quinta-feira, 16 de abril de 2026

Trump tornou-se um ativo tóxico

A derrota de Viktor Orbán, na Hungria, foi um duro golpe para Vladimir Putin e para a sua estratégia de enfraquecimento, por dentro, da União Europeia. Mas foi também a confirmação eloquente de que, nos dias que correm, ser amigo ou ter o apoio de Donald Trump se tornou uma desvantagem eleitoral.

A tendência manifestou-se pela primeira vez, há cerca de um ano, no Canadá, quando o primeiro-ministro Mark Carney, em funções havia pouco tempo, em substituição de um desgastado Justin Trudeau, conseguiu inverter, em apenas um par de meses, um resultado anunciado como desastroso pelas sondagens numa retumbante vitória e conquistar uma grande vaga de apoio popular. O seu segredo? Enfrentar Donald Trump sem rodeios, devolvendo, com a mesma veemência, cada uma das ameaças que este, do outro lado da fronteira, dirigia ao Canadá, com a pretensão de o incorporar como 51º estado americano. Na noite de vitória, Carney não se esqueceu de “agradecer” a Trump o impulso que lhe deu para conquistar os votos da maioria dos canadianos. “O Presidente Trump está a tentar destruir-nos para que os EUA fiquem com as nossas terras, os nossos recursos, a nossa água, o nosso país”, declarou. “Isso nunca irá acontecer”, sublinhou, soltando uma longa ovação da multidão. E antecipou, em linhas gerais, alguns dos pontos que, já no início deste ano, iriam estar no centro do seu muito elogiado discurso em Davos: o fim da relação com os EUA baseada numa “integração crescente e constante” e o início de uma nova era alicerçada no fortalecimento de “relações com parceiros confiáveis ​​na Europa, na Ásia e noutros lugares”.

Mais recentemente, a pretensão ativa de Trump em relação à “compra” ou à invasão da Gronelândia, nos moldes habitualmente desproporcionados e ainda mais indelicados que o caracterizam, acabou por facilitar a vida da primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen, quando o seu governo de centro-esquerda estava a sofrer um desgaste de popularidade, visível nas sondagens. O braço de ferro de Frederiksen com o Presidente dos EUA e a sua determinação em não ceder às pressões do “amigo americano” funcionaram como uma espécie de poção mágica para o seu partido. E ela capitalizou o momento, com a mestria de uma veterana política: convocou eleições antecipadas e, embora não tenha alcançado a maioria absoluta com a qual chegou a sonhar, conseguiu ser eleita para um terceiro mandato como chefe de governo.


Agora, na Hungria, tudo indica que o apoio declarado de Donald Trump acabou por gerar a onda que fez transbordar o dique iliberal que Viktor Orbán construiu ao longo dos últimos 16 anos, com sucessivos atropelos à democracia. A sua submissão a Moscovo era já conhecida dos húngaros − e, é preciso reconhecê-lo, até muito apoiada por vários setores da população. Aliás, Orbán não o escondia e usava isso como trunfo eleitoral, para vincar a sua oposição a Bruxelas e aos ditames da União Europeia. Quer se queira, quer não, existe afinidade histórica, e até cultural, entre Budapeste e Moscovo, alicerçada mesmo em sonhos imperiais do passado e em glórias guerreiras do antigo leste europeu. Algo completamente diferente é, neste momento, mostrar-se aliado de um Presidente dos EUA que não inspira um pingo de confiança em ninguém, que se sabe apenas estar interessado na sua afirmação pessoal e que a qualquer momento, como se tem visto, pode mudar as regras do jogo, ameaçar com tarifas ou proclamar mais uma “obliteração” total.

As consequências estão à vista. Enfrentar Trump, no plano político, passou a ser uma medalha de bons serviços. Aceitar ser seu súbdito significa perder duas vezes: primeiro, a honra e, depois, os eleitores. As eleições na Hungria confirmam também um outro sinal positivo: começa a ser manifestamente difícil, com um Trump em roda livre contra tudo e contra todos, a exportação do movimento MAGA para países com tradição, História e cultura. Muita da extrema-direita europeia, aliás, já o percebeu e tem feito questão de se desmarcar de Washington em muito pontos, como já fizeram Marine Le Pen, em França, e Alice Weidel (AfD), na Alemanha – por cá, André Ventura prefere o silêncio… No entanto, algum do centro-direita continua a não querer ver o óbvio e permanece agarrado à ilusão de que tem de prestar vassalagem a todo e qualquer inquilino da Casa Branca. É um erro… tóxico.

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