quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Bolsonaro perdeu o primeiro, o segundo, e agora o terceiro turno

É só para quem pode, não é para quem quer. Bolsonaro perdeu o primeiro turno, perdeu o segundo e agora perdeu o terceiro. Não foi escolha dele perder o primeiro e o segundo – a culpa é do povo, que preferiu eleger Lula. Mas foi sua escolha perder o terceiro.

“Acabou”, ele admitiu em conversa com oito ministros do Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro os convidara para assistir ao seu pronunciamento no Palácio da Alvorada, o primeiro depois da derrota. Os ministros recusaram o convite. Foram sábios.


Foi a fala oficial mais curta do presidente que estava em silêncio há 45 horas. E Bolsonaro só a fez porque seu isolamento era crescente. No último domingo, ao não cumprimentar Lula pela vitória, Bolsonaro deu a senha para que fosse abandonado, e foi.

Os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados foram os primeiros a largá-lo de mão. Governadores eleitos, mesmo aliados dele, fingiram que nada aconteceu e tocaram suas vidas. Os chefes de partidos políticos já estavam em outra. Bolsonaro indignou-se.

Fora traído, berrou em mais de uma ocasião. Deixou de atender telefonemas. Mandou apagar mais cedo as luzes do Alvorada, e foi lamber suas feridas. Faltou ao trabalho na segunda-feira, mas até aí nada demais: ele não gosta de trabalhar. E, por canais ocultos…

Por eles, direta ou indiretamente, estimulou sua tropa de choque a ir para as ruas, bloquear estradas e tocar fogo em pneus. O país assistiu a cenas impagáveis. Talvez a mais impagável: bolsonaristas amotinados em Porto Alegre celebrando a anulação das eleições.

Os ministros do Supremo não acharam a menor graça no que viram: em menos de duas horas, formou-se, ali, maioria para avalizar a decisão de Alexandre de Moraes que ordenara à polícia o desbloqueio das estradas e a dispersão dos manifestantes.

Em seguida, passaram a pressionar Bolsonaro para que dissesse que respeitaria a Constituição. Ele disse, mas de má vontade. Não reconheceu a derrota, porém. E como não reconheceu, seus devotos sentem-se autorizados a continuar nas ruas.

Anderson Torres, da Justiça, foi o único ministro a aliar-se incondicionalmente a Bolsonaro: faz corpo mole, simula obedecer à decisão do Supremo, mas evita o uso da força para desbloquear as estradas. Esse idiota e mau servidor aposta no quê? No golpe?

Contra o golpe bolsonarista, basta convocar a Gaviões da Fiel e a Galoucura do Atlético Mineiro. As duas torcidas puseram a correr bolsonaristas que promoviam arruaças em São Paulo e na estrada que liga São Paulo a Minas. Futebol é coisa séria. Golpe, não é.

O dia da derrota de Bolsonaro no terceiro turno terminou com um carão à moda da toga. A convite dos ministros, ele foi ao prédio do Supremo reunir-se com eles. Por pouco, não lhe esfregaram na cara um exemplar da Constituição. Presentearam-no com um.

A maior vocação autocrata que o país conheceu desde o fim da ditadura vai embora tarde. E à saída, como os pombos, emporcalha tudo o que deixa para trás. O que não faria se fosse reeleito? Como disse Francisco, o Papa é argentino, mas Deus é brasileiro.

A "canarinha" virou arma política

A camisola nacional de futebol brasileira é uma daquelas camisas icónicas e imediatamente reconhecíveis em todo o mundo. Uma que ao longo da história do futebol tem inspirado tanto medo como admiração.

Poderia provavelmente perguntar a qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, fã de futebol ou não, de que país é essa camisola - e a maioria não pensaria duas vezes.

Usada por jogadores como Pelé (ou o rei como ele é referido no seu país), Garrincha, Sócrates, Zico, Ronaldo, Ronaldinho, entre tantos outros. O poder da camisa de futebol do Brasil é inegável. A nível mundial.

Um símbolo de orgulho num país dividido por profundas desigualdades sociais, um uniforme que em tempos representou um vasto país de 200 milhões de pessoas, uma nação obcecada com o desporto. Sim, os brasileiros também se destacam em coisas como o voleibol e o judo nos Jogos Olímpicos, e tiveram Ayrton Senna como lenda da Fórmula 1, mas é o futebol que os une verdadeiramente, dos mais pobres aos mais ricos.

Tradicionalmente durante os campeonatos mundiais, quando o Brasil joga, o país chega normalmente a um impasse quase completo. Quando eles organizaram a copa em 2014, os feriados nacionais foram declarados sempre que o país estava em campo.

E o Brasil continua a ser a única equipa do planeta a ter ganho CINCO copas do mundo, apesar de ter perdido as últimas.

Mas recentemente, essa mesma venerada camisola de futebol entrou na arena política de formas nunca antes vistas.

O Presidente Jair Bolsonaro conseguiu associar a sua própria personalidade política e a sua candidatura a um segundo mandato à amada camisola de uma forma muito eficaz.

Em comícios e manifestações políticas, os seus seguidores embrulham-se em bandeiras brasileiras e a maioria deles usam a majestosa camisa de futebol.

O próprio líder brasileiro veste a roupa com frequência, em eventos oficiais e não oficiais. Um dos seus maiores apoiantes, um homem de negócios de nome Luciano Hang, dono de uma enorme cadeia de lojas de departamento, veste publicamente um fato verde e amarelo completo quando está na presença de Bolsonaro.


Assim, Jair Bolsonaro e os seus associados ligaram nos últimos anos o Bolsonarismo aos símbolos nacionais do Brasil, tornando quase impossível para as pessoas distinguir agora o emblemático uniforme de futebol, com todo o seu simbolismo, da última campanha política do líder.

Nas ruas do Brasil de hoje, vestir o canarinho - um apelido histórico e afectuoso dado pelos brasileiros à sua própria camisola de futebol - tornou-se um acto político.

Basta ver algumas das imagens do último Dia da Independência, que em 2022 marcou 200 anos desde o fim da monarquia portuguesa no país, e verá como se tornou problemático para os não seguidores do Presidente Bolsonaro vestir o artigo.

Durante as comemorações de Setembro passado, o Presidente Bolsonaro foi acusado pelos seus críticos de realizar comícios políticos ao lado das suas funções oficiais em cerimónias realizadas tanto na capital Brasília como no Rio de Janeiro. E a cor escolhida pelos milhares de pessoas que assistiram aos comícios? Amarelo e verde. E o que foi usado pela maioria dos seus seguidores nestes eventos políticos? Adivinhou-o.

Uma pesquisa rápida nos meios de comunicação social prova quão divisória e intensa a política se tem tornado no Brasil nos últimos anos. Os apoiantes de Luis Inácio Lula da Silva, rival de Bolsonaro, usam vermelho, a cor do partido do Trabalhador, que ele representa. Os adeptos de Jair Bolsonaro usam verde e amarelo, e na maioria dos casos a camisola da seleçcão brasileira.

Recentemente uma das maiores estrelas mundiais do futebol, Neymar, que joga pelo Paris Saint-Germain e também pela selecção brasileira, e que tem vivido efectivamente na Europa durante a última década, declarou o seu apoio incondicional a Jair Bolsonaro, participando mesmo numa das famosas transmissões ao vivo do presidente na internet.

A campanha de Bolsonaro marcou um golo ao associar o seu candidato a um dos maiores jogadores actualmente na selecção nacional. Alguns questionaram as motivações de Neymar para uma tal demonstração pública de lealdade para com o político.

Durante uma entrevista, Lula foi rapidamente a insinuar que Bolsonaro tinha "perdoado" algumas das dívidas fiscais do jogador ao país. Neymar está actualmente a ser acusado de evasão fiscal em Espanha, onde tinha jogado antes de se mudar para França. O caso está em curso.

Outros atribuem o caso ao apoio de Bolsonaro a Neymar quando o jogador de futebol foi acusado de violação num hotel de Paris por uma modelo brasileira em 2019. O caso foi arquivado pelas autoridades brasileiras por falta de provas, e a reclamante foi mais tarde acusado de extorsão pelo pai de Neymar.

Mas a associação de um partido político, e do seu candidato presidencial, com a camisa memorável, tomou proporções nunca antes vistas no "país do futebol", pois assim os brasileiros referem-se à sua própria pátria.

A bandeira do país e as cores nacionais estão agora também a ser utilizadas como ferramentas para meios políticos pelo candidato em exercício. É definitivamente mais um golo da equipa de publicitários de Bolsonaro, mas um que deixa em aberto uma série de questões.

Onde ficam os milhões de eleitores que não apoiam o Bolsonaro e as suas políticas? Pode uma pessoa no Brasil hoje, independentemente da sua inclinação política, ir às lojas com a camisola da selecção nacional, sem medo de ser questionada ou mesmo intimidada por um apoiante de Lula?

