forma clara, ela se mistura às emoções e permite que a crença pessoal se sobreponha ao fato, mesmo quando há evidências disponíveis. Mais sutil do que a mentira, como aponta Ralph Keyes (2018), em "A era da pós-verdade: desonestidade e enganação", surge uma espécie de terceira categoria com afirmações que não são nem totalmente verdadeiras nem completamente falsas, mas podem ser “verdade melhorada”, “neoverdade” ou “verdade light”. Já Matthew D’Ancona (2018) em A nova guerra contra os fatos em tempos de fake news, explica que o abalo da verdade está relacionado a um cenário de disputa política e intelectual onde a ciência passa a ser tratada com desconfiança ou desprezo.

As estratégias de promoção da pós-verdade são sutis. Não dizer exatamente a verdade, nem assumir uma mentira, é um dos recursos mais utilizados, assim como a contradição e a repetição, que mantêm a discussão em andamento. Por isso, Lee McIntyre (2018) explica que ela equivale a uma forma de supremacia ideológica, na qual seus praticantes tentam fazer com que alguém acredite em algo, haja ou não boas evidências para isso. Nesse contexto, não surpreende que, mesmo diante de provas ou de documentação científica baseada em métodos rigorosos, ainda haja quem questione a ida do homem à Lua, abrindo espaço para a criação de “fatos alternativos”. O problema, portanto, não está na falta de provas, mas na forma como elas são recebidas ou, na verdade, rejeitadas.

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