Se alguém com a mesma camisa fosse declarar em público que não apoia o Presidente Bolsonaro, como reagiriam as outras pessoas?

Alguns fanáticos brasileiros foram acusados de extremismo político e violência mortal.

Em Agosto, Marcelo Arruda, que trabalhava como tesoureiro para a o Partido dos Trabalhadores local, no estado do Paraná, e um apoiante declarado de Lula, celebrava o seu 50º aniversário numa festa privada em que o tema era Lula. Alguns convidados usavam vermelho, o jingle da festa do trabalhador era tocado. A cara do famoso ex-presidente foi impressa no bolo de aniversário.

Não convidado e desconhecido da família, Jorge Rocha Garanho, invadiu com slogans associados ao Bolsonaro, a festa de aniversário. Desafiado, partiu, mas mais tarde regressou e matou a tiro o Sr. Arruda à queima-roupa, em frente da sua família e amigos que se tinham reunido para a celebração do aniversário.

Mais tarde, um juiz declarou o crime como sendo de motivação política e o assassino, que também foi baleado durante a "festa" mas sobreviveu, está actualmente preso.

No início deste mês ocorreu outro crime fatal. Um apoiante de Lula apunhalou o seu próprio amigo oito vezes durante uma luta na região costeira de São Paulo.

A vítima, José Roberto Gomes Mendes, um apoiante de Bolsonaro, estava a usar uma T-shirt com a cara do presidente impressa quando o ataque ocorreu. Mais tarde, ele morreu. O assassino, Luiz Antonio Ferreira da Silva, alegou autodefesa e confessou que tinha havido uma altercação sobre opiniões políticas.

Portanto, a questão principal agora é: será que um dia, quando toda esta divisão política acabar, e temos de acreditar que acabará eventualmente, será que TODOS os brasileiros serão capazes de reclamar a sua célebre camisa do futebol nacional e parar literalmente de se matarem uns aos outros?

Desordem é indignação?


Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral
Jair Bolsonaro



Golpista sendo golpista

De onde menos se espera, daí é que não sai nada, diria Apparício Torelly, o "barão de Itararé". Quase dois dias após ser derrotado nas urnas, Jair Bolsonaro deixou milhões de brasileiros e dezenas de profissionais da imprensa plantados, à espera do projeto de ditador finalmente reconhecer o resultado das eleições. Tolinhos — e eu me incluo nesse bonde.

Havia um tiquinho de esperança de que houvesse algum resquício de civilidade. O que tivemos foi mais do mesmo: golpista sendo golpista. Agradeceu aos votos dos eleitores, ignorou, como sempre fez, a outra metade do país para quem ele fez questão de não governar, e aproveitou o holofote para atiçar a militância.


"Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral." Tão direito como só um covarde consegue ser, deu a entender que não foi uma eleição limpa. Recorro ao "barão de Itararé", novamente: "não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar".

Jair Bolsonaro seria um prato cheio para o "barão" que de nobre tinha apenas o texto afiado, o deboche, o humor anárquico. Jornalista e escritor, Torelly não perdoava políticos, intelectuais, ricos e pobres. Deixou uma lista enorme de frases impagáveis que conversam com o nosso século e com a crônica política atual, embora uma delas tenha ficado datada. "O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato."

Sorte de o "barão" não ter conhecido o eleitor bolsonarista-raiz que não apenas se orgulha, como tem passado os últimos dias defendendo arruaça, fechamento de estradas e acredita que o país vai parar para defender o indefensável: golpe militar. "Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância", diria o barão. Mas isso é mais difícil para o bolsonarismo e para Jair Bolsonaro do que reconhecer a derrota.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Por qual das portas do Palácio do Planalto ele pretende ir embora?

Bolsonaro foi uma doença, que por mais grave que parecesse acabaria passando. Entrará para a história como o único presidente do Brasil que até aqui não conseguiu se reeleger. E como o pior presidente da história desde o fim da ditadura.

Tão logo sua derrota se desenhou, trancou-se no Palácio da Alvorada e não recebeu ninguém – nem os ministros mais chegados, nem seu candidato a vice, o general Braga Neto. No domingo, acordara convencido de que seria reeleito.

Não se preparou para a eventualidade de perder. Perdeu para Lula, que governará o país pela terceira vez e à sombra de quem transcorreu todas as eleições presidenciais de 1989 para cá; mas perdeu sobretudo para si mesmo. Abusou de errar.


O maior adversário de Bolsonaro foi Bolsonaro. Natural que fosse. No início de 2018, quem diria que aquele deputado federal do baixo clero, que nunca aprovou um projeto na Câmara, parasita dos militares que queriam distância dele, se elegeria presidente?

Ele estava cansado da sua desimportância e planejava desfrutar o resto da vida na companhia de Michelle e de Laura, a filha que nascera “de uma fraquejada”. Concorrendo à presidência, impulsionaria a carreira política dos filhos e iria descansar.

Era o que lhe bastaria. De repente, ao acordar da operação que em Juiz de Fora salvou sua vida, deu-se conta de que seria eleito. “Agora, é só administrar”, murmurou ainda sob efeito da sedação. Teve uma crise de choro no dia em que se elegeu e ficou em casa.

Não teria o que dizer às dezenas de jornalistas brasileiros e estrangeiros reunidos para ouvi-lo em um hotel da Barra da Tijuca. Precisava acostumar-se à ideia de que governaria o país por quatro anos sem dispor de um plano, nem de mínimas condições para tal.

Quando acordar hoje, terá de fazer uma escolha que definirá seu futuro: reconhecer ou não a derrota. Se reconhecer e facilitar a transição para o próximo governo, poderá sonhar, pelo menos sonhar, em liderar a oposição ou parte dela de olho em 2026.

Se não reconhecer, se disser que a eleição foi fraudada, seu destino será a lata do lixo. Quem o apoiaria na aventura de tentar melar as eleições? Os militares? Esqueçam. Eles choram a derrota que também foi deles, mas em breve baterão continência para Lula.

O Centrão? Piada. O Centrão já está em outra. Não jogará fora das “quatro linhas da Constituição” porque só ganha jogando dentro. Lembrem-se: em 1964, a maioria dos políticos acreditava que a ditadura seria algo fugaz. Não foi. Durou 21 anos.

Em 1961, ao renunciar à presidência com apenas seis meses no cargo, Jânio Quadros voou a São Paulo carregando a faixa que recebera de Juscelino Kubistchek e que enfeitou o peito de todos que o antecederam. Jânio imaginou voltar nos braços do povo.

Teve que devolver a faixa que, mais tarde, enfeitaria o peito dos generais que o sucederam na presidência. O último deles foi João Baptista de Oliveira Figueiredo, um oficial da Cavalaria, que ao saber que passaria a faixa a José Sarney, negou-se.

Figueiredo poderia ser melhor lembrado pela história, afinal deu continuidade à política de abertura política inaugurada pelo general Ernesto Geisel, concedeu a anistia aos exilados e presos políticos e resignou-se a ir embora – mas, não.

O general é lembrado por ter saído do Palácio do Planalto pelas portas do fundo para não cruzar com Sarney. Na verdade, foi por uma porta lateral, mas a história é impiedosa. Figueiredo não acabou no Irajá, mas na Barra da Tijuca a mendigar atenção.

Bolsonaro tem casa em um condomínio na Barra da Tijuca. E sempre terá Fabrício Queiroz, o administrador da rachadinha dos filhos Zero, para pescar com ele. Queiroz candidatou-se a deputado federal pelo Rio e perdeu. Serão dois sem mandato.

Pensamento do Dia

 


Protesto de caminhoneiros ressalta a importância do segundo turno

As manifestações de caminhoneiros, ontem, com bloqueios de estradas em 16 estados, em protesto contra a vitória do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, no domingo, não são propriamente uma surpresa; são ações planejadas por uma extrema direita golpista, que sempre procurou desacreditar as urnas eletrônicas e trabalhou para construir um cenário de deslegitimação do resultado das eleições, caso o presidente Jair Bolsonaro fosse derrotado. Entretanto, é um movimento que não tem a menor chance de dar certo.

As lideranças dos caminhoneiros talvez nem saibam, mas estão derrotados desde o 7 de Setembro de 2021, quando ocuparam a Esplanada dos Ministérios e ameaçaram invadir o Supremo Tribunal Federal (STF), furando o bloqueio da Polícia Militar do Distrito Federal. Àquela ocasião, foram insuflados pelas manifestações bolsonaristas de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, e pelos ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas. A reação das instituições e da sociedade foi inequívoca: não haveria apoio suficiente para impedir que as eleições deste ano fossem realizadas, com a utilização do sistema de urna eletrônica, nem que o ex-presidente Lula fosse candidato.

Todas as tentativas de tumultuar o processo eleitoral e desacreditá-lo, desde então, foram frustradas. Em todos os momentos em que Bolsonaro atacou a Justiça Eleitoral e, principalmente, o seu presidente, ministro Alexandre de Moraes, houve fortes reações das lideranças políticas e das instituições democráticas, que culminaram no manifesto lançado em 25 de agosto passado, por estudantes e professores da tradicional Faculdade de Direito do Largo do São Francisco (USP), que teve o papel de grande divisor de águas entre os setores democráticos da sociedade e aqueles que apostavam numa aventura autoritária, com a qual Bolsonaro acabou identificado.

Esse divisor de águas está tendo um papel decisivo no reconhecimento do resultado das eleições de domingo. A estreita vantagem numérica de Lula, ao obter 60.345.999 votos (50,9% dos votos válidos), contra 58.206.354 votos (49,1% dos votos válidos) de Bolsonaro, não reflete a dimensão do apoio que o resultado da eleição obteve imediatamente após o encerramento da apuração. A vitória de Lula foi reconhecida pelos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG); pelo governador eleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos); e pelo presidente do PL, Valdemar da Costa Neto. Seus principais aliados afastam qualquer possibilidade de uma reação golpista.

O reconhecimento internacional ao resultado das eleições, entre os quais destacam-se a rapidez com que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o presidente francês, Emmanuel Macron, saudaram a vitória de Lula, e o acompanhamento em tempo real do pleito pela mídia internacional são outra barreira a eventuais intenções golpistas. Mas o que realmente torna inequívoca a vitória do petista é o fato de termos uma eleição em dois turnos, desde a Constituição de 1988, uma sábia decisão dos constituintes, tomada com base na nossa história política.

Getúlio Vargas voltou ao poder em 1950 numa eleição consagradora, com 48,83% dos votos, o que não impediu que seu mandato fosse confrontado até a crise de agosto de 1954, quando se matou, embora seu principal adversário, Eduardo Gomes, tivesse obtido apenas 29,66% dos votos. É famosa a frase de Carlos Lacerda, o líder da UDN: “O sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. Os setores que contestam o resultado da eleição repetem exatamente o mesmo raciocínio, porém, nenhuma liderança política de expressão da base governista defende essa posição.

Juscelino Kubitschek, o construtor de Brasília, foi um grande presidente da República, mas sua posse também foi contestada. Fora eleito com 36% dos votos, seguido por Juarez Távora, que obteve 30%. A UDN passou a defender a deposição de JK. Em 1956, iniciou-se em Jacareacanga-PA um movimento de militares contrários a JK; em 1959, na cidade de Aragarças-GO, ocorreu outro levante militar contra o presidente, reprimido por forças legalistas lideradas pelo marechal Henrique Teixeira Lott.

Caso a eleição fosse em turno único, Lula seria vitorioso com 57.259.504 (48,43%) votos, contra 51.072.345 (43,20%) de Bolsonaro, uma boa vantagem em relação ao atual presidente, mas não a maioria dos votos. O segundo turno foi realizado exatamente para que a maioria fosse inequívoca, como aconteceu. A demora de Bolsonaro para reconhecer a vitória de Lula alimenta especulações e a agitação golpista. Entretanto, ao mesmo tempo, funciona como um fator de desgaste político, que pode resultar numa liderança menor do que aquela que teria, com a grande votação que obteve, se optasse por reconhecer logo o resultado e assumisse o papel de líder da oposição, em bases democráticas.

Fragmentos da comemoração na Avenida Paulista

Caminhar pela Paulista até o MASP foi como aterrissar no coração da democracia. A vitória de Lula fez milhares de pessoas esquecerem o medo de uma vingança dos fascistas que desatariam violências para tentar acabar com a festa. Não apareceram, e a avenida só recepcionou sorrisos e abraços.

A velha militância petista, com seus cabelos grisalhos e os olhos marejados, se misturou a muitos jovens, que exalavam a energia política das próximas décadas. Essa eleição provocou essa nova geração, ao menos a parte dela que não se submete ao racismo, à homofobia e ao machismo.



Assim, os dois sentidos da Paulista foram tomados pela diversidade. Estavam lá também famílias com crianças, todos esperando que Lula subisse no carro de som e os saudasse. Quando seria? A expectativa aumentava o volume do coro, as canções da campanha, “ôôô, o Lula voltou”, as caixas de som berravam “”Tá na hora do Jair já ir embora”. O ainda atual presidente foi lembrando com um carinhoso “Ei Bolsonaro vai toma no cu”.

Desgarrar os símbolos nacionais, como a bandeira e a camisa da seleção da extrema-direita pareceu o primeiro projeto político da avenida. Uma bandeira do Brasil gigante foi estendida, camisas amarelas da Nike pipocavam e pequenas bandeiras de plástico enfrentavam freneticamente o vento. Mas o vermelho prevaleceu. Falando de futebol em ano de copa, Neymar foi reverenciado com xingamentos e uma canção que exaltava sua ex-namorada Bruna Marquezine.

Quando Lula subiu no carro de som, o formigueiro se espremeu e o espaço entre as pessoas sumiu. Os braços levantados empunhavam o “L” e as vozes se fundiram em “Lula, guerreiro, do povo brasileiro”. Voltaram as lembranças de 2002, quando essa mesma avenida se derramou de esperança.

Acompanhado do carisma de Janja, da discrição Geraldo Alckmin (PSD), da lealdade de Fernando Haddad e Gleisi Hoffman, Lula disse que “essa não é uma vitória minha, uma vitória só do PT. É uma vitória de toda nação, de quem resolver liberar o país do autoritarismo”. Agradeceu Simone Tebet mais uma vez.

“A partir de amanhã eu tenho que começar a me preocupar como é que a gente vai governar este país. Eu preciso saber se o presidente que nós derrotamos vai permitir que haja uma transição para que a gente tome conhecimento das coisas”, discursou o novo presidente.

Houve um emocionado minuto de silêncio para as vítimas da pandemia. E enquanto Daniela Mercury cantava, as pessoas começaram a se dispersar. Antes o Hino Nacional foi cantado a plenos pulmões. Perguntei a um vendedor de água, o que ele achava da vitória de Lula: “Pra mim não vai mudar nada, vou continuar trabalhando e morando na rua”.

Domingo foi dia de comemorar. Mas a segunda-feira cinza e chuvosa em São Paulo parece anunciar os enormes desafios e dificuldades que o país e a democracia enfrentarão nos próximos anos.

Acabou o pesadelo!

Acabou! Chega! Depois de muitas fake news, muita gritaria nas redes sociais e de muito medo de pessoas armadas fazendo loucuras, o Brasil se livrou de um incendiário para respirar novamente. O país elegeu um presidente que busca a paz, a pacificação, a volta ao normal.

Parece uma viagem no tempo: vejo as imagens da Avenida Paulista tomada por apoiadores de Lula, festejando sua terceira eleição. Em 2002 e 2006, estive na Paulista para ver a festa das vitórias de Lula. Eram tempos de esperança, de ventos novos e fortes.

Depois, estive nas manifestações de junho de 2013, quando o PT de Dilma começou a perder a rua. E estive em 2015 e 2016, quando a massa verde e amarela pediu a cabeça de Dilma. Ah, também vi o boneco inflável de Bolsonaro na Paulista. Agora o boneco broxou, e o PT retomou a Paulista.


Voltamos para o final do ano de 2010, com o terceiro mandato de Lula. Será? Parece que os anos de 2011 a 2022 foram uma década perdida. E dolorosa demais. As manifestações de 2013, o 7 a 1 de 2014, a tempestade perfeita de 2015 e 2016, os anos Temer, a Lava Jato e a prisão de Lula. E o mandato de Jair Messias, com as florestas queimando, o desprezo pelo coronavírus, a escalada armamentista e as ondas de fake news.

Acordamos agora de um pesadelo? Não, foi tudo real. Quantas experiências horríveis, quanta desgraça, quantas brigas. Mas agora chega. Agora o Brasil volta a ter relações normais com o resto do mundo e consigo mesmo. Espero.

E o Brasil volta a proteger os indígenas e as florestas. Volta a ter uma política para a cultura. Volta a priorizar livros e não armas. Volta a valorizar universidades e não quartéis.

Para isso, o Brasil se livrou da extrema direita, como os Estados Unidos fizeram há dois anos ao eleger Joe Biden. Temos a sorte que os pesadelos acabaram mais cedo do que o previsto. Pois nunca antes um presidente havia perdido a reeleição. Agora perdeu, mesmo abusando da máquina governamental.

Mas, para livrar o país, Lula precisou de mais de 60 milhões de votos. Bolsonaro, por sua vez, juntou mais de 58,2 milhões de votos, uma imensidão. Foi por pouco – 2 milhões de votos – que o Brasil escapou de mais uma tragédia. Imaginem!

Foram os pobres e as mulheres, a maioria deles do Nordeste, que salvaram a democracia brasileira. Não vamos esquecer disso. E não vamos esquecer que é um homem condenado em processos duvidosos e sem provas concretas, que teve que passar 580 dias na prisão, que agora estende a mão para pacificar o país. Isso é de uma grandeza impressionante.

Enquanto isso, do Palácio do Planalto em Brasília, sai um silêncio estarrecedor. Nenhuma palavra, nem a ligação obrigatória para dar os parabéns para o vencedor. Nem para uma saída digna serve. Mas vai acabar logo, no 1º de janeiro o Brasil volta ao normal. Espero que os incendiários larguem os fósforos e baixem as armas. Chega dessa loucura.
Thomas Milz

O golpe de Estado continuado

Neste domingo tornou-se evidente que está em curso um golpe de Estado no Brasil. É um golpe de tipo novo, cujo curso poderá não ser substancialmente afetado pelo resultado das eleições, ainda que a vitória de Lula da Silva certamente afetará o seu ritmo.

É um golpe que começou a ser posto em movimento em 2014 com a contestação dos resultados das eleições presidenciais ganhas pela presidente Dilma Rousseff; prosseguiu com o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016; com a prisão ilegal do ex-presidente Lula da Silva em 2018 de modo a impedi-lo de concorrer às eleições que foram ganhas pelo presidente Jair Bolsonaro, beneficiário principal do golpe de Estado na sua fase atual.

Com a eleição de Jair Bolsonaro encerrou-se a primeira fase do golpe e iniciou-se uma segunda. Tal como Adolf Hitler em 1932, Jair Bolsonaro tornou claro desde o primeiro momento que se servira da democracia exclusivamente para chegar ao poder e que, uma vez atingido este objetivo, exerceria o poder com o exclusivo objetivo de a destruir. Nesta segunda fase, o golpe assumiu a forma de esvaziamento lento da institucionalidade e da cultura política democráticas, cujos principais componentes foram os seguintes.

No domínio da institucionalidade: exploração de todas as debilidades do sistema político brasileiro, nomeadamente do poder legislativo, aprofundando a mercantilização da política, a compra e venda de votos dos representantes do povo no período entre eleições e a compra e venda de votos de eleitores durante os períodos eleitorais; a cumplicidade do sistema judiciário conservador incapaz de imaginar a igualdade dos cidadãos perante a lei e habituado a conviver tanto com o primado do direito como com o primado da ilegalidade, dependendo dos interesses em causa; a captura das Forças Armadas através da distribuição massiva de cargos ministeriais e administrativos.

No domínio da cultura política democrática: a apologia da ditadura e dos seus métodos repressivos, incluindo a tortura; utilização massiva das redes sociais para divulgar notícias falsas e promover a cultura do ódio e uma ideologia de bem-estar esvaziada de outro conteúdo que não o do mal-estar ou sofrimento infligido ao “outro” construído como inimigo; a capilarização no âmago do tecido social do imperialismo religioso conservador dos EUA (evangelismo neopentecostal) em vigor desde 1969 como preferencial política contra-insurgente.


Esta fase concluiu-se no final do primeiro turno das eleições presidenciais em 2 de outubro passado. A partir daí, entrou numa fase nova assente no ataque frontal ao núcleo duro da democracia liberal, o processo eleitoral e as instituições encarregadas de garantir o seu decurso normal. Esta fase é qualitativamente nova em razão de dois fatores.

Em primeiro lugar, tornou-se mais clara a internacionalização do ataque à democracia brasileira por via de organizações de extrema direita globais originárias e financiadas pela plutocracia norte-americana. O Brasil transformou-se no laboratório da extrema direita global; aí se testa a vitalidade do projeto fascista global em que o neoliberalismo joga um novo (último?) fôlego.

O objetivo principal é a eleição de Donald Trump em 2024. Informações fidedignas dão-nos conta de que as empresas de desinformação e de manipulação eleitoral ligadas ao notório fascista Steve Bannon estiveram instaladas em dois andares de uma das ruas principais de São Paulo donde dirigiram as operações.

Nesta fase eleitoral, as duas estratégias principais foram as seguintes. A primeira foi a intimidação para impedir o “voto errado” e os benefícios em troco do “voto certo” oferecido pelo baixo empresariado e por políticos locais. A segunda, há muito utilizada pelas forças conservadoras nos EUA, sob o nome de vote suppression, foi a supressão do voto. Tratou-se de um conjunto de medidas excecionais, sempre sob o verniz da normalidade legal, destinadas a impedir os grupos sociais mais inclinados a votar no candidato oposto aos golpistas de exercer o seu direito de voto: bloqueios de estradas, excesso de zelo na fiscalização de veículos que transportam potenciais votantes, intimidação de modo a provocar a desistência, suspensão de transportes gratuitos decretados pela lei eleitoral para promover o exercício do direito de voto aos mais pobres.

E agora, Brasil? A democracia brasileira sobreviveu a esta nova fase do golpe de Estado continuado. Para isso contribuiu o notável e destemido envolvimento dos democratas brasileiros que viram no seu voto a prova de uma vida minimamente digna, a afirmação da sua auto-estima civilizatória, o princípio ativo da energia democrática para os tempos difíceis que se avizinham. Contribuiu também a firmeza das instituições da justiça eleitoral, no meio de pressões, de desautorizações e de intimidações de todo o tipo. Mas seria estultícia irresponsável pensar que o processo golpista terminou. Não terminou e vai entrar numa nova fase porque as condições e as forças nacionais e internacionais que o reclamam desde 2014 continuam vigentes e só se fortaleceram nestes anos mais recentes.

O golpe de Estado continuado vai entrar numa nova fase. De imediato, será provavelmente a contestação dos resultados eleitorais para compensar o fracasso dos golpistas em não terem conseguido os resultados que pretendiam com as múltiplas fraudes que praticaram. Depois, o golpe assumirá outras formas, ora mais subterrâneas com a utilização do crime organizado para intimidar as forças democráticas, ora mais institucionais com a mobilização desviante do poder legislativo para criar uma situação de permanente ingovernabilidade, nomeadamente com a ameaça de impeachment do governo eleito e dos quadros superiores do sistema judicial.

Embora o objetivo de médio prazo dos golpistas seja impedir que o Presidente Lula da Silva termine o seu mandato, o processo do golpe continuará e só será verdadeiramente neutralizado quando os democratas brasileiros se derem conta de que a vulnerabilidade da democracia é em boa medida auto-infligida, pela arrogância em pretender ser a única condição para a legitimidade do poder em vez de assumir que a sua legitimidade estará sempre à beira do colapso numa sociedade socioeconómica, histórica, racial e sexualmente muito injusta.

domingo, 30 de outubro de 2022

Brasil em decisão

 


Estupidez é arma, e mata

A estupidez seria má conselheira, segundo ditado português. Há quatro anos neste mesmo período, a estupidez espumava com dentes arreganhados, para quem não seguia seu pensamento infame. Fosse quem fosse, votasse até mesmo em azarão ou optasse pelo voto nulo ou a abstenção, merecia a mesma infâmia de não ser patriota. 

A demolição sistemática do país, das instituições e mesmo de órgãos de reconhecimento internacional, incrementou a estupidez nacional, agora infiltrada em outros rincões nunca antes atingidos. 

Enterrados as centenas de milhares de mortos pela Covid, não há um resquício de respeito àqueles que sofreram e morreram em nome da estupidez. Continuam milhões a espumarem o ódio sem olhar a quem. É a hora do assédio constante no melhor estilo do autoritarismo a impor-se sobre tudo e todos.

O país está atolado na mediocridade, que os "arrependidos" tanto impulsionaram, os calados deixaram pra lá e a cambada dos canalhas ainda ovaciona. 

Independente do que aconteça neste domingo, e nos dias subsequentes, há uma certeza que serve de lição: a estupidez mata e destrói uma nação sem ficar pedra sobre pedra. 

Os quatro anos de estupidez, se não houver recaída, fizeram uma estrago que não está contabilizado em moeda. Seria o de menos, estes últimos anos abalaram a estrutura social e emocional das pessoas a partir do momento que a bandeira de todos foi sequestrada pela estupidez. 

A Alemanha sabe muito bem o quanto custou para domar a estupidez nazista. O Brasil ainda precisa aprender mais sobre sobre essa face do autoritarismo que divide em torcida para 
melhor dominar.

Luiz Gadelha

Duro opositor do PT, médico torturado por Ustra declara voto em Lula

O médico Gilberto Natalini, de 70 anos, foi preso 18 vezes durante a ditadura militar. Sua primeira prisão, em 1972, foi a que mais a marcou. Foram 42 dias detido no temido Doi-Codi de São Paulo, comandado pelo oficial Carlos Alberto Brilhante Ustra, quem o recebeu naquelas instalações.

Natalini relata que foi torturado diretamente por Ustra, quem via todos esses dias. Então com 18 anos, o médico era naquele ano estudante de medicina. Levou choques elétricos nos ouvidos, que comprometeram sua audição até hoje. Gostaria de ter sido cardiologista, mas a dificuldade em ouvir as captações do estetoscópio o impediu.

Os dois – Ustra e Natalini – se reencontraram 41 anos depois, quando prestaram depoimento na Comissão Nacional da Verdade, em Brasília, em 10 de maio de 2013. O militar disse que impediu a instalação do comunismo no Brasil, que lutou contra o terrorismo e que nunca matou ou torturou alguém.

“Cumpri todas as ordens. Ordens legais. Nunca, como se diz, ocultei cadáver, cometi assassinato. Vou em frente nem que morra assim. Lutei, lutei e lutei. E tenho dito” – declarou Ustra naquele dia.

Presente no auditório, Natalini deu um testemunho antes e confirmou ter sido vítima de Ustra. A certa altura, o então presidente da comissão, Cláudio Fonteles, perguntou a Ustra uma acareção com Natalini. Ele recusou.

“Não faço acareação com terrorista”.

E se iniciou um bate-boca entre eles.

“O senhor que é bandido”.

Passados todos esses anos, Natalini, que foi do PCdoB, ajudou a fundar o PSDB. Depois, se filiou ao PV. Nunca morreu de amores, de quem é crítico ferrenho. Foi vereador por cinco mandatos e sempre de oposição a gestões petistas. Mas, agora, anunciou voto em Lula. Será a segunda vez que vota num petista. A primeira vez foi também em Lula, em 1989.

“Vou relevar tudo que fizeram para evitar o mal maior”.


O senhor anunciou agora que irá votar no Lula, partido que sempre se opôs, apesar de tudo. Qual a razão?

Sou muito crítico ao PT. Vi o PT nascer, eu era PCdoB. Tivemos uma guerra com o PT no início, que veio tomando o lugar dos comunistas. Disputou muito com a gente, do partidão. Disputa quase até física. Até João Amazonas (fundador do partido) criticou o PT. E depois aderiu. O PCdoB aderiu ao PT. Depois, saí. Fiz muita oposição na Câmara ao PT. Nunca votei no PT. Exceção em 1989, contra o Collor. Sou um crítico contundente do PT. Em 2018 anulei meu voto no segundo turno. Fiz oposição ao Haddad na Prefeitura.

O que o sr. critica no PT?

O PT não tinha o direito de fazer o que fizeram. Vieram empurrando todo mundo. Fui secretário de saúde de Diadema (SP), logo após uma gestão do PT. Para ter ideia, apagaram todos os dados dos computadores da secretaria. Simplesmente isso.

Não seria natural um ex-perseguido e torturado pela ditadura votar em Lula?

É um engano isso. Nem todos perseguidos votam no Lula. A turma da esquerda velha de guerra morreu toda de fome. O João Amazonas, tiveram que fazer vaquinha para comprar o seu caixão. Prestes, Brizola. A turma tinham muito princípio e moralidade imensa. Aquela esquerda não era demagógica. Por isso eu critico do PT. Tomou a bandeira da esquerda, só que os princípios não preservaram. Tem coisas graves do PT no trato da coisa pública.

Mas agora irá votar em Lula.

Em 1989, votei contra o Collor. Agora, vou relevar minhas críticas ao PT, que não vou esquecer jamais. Sei o que vocês fizeram no verão passado, como se diz. Estamos diante de uma ameaça brutal a democracia, que é o Bolsonaro. Eu vou me compor com essa frente democrática. Tenho pedido voto para o Lula nas redes. Só não participo de reuniões. Não sou baba ovo. Meu apoio a Lula é pela democracia, pela defesa do meio ambiente, uma causa cara para mim. Meu voto foi muito sofrido para ele conquistar.

Mas em 2018, não votou em Haddad? Bolsonaro tinha elogiado Ustra.

Em 2018, não conseguia votar em Bolsonaro por causa do Ustra. Fui torturado diretamente por ele. Choque elétrico. Me torturou em 1972, no Doi-Codi, na Oban, em São Paulo. Jamais votaria nessa direita incivilizada e cruel. No Haddad, não conseguia porque fui oposição a ele na Câmara. Mas dessa vez, não dá. Bolsonaro é truculento, armamentista. Não posso me omitir quem tem Ustra como ídolo. Está em jogo a sorte do meu país. Vou fazer um esforço enorme, passar por cima do que tenho contra o petismo e vou votar no Lula. E estou recomendando na minha família.

Pode comentar um pouco de sua perseguição e prisão na ditadura?

Fui 18 vezes preso. Na primeira vez, foram 45 dias lá no Doi-Codi. Interrogado e torturado pelo Ustra. O via todo dia. Me deu choque, ficou horas com o pedaço de pau à minha frente. Eu tinha 18 anos, era estudante de medicina. Eu nunca dei um tiro em ninguém. Nunca dei uma facada. Sou da disputa política, não da luta armada. Mas, mesmo que eu tivesse pego em armas, depois que você prende uma pessoa, a desarma e submete um ser humano adversário na cadeia não pode, pelas leis de guerra, torturar. É muito ignóbil. Ele era um expert em tortura. Depois, fui preso pelo Dops. Minha última prisão foi no governo Sarney, em 1985, após uma manifestação. Fiz o enterro do Sarney. Fiquei horas preso, mas era uma prisão mais para constrangimento. Já estava começando a abertura. Tenho 70 aos e sigo estribuchando na luta. Só vou parar quando parar de respirar.

Como foi reencontrá-lo 40 anos depois?

Não foi fácil. O enfrentei e ele se negou a fazer uma acareação. Disse que não faria acareação com terrorista. O chamei de mentiroso na sua frente e de bandido e torturador. O pessoal da Comissão da Verdade, depois do embate, me ofereceu ir num carro da Polícia Federal até o aeroporto e que um delegado me acompanhasse até entrar no avião. Dispensei. Enfrentei o Ustra quando comandante do Doi-Codi.

A tortura deixou o sr. com sequelas.

Sim. Fiquei com uma lesão auditiva, perda nos dois ouvidos. Foi choque elétrico. Ustra rodava a manivela da máquina. Um fio era chamado de pimentão, choques de 250 volts. O outro, era o pimentinha, de 100 volts. Tive cada um deles nos meus ouvidos. Uma dor indescritível. Queria ser cardiologista, mas, pelas lesões, não conseguia ouvir os sopros cardíacos com o estetoscópio. Quem tem Ustra como ídolo se afastou da raça humana.

Os evangélicos contra-atacam com ‘Messias’

Na época da ditadura militar, um censor, furibundo com alguns diálogos de uma peça teatral, convocou o autor a dar explicações. Por razões conhecidas, Shakespeare não pôde comparecer. Nestes tempos michelenescos, o afável arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, se viu obrigado a explicar por que usa vestes vermelhas. O inquisidor ouviu algo mais ou menos assim:

“É a cor dos cardeais, meu filho”, e no Twitter, dom Odilo cravou: “Conheço bastante a História. Às vezes, parece-me reviver os tempos da ascensão ao poder dos regimes totalitários, especialmente o fascismo. É preciso ter muita calma e discernimento nesta hora!”

Dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, buscou inspiração em trecho de “Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski, para cravar sua incredulidade diante da terra arrasada pelo Bolsolão: “Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras chega ao ponto de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo”.


É possível que algum eleitor de Damares ou um pastor que prega nos cultos contra os homossexuais venha a chamar os Karamazov de comunistas, mas, vá lá, é da vida: o chefe deles já disse que -5% + 4% são 9% positivos. Perdoai-o, mas com Oscar Wilde na cabeça:

“Os loucos às vezes se curam; os imbecis, nunca”.

Desde a redemocratização, pela primeira vez a Igreja Católica, trazida à vida terrena, se vê às voltas com laivos autoritários. Na ditadura militar não ocorreu; mas no regime nazista aconteceu algo semelhante às cenas de 12 de outubro. No dia de Nossa Senhora Aparecida, a milícia bolsonarista perseguiu padres em Aparecida , vaiou a homilia da missa principal, gritou palavrões e ainda fez brindes com latas de cerveja dentro da igreja.

A turba ensandecida saiu das redes sociais, incensada pelos pastores bolsonaristas, e, inspirada pelo desamor exalado por seu capitão, agora se comporta como milícia armada —e mira o contingente de fiéis católicos.

Ali pelo século IV e V, os protocristãos, perseguidos pela ignorância e pelo ódio, eram jogados aos leões, em espécie de sádico prazer.

O sadismo se manifesta diante do infortúnio alheio — por exemplo, imitar alguém sufocado pela Covid-19. Ou na descrição libidinosa, detalhada e colorida, com brilho nos olhos, de crianças com dentes arrancados para fazer sexo oral. O prazer doentio se revela nas interjeições.

A milícia atual vigia, e ameaça e caça, conceitos vagos ditados por uma sombra escura de inclemência e ressentimento. Reagem, à semelhança dos ratos de Pavlov, quando explodem em seus ouvidos palavras como miséria, fraternidade ou empatia. Por desconhecerem o Evangelho, atacam os padres durante os sermões. E destroem imagens de santos. E correm atrás de quem veste batina.

As palavras de Cristo, em ensinamentos gravados na Bíblia, são ouvidas agora como acintes da esquerda. A turba esquece que Jesus Cristo acabou crucificado por seu tom solidário e generoso, verdadeiro incômodo ao poder da época: “Não roubarás; não matarás”; e, sentiram as meninas venezuelanas, “não desejarás a mulher do próximo”.

O problema de quem vaiou a catequese no Santuário de Aparecida é ter lido apenas a orelha dos Evangelhos e/ou acreditar na má-fé dos pastores bolsonaristas, religiosamente incultos e ideologicamente comprometidos. O cristianismo (como filosofia) nasceu em meio ao descalabro da escravidão, da pobreza brutal e da miséria civilizacional —pedofilia, satanismo, matanças entre os clãs, abuso de poder.

Demorou para a Igreja Católica ser enredada e reagir, de maneira ainda capenga, à instrumentalização da fé religiosa como base partidária. Os cães bolsonaristas há tempos vociferam a postura intolerante de jogar os adversários aos leões. É a mesma toada da turba romana.

Os ataques às homilias e aos padres em diversas igrejas Brasil afora ocorrem quando ecoam os ensinamentos contra a violência, a intolerância e a mentira. De novo, Dom Leonardo Steiner: “Usar a religião como ameaça a fim de angariar voto tem cheiro de imoralidade”.

O manejo descarado e argentário da religião, se no momento atiçou parte da cúpula católica brasileira, obrigada a reagir ao retrocesso civilizacional (“quero todo mundo armado”), agora gera mobilização entre as denominações não embolsadas.

Desde dias atrás, o projeto de poder messiânico de Michelle e Damares é desafiado dentro de seu quintal, encarnado pelo hit gospel “Messias”, cantado por Leonardo Gonçalves, entre os maiores sucessos no YouTube. Vale muito ouvir. A letra deve azedar as manhãs delas: E tudo isso por causa de política/Por causa de um falso pânico moral/Promovido pelos donos de igreja/Que tiveram o perdão de uma dívida /De 1,4 bilhões de reais/Decretado pelo presidente da República (…)/A gente tem fome e sede de justiça.

Para os religiosos independentes, tem nome e endereço o satanás.

O sétimo círculo do inferno

Nada é mais perigoso do que uma ideia quando não se tem outras. Isso soa clichê, mas resume à perfeição o programa de governo atual: a ideia fixa da violência armada. Para essa questão social, potencializada pela triplicação da posse de armas no país, é fraquíssima a oposição do discurso progressista. Talvez porque seja fraca a percepção democrática da diferença entre força e violência. Vale uma mirada etimológica: a origem da palavra ("vis") traduz as duas noções.

Não há sociedade que prescinda da força, nem história social de que esteja ausente a violência, seja como condição ou como ato. É disruptiva tanto coletivamente, em caso de guerra, quanto individualmente, como anomia. Na Divina Comédia, Dante reserva aos violentos o vale do Flegetonte, o sétimo círculo do inferno. A modernidade tenta proteger-se com o monopólio estatal do fenômeno.


Mas os cidadãos temem primeiro os atos e não o pouco visível estado de violência, por mais que uma sociedade estruturalmente desigual esteja sempre afeta a atos de anomia. De fato, a iniquidade econômica e política dá sempre margem a ciclos expansivos da violência.

Entre nós, uma política preventiva deveria começar desmistificando a imagem romantizada do país. O escravismo e o patriarcalismo adestraram as elites na negação das diferenças pelo extermínio puro e simples. Atávicos nas formas coletivas de consciência, esses fenômenos fossilizados respondem até hoje pela naturalização de práticas violentas contra a gente mais pobre.

Individualmente, violência ou desmedida da força é o ovo da serpente entocada no mesmo terreno do diálogo. É o espaço também marcado por vetores sociais anacrônicos, como a suposta ascendência física do homem sobre a mulher. Um mito desmentido pela própria tecnologia dos corpos: força muscular jamais foi a fonte real de poder. Sem diálogo, ao ver contrariada a perspectiva mítica de seu domínio, a contraparte masculina, movida por fúria patriarcal-narcísica, resvala para a violência. Em ricos e pobres, violência é linguagem sem palavras, expressão envenenada da miséria humana.

Violência organizada, porém, é estratégia coletiva de poder, aliás, o único ponto inequívoco do desgoverno federal. A farra das armas, que inflama o estado de violência com surtos agressivos, é a cara sem máscara do terror. Colecionador, praticamente um miliciano incubado, é uma intimidação latente. Mafializou-se a vida social desde o Norte até o Sudeste, que perde território para milícia e tráfico. O elevado potencial de guerra urbana é a mais vexatória ameaça à sociedade civil. Com o Estado caindo de quatro frente ao crime, a política de violência armada é a própria autonegação do Brasil republicano.

'Nacionalismo cristão se tornou uma ideologia política'

Durante o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL), a diplomacia brasileira se empenhou para inserir o Brasil em uma aliança global de extrema direita, com um viés cristão ultraconservador.

Os movimentos feitos nesse sentido chamaram pouca atenção no Brasil, mas foram acompanhados com muita preocupação pelo teólogo Ronilso Pacheco, professor assistente do Departamento de Filosofia na Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos.

"Enquanto a gente brincava com o Eduardo Bolsonaro falando inglês e fritando hambúrguer nos EUA, almejando ser embaixador em Washington, ele já tinha construído relações com o submundo da extrema direita internacional", comenta Pacheco, que é pastor licenciado de uma comunidade batista em São Gonçalo (RJ).

O pesquisador chegou aos EUA interessado em estudar a Teologia Negra. Ao se debruçar sobre o funcionamento da supremacia branca no país, chegou ao tema do nacionalismo cristão, que se fortaleceu em diferentes países nos últimos anos. Trata-se de um movimento internacional que atua politicamente para defender que as sociedades sejam orientadas pelos valores cristãos.

"Essa ideia de que o Cristianismo deve orientar a vida social está completamente presente no Brasil, assimilada com um projeto de poder, um projeto político no qual Bolsonaro se tornou um rosto importante", afirma Pacheco.


A eleição de Donald Trump nos EUA, em 2016, foi decisiva para o fortalecimento de uma rede internacional do conservadorismo cristão. Com o governo de Viktor Orbán na Hungria, o movimento ganhou tentáculos na Europa. E, nos últimos anos, passou a ter o Brasil como protagonista.

Em entrevista à DW Brasil, Pacheco acredita que, caso o projeto de Bolsonaro seja derrotado nas urnas, as cenas vistas em Washington após a derrota de Trump não deverão se repetir, em um primeiro momento. No entanto, o pesquisador alerta para a escalada de pressões antidemocráticas nos próximos anos.

"Se o Bolsonaro perde, nossos olhos se voltam para o Parlamento. A base bolsonarista continua muito forte. Ele teve mais de 50 milhões de votos, e vamos ter que lidar com esse fato durante muito tempo. Para 50 milhões de brasileiros, esse projeto de país está bom e deve continuar como está", constata.

Como o fenômeno evangélico brasileiro se insere na teia global do nacionalismo cristão?

Ronilso Pacheco: No histórico da igreja evangélica no Brasil, essa conexão internacional, mais especificamente com os EUA, sempre existiu. Ela está um pouco no DNA da formação evangélica brasileira e mais especificamente no DNA da formação conservadora, desde que a igreja chegou no Brasil. Há uma ligação muito forte com o conservadorismo evangélico americano, a direita religiosa, que surge no final dos anos 1970, nos EUA, e tem uma influência muito forte no Brasil.

A extrema direita evangélica no Brasil não mantém conexões só com os EUA. Ela está ligada a esse conservadorismo também em alguns países da América Latina e, em especial, da Europa. Esse bloco do nacionalismo cristão tem uma nova fase a partir da eleição de Donald Trump, em 2016. As conexões das articulações dessa extrema direita configuraram muito mais do que uma perspectiva teológica de interpretação bíblica. Tornou-se, de fato, uma ideologia política.

Como esse movimento político e religioso internacional se manifesta no Brasil?

Em uma definição geral, o nacionalismo cristão é definido, sobretudo aqui nos EUA, como um conjunto de símbolos, mitos, tradições, culturas, um conjunto de sistemas de valores que, no final, exerce um advocacy de que a sociedade deve ser orientada pelos valores cristãos, ou que deve haver uma fusão entre a vida social e os valores cristãos. Essa ideia de que o Cristianismo deve orientar a vida social está completamente presente no Brasil, assimilada com um projeto de poder, um projeto político no qual Bolsonaro se tornou um rosto importante.

Como ele assumiu esse papel, sendo católico de origem?

Ele é o primeiro candidato, o primeiro homem público que assume abertamente um compromisso com uma maioria do país, cristã. A despeito do Estado laico, ele é um cristão conservador, que vai governar sob essa perspectiva, e que defende uma supremacia cristã em todos os aspectos. O ex-chanceler Ernesto Araújo dizia em alto e bom tom, no Brasil e fora, que uma das suas missões era recuperar os valores do Cristianismo ocidental, tanto no Brasil quanto nas suas relações internacionais.

É essa perspectiva religiosa, cristã, conservadora, de domínio, que traça diversas gramáticas e narrativas para fazer o enfrentamento político no Brasil, como a ideia de uma ameaça de uma guerra cultural, que envolveria a usurpação e a eliminação dos valores cristãos da sociedade. Nisso está o nacionalismo cristão: é uma compreensão de país e de sociedade que só se entende razoável se ela se submete ao reconhecimento da orientação social dos valores cristãos conservadores.

Como se deu a construção internacional dessa rede de países alinhados ao nacionalismo cristão?

Uma vez que Trump chega na Casa Branca, torna-se o grande fiador desse movimento, nos EUA e internacionalmente. Como presidente dos EUA, ele traz esse movimento da direita religiosa junto com ele, inclusive recuperando movimentos de supremacia branca que estavam significativamente mais silenciados ao longo de alguns governos republicanos e durante o governo Obama.

Em outro polo, o Viktor Orbán conseguiu dar um rosto simpático para a extrema direita na Hungria. Sobretudo com a Katalin Novak, que dá uma nova narrativa para a extrema direita. Ela tira o foco dos embates diretos com pautas principais, como a questão da comunidade LGBTQIA+, ou da imigração, e foca na pauta da família. Tudo gira em torno da preservação da família, tida como fundamental para preservar o país e manter sua identidade. Essa nova forma abordagem da extrema direita, que a Novak conduz muito bem com a gestão do Orbán, vai gradativamente se tornando um farol para muitos governos e projetos de extrema direita.

É um trabalho muito bem-sucedido. Eles montaram, a partir da Hungria, a Rede Política por Valores, que era presidida por Novak. Ela saiu do cargo para se tornar presidente da Hungria. O atual presidente dessa rede é o ex-candidato derrotado na eleição presidencial do Chile, José Antonio Kast. É uma rede muito forte, articulada em um discurso de defesa da democracia, dos valores da família e dos direitos humanos – sem aparência autoritária. É uma nova gramática dessa extrema direita.

Como o Brasil e sua diplomacia se inseriram nessa rede?

O Brasil é reconhecido como um país que se tornou protagonista. Nós fizemos tantas caricaturas de Bolsonaro e sua família, assim como da ex-ministra Damares, que a gente não levou a sério como eles conseguiram construir essa rede. Enquanto brincávamos com o Eduardo Bolsonaro falando inglês e fritando hambúrguer nos EUA, almejando ser embaixador em Washington, ele já tinha construído relações com o submundo da extrema direita internacional – politicamente, de forma oficial, e em um mundo subterrâneo, virtual, que a gente não fazia ideia.

Ele estava vindo quase todos os meses aos EUA para fazer conexões com ideólogos políticos da ultradireita virtual, que hoje tem um papel importante de suporte a Bolsonaro dentro e fora do Brasil. Isso passou sempre despercebido. Em 2019, a Damares participou da Cúpula de Demografia em Budapeste, e isso não foi citado em lugar nenhum. O Brasil entrou na Aliança Internacional pela Liberdade Religiosa, o que não gerou nenhum debate significativo sobre as implicações disso.

Essa articulação foi sendo construída gradativamente, desde que Bolsonaro chegou. Em seu governo, a política externa foi caótica, sem nenhum avanço significativo. Mas, todos os esforços para inserir o Brasil dentro de uma aliança global de extrema direita, sob uma perspectiva cristã ultraconservadora, foram tranquilamente feitos.

Como essa articulação pode ser impactada pela eleição deste domingo?

Se o Bolsonaro perde, nossos olhos se voltam para o Parlamento. A base bolsonarista continua muito forte. Ele teve mais de 50 milhões de votos, e vamos ter que lidar com esse fato durante muito tempo. Para 50 milhões de brasileiros, esse projeto de país está bom e deve continuar como está. Eu não acredito em uma reação do nível do Capitólio, até porque as instituições estão levando isso cada vez mais a sério. Acredito em um ou outro movimento de negação, de questionamento em relação a resultados, mas não acredito que aconteça algo dessa dimensão. O que não significa que nós vamos ter menos trabalho com relação a ataques sistemáticos à democracia e às instituições democráticas. Eles podem ser até piores no caso brasileiro.

Em uma eventual vitória, eu acho que só Deus sabe, honestamente. Há uma tendência global: um governo autocrático nesse nível, quando reeleito, está muito mais legitimado a ser muito mais autocrático do que no primeiro mandato. Ele teria um Parlamento muito mais forte, vai buscar colocar em prática tudo que dissimulou quando foi tensionado – seja suas relações com as instituições, como o STF, mas também a imposição de políticas e programas orientados por esse Cristianismo ultraconservador.

É possível reverter a influência que esses grupos conquistaram na política brasileira?

De 2018 para cá, foi construído um nível de narrativa, de mentalidade, difícil de desconstruir agora. Nós estamos vivenciando o efeito de algo que foi sutilmente construído desde o governo Lula, que vem se arrastando, que tem uma contribuição muito forte da classe média e da mídia. Eles mesmos estão tentando reverter em um ano o nível de espaço que eles deram a esses grupos em mais de uma década. É muito difícil.

Eu falei que não adianta conversar com os evangélicos no início do segundo turno para criticar uma estratégia falha dos movimentos de esquerda e progressistas de dialogar com os evangélicos sempre com a corda no pescoço: na última hora das eleições, em uma necessidade de virada de jogo. Não adianta imaginar que esse convencimento de última hora vai acontecer e nós vamos salvar a democracia brasileira.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Nos rastros da utopia

Se as coisas são inatingíveis...ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!
Mário Quintana


Eram os últimos dias de 1969 e, nas conversas em Lima, discutíamos a herança que recebêramos dos “anos rebeldes”. A década de 60 se iniciara com um exército murando a liberdade de Berlím, mas terminara com três astronautas abrindo os caminhos do universo. Naqueles anos, o mundo comovera-se com a mensagem de paz e de amor, na imagem sacrificada de Martin Luther King, e conhecera o real significado da resistência, na figura irretocável de Ho Chi Minh. A revolta de Nanterre mobilizara os estudantes do mundo inteiro e, ao longo do continente, aportávamos em 1970 na crista de uma poderosa onda libertária, cujas espumas espraiavam o exemplo de Che Guevara. Vivíamos num tempo sem liberalismo e sem globalização e Cuba surgia como uma alternativa socialista e referência da luta revolucionária. O mundo era uma alquimia de ideias e a América Latina seu melhor laboratório. A nova história, no contexto continental, era a de uma só nação, de um só povo, latino e “indo-americano” -- na expressão de Mariátegui. A esperança era uma bandeira hasteada no coração de todos os que ousavam sonhar com uma sociedade justa e fraterna, fossem eles um guerrilheiro, um intelectual engajado ou integrasse uma vanguarda estudantil. Nossa ancestralidade cultural – manchada pela violência colonial e por tantos mártires na memória sangrenta de cinco séculos – era redescoberta como uma fonte trazendo novas águas para interpretar a história. Nossos sonhos navegavam no misterioso veleiro do tempo, enfunado pelos ventos da fé revolucionária, carregado de hinos e canções libertárias, levando a mãe-terra e as sementes para os deserdados, carregado com as emoções e o encanto da solidariedade e rumando à sociedade que sonhávamos.

Nós, os poetas, expressávamo-nos pelos líricos rastros dessa ansiada utopia, cantando as primícias de um novo mundo e pressentindo as luzes daquele imenso amanhecer. Transitávamos na rota das estrelas, em busca de um porto no horizonte, em busca de um homem novo, de uma terra prometida a ser entrevista nos primeiros clarões da madrugada. Havia uma perseverante certeza no amanhã e muitos caíram lutando com essa crença tatuada na alma, embora os sobreviventes nunca tenham chegado a contemplar essa alvorada.



Nos anos 60, ser jovem significava estar comprometido com uma fé, com uma causa social e, naqueles passos da história, era um desconforto, perante o grupo, não ter um engajamento político e, pior ainda, ser de “direita”. Na juventude daqueles anos, ser um “reacionário” era um estigma. Essa era a palavra com que nós, da “esquerda”, desfazíamos ideologicamente os adversários da “direita” e até os dogmáticos do Partidão,[1] por quem éramos chamados de revisionistas. Por outro lado, falava-se de um “Poder Jovem”. Mas que “poder jovem” era aquele, maquiado com a credibilidade das filosofias orientais se esse poder não estivesse comprometido com o significado social da liberdade e da justiça? A ideologia marxista não nos permitia confundir os ideais inconsequentes da contracultura com o ideário daqueles que estavam dispostos a dar a vida pela construção de uma nova sociedade. Era como se houvesse, na América Latina, duas Mecas para a juventude: uma em Berkeley e outra em Cuba.

Se a palavra “esquerda”, perante as benesses do poder, foi perdendo sua transparência ideológica, é imprescindível não se perder o significado histórico dessa dicotomia, já que na sua origem, durante a Revolução Francesa, o clero e a nobreza ficavam à direita do rei e os representantes do povo à sua esquerda. Passados duzentos e vinte anos, todos sabemos qual o lado que continua defendendo as causas sociais. Os princípios são intocáveis mas não as ideias. É razoável, portanto, que possamos ressignificá-las redefinindo as cores de nossa antiga bandeira, assim como reconhecer os equívocos e os defeitos congênitos da própria “esquerda”.

Os anos 60, ricos pela geração de novas teses sociais, por filosofias que apontavam para o progresso das relações humanas, não mostrariam, no gosto amargo dos frutos, o doce sabor semeado pela esperança. Os grandes sonhos políticos foram desmobilizados por interesses ideológicos equivocados, pelo oportunismo eleitoral e pela sedução do poder. Os sonhos alimentados pela contracultura, inicialmente legitimados pelas postulações contra os males do capitalismo, perderam-se nas perigosas síndromes da ilusão propiciada pelas drogas, pelos desencantos da sexualidade e pela posterior dependência de tecnologias alienantes. Sonhos e esperanças acabaram desaguando neste inquietante “mar de sargaços” em que se transformou o mundo, onde navegam os corsários da ambição e da crueldade.

Mas também havia jovens que não vivenciaram essa sublime emoção de indignar-se com as injustiças. Naqueles anos, numa outra linha de reações, uma elitizada coluna de jovens marchava contra tudo pelo que lutávamos. Conheci essas sinistras figuras nas ruas de Curitiba. Porta-vozes da alta hierarquia da Igreja, desfilavam altaneiras, com seus paramentos medievais, nos primeiros anos da ditadura no Brasil, defendendo o regime militar e os interesses conservadores da oligarquia que representavam com os estandartes da “Tradição, Família e Propriedade”. Vi também seus parceiros, no Chile, liderados por Maximiano Griffin Ríos, em 1969, durante o governo de Eduardo Frei, portando, nos panos ao vento com o emblema da “Fiducia”, o ódio social, o ressentimento contra um cristianismo que abraçava as causas populares e, sobretudo, plantando as sementes da conspiração que derrubaria, com outros aliados sanguinários, o governo legítimo de Salvador Allende.

A partir da década de 70, a ascensão do capitalismo financeiro, sob o disfarce de globalização, começou a estender as suas redes e a ganhar, com armas invencíveis, essa nova e imensa guerra mundial, avançando com sua voracidade, desterrando os valores humanos, gerando multidões de excluídos, triturando nossas utopias, transformando o planeta num supermercado e descaracterizando a própria cultura com atraentes modelos de um consumismo supérfluo e descartável.

Ainda que haja, no Brasil, muitos jovens “conectados”, preocupados com a ética, com as fronteiras alarmantes da corrupção, com a redenção ambiental e com belos projetos comunitários, toda aquela geração foi vítima da nova ordem social imposta ao longo dos vinte e um anos de ditadura militar, sendo induzida a “educar-se” pela cartilha da Educação Moral e Cívica, focada na obediência, passividade, no anti-comunismo e num patrioterismo doentio. Vítimas de todo um processo subliminar de moldagem comportamental, os jovens que abdicaram da consciência crítica foram transformados em meros consumidores. Formam parte da juventude apressada dos nossos dias, descomprometida com os problemas sociais, imediatista, avessos à leitura, ou derrotada pelo vício. Essa é a face trágica de um segmento da juventude contemporânea: jovens como meras marionetes de um mercado global de ilusões, aculturados pelas novas midias, homogeneizados desde os primeiros anos para consumir, abdicando quase sempre da análise dos fatos e do estágio promissor da cidadania.

Os precursores involuntários da pós-modernidade – leia-se Nietzsche e Heidegger – e os seus mais ilustres ideólogos, na filosofia e na arte, aliaram-se ao trabalho posterior de demolição comandado pela globalização. Reagindo aos paradigmas orgulhosos e dogmáticos da ciência mecanicista do século XIX, os intelectuais niilistas apostaram na reação generalizada da descrença nos valores humanos, desconstruindo o significado da verdade, da beleza e da transcendência do humanismo na tradição ocidental; anunciando uma liberdade sem a noção do dever; desrespeitando os arquétipos da religiosidade; desqualificando a história; invertendo a estética da arte ao despojá-la da estesia e do encanto (e se há algum mérito nos exageros da arte moderna é o de retratar o perfil catastrófico do mundo contemporâneo); retirando a melodia da música, proclamando a irreverência e ironizando os ideais e o significado da utopia. Sobre esse termo, tão desfigurado em nossos dias, certa vez estudantes colombianos fizeram ao celebrado cineasta argentino Fernando Birri, a seguinte pergunta: Para que serve a utopia? Ele respondeu que a utopia é como a linha do horizonte, está sempre a nossa frente e por isso nunca podemos alcançá-la. Se andamos dez, vinte, cem passos, ela sempre estará adiante de nós. Se a buscamos, ela se afasta. Para que serve a utopia? perguntou ele, respondendo: Para fazer-nos caminhar…

Embora quase tudo tenha sido desconstruído, nossos ideais desterrados e a globalização já não nos deixe sonhar e nos insinue a esquecer, é imprescindível acreditar que há uma Fênix entre as cinzas que restaram do mundo pelo qual lutamos. Não abdicamos da esperança, mas reconhecemos que nosso veleiro soçobrou e que seus restos foram bater nas praias melancólicas desses anos. Sobrevivemos quais náufragos num mar de ultrajes e decepções, junto com os destroços das grandes ideologias e com as cruéis aberrações que envergonharam os nossos sonhos ao vermos o marxismo dogmatizado pelo stalinismo e ao compreendermos porque murchava a “Primavera de Praga”. Sobrevivemos nas lágrimas derramadas sobre as páginas d’O Arquipélago Gulag, no desencanto de saber a beleza da utopia hegeliana invertida pelo totalitarismo nazista e o conhecimento científico manchado pela explosão atômica.

A contracultura, a pós-modernidade, a globalização e a destruição ambiental, são os novos cavaleiros do mundo apocalíptico que recebemos. Dessas quatro patéticas “figuras”, as três primeiras causaram efeitos desastrosos sobre a cultura – e lá na região andina, minha nova escola naqueles anos, a globalização insinuaria o esquecimento da história e da cultura deparando-se com a luta dos peruanos ante a herança quéchua e a resistência inquebrantável dos bolivianos pela manutenção da cultura aymara – e as duas últimas sobre os rumos futuros da humanidade.

Não herdamos somente a decepção, mas uma crônica indignação a despeito de qualquer otimismo. Hoje somos, tão somente, seres comprados nesse grande shopping de negócios e aparências em que se transformou o mundo, herdeiros impotentes de um sonho, vivendo num mundo alienante, distópico e devorado pelas fauces da globalização.

Anos 60 - Que ventura ter sido jovem naquele tempo! Lá a realidade estava a poucos passos dos ideais.

Século XXI - Que estranha transição! Para onde vamos? Sem norte, sem porto, sem um amanhecer! Quanta perplexidade, quantos pressentimentos! Haverá outro mundo, melhor e possível? Sem crueldade, estupidez e promessas mentirosas? São perguntas plurais que pedem respostas plurais. Essa é uma transição sombria balizada pela desventura e o desencanto. É um tempo de antíteses. Esperamos que o próprio Tempo, com sua misteriosa dialética, nos traga uma regenerada síntese. Nesse impasse restam-nos, contudo, os territórios invioláveis da imaginação e da esperança e para mim um pouco mais: a transcendência, e a grata introspecção nessas memórias.
Manoel de Andrade, "Nos rastros da Utopia, uma memória crítica da América Latina nos anos 70"